segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 15-16



Image
Nos capítulos 15 e 16, Teresa narra-nos a fundação complicada e árdua de Toledo. Esta fundação que, à primeira vista, poderia parecer a mais fácil e cómoda por residir em Toledo dona Luísa de la Cerda, grande benfeitora de Teresa, vai converter-se numa verdadeira corrida de obstáculos. Por trás, como causa de tudo isso, um tema central do pensamento teresiano: a linhagem e a honra. Tanto que até intervém o próprio Deus para que ponha de lado esses critérios humanos.

No capítulo 16, elogia o exemplo de algumas monjas sobretudo no exercício da obediência e do desprendimento. Relata também a morte serena e alegre de uma religiosa com a visão de Jesus à cabeceira da cama, com os braços abertos em atitude de protecção e ajuda. E as palavras de Jesus de que ampararia igualmente as monjas que morressem nesses mosteiros. Daí surge o pedido de Teresa: “Filhas minhas, esforcemo-nos por ser verdadeiras carmelitas” (F 16,5).”Praza a Nosso Senhor, irmãs, que vivamos como verdadeiras filhas da Virgem e nos conformemos com a nossa profissão, para que Nosso Senhor nos faça a mercê que nos prometeu” (F 16,7). 

Pistas de leitura 

A fundação de Toledo é a “quinta” de Teresa no seu duplo sentido de ordem numérica e de lugar de descanso. Um mercador adinheirado de Toledo, Martim Ramírez, através do jesuíta Paulo Hernández, decide custear a fundação de um novo Carmelo. Não pertence à nobreza, e os nobres afastam-se: “Não eram pessoas ilustres nem fidalgas” (F 15,15). Grave contrariedade numa cidade onde a ascendência e a linhagem desempenham um papel determinante. 
As dificuldades aumentam porque, falecido o mercador, os seus parentes próximos mostram-se tão exigentes que a fundação parece impossível. Sem uns (nobres) nem outros (parentes de Martim), só com a colaboração do jovem Andrada, “nada rico, muito pobre até” (F 15,6), Teresa consegue casa e licença do Governador, mas não do Conselho.Com os poucos dinheiros que tem compra dois quadros; e apenas com dois enxergões e uma manta funda o mosteiro de Toledo. 
Renovam-se as dificuldades “sempre estimei mais a virtude do que a linhagem; mas tinham ido com tantos ditos ao Governador, que ele só me deu licença com a condição de que fundasse como em outras partes” (F 15,15). E aos ilustres e cavalheiros cede-lhes a capela e nada mais. Relações difíceis entre linhagem e virtude! 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. “Os caminhos de Deus!” (F 15, 8). Ler todo o parágrafo anterior e comentar, segundo o pensamento de Teresa, se os caminhos do Senhor são os nossos caminhos. O binómio “as pessoas tão ricas – o muito pobre Andrada” desemboca num estilo de fundação feita “com pobreza e trabalho”. Ineficácia dos ricos, proveito do pobre. 
- Custa-nos descobrir nas mediações pobres as marcas da acção de Deus? 
- É-nos mais próxima a presença de Deus nos meios mais abastados e seguros? 

2. “Talvez pareça impossível que, estando em casa daquela senhora [dona Luísa de la Cerda] tão minha amiga, começasse com tanta pobreza. Não sei a causa, só sei que Deus quis dar-nos a experimentar a excelência desta virtude. Nada lhe pedi, pois não gosto de me tornar pesada; e ela, possivelmente, nem reparou” (F 15,13). 
-Não resulta exemplar a bondade de Teresa ao considerar a “inadvertência” de dona Luísa de la Cerda? 
- Podemos melhorar a nossa benevolência perante o descuido dos outros? 
- Talvez esteja Deus por trás das “distracções” dos outros para nos tornarmos mais livres e pobres? 

3. “Tudo foi de muito proveito para nós, porque era tanto o nosso consolo interior e alegria, que muitas vezes me lembro quanto o Senhor encerra nas virtudes. Essa privação que passámos parecia como que uma suave contemplação” (F 15,14). 
-Como compreendemos o contraste entre não ter praticamente nada e estar cheios de consolo e alegria? 
Diz Teresa que viver uma virtude é promessa de uma experiência suave de Deus. Será porque o autêntico necessitado encontra tudo n’Ele? 

4. Insistindo no mesmo tema, Teresa afirma que, quando começam a dar-lhes de tudo, experimente a tristeza e a pena de ver como se lhes escapa a riqueza de serem pobres. E as suas monjas sentem da mesma maneira. Ela ficou com o “senhorio bastante para ter em pouco os bens temporais, pois a falta deles faz crescer o bem interior, o qual traz de certeza consigo outra fartura e quietação” (F 15,15). 
- Esta maneira de pensar é qualquer coisa de ilusório no nosso contexto social actual? 
- Que nos quer dizer Teresa com estas palavras: fartura e quietação? 



Bibliografia: 

1. Álvarez, Tomás, 100 fichas sobre Teresa de Jesús, Burgos, Monte Carmelo 2007. 
2. Álvarez, Tomás, Comentarios al libro de las «Fundaciones», Burgos, Monte Carmelo 2011


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 9-12



Image
Acompanhamos Teresa na fundação dos Mosteiros de Malagón na província de Ciudad Real (11 de Abril de 1568) e de Valhadolid (15 de Agosto de1568). E, conjuntamente à acção de Deus através das circunstâncias ordinárias e comuns da vida, vai-nos apresentar duas figuras femininas do incipiente Carmelo descalço: Cassilda de Padilha e Beatriz da Encarnação.

Pistas de leitura 

Teresa relata a fundação de Malagón durante os últimos dias da sua estadia em Salamanca, em 1573. Nos começos de 1574, transfere-se para Alba de Tormes e Segóvia, onde erigirá o novo Carmelo descalço a 18 de Março. Nele incorporará boa parte das carmelitas de Pastrana, a princípios de Abril, depois de abandonar aquela fundação por causa das intromissões e caprichos da princesa de Éboli. Em Segóvia, Teresa vai dispor de quase seis meses de tranquilidade antes de se apresentar na Encarnação para terminar o seu triénio como prioresa. É, portanto, na paz do novo Carmelo de Segóvia, onde retoma o fio das fundações com o mosteiro de Valhadolid. 
É interessante notar que foi no mosteiro de Malagón (provavelmente a 9 de Fevereiro de 1570) onde pela primeira vez Teresa teve a inspiração de escrever o livro das Fundações: “Que escrevesse a fundação dessas casas. Pensando eu como na de Medina nunca tinha achado nada para escrever sobre a fundação, disse-me ‘que mais quereria eu para ver que a sua fundação tinha sido milagrosa?’ Quis dizer com isto que só Ele a tinha feito e, parecendo não levar nenhum caminho, eu me determinara a pô-lo por obra” (Relação 9ª) 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1.Teresa é partidária de não fundar nenhum convento com renda. Em princípio, recusa a fundação em Malagón, uma pequena povoação de Ciudad Real. No entanto, aconselhada por pessoas sensatas, muda de opinião. 
- Qual a razão última das nossas posições inamovíveis: afirmar-me a mim mesmo ou procurar o bem alheio como serviço do Senhor? “Disseram-me que fazia mal, porque havendo para isso licença do Santo Concílio, não se devia deixar de fazer um mosteiro, por causa de uma opinião minha, onde tanto se podia servir ao Senhor” (F 9, 3). 
- Acaso não nos fechamos em seguranças enganosas que nos afastam de uma atitude serena de diálogo impedindo a consecução de um bem maior? 

2. Falando de possessões e heranças, que com tanto afinco são conservadas e desejadas, Teresa concentra a sua e nossa atenção no que teve e nos deixou Jesus Cristo: trabalhos, sofrimentos e desonra: “Eia, pois, filhas minhas, tem de ser esta a nossa divisa se quiséramos herdar o Seu reino. Não é com descanso, nem regalos, nem honras, nem riquezas que se há-de ganhar o que Ele comprou com tanto Sangue” (F 10, 13) 
- Como traduzimos na nossa vida pessoal este convite de Teresa? Será que a nossa vida se assemelha à de Jesus, ou procuramos antes a nossa comodidade? 

3. Com essa elegância própria de Teresa, finamente carregada de ironia, adverte aos “cavaleiros de Jesus Cristo e aos príncipes da sua Igreja” que procuram e até justificam um caminho diferente do da cruz: “Ó gente ilustre! Por amor de Deus abri os olhos! Vede que os verdadeiros cavaleiros de Jesus Cristo e os príncipes da Sua Igreja, um S. Pedro, um S. Paulo, não levavam o caminho que levais! Pensais, porventura, que há-de haver um caminho novo para vós? Desenganai-vos!” (F 10, 11). 
- Também nós pensamos, acaso, que nos convém outro caminho diferente do de Jesus? Se assim pensamos, não será uma fonte de mediocridade pessoal e de desigualdades fraternas? 

4. À margem das peripécias da vocação de Cassilda Padilha, Teresa deixa-nos algumas pérolas de como deverá ser a vida religiosa (e qualquer género de vida cristã): “servi-l’O [Sua Majestade] com grandíssimo contento, humildade e desapego do mundo” (F 11, 10) 
-Somos felices na nossa vida religiosa ou familiar? Esta felicidade dependerá de servi-l’O a Ele em tudo? 
- Será a humildade uma palavra vazia de sentido, actualmente? Ou não será antes um cristal que nos ajuda a ver as coisas com maior objectividade, tal como são? A soberba e a presunção não deturpam a realidade? 

5. Outros valores que devem embelezar a vida dos membros de uma comunidade no seio da Igreja: 
“De tão agradável condição e entendimento” (F 11, 11). “Uma alegria modesta que dava bem a entender o gozo interior que trazia na alma” (F 12,1). “Nunca se queixou de qualquer coisa ou de qualquer irmã” (F 12,1). “É incalculável o valor da mais pequenina coisa que se faça por amor de Deus” (F 12, 7). “ Poderá ser que diga mais alguma coisa acerca dela [algumas irmãs dos mosteiros], para que as que andam com alguma tibieza se esforcem por imitá-las e para que todas louvemos o Senhor que assim resplandece Sua grandeza numas fracas mulherzinhas” (F 12,10). 
- Cultivamos estes e outros valores nas nossas relações quotidianas no seio da comunidade, da família, da Igreja?


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma mulher atraente e atraída, forte e vulnerável

Santa Teresa, fundadora

Uma mulher atraente e atraída, forte e vulnerável

retirado do site:

http://www.carmelo.com.br/default.asp?pag=p000051




Teresa de Cepeda e Ahumada veio à luz em 28 de março de 1515, filha dos piedosos pais Alonso Sánchez de Cepeda e Beatriz Dávila y Ahumada. As primeiras provas de seu fervor religioso herdado dos pais foram a sua fuga de casa para morrer mártir nas terras dos mouros e sua meditação sobre a eternidade. A piedade da infância decairá na adolescência, dando lugar às preferências de toda jovem pelos encantos das relações humanas e dos atrativos mulheris, influenciada pelos devaneios dos romances de cavalaria. Desde cedo pôde constatar sua força atrativa e sua capacidade de liderança, comandando as brincadeiras e centralizando os círculos e as conversas.

Sabia, inteligentemente, ser atraente, utilizando-se de sua simpatia, que ela traduz como desejo de agradar a todos, e teve como mestra neste aprendizado uma parenta de sua idade. Aprendeu a arte da sedução.


À proteção da Santíssima Virgem colocou-se, quando perdeu a mãe, em 1529. Certo de que Maria a protegeria, continuou envolvida em seus passatempos. Preocupado, seu pai resolveu interná-la no mosteiro das monjas agostinianas de Ávila, em 1531. A solidão obrigou-a a encontrar-se consigo mesma. O monólogo é o primeiro passo para um diálogo frutífero. Além da solidão, oportuna companhia, o contato com religiosas sérias abriram-lhe o espírito às dimensões divinas até então encobertas. O desejo de fazer-se consagrada a Deus nasceu-lhe, pela primeira vez. Nem todos se tocam pela própria insatisfação existencial. Isistem em perseguir o mesmo caminho, rumo às mesmas paredes. Teresa descobre a porta ampla. O horizonte que vislumbra do lado de lá, porém, é tão longínquo e misterioso que os efeitos imediatos sentem-se no corpo. Ela somatisa a crise. Enferma volta para casa, quem sabe para tentar recuperar o fio perdido da sua vida, a liga que se rompera em seu espírito. Melhor, fisicamente, vai a Castelhanos de la Cañada, casa de sua irmã mais velha, onde permanece 7 meses. De volta à casa paterna assume, entre 1533 e 1536, a direção de tudo, como mãe e senhora, mulher amadurecida. Em 1536 não consegue segurar-se. Convencendo seu irmão Antônio, fogem de casa. Ela bate no Carmelo da Encarnação, ele na porta dos dominicanos. No Carmelo inicia uma nova vida. Aos poucos vai percebendo que de atraente deve ceder, até ser atraída por Ele, e sua aparente força deu lugar à sua real vulnerabilidade, porta por onde o Cristo entrou em sua vida.


Teresa recebeu o hábito carmelitano em 2 de novembro de 1536 e professou no dia 3 do mesmo mês de 1537, aos 22 anos. Pouco tempo depois de sua profissão, um pouco por causa da nova forma de vida e das graves penitências que se impôs sobre si mesma, e muito pelo drama interior iniciado, ficou gravemente enferma e teve que abandonar temporariamente o mosteiro. A princípios de 1538 mudou-se para um lugar chamado Becedas e depois de alguns meses voltou ao mosteiro, não só com a saúde fraca, mas meio morta e totalmente paralisada. Pouco a pouco ficou restabelecida graças à intercessão de S. José, cuja devoção era popular na Espanha e que se fortalecerá em Teresa desde então.


Sua saúde física restabelecia-se na mesma proporção em que seu espírito se debilitava. Sente-se tíbia até 1553, quando a leitura das confissões de Santo Agostinho e o fatal encontro com uma imagem do Cristo atado à coluna em um dos corredores do mosteiro, tocam-na profundamente e resolvem-lhe o impasse interior. Ela vê nesta experiência sua própria e definitiva conversão (V.9). Este foi o momento em que iniciou seu vôo para as alturas da união com Deus, que se traduziu numa entrega incondicional e valente ao serviço de Deus, que a cumulou de inumeráveis favores e graças. O incremento destes bens foi tão grande e rápido, diz o Pe. Silvério, que em menos de 5 anos havia passado por quase todos os graus do amor e da contemplação infusa, culminando, em 1559, na visita de um querubim que lhe transpassou o coração com um dardo ardente, ferindo-a de amor. Em 1560 comprometeu-se em procurar e fazer sempre o mais perfeito. Inundada da presença transformante de Deus, e diante de tantos fenômenos e graças espirituais, Teresa perturba-se, e busca o auxílio de doutos e santos, que a acalmam e a ajudam a entender o lado humanamente estranho da Graça.


O itinerário místico que Santa Teresa percorre no Carmelo da Encarnação chega à sua natural consequência no desejo de ver a Deus e gozar de sua glória. É este um passo comum nas biografias místicas de relevo. Aos Filipenses São Paulo dirá: "Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer um ganho" (Fil.1,21). São João da Cruz exprime a ânsia pela glória em sua obra “Chama viva de amor” em que a amada expressa sua incontrolável vontade de que a tela do doce encontro com o amado se rompa. Santa Teresa experimenta a mesma coisa. "Ansiosa de ver-Te, desejo morrer", repete o refrão de um poema seu, entre outros que expressam a mesma realidade. Sua definitiva conversão e o encontro com o Cristo não poderia que suscitar nela o desejo de que tudo acabasse, fazendo com que o normal medo da morte transformasse no medo de não morrer (c. V.29,8 e 10). Todavia àquele que vive em Cristo e experimenta, até o sofrimento, que o tempo se faz breve, acontece-lhe de viver em uma estranha dilatação do próprio tempo.


Para o P. Antônio Sicari, Santa Teresa, em seu caminho espiritual, passou da tensão escatológica à tensão encarnatória. Querendo morrer para viver em Cristo, amadurece ao ponto de viver para Cristo, sendo-lhe um prolongamento de humanidade, servindo-Lhe e fazendo-lhe em tudo Sua Vontade. O amadurecimento espiritual verifica-se quando não lhe interessa mais nem o medo do inferno em que poderá cair, nem o desejo do céu que o Cristo lhe pode dar, mas amá-lo em tudo, viver por Ele e por Ele morrer. É neste sentido que se deve entender o dilema colocado por ela: padecer ou morrer por Cristo.


Como a ressurreição assinala o fim do mundo, a encarnação e a paixão de Cristo prolongam-se no seu corpo eclesial. O instinto escatológico de Teresa deve fazer as contas com a encarnação eclesial.


É este o itinerário narrado no na Vida e nas Relações. O desejo da morte só pode ser aplacado por aquele de sofrer por Ele (cf. V.40,20; R.1,3).


Eventos como a visão do inferno, as notícias da Igreja dilascerada pelo movimento protestante e as missões além-mar no novo mundo descoberto, e outros fatores interiores, levaram Santa Teresa, inspirada continuamente por Cristo, a idealizar um mosteiro onde poucas monjas vivessem ao máximo sua doação ao Senhor, pela Igreja. Ela empenha-se em construí-lo, não sem penas.


O mosteiro, dedicado ao glorioso São José, foi inaugurado no dia 24 de agosto de 1562. Pela manhã uma sineta surda, porém alegre, anunciou aos habitantes de Ávila o nascimento da Reforma Teresiana. Radiantes de felicidade tomaram o hábito de descalças as quatro noviças escolhidas por Santa Teresa: Antônia de Henao (do Espírito Santo), filha espiritual de S. Pedro de Alcântara; Maria de la Paz (da Cruz), criada de D. Guiomar de Ulloa; Ursula de Sevilla (dos Santos), filha espiritual de Gaspar Daza, e Maria de Ávila (de S. José), irmã de Julião de Ávila. O Padre Gaspar Daza celebrou a Santa Missa e depôs no sacrário o SS. Sacramento. Este foi o primeiro de uma enxurrada de mosteiros que ela fundou até o fim de sua vida (17 ao todo), num movimento ainda vivíssimo nos dias de hoje.

Teresa, uma reformadora diferente


Quase todas as reformas das Ordens religiosas nascem, naquele tempo, dos sofrimentos dos reformadores pelas cativas condições e pela vulgarização de experiências que se quer conduzir ao esplendor primitivo. Também Teresa reagiu a uma determinada situação de falha. Mas tal reação foi nela absolutamente secundária na ordem das motivações.


A santa documenta candidamente algumas de suas reações que são absolutamente atípicas para um reformador: “Eu não sabia resolver... porque era contente onde estava, o mosteiro me agradava e havia uma cela ao meu gosto” (V32.10; cf. 32,12). Alguém que se colocasse com mandato divino para colocar ordem nas desordens das Ordens, jamais falaria assim. Não há traços nela de um descontentamento insustentável no andamento das coisas, nem daquela típica insatisfação pelo ambiente ou daquele desejo de excepcional austeridade que estão à base dramática de muitas tentativas de reforma religiosa no século XVI.


Do seu velho mosteiro a Santa tece grandes elogios (cf. V.7,3). Nesta linha devemos entender também a resposta que ela dá em 1581 ao pedido de uma monja que quer fazer parte de seu mosteiro, alegando vida regalada no mosteiro onde estava. Ela não a aceita, por razões jurídicas, e diz que ela pode, e diríamos deveria, ser boa onde está: “Antes de se fundarem estes mosteiros, passei vinte e cinco anos num onde havia cento e oitenta monjas. E, por escrever às pressas, só direi: a quem ama a Deus tudo lhe servirá de cruz e de proveito para a alma. Nada lhe fará mal se andar de sobreaviso, considerando que só Deus e vossa mercê estão nessa casa; e, enquanto não tiver ofício que a obrigue a olhar as coisas, nada se lhe dê de nenhuma delas. Procure antes imitar a virtude que vir em cada Irmã, a fim de mais amá-la e tornar-se melhor, descuidando-se das faltas que nela vir. Isto me aproveitou tanto, que, sendo tão numerosas como disse, não me distraíam mais do que se nenhuma houvesse, antes me eram de proveito. Porque, enfim, senhora minha, em toda parte podemos amar a este grande Deus. Bendito seja Ele, que não há quem nisto nos possa estorvar.” (Carta abril de 1581). Teresa mesma dirá de si que, malgrado tudo, fazia um grande bem em torno (V.32,9). A quantos lamentavam que levava muitas monjas da Encarnação para suas fundações ela respondia que restavam ainda mais de quarenta que poderiam fundar uma nova vida religiosa.


Se de um lado é óbvio que no seu novo mosteiro Teresa buscará cortar os abusos que encontrou na vida carmelitana do seu tempo, e que causaram danos inclusive nela, do outro lado não é igualmente óbvio dizer que esta intenção reformista tenha motivado o nascimento do novo Carmelo.


A opinião geral é a de que Santa Teresa nunca pensou na fundação de uma nova Ordem religiosa, nem sequer pretendeu reformar toda a Ordem do Carmelo como tal. A origem da sua intenção reformadora não vai além do âmbito de seus íntimos desejos de conseguir a própria perfeição e de ajudar a Igreja e as almas, cumprindo fielmente sua vocação.


A Santa não desconhece o concreto, porém não se exaspera diante dele. No livro da Vida estigmatizará com palavras enérgicas o relaxamento dos mosteiros (V.7,5). Tornará sobre o tema com expressões duras no Caminho (cap.12-14). Anos mais tarde, por ocasião de sua peregrinação através da Castilha e das províncias andaluzes, conhecerá algo do desenfreio de certos eclesiásticos (cf. Carta ao Padre Geral J. B. Rubeo, em 18 de Junho de 1575) e sentirá muito, contudo isto nem a escandalizará nem a estimulará a fazer algo para concertar o que está errado. Santa Madre é prática. Os males da Igreja e os perigos que ela corre na sua missão levam-na a fazer “esse pouquinho que posso”, como diria. E o que está ao seu alcance e o que se converteria em seu ideal é seguir os conselhos evangélicos com toda perfeição, juntamente com outras que quisessem segui-la (cf. C. Val.1,1-3), vivendo em plenitude o espírito original do Carmelo tal como ela havia chegado a vislumbrar, com sua marca eminentemente contemplativa, cujo valor evangélico e eclesial supôs compreender com profundidade inigualável, como o compreenderia também frei João da Cruz.


A Santa se limitará a criar um novo estilo de vida em que a realização de seu ideal seja mais facilmente exeqüível, sem que lhe passe nunca pelas mentes a idéia de impô-lo de algum modo a suas irmãs e irmãos de hábito, como advertia o P. José de Jesus Crucificado, para quem "a reforma de Santa Teresa não surgiu como uma espécie de rebeldia, contra a Ordem antiga do Carmelo, nem como uma intenção prévia de reformá-la enquanto tal, já que nem a Santa Teresa – que foi sempre filha fiel e amantíssima de sua Ordem – passou-lhe pelo pensamento semelhante idéia, nem o velho tronco da Ordem, de cuja seiva nutriu em boa parte seu espírito, convertendo-o em vida própria, sofreu alteração alguma de caráter jurídico, disciplinar ou espiritual por causa da Reforma ou por sua influência. Esta surgiu impulsionada por motivos e circunstâncias em parte pessoais e em parte ambientais e sociais, em consonância com o momento histórico e com as peculiares necessidades do tempo, como um movimento novo e vigoroso, destinado, não já a reformar a Ordem do Carmo enquanto tal, senão a instaurar na Igreja uma corrente de vida espiritual profunda e fecunda, que trouxesse um remédio eficaz àquelas necessidades e fosse, ao mesmo tempo, um instrumento eficiente de apostolado ao serviço da Igreja.


É de se notar que este movimento se inicia e desenvolve, não a despeito nem contra a Ordem em cujo seio se produz, senão favorecido e protegido por ela, já que não outra coisa significava, na realidade, senão uma nova e mais eficaz tentativa de melhoramento espiritual, em harmonia tanto com as diretrizes dadas pelos Sumos Pontífices à raiz do concílio de Trento como com os desejos intimamente e de muito tempo sentidos na Ordem mesma".


A idéia reformista, propriamente dita, não pertencia ao núcleo essencial da intuição nem de Santa Teresa nem de São João da Cruz. Ela somente se introduz em sua obra por intromissão do rei Filipe II que quis impor aos carmelitas sua própria reforma, instrumentalizando, para isso, a descalcez. Mas, visto por um ângulo mais largo, Santa Teresa é reformadora no sentido de ter colaborado para apontar à Igreja um caminho de fidelidade à sua própria missão. É assim, como reformadora, que a Igreja a vê. No âmbito minúsculo do Carmelo, ainda que tenha iniciado um movimento inicialmente com caráter renovador, Teresa passa a ser, mais que tudo, fundadora.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Fundações: Capítulos 6-8


Image

LIVRO DAS FUNDAÇÕES – I

Ficha IV

Fundações: Capítulos 6-8
“Praza ao Senhor dar-nos luz para entendermos coisas tão importantes e não nos falte com o seu favor para que, das mercês que nos faz, não tiremos ocasião de Lhe dar desgosto” (F 6,23).

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
Perguntas ao texto: - Que diz Teresa?
Capítulo 6: Embevecimento ao comungar.
1. – O que é o embevecimento e em que consiste?
2. – Qual a diferença entre embevecimento e oração de união e êxtase?
3. - Quais os casos de embevecimento que Teresa expõe e como os resolve?
4. – Que conselhos Teresa nos dá para ajudar a libertar do embevecimento?

Capítulo 7: Melancolia e conselhos às prioresas.
1. - Quais as razões que levam Teresa a falar deste mal? (F7,10)?
2. – O que é a melancolia e em que consiste?
3. – Quais os conselhos para remediar a melancolia?
4. – Que diz Teresa da piedade indiscreta?

Capítulo 8: Revelações e visões.
1. – Quais as formas inadequadas de acolher as visões e locuções?
2. – Quais as formas adequadas de acolher as visões e locuções?
3. – Como discernir a autenticidade de uma experiência sobrenatural?

Perguntas de meditação. - Que me diz o texto? Escolher um tema ou dois para a reflexão.

Temas de meditação. – Que nos diz a nós, hoje:
O embevecimento. – Reconhecemos a que a nossa natureza tem necessidades como o gozo sensível, o ser bem vistos, etc., que nos podem escravizar? – Quais os conselhos de Teresa que mais te tocaram em relação ao embevecimento?
A melancolia. – Na tua experiência, qual a enfermidade que te parece ser uma provocação à conservação do afecto fraterno? - A melancolia, segundo a descreve Teresa, a que desordem psicológica equivale? - Qual o remédio teresiano para tratar a melancolia, que mais te chamou a atenção e porquê? - O que é que mais custa para se livrar da piedade que Teresa menciona?
Revelações e visões. – Conheces casos de visionários (as) falsos? - Qual das formas adequadas de acolher os dons que mais te chamou a atenção?- Será que estas formas valem para o modo de acolhermos os dons das pessoas? – Poderias imaginar os traços de uma pessoa que acolhe adequadamente os dons de Deus e dos outros?

Celebração. - O que é que o texto me leva a dizer a Deus?
Formula a tua própria oração de petição, quer de libertação de “embevecimentos” quer de melancolias; ou de luz para acolheres os dons de Deus e partilhá-los.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Livro Fundações


A Editora Loyolla acaba de lançar livro “As Fundações – Leitura orante e missionária”. Autor: SCIADINI, Patrício



Um livro para ler com amor e entusiasmo, pois somos envolvidos nas aventuras teresianas, repletas de esperança, humor e espírito missionário. Hoje precisamos recriar uma evangelização que una a presença, a oração e a palavra. Neste livro de Teresa de Ávila, sentimos o sopro do Pentecostes, que continua a suscitar carismas novos a serviço de Deus e do povo.
(Vr.R$30,00,adquira-o através do Frei Antonio Perin: email. ajperim@gmail.com)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Humanismo teresiano – Homilia do P. Jeremias na Solenidade de Santa Teresa


Pelo seu modo de ser e de viver sempre se falou do humanismo teresiano. Tem-se apresentado Teresa de Jesus como uma mulher muito humano e respeitadora da dignidade humana e muito suave nas questões de penitências, das mortificações, mas o que não se tem feito é unir este humanismo Teresiano a uma corrente de pensamento que já estava muito espalhada na sua época… Ouçamos com atenção estas palavras que o P. Jeremias Vechina, Carmelita Descalço, proferiu na homilia da Solenidade de Santa Teresa.


Audio:

clique no link abaixo para ouvir a palestra na íntegra!