quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

LIVRO DA VIDA - Capítulo 4




Diz como o Senhor a ajudou a triunfar sobre si mesma

para tomar o hábito e das muitas doenças que Sua

Majestade começou a lhe dar.


1. Na época em que eu estava preocupada com essas decisões, convenci um dos meus irmãos a se tornar frade,1 persuadindo-o da vaidade do mundo; e re­solvemos ir juntos um dia, bem de manhã, ao mosteiro onde estava aquela mi­nha amiga — esse era o mosteiro que mais me agradava.2 Naquele momento, eu es­tava de tal modo decidida a ser monja que teria ido a qualquer mosteiro on­de pudesse servir mais a Deus ou que agradasse ao meu pai. Eu estava voltada para curar a minha alma e dedicava o maior descaso à minha comodidade.

Lembro-me bem, e creio que com razão, que o meu sofrimento ao deixar a casa paterna não foi menor que a dor da morte.3 Eu tinha a impressão de que os meus ossos se afastavam de mim e que o amor de Deus não era maior do que o amor ao meu pai e à minha família, sendo necessário fazer tamanho esforço que, se o Senhor não me tivesse ajudado, as minhas conside­rações não teriam bastado para que eu prosseguisse. No momento certo, o Senhor me deu ânimo na luta contra mim mesma e, assim, levei adiante o meu propósito.

2. Quando tomei o hábito, o Senhor logo me fez compreender como favorece os que se esforçam por servi-Lo. Ninguém percebeu o meu esforço, mas só a minha imensa vontade. Ao fazê-lo, tive tal alegria de ter abraçado aquele estado que até hoje permaneço com ela; Deus transformou a aridez que tinha a minha alma em magnífica ternura. As observâncias da vida religiosa eram um deleite para mim; na verdade, nas vezes em que varria, em horários que antes dedicava a divertimentos e vaidades, me vinha uma estranha felicidade não sei de onde, diante da lembrança de estar livre de tudo aquilo.

Quando me lembro disso, não existe nada, por mais difícil e penoso, que eu deixe de realizar se puder. Na minha experiência de muitas ocasiões, se faço o esforço inicial, determinando-me a fazê-lo (sendo só por Deus, Ele quer — para o nosso maior merecimento — que a alma sinta aquele pavor até começar e, quanto maior ele for, maior a recompensa, e mais saborosa se tor­na depois), ainda nesta vida nos premia Sua Majestade por caminhos que só quem passa por isso o entende. Sei disso por experiência, como disse, em mu­i­tas coisas deveras graves; por isso, jamais aconselharia, se tivesse de fazê-lo, que, quando vier uma boa inspiração repetidas vezes, se deixe, por me­do, de empreendê-la; porque, se o fizermos somente por Deus, não há por que temer o fracasso, pois poderoso é Ele em tudo. Bendito seja para sempre. Amém.

3. Bastariam, ó sumo Bem e descanso meu, as mercês que me tendes feito até aqui: trazendo-me, por tantos rodeios da Vossa piedade e grandeza, a uma condição tão segura e a uma casa com tantas servas Suas que me podem servir de exemplo para ir crescendo em Vosso serviço. Não sei como prosseguir ao me lembrar como cheguei à minha profissão,4 a grande determinação e contentamento com que o fiz, a aliança que fiz convosco. Não posso dizê-lo sem lágrimas; e estas teriam de ser de sangue, despedaçando-me o coração, e ainda assim não seria demasiado pelo tanto que depois Vos ofendi.

Tenho agora a impressão de que estava certa em recusar tão grande dignidade, pois a haveria de usar muito mal. Mas Vós, Senhor meu, quisestes ser — nos quase vinte anos em que tenho empregado mal essa mercê — o ofendido, para que eu fosse melhorada. Até parece, Deus meu, que prometi não cumprir nada do que Vos havia prometido, embora na época esse não fosse o meu propósito; mas, depois, prossegui de tal maneira que já não sei o que pretendia. Isso manifesta ainda mais quem sois Vós, Esposo meu, e quem sou eu. Pois é verdade que muitas vezes o sentimento de minhas grandes culpas é temperado pelo contentamento que me dá a compreensão da multiplicidade das Vossas misericórdias.5

4. Em quem, Senhor, poderiam essas misericórdias brilhar senão em mim, que tanto obscureci com minhas obras más os grandes favores que co­­me­çastes a me conceder? Ai de mim, Criador meu, que não posso me descul­par por nenhuma desculpa ter, só podendo culpar a mim mesma! Para retribuir um pouco do amor que começastes a me mostrar, só em Vós eu poderia empregar o meu amor, o que teria remediado todo o mal. Como não o mereci, nem tive tanta ventura, valha-me agora, Senhor, a Vossa misericórdia.

5. Mudar de vida e de alimentação causou-me danos à saúde. Embora fosse grande a alegria, não o suportei. Os desmaios aumentaram, com uma dor no coração de tamanha intensidade que todos os que me viam se espantavam, ao lado de tantos outros males. O primeiro ano, eu o fui passando com a saúde bem abalada, embora não me pareça ter ofendido muito a Deus. Era tão grave a doença que eu ficava quase sempre privada de sentidos, chegando às vezes a perdê-los de fato. Meu pai se empenhava em encontrar algum remédio. Como os médicos daqui não resolveram, ele decidiu me levar a um lugar muito famoso na cura de outras enfermidades, onde, pelo que lhe disseram, eu também me livraria do meu mal.6 Acompanhou-me a amiga que, como eu disse, era antiga na casa,7 porque em nosso convento não se fazia voto de clausura.

6. Fiquei quase um ano naquele lugar. Por três meses, padeci tanto, devido ao rigoroso regime a que fui submetida, que não sei como suportei o tormento. Por fim, embora eu tenha resistido, minha compleição delicada se abalou, como direi.8 O tratamento iria começar no princípio do verão, mas fui para lá no início do inverno. Passei todo esse tempo na casa de minha irmã,9 que vivia numa aldeia pouco distante, para esperar o mês de abril, e para evitar idas e vindas.

7. Quando eu ia, aquele tio que morava, como eu disse, no caminho, me deu um livro; chamava-se Terceiro Abecedário e ensinava a oração de recolhimento.10 Nesse primeiro ano, eu havia lido bons livros (pois não quis mais usar outros, visto que já entendia o mal que me tinham causado), mas não sabia como agir na oração nem no recolhimento, e por isso aquele livro me deu grande alegria. Decidi seguir aquele caminho com todas as minhas forças.11 Naquela época, o Senhor já me tinha dado o dom das lágrimas, e, como eu gostava de ler, comecei a ter momentos de solidão, a confessar-me com freqüência e a seguir aquele caminho, tendo o referido livro por mestre. Outro mestre, isto é, algum confessor que me entendesse, busquei durante vinte anos, mas não o encontrei, o que me prejudicou e me fez retroceder muitas vezes, podendo ter me levado à ruína total. Se tivesse tido um confessor, eu teria sido ajudada em evitar as ocasiões de ofender a Deus.

Sua Majestade começou a me dar tantas graças desde o início que, ao fim do tempo que ali passei (aproximadamente nove meses de solidão; não vi­­via tão livre de ofender a Deus como o livro recomendava, mas passava por cima disso; parecia-me quase impossível evitar tudo; tinha cuidado para não co­meter pecados mortais, e quisera Deus que sempre o tivesse tido; dos ve­­niais, eu fazia pouco caso, e foi isso o que me destruiu)…12 me concedia tan­ta força para seguir esse caminho que me agraciava com a oração de quie­tude e até de união. Eu ainda não compreendia nenhuma dessas coisas, nem quanto mereciam ser prezadas; teria sido um grande bem compreendê-lo. É verdade que a oração de união durava muito pouco, talvez menos do que uma ave-maria. Causava, no entanto, efeitos tão grandes que eu, com me­­nos de vinte anos de idade,13 tinha a impressão de estar pairando acima do mun­do. Lembro que lastimava quem seguia as coisas do mundo, embora lícitas.

Eu buscava com todas as forças manter dentro de mim Jesus Cristo, nos­so bem e Senhor, sendo esse o meu modo de oração. Se me ocorria al­gum passo da Paixão, eu o representava no meu íntimo; mas a maior parte do tempo eu dedicava a ler bons livros, sendo essa toda a minha recrea­ção. Não recebi de Deus o dom de orar discursivamente nem de aproveitar a imaginação — é tão fraca a minha que, mesmo para pensar e representar para mim, como tentava fazer, a humanidade do Senhor, nunca consegui. É verdade que, não podendo usar o intelecto, quem persevera chega mais depressa à contemplação, mas com muitos sofrimentos e aflições. Se não há o em­prego da vontade, nem o amor tem com que se ocupar, a alma fica sem apoio e sem exercício; a solidão que sobrevém, acompanhada de aridez, é cau­sa de grande sofrimento e instala um enorme combate aos pensamentos.

8. Quem não consegue agir com o intelecto precisa de mais pureza de consciência do que quem o faz. De fato, quem medita sobre o que é o mundo, sobre o quanto deve a Deus, os muitos sofrimentos de Cristo, o pouco que rea­liza a seu serviço e o que o Senhor concede a quem o ama tem como de­fender-se dos pensamentos, das ocasiões e dos perigos. Porém, quem não pode tirar proveito disso se expõe a maior risco e precisa se ocupar muito da leitura, pois por si mesmo não consegue fazer boas reflexões; esse modo de pro­ceder na oração causa muito sofrimento a essas pessoas. Por mais curta que seja, a leitura tem utilidade para elas e é até necessária para que se re­colham; ela supre a oração mental que elas não conseguem fazer. Se o mes­tre que ensina insistir que a oração seja sem leitura (sendo a leitura uma grande ajuda para que essas pessoas se recolham), pessoas assim não conseguem perseverar muito tempo na oração. E, se lutarem, elas sentirão um en­­­fraquecimento, porque o combate é muito penoso.

9. Agora acho que a Providência Divina quis que eu não encontrasse quem me ensinasse. Eu não teria conseguido perseverar na oração nos dezoito anos em que me acometeram tamanhos sofrimentos e aridez, visto não po­der fazer oração discursiva, sem as leituras. Por todo esse tempo, eu não me atrevia a começar a orar sem livro, exceto quando acabava de comungar; minha alma temia tanto orar sem livro que era como se tivesse de enfrentar um exército. Com esse recurso, que era uma companhia ou escudo que amor­tecia os golpes dos muitos pensamentos, eu obtinha consolo. Porque a aridez não costumava vir quando eu tinha um livro; os pensamentos se recolhiam ca­rinhosamente, e o espírito se concentrava. Muitas vezes, o simples fato de ter o livro à mão bastava. Em algumas ocasiões, eu lia pouco e, em outras, mui­to, a depender da graça que o Senhor me dava.

Eu tinha a impressão, nesses primeiros anos de que falo, de que, com li­vros e solidão não corria o risco de perder tanto bem; e creio, com o favor de Deus, que o teria perdido se tivesse tido mestre ou alguma pessoa que desde o início me ensinasse a fugir dos perigos ou a evitá-los tão logo me vis­se enredada neles. E, se o demônio me atacasse abertamente na época, pen­­so que de nenhuma maneira me levaria a cometer um pecado grave. Mas ele foi tão sutil, e eu, tão imperfeita, que pouco aproveitei de todas as minhas de­terminações, embora aqueles dias em que servi a Deus, sofrendo as terríveis doenças que tive, com toda a grande paciência que Sua Majestade me deu, muito me tenham servido.

10. Muitas vezes pensei, espantada, na grande bondade de Deus, ficando minha alma maravilhada ao ver sua grande magnificência e misericór­dia. Ben­dito seja Ele por tudo, pois sempre vi com grande clareza que, mes­mo nesta vida, Ele não deixa de recompensar nenhum bom desejo. Por piores e mais imperfeitas que fossem as minhas obras, o Senhor as melhorava, aperfei­çoava e tornava meritórias, apressando-se a esconder minhas faltas e pecados. E, mais do que isso, Sua Majestade cegava e tirava a memória dos que ti­nham visto essas minhas faltas e pecados. O Senhor doura as culpas, faz com que res­plandeça uma virtude que Ele mesmo põe em mim, quase me maltratando para que eu a tenha.

11. Quero voltar à ordem que me deram e dizer que, se fosse contar com detalhes o modo como o Senhor se relacionava comigo nesses princípios, seria necessário um talento maior que o meu para mostrar o valor do que lhe devo, e para revelar minha grande ingratidão e maldade, pois esqueci tudo isso. Que Ele seja para sempre bendito, pelo tanto que me tem suportado. Amém.

6 comentários:

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  2. Depois de três anos de vida exemplar, Teresa, gravemente enferma, foi obrigada a deixar o Convento para tratar-se. Durante este tempo, pôde tomar contacto com algumas obras espirituais que tiveram influência determinante em sua vida, como o Terceiro Abecedário, de Francisco de Osuna, que tratava da oração mental.

    Durante o verão de 1539, a enfermidade se agrava. Por três dias fica como morta; só a tenacidade de seu pai impede que a enterrem. Desta crise, Teresa saiu paralítica, e assim voltou a seu Convento em Ávila. Atribuiu o seu completo restabelecimento a uma intervenção de São José.
    Ao longo da narração, Teresa
    parece desdobrar-se em dois sujeitos: narrador e personagem; o narrador possui a
    3 perspectiva que ela tem ao escrever, enquanto que a personagem actua e relaciona-se
    segundo a perspectiva que a própria Teresa tinha quando sucederam os factos narrados.
    Jesus Cristo, a Sua sacratíssima Humanidade, tem um
    papel insubstituível na vida de Teresa a partir deste momento de encontro com ELE.

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  3. "Eu estava voltada para curar a minha alma e dedicava o maior descaso à minha comodidade" Santa Teresa dá aqui uma lição de vida a todos nós, que fazemos exatamente o contrário. Procuramos a todo custo nossa comodidade, esquecendo muitas vezes de nossa alma.
    "Quando tomei o hábito, o Senhor logo me fez compreender como favorece os que se esforçam por servi-Lo" Não há dúvida de que Deus recompensa todos aqueles que se dispõem a serví-Lo, entretanto ou por não amarmos a Deus tanto assim ou por esquecermos da promessa de que tudo o mais nos será dado por acréscimo se buscarmos primeiro o reino de Deus, acabamos nos esquivando do serviço ao Senhor.
    "Pois é verdade que muitas vezes o sentimento de minhas grandes culpas é temperado pelo contentamento que me dá a compreensão da multiplicidade das Vossas misericórdias" Apesar de todo a nossa culpa e omissão, devemos ter sempre a consciência da misericórdia de Deus, não para nos acomodarmos em nossos pecados, mas para que nos animemos sempre a uma mudança para melhor, a fim de agradarmos Aquele que tanto nos ama.
    "quem medita sobre o que é o mundo, sobre o quanto deve a Deus, os muitos sofrimentos de Cristo, o pouco que rea­liza a seu serviço e o que o Senhor concede a quem o ama tem como de­fender-se dos pensamentos, das ocasiões e dos perigos" Santa Teresa mostra aqui o caminho seguro da oração meditativa como forma de proteção contra o pecado.
    "Que Ele seja para sempre bendito, pelo tanto que me tem suportado" A frase final deste quarto capítulo nos mostra a paciência que Deus tem para conosco.
    Que Santa Teresa nos ajude a perservarmos nos caminhos da oração e do serviço a Deus a fim de que obtenhamos a proteção, a paciência e a misericórdia de Deus! Amém.

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  4. No 4ºcapítulo, Santa teresa deixa a casa paterna e entra no convento, recebe o hábito carmelita e narra suas primeiras dificuldades que encontra no início de sua vida religiosa. Logo no início dessa narrativa dá um valioso conselho para todos que querem realizar a Vontade de DEUS em suas vidas. Diz ela: "Jamais deixe de empreender alguma obra quando repetidamente nos vem uma boa inspiração de fazê-la, receando não ser bem sucedida... mas se for somente por DEUS, não há que temer o fracasso. Poderoso é ELE para tudo".
    Aqui vemos que nossa Santa Mãe Teresa era uma pessoa determinada, desde a infância e juventude mostrou essa grande Virtude, e essa sua determinação agradou a DEUS, que a quis utilizar para o Seu Serviço, mas antes, como mesmo, Santa Teresa também fala nesse capítulo: DEUS antes a quis "preparar"... então veio as doenças e as dificuldades de encontrar um bom diretor espiritual. Mas, a Misericórdia e Bondade Infinita a acompanhava de modo tão visível, que Santa Teresa chega a dizer: "Nosso Senhor 'dourava' minhas culpas e fazia reluzir uma Virtude que ELE próprio dava à minha alma"...
    Que lindo!!! O que é capaz de fazer a Misericórdia de DEUS, transformar nossos defeitos em Virtudes, quando nos colocamos totalmente às 'mercês' de Nossa Majestade Divina... Que possamos sempre, assim como Santa Teresa, dizer a cada instante de nossas vidas: "Bendito seja DEUS para sempre"!!!

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  5. Penso que, com relação à oração, o grande ensinamento da Santa Madre, neste quarto capítulo, refere-se exatamente à capacidade de recolher o intelecto. Este é o grande desafio da oração.
    Porque a mente não pára - a própria Santa, em outra passagem, irá chamá-la de "a louca da casa".
    A mente não pára, os pensamentos são rápidos e insistentes. Como diz uma mensagem, às vezes há muito ruído na mente, muitas vozes. O silenciamento é fundamental para o estudo e para a oração, o encontro com o Senhor. Por isso, Santa Madre diz que passou dezoito anos necessitando de bons livros para recolher-se. A leitura, por si só, exige concentração, e a concentração exige o silenciamento da mente ou o esvaziamento dos pensamentos, a fim de que se possa aprender e apreender do estudo realizado e/ou da oração, como encontro com Deus.
    O mais difícil é o primeiro passo, mas depois que se alcança o silenciamento, que paz!!!... E que saborosa se torna a oração!!...

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  6. É interessante que esta discípula e missionária do Senhor Jesus estava muito além de seu tempo. Neste momento de crise religiosa quando percebemos que grande maioria de nossos veem um Jesus como um ser historico não como uma experiência profunda em suas vidas,mas aquele que ainda hoje incomoda a muitos através de seus ensinamentos.Teresa através de seus escritos deixados nos mostra que é possível vivê-lo em nosso cotidiano.

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