quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sobre o "Caminho de Perfeição" de Santa Teresa

Sobre o "Caminho de Perfeição" de Santa Teresa

"Um dos aspectos da originalidade carismática da Santa está precisamente nessa sua disponibilidade pessoal, que a leva a manifestar às demais, com simplicidade e sinceridade, sua própria experiência e que, com seu exemplo as estimula, suscitando nelas o desejo de encaminhar-se por um caminho que leva a tais alturas.

A missão de Teresa em meio às suas filhas consiste em ajudá-las a viver, cada uma de modo personalíssimo e irrepetível, sua própria experiência. É este um elemento básico que nenhuma análise histórica, nem teológica poderá fazer-nos perceber exatamente. Poderemos recolher todas as palavras da Santa que chegaram até nós, poderemos catalogar muitíssimos testemunhos contemporâneos, porém, nunca chegaremos a conhecê-la tão profundamente como uma destas jovens que tiveram a dita de conviver com ela vários anos.

A vida se transmite vivendo e a convivência vai ampliando cada vez mais esse conhecimento pessoal que logo se torna difícil de traduzir em princípios ou transmitir a outras pessoas. Sem dúvida, ainda tendo em conta esta limitação de nosso conhecimento histórico, todo esforço por aproximar-nos o mais possível à realidade de São José de Ávila está justificado.

A Santa, pois, ainda que sempre tenha presente o fim, que para todas é o mesmo, trata de ensiná-lo a cada uma segundo sua capacidade. Cada alma que chega a este mundo tem que viver sua aventura a sós com Deus, combatida pelo demônio e o amor próprio. É um caminho que começa com o batismo e não termina até a morte, sempre em busca de Deus. E, como cada uma tem seu amor próprio e o demônio não coloca para todas os mesmos tropeços, a habilidade da guia consiste em saber indicar a cada uma qual é o seu caminho.

A Santa procura ajudar a suas novas companheiras com todos os meios a seu alcance, fazendo-lhes compreender que o agente principal é Deus, cuja ação misteriosa escapa ao alcance de nosso olhar, mas que necessita também de nosso esforço e nossa colaboração, pois, ainda que possamos ajudar pouco, podemos estorvar muito.

Aquelas jovens logo compreenderam que a experiência e a sabedoria da Madre Teresa eram algo fora do comum e para evitar que o tempo ou a ausência da Madre as privasse desse tesouro, pediram-lhe que pusesse por escrito tudo isso que costumava dizer-lhes. E assim nasceu o Caminho de Perfeição (1566):
“Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às irmãs religiosas e filhas suas”.

Como se dissesse: isto é o que eu costumo dizer-lhes nas reuniões de comunidade, nas conversas particulares com elas, cada vez que se apresenta uma circunstância ou ocasião oportuna. E o livro se converterá rapidamente em um prolongamento da presença da Madre entre suas filhas. Não será mais um livro de teorias, senão uma experiência vivida que se transmitirá com eficácia a quantas almas se aproximarem dessas páginas com ânimo aberto e desejoso de aprender. Enquanto viver a Madre, ela as ensinará; depois que morrer, o livro continuará recordando seus ensinamentos.

E efetivamente, nas comunidades que irão surgindo, ainda depois da morte da Santa, ela será considerada a verdadeira mestra de noviças: à noviça entregarão seus escritos e a mestra titular se sentirá só uma ajudante da Santa, com a missão de esclarecer os pontos mais difíceis que a noviça não conseguir entender por si mesma.

Este aspecto, fundamental para compreender o Caminho de Perfeição em toda sua transcendência para a vida do Carmelo Teresiano, moveu alguns ultimamente a chamá-lo “O Evangelho teresiano”, pondo em relevo que, como o Evangelho leva-nos ao conhecimento da Pessoa de Cristo, o Caminho de Perfeição tem que nos levar ao conhecimento da pessoa da Madre Teresa.

Tendo, pois, em conta, que na eficácia do livro tem tanta ou mais importância a pessoa da Madre Teresa que suas idéias, recordemos quais são as linhas mestras do livro, as idéias básicas sobre as quais gira o magistério teresiano em seus primeiros anos de São José de Ávila, o que – em uma palavra – a Santa quer que suas filhas não esqueçam nunca:

Reuniram-se em uma casa pobre, despojada de luxos supérfluos, poucas em número, como em um colégio apostólico, para corresponder ao amor do Senhor, ir crescendo em sua amizade e poder assim negociar mais eficazmente com Ele em favor de seus irmãos. A Igreja inteira, em especial o sacerdócio, será o objeto de suas conversações com o amigo Deus; suas preocupações e desvelos serão para as necessidades de todas as almas.

Caminho real para crescer na amizade com Deus é a vida de oração, que exige como condições indispensáveis: o amor do próximo, o desprendimento das coisas deste mundo – sobretudo de si mesmo – e a humildade, que é andar na verdade. Princípios, como se vê, claríssimos e que ninguém duvida em admitir. A dificuldade apresenta-se na hora de aplicá-los em circunstâncias concretas. É então, quando o demônio e o amor próprio desempenham seu papel, traindo a alma. É amor do próximo dizer sim, ou dizer não? É desprendimento próprio defender-se, ou calar? É humildade deixar que nossos talentos fiquem esquecidos, ou fazê-los reluzir porque humildade é andar na verdade? Responder a estas perguntas não é tão simples, e assim se explicam as digressões da Santa em seu livro.

Cada vez que se recorda de um detalhe da experiência pessoal ou alheia, escreve-o sem preocupar-se demasiadamente se seu lugar mais indicado é aquele ou outro, com a esperança de que quando suas irmãs se encontrarem em circunstâncias semelhantes, recordem-no e tirem proveito. As idéias fundamentais serão sempre as mesmas, as aplicações práticas são ilimitadas; cada pessoa é diferente das demais e os dias não são todos iguais. Assimilando esse tesouro de experiência, no momento oportuno sentir-se-á sua utilidade.

Levando a sério estas orientações da Madre, muito cedo as filhas de Teresa vêm-se livres de toda preocupação terrena e das exigências do amor próprio. Reconhecendo cada uma o pouco que possui e o muito que lhe falta, ajudando-se mutuamente com delicadeza e sinceridade que sugere o amor verdadeiro, assimilam com alegria o clima de serenidade que irradia da Madre e sentem-se parte integrante do ambiente maravilhoso que se criou em torno dela.

A Santa, dito com outras palavras, sabe criar um ambiente no qual as almas vêm abrir ante seus olhos um horizonte ilimitado para o qual dirigir seus passos. (O noviciado teresiano mais que ensinar a praticar uma porção de coisas, abre uma porta, introduz em um caminho que vai durar a vida toda).

E esse horizonte é o trato de amizade com Deus, Pai que está nos céus; cujo nome se deseja santificar, sobretudo quando se experimentou a vinda de seu reino à alma; cuja vontade deseja-se cumprir, seriamente, não por costume, enquanto durar o breve “hoje” que é esta vida, acompanhadas e sustentadas pela presença de Jesus na Eucaristia, ainda que “tão disfarçado neste acidentes de pão e vinho, que é grande tormento para quem não tem outra coisa que amar nem outro consolo”; cujo perdão se alcança perdoando de verdade aos irmãos, não à força de penitências ou de boas intenções de reconciliação; e cujo auxílio é a única garantia segura contra os enganos do demônio vestido de anjo de luz, e para livrar-se de todo mal.

A segunda parte do livro é simplesmente um comentário do Pai nosso. Quem deseja viver vida de oração não pode buscar melhor caminho que o que Cristo mesmo nos ensinou.

O Caminho de Perfeição contém, como se vê, algumas idéias básicas, fundamentais, claríssimas. O que importa à Santa é que cada noviça que chega à sua casa, as vá assimilando e fazendo suas segundo sua própria capacidade, e empenhe-se em prosseguir avançando sempre por esse caminho com a ajuda de Deus, pois na realidade o noviciado não termina nunca."

Autor: Frei Ildefonso Moriones, OCD.
Livro: O CARMELO TERESIANO - Páginas de sua história - Ediciones El Carmen.
Tradução do original: Monjas do Mosteiro de São José, Jundiaí - SP, Brasil.
Fonte: http://www.ocd.pcn.net/hp_2.htm#3

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 12-15

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Caminho 12: Requisitos para ser contemplativas: Humildade II.
Pistas de leitura.
Continua com o desprendimento de si, e passa do tema do corpo ao da honra. Depois de recordar os fundamentos das mortificações que vai propor (12,1-3), centra-se nas mesmas e apresenta-as em escala ascendente: A] evitar os movimentos de maiorias (12,4-9); B] não só evitá-los, mas cultivar os de ‘minorias’ (13,1-4) e C] não só deixar-se culpar, mas aproveitar especialmente os casos em que não tiver culpa (cap. 15).

Como é lógico, em cada alínea expõe argumentos, meios, consequências… que poderemos investigar para aprofundar. Aliás, em tudo isto, aconselha que quem não puder cultivar estes costumes (salvo C): que saia (13,5-7) e/ou que a mandem embora (cap. 14); e assim facilita importantes critérios de discernimento vocacional.


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Aparece outra vez (cf. Ficha 2ª, questão 2), a distinção entre mortificação exterior (tão rigorosa no seu convento) e interior (trabalhar, contrariar a vontade) e, por tanto, a possibilidade de ter muito da primeira e nada da segunda (cf. 12,1)1. De facto, a clave não está em “entrar na religião…” (12,5). Que te parece este reconhecimento da chamada universal à contemplação (cf. 19,15)? E a particularidade, nesse mesmo parágrafo, de que para os religiosos resulta mais fácil?

2. O que Teresa descreve como movimentos de “maiorias” (12,4), parece-lhe ser o pior tóxico do mundo (12,7), porque cria bandos (12,8-9), diminui o mérito e causa enfraquecimento pessoal (12,9). Por tanto, vamos rever (cf. 12,4.8-9), orar… [Mais adiante deter-nos-emos na precisão da afirmação do parágrafo 12,5].

3. Ao verdadeiro humilde não se lhe poupa esta tentação, como anota sabiamente (12,4.6), mas sabe combatê-la interior (12,6) e exteriormente (12,7), tal e como esclarece nesses parágrafos. Uma vez mais, revê, ora…

4. Como indicámos nas pistas de leitura, a santa Madre propõe não só evitar os movimentos de maiorias (“de más razões livre-nos Deus! 13,1), mas cultivar os contrários: “quando vos fizerem alguma honra ou mercê ou bom tratamento, venham então essas razões…” (13,2). Sabe que deu um salto qualitativo e por isso as referências às motivações sobrenaturais, à imitação do Senhor e a Nossa Senhora, são constantes (13,1-3). Sem esquecer tão-pouco textos como V 31,15: Exercito essa “verdadeira razão” (CV 13 título)?, alimento essas motivações?... Cf. p. ex. Rm 12; Ef 4,1-6.25-32.

5. As advertências acerca do discernimento vocacional requerem muita atenção. Apesar do grande dano que implica “em dar começo a um mau costume” (13,4) )2, não inclui aí por exemplo “faltas na penitência e jejuns” (CE 19,5); isto é, não se trata de todos os maus costumes, mas dos que concretiza nesses parágrafos (CV 13,5-7; CE 19,5-20,1). E não exagera! (12,5.8): por muito habitual que fosse na sua sociedade e Igreja, “se há ponto de honra ou de fazenda”, não haverá contemplação (12,5). Levas a sério esses critérios e exemplos tão concretos? Levam-se a sério na tua comunidade ou grupo? Pensa, revê, ora…

6. A santa Madre dedica ainda um capítulo mais ao tema, no qual acrescenta alguns critérios a ter em conta: deve examinar-se bem a recta intenção da candidata e, sobre tudo, se possui bom entendimento (14,1-2) )3. Meios: “grande informação e longa provação… [e] liberdade para excluí-las” (14,2); portanto, não ceder a pressões sociais (14,3), económicas (14,4) ou de qualquer outro tipo: tens em mente mais algum? Claro que se devem aplicar aqui as mesmas interrogações que na questão 5.

7. O último exercício de desprendimento próprio, que propõe S. Teresa nesta secção (explícito no título: CV 15), é tão complicado que é preciso dissipar argumentos a seu favor, para ver que te parece cada qual: cristológicos (15,1.2.4-7), antropológicos (15,3), morais-espirituais (15,4.6a), apostólicos e ‘feministas’ (15,6b). E finalmente, práticos: o Senhor defenderá o ofendido e, sobretudo, “se começa a ganhar liberdade e tanto se vos dará que digam mal ou bem” de vós (15,7). Que grande liberdade! Tantos sofrimentos por causa da interpretação de um olhar, de uma palavra, por supostos prejuízos à minha auto-imagem! Não só nos custa deixar que nos culpem sem culpa, mas até costumamos desculpar-nos sem que nos culpem: quando se aponta algo negativo, antes de acabar, tantas vezes se atalha, ‘eu não fui’; pensa, revê, ora… Considerar, também, naturalmente, acerca das experiências positivas, quando acedemos ao convite da santa Madre a deixar-nos culpar.

8. “Estas grandes virtudes, minhas irmãs, gostaria eu que as estudássemos muito e fossem a nossa penitência, que em demasiadas penitências [físicas] já sabeis que vos corto…” (15,3). Embora se trate de uma ideia conhecida e certamente trabalhada (cf. questão 1), o parágrafo completo merece nossa atenção uma vez mais.


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1 Se não se considerou já, aproveitar agora: rever, orar…

2 Trata-se de uma pretensão elitista e/ou negadora da possibilidade de crescimento da pessoa? Além do texto atrás, cf. por exemplo: “Ainda que não seja logo com toda a perfeição” (13,6). “Não digo que seja tão completamente como nas outras, mas que se entenda que vai cobrando saúde, pois logo se vê quando o mal é mortal” (13,7).

3 Que te parece?: “a todas [as monjas que entrarem] toca porventura mais parte num mau costume que pusemos, que em muitas virtudes; porque o demónio não o deixa decair, e as virtudes, a própria fraqueza natural as faz perder” (13,4). Este parágrafo mereceria uma detida reflexão teológica, antropológica, moral… ¿É demasiado pessimista? Trata-se de um recurso enfático?, de uma evidência prática?...

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM SANTA TERESA- PARTE I

Catequese 2 - Dados gerais

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2. Santa Teresa: dados gerais

2.1 Teresa, conta-nos como eras.

- Alguma coisa já deverás saber sobre mim. Contudo, digo-te que era uma mulher abulense, carmelita, mística e humanista, contemplativa-activa, escritora-autodidacta, fundadora e líder, empreendedora e negociadora, mestra e mãe espiritual. Houve quem ainda me tivesse por santa.

Mas como eras a nível físico e psicológico?

- Fisicamente, fui uma pessoa frágil: enferma crónica; mas, psiquicamente, forte: o meu espírito nunca sucumbiu às enfermidades corporais; mantive-me sempre aberta aos valores transcendentes: Deus, Cristo, Igreja, alma…; sempre pronta para as tarefas diárias (boa cozinheira!).

Que contrastes é que notavas em ti?

- Olhando para mim, as pessoas apontam o meu sentido de transcendência (o místico) e a minha habilidade negociadora e social (realismo e humanismo). Penso ser essas as duas características de maior contraste.

E a nível social?

- Sociologicamente falando, acho que sempre fui uma pessoa aberta à amizade e à comunhão com as pessoas; das minhas relações pessoais posso destacar: S. Francisco de Borja, S. Pedro de Alcântara, D. Álvaro de Mendonça, S. João da Cruz, Pe. João Baptista Rúbeo (Geral da Ordem), S. João de Ávila (apenas por carta), Pe. Jerónimo Graciano… Apenas também ocasionalmente, S. João da Ribera e S. Luís Beltrán. Mas as minhas maiores relações foram com as Irmãs dos meus Carmelos. Destaco entre elas: as duas Anas, Maria de São José, Maria Baptista, Maria de Jesus, várias Irmãs enfermas, as três Irmãs-crianças que entram no Carmelo, etc.

Pode-se saber que sentido deste à tua vida?

- Sabes, acho que tive dias bons e menos bons como todos. Recordo os dias de luta e os momentos de crise. Porém, nunca quebrei; pelo contrário, mantive um rumo unidireccional… Identificada com a minha vocação religiosa (ser religiosa foi grandíssima mercê). Mas com um certo complexo de inferioridade feminina: uma como eu, fraca e ruim, uma mulherzita como eu, sem estudos nem boa vida… Só ao atingir a maturidade é que captei plenamente o sentido da minha existência. Identifiquei-o com a minha experiência mística e a minha missão profética: mística dinâmica; e missão, ao mesmo tempo, transcendente e terrena. Ser testemunha de Cristo e fomentadora de uma nova vida religiosa. Quis ser uma mulher capaz de dar testemunho de Deus presente no mundo e na história.

Foste uma mulher escritora. Que te apraz referir desta obra por ti empreendida?

- Fui escritora, é verdade... Mas não propagandista. Sei que até vós chegaram umas 2000 páginas autografadas, mas escrevi muitas mais. A maior parte em Ávila. Em suma:
Quatro obras maiores: Vida, Caminho, Moradas e Fundações.
Vários escritos menores: Relações, Conceitos, Exclamações, Constituições, Modo de visitar os conventos, poesias…, escritos humorísticos.
Cartas: Conserva-se quase meio milhar, mas escrevi vários milhares (mais de uma centena ao Pe. Graciano).
Escritos perdidos: além das cartas (concretamente as cartas a S. João da Cruz), várias Relações, a primeira redacção de Vida, parte do meu comentário ao Cântico dos Cânticos (= Conceitos) e uma novelita de cavalaria escrita aos 14 anos (o meu primeiro escrito).
De todas estas obras, considero Vida a mais introspectiva, o melhor retrato da minha vida; as Moradas, a minha melhor síntese doutrinal; Caminho, a mais pedagógica, a única que decidi publicar em vida, se bem que não estará cá fora antes de 1583.

Volta e meia, ouve-se as pessoas a chamar-te em castelhano ‘andariega’. Porquê?

- Porque percorri mais de mil quilómetros em toda a minha vida fundando Carmelos. Fundei em Ávila, Medina, Valladolid, Toledo, Malagón, Salamanca, Alba, Pastrana (Guadalajara), Segovia, Beas (Jaén), Sevilla, Villanueva de la Jara (Cuenca), Palencia, Soria, Burgos. Além disso, colaborei nas fundações dos ‘Descalços’ de Duruelo e de Pastrana. Outros locais por mim percorridos: Gotarrendura, Guadalupe, Madrid, Torrijos, Becedas e Duruelo…
O percurso era sempre feito de diversas maneiras (por exemplo, cavalgando ou a pé…). Ao longo das minhas obras, vou dando a conhecer ao leitor.

Obrigado, Teresa. Até à próxima!
Já sei mais algumas coisas sobre ti.

Caminho de Perfeição Guia doutrinal do Caminho de Perfeição

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(Tradução de Ir. Danuze, ocd - Carmelo de Cariacica)

1. Motivação inicial

Caminho de perfeição é algo assim como uma “viagem interior à plenitude”. O ser humano tem que amadurecer, tem que aprender a ser pessoa. E como pessoas, em sentido metafórico, somos “recipientes”, que podemos nos sentir tão cheios como vazios. “Plenitude” vem de “pleno”, que etimologicamente é o mesmo que “cheio”. Pois bem, a própria oração teresiana (meditação consciente, oração centrante e oração contemplativa, assim aparece estruturada nesta obra de Teresa) está exposta como um caminho para a “plenitude” do humano. Uma viagem para encher-nos de Deus, ou melhor dito, para deixar que Deus nos encha de seu amor e sua verdade. “Não nos imaginemos ‘ocas’ no interior” (C 28, 10), Teresa recorda à suas companheiras carmelitas nessa sua linguagem tão direta e tão expressiva. E hoje recorda a nós.

Um dos grandes encantos e dos atrativos mais poderosos de Caminho de Perfeição, e sem dúvida, um dos traços mais peculiares do estilo e linguagem teresianos, é essa assombrosa capacidade para escrever dialogando com todo o mundo. Teresa escreve, e ao mesmo tempo, dá a impressão de que está falando com todos nós: com suas primeiras destinatárias (suas irmãs carmelitas), com seu confessor, com o censor, com Deus, com o leitor de todos os tempos..., contigo, comigo. Esse cortar o fio do discurso para dirigir-se a Deus (‘destapando-se’ espiritualmente diante do leitor), define também outro dos traços mais fascinantes do estilo orante desta mulher tão apaixonada.

Teresa toma a palavra para falar de Deus, falando de si mesma, dizia C. Kaufmann. E o faz sempre com uma linguagem autoimplicativa, de caráter existencial, que marca toda uma maneira de viver. E assim, por meio do livro do Caminho, e apelando à suas primeiras destinatárias, suas monjas, lhes diz: “Este é o vosso trato e linguagem; quem quiser tratar convosco deve aprendê-lo” (C 20, 4). Nova “linguagem”, pois, porém também novo “trato”, nova forma de entender as relações humanas e a mesma relação com Deus. Que Deus é novo cada momento, parece ser outra consigna teresiana. Aventurar-se a ler Caminho supõe entrar em permanente diálogo com esse Deus, eterna novidade. Porém, que ao mesmo tempo é o mais próximo a nós mesmos, o mais íntimo, o mais familiar.

2. A obra e seu gênero

Teresa escreveu duas vezes esta obra. O autógrafo da primeira redação, mais espontânea e coloquial, mais informal e menos estruturada, se conserva no Real Mosteiro de El Escorial (Madri); a segunda redação, que perdeu em frescor, porém ganhou em clareza doutrinal (ao menos isso se costuma dizer), se conserva no convento das irmãs carmelitas descalças de Valladolid. Os 73 capítulos da primeira redação ficaram reduzidos a 42 na segunda.

Há alguns anos, Frei Tomás Álvarez propôs o ano de 1566 como data mais provável para sua composição, apoiando-se em dados de crítica interna do mesmo livro. Teresa escreve a obra sendo priora do convento de São José de Ávila; tendo as carmelitas dali e daquele tempo, como as primeiras destinatárias; o faz depois de escrever Vida, e sendo P. Bañez seu confessor e censor. Tudo faz pensar, além do mais, na continuidade das duas redações da obra dentro do mesmo ano de 1566: em janeiro ou fevereiro a primeira redação; pelo verão ou princípios do outono a segunda.

“Este livro trata de avisos e conselhos...”, parece ser o título mais antigo. A Santa não pôs, pois, título; simplesmente falava de “Avisos e conselhos”. Também se referiu a ele com o nome de O librillo e o Paternóster. No verso da primeira folha do código de Valladolid, aparece o título que se tornará famoso, com grafia de duvidosa autenticidade teresiana: “Caminho de Perfeição”, título que a Santa conheceu e aprovou nas cópias por ela revisadas.

Pelo que se refere ao gênero literário de Caminho, essencialmente, poderíamos afirmar o seguinte: em sua primeira redação (a do Escorial), nos dá a impressão de que a autora não estava escrevendo um livro de espiritualidade, mas uma longa carta ( ao modo de gênero epistolar) à suas irmãs e filhas, as carmelitas de São José, síntese de suas conversas entre bromas e verdades, entre recreações e capítulos conventuais, como as antigas colações dos Padres do Deserto (D. de Pablo Maroto). Comunicação verbal da mãe com as filhas, entre a Fundadora e suas discípulas. Na segunda redação, a que temos como referência agora, o tratadístico ou doutrinal ou didático está muito mais perfilado, ainda que perca um pouco deste frescor teresiano e esse caráter conversacional dominante na primeira redação.

3. Chaves e estrutura geral

Na linha do que chamaremos o humanismo evangélico teresiano e os assim chamados fundamentos da vida interior (ou oração), cremos que na seguinte citação está uma das chaves hermenêuticas do Caminho de Perfeição:

“Algumas coisas que são necessárias ter as que pretendem levar caminho de oração [...] A primeira é o amor de umas para com as outras; a segunda, o desapego de todo o criado; a terceira, a verdadeira humildade – que, embora tratada por último, é a principal, abraçando a todas.”( C 4, 4).

E é que, a ressalva feita do nuclear do tema da oração, realidade que salpica toda a obra de Caminho, o que Teresa pretende é traçar o esboço de um novo “estilo de irmandade e recreação” (F 13, 5). O que não impede que a oração seja o tema estrela, entendida sempre em sua dupla dimensão de “presença” e de “relação”. Neste sentido, se pode afirmar que humanismo e vida interior profunda, são os dois eixos em torno aos quais Teresa faz girar sua obra. Estamos diante de um novo estilo de vida evangélica que desemboca na oração contemplativa. E uma oração contemplativa que potencia todo o evangélico, todo o humano verdadeiro da vida humana.

Com relação à estrutura geral da obra e os temas configuradores do Caminho, essencialmente poderíamos afirmar o que segue (M. Herráiz); os primeiros capítulos versam sobre a finalidade da reforma teresiana, desde o capítulo quarto a autora se adentra no tema da ética da comunidade cristã (amor, liberdade, humildade), e a partir do capítulo dezesseis se centra na oração e suas variantes (com um longo comentário sobre o Pai Nosso desde o capítulo vinte sete, mesclando em todo caso com o tema estrela da oração). O obsessivo tema da honra e a palpitante questão da mulher[1], serão outros temas presentes, e que não convém desprezar.

4. Partes e conteúdo

Uma primeira visão de conjunto, estruturada por capítulos, poderia ser a seguinte: finalidade da reforma teresiana (caps. 1-3); a necessidade de uma ética comunitária para tornar uma comunidade orante (caps. 4-15): amor fraterno, desapego e humildade; oração ativa e contemplativa (caps. 16-18); oração vocal, mental, recolhimento, quietude, união [natureza da oração e suas exigências] (caps. 19-32). A partir do cap. 27, comentário ao Pai Nosso. A devoção ao Santíssimo Sacramento (33-35: Eucaristia). Resto dos capítulos: honra, oração, tentações diversas..., o que poderíamos chamar efeitos da contemplação.

A. O humanismo evangélico teresiano

O encontro de Teresa com Cristo, sua experiência cristológica, vai decidir também sua experiência do humano, do humano verdadeiro. A plenitude do humano, ser a pessoa mesma, Teresa descobre junto a Jesus dos Evangelhos. Essa é sua melhor escola de humanidade e de humanismo. A mesma escola a que hoje também nós temos que voltar uma e outra vez.

Os chamados pressupostos da oração, ou seus fundamentos, ou sua pedagogia oracional (a propedêutica, o prévio necessário), constituem o nuclear do humanismo evangélico teresiano, que se pode rastrear nos capítulos 4 ao 15 do Caminho. E aqui, as três palavras mágicas são: amor, desapego (liberdade) e humildade, que como diz Teresa, “parece-me que andam sempre juntas” (C 10, 3). “Antes que diga do interior, que é a oração, direi algumas coisas que são necessárias ter as que pretendem levar caminho de oração, e tão necessárias que, sem ser muito contemplativas, poderão estar muito adiante no serviço do Senhor” (C 4, 3).

Junto à tríade amor, liberdade, humildade, importa chamar a atenção sobre a audácia e determinação teresianas: “Oração e vida regalada são incompatíveis” (C 4, 2). E é que no conforto (assim devemos traduzir hoje o ‘regalo’ teresiano) nunca há crescimento. Daí a importância de ir mais além de uma “cultura do sofá”, de não acomodar-se, de desinstalar-se. Tudo o que é mais valioso na vida, exige um esforço encaminhado sempre ao crescimento pessoal. Ao menos isso parece indicar a conhecida expressão da Santa: a determinada determinação. Como disse T. Alvarez, estamos diante do “slogan da ascese teresiana”.

A “determinada determinação” é, além do mais, uma atitude global, que define ao orante de uma maneira existencial e vital. Em sentido metafórico, remete à luta, ao combate, à peleja: “pelejai”, “não viestes aqui senão para pelejar” (C 20, 2). A “determinação” teresiana não é uma mera atividade puramente pontual, nem se pode reduzir a um momento de oração em um canto da capela e com vela acesa. Trata-se melhor de uma atitude existencial, que empapa a vida toda.

B. Dimensão orante e vida interior

Nesta nova seção (desde o cap. 16) nossa autora volta seu olhar sobre o nuclear da oração, contemplada em suas diferentes variantes e recorridos, e também suas limitações... Aparecem os primeiros passos para a oração contemplativa, para continuar depois com a oração em chave de meditação (meditação “consciente”), a oração centrante (de “recolhimento”, dirá Teresa), a oração contemplativa em si e, finalmente, as relações entre oração e presença.

“No caminho para a contemplação”: este poderia ser o título do tema que Teresa vai desenvolver fundamentalmente nos capítulos 16-19. Aparece agora também a relação entre atividade e contemplação. Vamo-nos encontrar, além do mais, com um primeiro esboço da contemplação em perspectiva teresiana.

Nos capítulos 22-25 do Caminho, Teresa se centra no tema da meditação, prestando especial atenção à oração vocal e mental. Diante dos que desprezam então o valor da oração vocal, Teresa busca infatigavelmente mostrar a identidade entre ambos tipos de oração. Colocará a dignidade da oração vocal de manifesto no comentário que levará a cabo do Pai Nosso, para ela, síntese dos graus de oração (CE 73, 3), e trampolim para a oração contemplativa, que sempre permanece como um dom. E porque toda oração vocal autêntica termina em oração mental, ou seja, em autêntica meditação: “Se falando, entendo perfeitamente e percebo que falo com Deus... junto está oração mental e vocal” (C 22,1; 22,3).

Teresa se levanta contra uma mera recitação mecânica de fórmulas na oração, seja qual seja, pois junto aos lábios, deve-se abrir o coração e a vida toda. Para ela a oração autêntica é um diálogo de amizade, o que implica necessariamente atenção ao nosso interlocutor (C22, 1; 24, 2). Não basta com um mero cumprir externo e vazio, nem com uma mera recitação formal. Estamos diante de um lance decidido, pelo que vamos chamar “meditação consciente’ (seja vocal ou mental).

Nos capítulos 26 ao 29 (no cap. 27 começa o comentário do Pai Nosso) de Caminho, Teresa fala da assim chamada oração de “recolhimento”, que nós vamos traduzir por “oração centrante”, atualizando um pouco sua velha terminologia. A atenção a “Cristo”, atenção pessoal e relacional, por uma parte, e “entrar na” pessoa mesma, abstração em si mesmo, por outra parte, definem a estrutura dessa seção. Digamos que por uma parte aparece a dimensão psicológica dos sentidos; e por outra parte aparece a dimensão cristológica (focalizar a atenção em Cristo). Num caso e no outro se remete ao profundo, além de onde começa a intuir-se a verdade da vida: “o íntimo da alma, o mais fundo e íntimo, no mais íntimo da alma”, etc.

Nos capítulos seguintes, Teresa entra na assim chamada oração de quietude e a oração de união, que vem identificar-se, em termos gerais, com a oração contemplativa ou “mística” (não convém distrair-se com velhos nominalismos).

Teresa define a dita experiência orante com as seguintes palavras:

“Porque aqui, a alma se põe em paz, ou o Senhor a põe em Sua presença, melhor dizendo... já que todas as faculdades se sossegam. A alma compreende, de uma maneira muito longe do alcance dos sentidos exteriores, que já está junto do Seu Deus e que, com mais um pouquinho, chegará a formar uma única coisa com Ele por meio da união”. (C 31, 2)

A contemplação sempre é um presente, um dom, ou como diz Teresa, é “coisa sobrenatural” e que não a podemos procurar por diligências que façamos” (C 31, 2). O de “sobrenatural” não remete a experiências raras ou extraordinárias, remete à graça, ao gratuito e, no fundo, remete ao humano autêntico. Teresa insiste (agora através de uma imagem) na gratuidade da dita experiência, e em que não depende nunca de nosso esforço: “isso é uma bobagem, pois assim como não podemos fazer amanhecer, tão pouco podemos impedir que anoiteça; já não se trata de obra nossa, pois é sobrenatural, algo que está bem fora de nosso alcance”.

Para terminar esta parte, não queríamos deixar de assinalar um aspecto chave, que é o da relação entre a oração e presença. O difícil sempre em Teresa (tão ampla e diversa, sempre tão desbordante) é encontrar um fio condutor para contar e explicar sua experiência de Deus: esse fio poderia ser a experiência da “presença” divina. Porém, de que falamos quando falamos de “presença” em Teresa? Estamos diante de um conceito que nasce do contato com a vida: a relação, o encontro, a comunicação interpessoal, que se faz experiência, diálogo vivo, entrega mútua... Presença é consciência de que algo/Alguém está conosco.

Em umas simples palavras de Caminho, está condensado o método da oração teresiana: “Procurai logo [imediatamente], filhas, pois estais sós, ter companhia, e que melhor companhia que a do próprio Mestre?” (C 26, 1); “Representai o próprio Senhor junto de vós...” (C 26, 1). “Junto andemos, Senhor...” (C 26,6). Essa poderosa sensação de “presença” é o verdadeiro estimulo da experiência mística teresiana.

E não nos esqueçamos do comentário ao Pai Nosso. A interpretação que Teresa leva a cabo da oração central cristã é um comentário livre, com digreções contínuas de oração espontânea. A partir do capítulo 27 até o final de Caminho se estende o dito comentário. Porém sempre com longos parênteses e mesclas com o tema da oração em geral e suas variantes. Até o ponto de que a pessoa tem a sensação de que o dito comentário não passa de ser uma desculpa para falar com liberdade e prolongadamente do tema da oração, ou de outros temas, como a Eucaristia: o mesmo comentário ao pedido do “pão” se converte em uma desculpa para falar precisamente da Eucaristia (caps. 33-35 de Caminho).

5. Leitura existencial e efeitos

E é que Teresa dá testemunho em cada página por ela escrita. A certeza da fé que hoje alguns buscam, não se conserva mediante ideologias, formulações rígidas e normas precisas e estreitas, mas pela experiência da oração, da vida sacramental. Teresa, em vez de explicar, discutir ou esclarecer e compreender tudo, nos testemunha, anuncia, contagia, confessa, agradece o dom do amor de Deus, da verdade. Canta as misericórdias do Senhor com sua maneira de estar no mundo, de confessá-la pela conversão do coração (C. Kaufmann).

“Ela se põe a falar, não a esculpir máximas para a posteridade, porém o faz com uma voz tão fresca e feminina, que se impõe só pela beleza de seus conceitos e de suas emoções e o coração cresce na pessoa, se lhe abrem muitas portas que não sabiam que existiam. [...] Seus escritos surtem um efeito libertador. De repente, o mundo se converte em um meio, não em um fim, para crescer no amor, para ser mais e ter menos, para que a alma comece a voar incendida em amor e em alegria de viver para embelezá-lo. Por isso é uma santa alegre, como são suas carmelitas” (Jesus Cotta).

Precisamente, nos capítulos 36 ao 42 de Caminho (por onde discorrem temas como a honra, oração, tentações diversas...) vamos encontrar o que poderíamos chamar os feitos da contemplação. E entre todos os “efeitos”, o do perdão (cf. especialmente o capítulo 36) e a capacidade para perdoar, é sem dúvida o mais significativo, e sobre o que insistentemente Teresa volta.

O contemplativo pode ter outras “faltas e imperfeições”, porém, segundo nossa mística, nunca deve não perdoar, “com esta [falta] não vi nenhuma [pessoa contemplativa]”. E Teresa insiste mais adiante: o contemplativo deverá examinar com cuidado em si mesmo como esses efeitos vão aumentando; se não vir nenhum em si, deve temer muito e não acreditar que esses regalos venham de Deus. (C 36, 13).

Enfim, a verdadeira oração ou experiência mística se mede e autentica em seus efeitos. É esta a chave à que continuamente os místicos apelam. Pois, se dita experiência tem a ver com Deus, dirá Teresa, “não há o que temer; consigo traz humildade” (C 17, 3). E assim, “se o desejo fosse de Deus, não lhe teria feito mal, porque, nesse caso, traz consigo a luz, o discernimento e a medida” (C 19, 13). De Deus, que por sua própria natureza é amor e positividade pura, só pode vir positividade e amor, ou na lista aberta que Teresa nos deixou: humildade, luz, discrição, medida, afabilidade... E, antes de tudo, perdão. Sobretudo perdão. O mais divino de Deus. O mais humano do homem.


[1] Para este tema, nenhum estudo melhor que o de T. EGIDO, “ambiente histórico” em: Introducción a la lectura de Santa Teresa, Madrid, EDE, 2002, PP. 63-155. Não se deixe de ler a queixa apaixonada (e ressentida) de Teresa em defesa das mulheres, na primeira redação, CE 4, 1, autêntico “manifesto” de feminismo precoce, como acertadamente assinalou o mesmo Egido.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Caminho de Perfeição: Contexto histórico, religioso e espiritual do livro

Caminho de Perfeição: Contexto histórico, religioso e espiritual do livro

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Para compreender melhor o Caminho de Perfeição de Teresa de Jesus e as suas duas redacções convém ter presente o ambiente histórico, religioso e espiritual em que ele foi escrito.

Estamos no tempo áureo da Inquisição. O seu Livro da Vida encontrava-se retido nos depósitos da Inquisição. Este podia seguir o mesmo destino. Mas como os pedidos eram muitos e insistentes e os mandatos dos confessores eram constantes, Teresa, apesar dos pesares, põe-se a escrever.

Vive-se em Espanha, no tempo de Teresa, um ambiente polémico e de forte tensão a todos os níveis. Teresa não vive alheia, pelo contrário, ela participa activamente nesta polémica. O momento é de tensão espiritual provocada pela publicação de certos livros.

Invasão protestante

Em 1556, Carlos V retirou-se para Yuste. Entre este ano e 1563, ano da clausura do Concílio de Trento, Espanha muda rápida e profundamente de clima espiritual e toda a Europa chegou a um desses momentos críticos em que se quebra o equilíbrio já estável, e tudo acontece muito descontroladamente. Carlos V, depois da paz de Augsburgo, renunciou ao papel de árbitro que tinha mantido durante trinta anos entre Roma e a Alemanha protestante. O protestantismo alcançou um triunfo tal que varreu todas as ilusões do momento. O culto protestante começou a organizar-se em França como uma confissão dissidente. O anglicanismo foi-se consolidando depois da breve restauração católica de Maria Tudor. Calvino fez com que Servet morresse na fogueira, e Genebra afirma-se como a metrópole de uma nova ortodoxia. Todos estes acontecimentos exercem grande influência na vida de Teresa.

Renovação espiritual

Desde o princípio do século está em curso em Espanha um movimento de renovação espiritual. A reforma da Igreja espanhola antecipou-se quase meio século à reforma tridentina. E esta reforma não foi teórica, dogmática ou legalista, mas realista e integral. Chegou à alma do povo e provocou o surgimento de uma espiritualidade popular e universal.

Sem sairmos do pequeno mundo teresiano, encontramos casos extremos de alta espiritualidade tanto entre pessoas humildes e analfabetas como entre aristocratas e damas da corte. Temos, por exemplo, o caso de Maria de Jesus e Catarina de Cardona. A primeira, uma analfabeta, jovem viúva andaluza, empreende uma viagem a Roma, descalça, para conseguir um breve pontifício que a autorize a fundar um mosteiro austero de carmelitas. O segundo caso é Catarina de Cardona, dama da rainha, aia do príncipe Carlos e de D. João de Áustria. Esta foge de noite da corte, disfarçada de homem, para se internar nas serranias de Cidade Real e aí viver vida penitente.

Movimento literário espiritual

Acompanhando tudo isto, começa a aparecer um grande movimento literário espiritual. Garcia Jimenez de Cisneros, primo do Cardeal Cisneros, funda uma tipografia em Monserrat. O próprio Cardeal Cisneros funda outra em Alcalá. Os tipógrafos de Sevilha e Salamanca lançam sobre toda a Espanha uma onda de livros espirituais em latim e espanhol. São publicadas obras procedentes de todas as épocas, línguas e nações, traduções dos Padres da Igreja, livros da devotio moderna, da escola mística alemã e italiana, escolásticos medievais, e protestantes daquele tempo, livros de autores espanhóis de última hora...

Tanto esta literatura espiritual, como a religiosidade popular e o movimento das reformas dentro da vida religiosa, têm isto em comum: a interiorização da vida espiritual e a oração mental. A este movimento espanhol junta-se uma forte corrente que chega de fora, revestida de humanismo. É sobretudo a oração mental o ponto em que confluem todos os movimentos renovadores, nacionais ou estrangeiros.

Sobre este horizonte de grandes aspirações espirituais começa a aparecer algo contrastante e decisivo: o florescimento teológico que dará a Espanha duas gerações de teólogos de Trento e de Salamanca; desde Vitória até Bañez, Suarez e os salmanticenses.

Teólogos e espirituais

Mas o que é que aconteceu? A espiritualidade e a teologia não seguem o mesmo caminho, pelo contrário, contrapõem-se. No seio da Igreja espanhola vai-se forjando, durante vários anos, um antagonismo que suscitará divisões e tempestades, chegando mesmo a lutas constantes, fortes e inflamadas entre teólogos e espirituais.

Por uma parte encontram-se os teólogos que desconfiam de uma espiritualidade que não se apoia em princípios dogmáticos. Os teólogos vêem nos espirituais aberrações morais escondidas, influências do pietismo protestante ou do quietismo iluminado. Vêem um culto exagerado pela oração disfarçado de protestantismo que procura subtrair-se ao controlo da hierarquia e da teologia.

Por outra parte encontram-se os espirituais que desconfiam dos teólogos, vendo neles especialistas da letra morta, vazios de espírito cristão e francamente incapazes de julgar uma vida sobrenatural de que não têm experiência nem noção.

Nos escritos teresianos, que tão claramente manifestam esta situação de luta, os representantes de um e outro grupo serão chamados “letrados” e “espirituais ou experimentados”. A própria Santa tem consciência clara que não é uma “letrada”, mas uma espiritual experimentada, contudo, não se deixa influenciar por nenhum grupo. Teresa é amiga de “letrados”, mas como ela própria diz: “[eu] não fazia senão disputar com os letrados” (V 35, 4).

Apesar desta reacção o caso é que quando escreve o Livro da Vida passou decidida e conscientemente para o grupo dos letrados.

Nas páginas do Caminho de Perfeição, escritas por esta altura, a opinião de Teresa a favor dos letrados passará a ser norma para as suas discípulas. Isto aparece claramente nos capítulos 3º a 5º. Nos restantes livros, como por exemplo as Moradas e as Fundações, etc, ela mantém a mesma decisão sem nenhumas dúvidas.

Esta posição de Teresa manifesta somente o indício do grande azedume com que por aqueles anos se enfrentavam osletrados e os espirituais. A tensão entre estes dois grupos adquiriu grande gravidade pela envergadura daqueles que encarnaram uma e outra corrente. Entre os espirituais temos grandes santos e autores místicos a meados do século de ouro; e do lado oposto, está a grande maioria dos teólogos da escola dominicana e da universidade de Salamanca.

Casos clamorosos de visionárias

Entre os espirituais existem alguns casos, que não são raros infelizmente, de visionárias e reformistas exaltadas que vêm agudizar ainda mais a situação: temos, por exemplo, os casos clamorosos de Maria de São Domingos e Madalena da Cruz. Tanto uma como outra projectam sobre a vida mística teresiana uma sombra muito funesta. Madalena de São Domingos, “a beata de Piedrahita”, visionária, estigmatizada, escritora mística, admirada cegamente por um sem número de discípulos e discípulas, mas submetida pelo famoso Caetano, Geral da Ordem de São Domingos, a uma espécie de reclusão vitalícia e dando ordens precisas contra ela, contra o seu profetismo e proselitismo. A recordação da beata e a sentença de Caetano pesarão sobre os teólogos que pouco depois entrarão em relação com a nova mística e visionária Teresa de Jesus.

A visionária Teresa de Jesus

Recordemos o episódio que teve lugar entre João Salinas e Domingo Bañez, ambos dominicanos. Salinas pergunta a Bañez: “Quem é uma Teresa de Jesus que me dizem que é muito da vossa relação? Não há que confiar em virtude de mulheres... Bañez respondeu: Vossa Paternidade vá a Toledo e vê-la-á e experimentará que é razoável tê-la em muita consideração... Encontrando-se os dois mais tarde, Bañez interroga-o: Então, que diz de Teresa de Jesus? Respondeu Salinas com grande desembaraço, dizendo: Ó! Tinhas-me enganado, disseste-me que era mulher; pois, eu te digo com total certeza, que é homem varão e dos muito barbados” (Isto foi referido pelo P. Bañez no processo de Beatificação - Salamanca 1591).

A outra, Madalena da Cruz, abadessa de Córdoba, depois de ter sido aclamada santa pelos reis e grandes de Espanha, será processada pela Inquisição e condenada em 1564 a penitência pública. O seu caso está tão vivo quando se começam a divulgar os fenómenos místicos de Santa Teresa, que não faltará quem sussurre aos ouvidos desta e dos seus confessores augúrios de idêntico desenlace.

A oração mental, pomo de discórdia

Do lado dos teólogos, contribuíram para agudizar o antagonismo, algumas figuras cimeiras, que concentraram a oposição sobre o tema da oração mental, divulgada pelos livros na linguagem do povo. Pregar aos quatro ventos – segundo eles – a vida de oração, é colocar em perigo não só a Igreja, mas a mesma república cristã. Divulgar em língua castelhana para o povo e as mulheres, os mistérios da fé, da teologia e da vida espiritual, é “coisa nociva ao bem comum” (Melchior Cano). “Por mais que as mulheres reclamem com insaciável apetite comer deste fruto [leitura da Sagrada Escritura], é necessário vedá-lo e colocar a espada de fogo para que o povo não chegue a ele” (idem).

S. Vicente Ferrer afirmaria que, com as graças místicas de que se gloriavam os espirituais e outras ilusões semelhantes, se haveria de dispor o mundo para o Anti-Cristo.
Em termos mais depreciativos, ridicularizava o supremo inquisidor Valdês os livros de frei Luís de Granada sobre a oração, apelidando-os de livros de teologia para mulheres de carpinteiros.


P. Jeremias Carlos Vechina