quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 22-23

Ficha de Trabalho: Caminho 22-23

ImageCaminho 22-25: “Começa a tratar da oração” II.
Convicção fundamental: a oração é sobretudo relação pessoal.

Pistas de leitura.

Depois de começar a tratar de oração pelas atitudes fundamentais, centra-se agora na convicção básica: a oração é sempre e sobretudo relação pessoal (“tratar de amizade”: V 8, 5); portanto, não é lógico pôr em confronto os diferentes tipos de oração, como faziam os “letrados”, mas sim que os diferente tipos ou métodos hão-de tender a essa mesma relação e podem inclusive complementar-se para isso.

- Que tipos de oração nomeia e define, pelo menos brevemente, nestes capítulos?
- Que relação existe entre eles? Em qual se centra, porquê e quais as suas exigências fundamentais?


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. “Não é razão que, por Ele ser bom, sejamos nós descomedidos” (22,4): revê, agradece…

2. “Porque, cá nesta terra, não se têm em conta as pessoas para lhes dar honras, por muito que as mereçam, mas sim suas fazendas…” (22, 4-5): de novo, revê, intercede, agradece…

3.Ao mesmo tempo que a Santa insiste na convicção fundamental , também reitera e concretiza aquela determinação-chave, segundo os capítulos anteriores: além do propósito firme de perseverar no caminho da oração (cap. 23, título), tem de se ser fiel a um tempo concreto e autenticamente dedicado a ela (23, 2). Portanto, revê…sem perder de vista, evidentemente, o parágrafo 23, 3).

4. A propósito dessa necessária determinação, insiste em três razões interessantes a favor:
- Razão de amor (23,1-3): “a quem tanto nos tem dado e continuamente dá”, vamos tirar-lhe esse pouquinho tempo dedicado à oração?
- De estratégia defensiva ascética (23,4): o demónio não se atreve com os determinados, mas sim muito com os inconstantes.
- De eficácia psicológica (23,5-6): como quem sabe que a batalha é de vida ou morte, que luta sem pensar na rendição (5a). E aqui, melhor, pois já foi dito que há sempre prémio (5b), como garante o Evangelho (6).
- Tens ou conheces experiências que te confirmem estas razões, particularmente as duas últimas? …

5.Embora a oração vocal possa parecer a forma menos interiorizada e interiorizante da oração, há pessoas e situações para as quais ela é imprescindível: entendimentos desenfreados (19,2); pessoas atemorizadas pelo ambiente (24,1); situações de bloqueio (24,4-5); e aqueles que Deus quer (por ex., 18,3; 19,2). – Qual a tua opinião? Tens experiência de algum destes casos? Pudeste ajudar alguém de um modo similar? Revê, ora…

6. A esta altura do tema, certamente está mais claro que a oração é, antes de mais, atenção ao Outro, relação com Ele. Portanto, não se pode reduzir a repetir palavras mecanicamente; a isso contribui a soledade que a oração exige sempre (24,4): não só apartamento, mas sobretudo recolhimento, estar concentrados no Amigo: “Este tipo de soledade (.) será possível e exercitável em plena reza de grupo [também e especialmente na liturgia], na medida em que a atenção aos outros não interfira nem obnubile o primado da atenção a Ele”2. Reflecte, revê, ora…

7. Não obstante o anterior, há quem diz não poder rezar senão vocalmente, como desculpa para se poupar ao esforço, ao hábito de se recolher (24,6). Uma vez mais, revê, ora…

8. No cap. 25, a Santa Madre define claramente os três tipos de oração dos que tem vindo a tratar em todo este conjunto, e também a sua relação, a possibilidade de passar de um a outro: tens experiência de alguma coisa assim?…

Ficha de Trabalho: Caminho 19-21

Ficha de Trabalho: Caminho 19-21

ImageI. Atitudes fundamentais: desejo e “muito determinada determinação…”

Pistas de leitura.
“Começa a tratar da oração” (cap. 19 título)1:
- Algo excelente e muito desejável (19): a) excluindo desde o principio um certo tipo de oran-te e de oração e, em vez disso, centrando-se noutro: quais e por quê? b) Destacando três grandes propriedades daquela: reparar bem nelas.
- A ela estamos todos convidados e a todos devemos de arrastar (20): por quê e como.
- Mas, não obstante, requer uma “muito determinada determinação” (21), pois o caminho está cheio de “trabalho e contradição” (19,14): quais são aquela e estes?

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Revê cada uma das três grandes propriedades que a santa atribui à oração: tens experiência de alguma? Recorda, agradece…

2. Para aprofundar: “com que sede deseja ter esta sede!” (19,2); não há oração contemplativa de verdades a secas, mas a entrada na contemplação desperta e desvela o amor, os desejos, o sen-tido de Deus e a pulsação de infinito que late, adormecida, no espírito humano. A contemplação é um derivativo de todo o ser do orante, que se vai sentir convidado à presença de Deus e requerido de amor2.

3. Teresa alude nestas páginas ao muito que ajudaria para a oração “saber as propriedades das coisas” (19,3), ter conhecimentos científicos: que te parece? Aconteceu-te alguma vez?…

4. Há um sério perigo entre tanta riqueza: a indiscrição no desejo e as penitências… ocasiões em que será preciso que interceptar aquele (19,10.12) e “limitar o tempo de oração, por gostosa que seja” (19,13): conheces algo assim. Concordas? Revê, ora…

5.Entende-se bem porque o capítulo 19 não contradiz o 17? Cf. 20,1-3.

6. No cap. 20 a santa insiste reiteradamente no trato e linguagem que hão de ter aqueles que vão a caminho da fonte de água viva da contemplação. Aprender essa língua. Ensiná-la. Não equivocar-se passando a usar a que se fala no mundo3: este é o verdadeiro amor aos outros (4), a sua liberdade (5) e apostolado (6); cf. Ficha cap. 6-9, questões 4 e 7 e, si não se tratou então, faça-se agora.

7. “Há alguns espíritos tão engenhosos que nada os contenta” (21,3), apesar de que o melhor e mais simples é centrar a oração no Evangelho (cf. 21,4): pensa, revê, ora…

8.Achas que são actuais os medos com os quais se ameaçava os orantes (cf. sobre todo, embora não só, cap. 21)? Haverá alguma outra dimensão fundamental da vida cristã, além do exemplo da oração, sujeita a semelhantes pressões no nosso contexto actual?4

9. Sea respeito à oração o a outra dimensão fundamental da vida cristã, conheces experiências do “grande bem” descrito em 21,9? Recorda, agradece…

10. A importância da comunhão com a Igreja, para a santa está fora de questão (cf. 21,10), mas isso não evita que critique as proibições de livros espirituais (21,3; CE 36,4) ou a obrigatoriedade do latim na liturgia, com a ininteligibilidade que supunha para a maior parte dos fiéis (cf. 24,2). Como vivemos esta tensão entre fidelidade e espírito crítico?

11. A santa madre atreve-se a qualificar a opinião dos letrados e inquisidores como “opinião do vulgo” e, mais ainda, as suas vidas como não conformes à de Cristo (21,10): Que te parece? Como justificar afirmações tão atrevidas?


1 “Desta última – da oração – disse-se pouco [ao leitor]. Mas, quase sem se aperce-ber, emaranhou-se uma e outra vez na oração de Teresa. Desde o capítulo primeiro sabe perfei-tamente como ora esta mulher. Orou com ela: ‘Oh, redentor meu, que é isto que se passa agora com os cristãos…’. Assistiu aos seus solilóquios. E, pouco a pouco, apercebeu-se que ela tem um modo de orar distinto. Em exclamações explosivas, em atitudes de assombro perante o mistério de Deus presente nas coisas e na história. Tal como quando pede ou intercede como quando louva, bendiz ou diz galanteios ao Senhor. É assim que ora uma contemplativa. E precisamente dessa maneira de orar vai falar agora”: T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa com su Camino de Perfección, Monte Carmelo, 112-113.

2 Ibidem, 114.

3 Ibidem, 119. Aflora assim “outra grande ideia do livro: todos os grupos de oração fazem algum apostolado da oração. Não se fecham sobre si mesmos. Possuem uma ‘linguagem’ comunicante. e sabem que todos estão chamados à fonte”: ib. 125.

4 Trata-se “de uma constante na historia da espiritualidade cristã, da tensão confli-tuosa entre acção e contemplação; ou, melhor, da resistência da acção à contemplação; pugna e incompreensão dos homens de acção contra os orantes contemplativos. Uma tensão que com alternativas pendulares de maior ou menor azedume, se repete desde o episódio evangélico de Marta e Maria até nós e até ao nosso clima de ‘aggiornamento’ pósconciliar (…) [A santa] condena isso tudo com uma sentença terminante que julga toda aquela situação: esses, os que retiram livros e atacam a oração dos contemplativos, “fogem do bem, para se libertarem do mal. Nunca vi invenção tão ruim. Bem parece do demónio!” (21,8). Tal e qual. Cada vez que na Igreja pre-valece o medo ao mal sobre o amor ao bem produz-se essa fuga fatal: fugir do bem para se livrar do mal. Unidade de medida que tem alcance muito maior do que pensou Teresa nesse momento”: ib. 127-128.130.

5Ibidem, 151.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Leitura espiritual do poema "Nada te perturbe"




Em homenagem ao aniversário de nascimento de Santa Madre, publicamos a tradução de um texto de Tomás Alvares.

Fonte: Revista "Teresa de Jesús", n. 109
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Parece quase supérfluo fazer a apresentação do poema da Santa. Quem não o conhece? Nós o lemos de sua própria letra, catamo-lo, sussurrando sua música de seda. Tantas vezes repetimos seus versos em grupos de oração, abrindo espaço ao silêncio de todos. Em momentos difíceis o oferecemos ao amigo: veja que tudo passa! Nada te perturbe, dizia Santa Teresa. Deus está acima de tudo...

É tão breve o poema que apenas ocupa espaço. O reproduzimos uma vez mais, para lê-lo pausadamente e debulhar um a um a espiga de seus versos:

Nada te perturbe,

nada te espante,

tudo passa,

Deus não muda,

a paciência

tudo alcança.

Quem a Deus tem,

nada lhe falta.

Só Deus basta!

Como ler o poema? Como entendê-lo e apropriarmo-nos dele? Será um salmo sapiencial, de corte gnômico, como pretendem os entendidos? Ou um salmo íntimo, como certos poemas do saltério bíblico, que convidam a própria alma a prorromper em determinados sentimentos? Por exemplo, "Louva, minh'alma o Senhor, e todo meu seu ser Santo Nome".
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Se é um breve salmo sapiencial, deve ser lido deixando-o flechar-nos na alma como um dardo de cada verso, carregado de ressonâncias, que a partir de cada sentença, nos devolvem às sendas da própria vida, sendas às vezes tortuosas, às vezes encrespadas ou espinhosas.

Se, ao invés, é um salmo íntimo, nos introduz na alma da autora, que vai dizendo a si mesma: "Teresa, que nada te perturbe"...

São duas leituras possíveis, ou dois ensaios de escuta diante da melodia de cada verso. Pessoalmente, prefiro a segunda.

O "nada te perturbe" é uma fineza em solidão. Teresa escreve seu poema a sós. Como fazem sempre ou quase sempre os poetas líricos e os místicos. É certo de que ela não compõe estes versos como um bilhete de envio para convertê-los em missiva espiritual para alguns de seus amigos. Mas os compõe como uma vivência a mais, ou como um simples balbucio da alma.

Em primeiro lugar, Teresa não costuma dirigir-se a seus amigos com o "tu". Nem sequer à sua irmã Juana ou à sua sobrinha Teresita. Basta ler as cartas que lhes dirige. A Teresita, por exemplo: "... filha minha, muito me alegrei com sua carta e de que lhe dêem contento as minhas." A Teresa, trata-a com o "tu" a voz interior: "Teresa, não tenhas medo"; "não te metas nisso", etc. Porém, nesse diálogo, ela é a destinatária do "tuteio".

Ela, por sua vez, só usa a segunda pessoa falando consigo mesma. Ou melhor, quando ela fala à Teresa profunda: "tu, alma minha, por que estás triste?"

Teresa é capaz desse estranho desdobramento de personalidade que lhe permite falar com o tu de si mesma. Exatamente com seu tu interior. Ela tem densa interioridade. Falando do "castelo de sua alma", não diz ela que se parecia com um castelo cheio de moradas? Está convencida de que, nessa densidade da alma, é-lhe possível enviar mensagens (ou clamores) a partir das moradas superficiais até a morada central do castelo. Porque o tu mais identificado com ela reside aí, no centro do castelo. Pois bem, aí, no fundo, nasce seu poema: "Teresa, que nada te perturbe".

À parte essa chave literária ou estilística, há também outra razão puramente espiritual, para propor a leitura do poema como um murmúrio da intimidade. Teresa já tinha vivido muitas coisas na vida. Em seu drama interior, porém, aconteceu-lhe algo tremendo, que a tomou de sobressalto. Foi o encontro repentino com uma Presença interior que a transpassa e a desborda. Essa Presença novidadeira a desconcerta de tal sorte, que prontamente surge, em seu interior, uma voz capaz de sedar toda a onda. A voz interior lhe diz: "Não tenhas medo, Teresa". Referendado pelo tremendo "Eu sou" da Bíblia. Exatamente estas três palavras: "Não tenhas medo, filha, que Eu sou, e não te desampararei" (Vida 25,18).

Esse "não tenhas medo, filha" não seria o ponto de arranque de sua inspiração poética e mística? No Livro da Vida, Teresa o comenta assim: "Parece-me que, segundo estava, eram mister muitas horas para persuadir-me a que me sossegasse, e que não bastaria ninguém. Hei-me aqui sossegada só com estas palavras, com fortaleza, com ânimo, com segurança, com uma quietude e luz, que em um segundo vi minha alma transformada... Oh, que bom Deus!" (ib).
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Pois bem. Sabemos que os autênticos poemas líricos, uma vez criados, tornam-se autônomos, têm vida própria, independentes da vontade do autor que os compôs. E que por isso, são polivalentes ou polissêmicos. Cada leitor pode escutá-los livremente: ou como uma voz em que Teresa excepcionalmente o chama de tu: "a ti, leitor, que nada te perturbe"... ou pode sentir-se convocado a esse misterioso ambiente em que sucedem muitas coisas à autora, e ele a escutará dizendo-se a si mesma: "Teresa, que nada te perturbe! 'Eu sou' está contigo!"

Não esqueçamos. Teresa é uma contemplativa. Nutre-se de palavra bíblica. Através de suas meditações, tantas palavras bíblicas ficaram presas às cordas da harpa interior.

Em nosso poema, o certo é que cada verso resulta ser um anel enfeitado de palavras bíblicas que ela passou tantas vezes do livro aos olhos, dos olhos à alma.

Nós, leitores de seu poema, podemos rastrear o eco dessas vibrações. Sem pretensões de erudita busca literária. Senão como prolongações de onda na vivência espiritual de Teresa orante ou de Teresa poeta.

O primeiro verso - nada te perturbe - é claro eco da palavra de Jesus ao amedrontados discípulos, momentos antes da Paixão: "Que o vosso coração não se perturbe" (Jo. 14,1).

O segundo verso - "nada te espante": não fala de susto, senão de assombro. Basta recordar qualquer outra passagem teresiana: comovia-se-lhe de gozo a alma, "espantada da grande bondade e magnificência e misericórdia de Deus" (V. 4,10). Também é ressonância do assombro dos discípulos diante dos gestos taumatúrgicos de Jesus: "Isto vos amedronta? Como estareis admirados quando vereis o Filho do Homem subir para onde antes residia!" (Jo. 6,63).

O verso "tudo passa", que materialmente remete á consigna do filósofo grego, também é eco da palavra de Paulo: "passa este mundo" (1Cor. 7,31), ou as palavras de Jesus: "céu e terra passarão" (Mt. 34,25), seguidas da eterna vigência da palavra de Jesus - "minhas palavras não passarão" -, que dá passo à sentença do verso seguinte.

"Deus não muda". Sim, o Senhor e sua verdade permanecem para sempre (Sl. 116,2). Para Teresa, a fidelidade de Deus na amizade ("ele é amigo verdadeiro") contrasta com a versatilidade das amizades humanas: "Vós sois o amigo verdadeiro. Todas as coisas faltam. Vós, Senhor de todas elas, nunca faltais..., que já tenho experiência da ganância com que atraís a quem só em Vós confia" (V. 25,17). Trata-se de uma antecipação do último verso do poema.

"A paciência tudo alcança"... Jesus dizia aos discípulos anunciando-lhes as perseguições: "com vossa paciência possuireis vossa vida" (Lc. 21,19). O versículo final - "só Deus basta" - é a palavra lema dos contemplativos. Trata-se do "só Deus" de São Bernardo ou do irmão Rafael. "A sós com O só" será o lema teresiano para as jovens pioneiras do Carmelo de São José.

Os três absolutos do poema são estes:

nada, nada, nada

tudo, tudo

só Deus!

Três nadas, dois tudos, um único só Deus.

É possível que a dose balsâmica e sedante que do poema impregna o leitor, deva-se à cadência dos dois versos finais, com sua assonância em a-a: "nada lhe falta / só Deus basta". Assonância suavemente introduzida nos versos anteriores: "tudo passa - tudo alcança".

Porém, sem dúvida, mais forte que essa cadência musical, é o medular e absoluto da mensagem que nos chega através do poema, com sua alternância de tudos - nadas - só Deus. Três vezes nada. Duas vezes tudo. E uma só vez, porém fechando o poema, no verso final: "Só Deus!" e ponto O "só Deus" e basta. Se o poema era um sedante psicológico, acima da psicologia prevalece a teologia da contemplativa e mística que é Teresa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 16-18



ImageCaminho 16-18: Requisitos para ser contemplativas: Humildade III.

Pistas de leitura.
Estes capítulos são a anotação final ao bloco das virtudes e à humildade (cap. 4-18)1 e, não obstante, começam tratando da excepção à regra que justifica esse bloco: “como é possível algumas vezes elevar Deus uma alma distraída [pouco virtuosa] à perfeita contemplação e a causa disso” (cap. 16 título; cf. p. ej. 4,3; 16,1-3); por tanto, é preciso averiguar qual é essa causa e como tem que responder a pessoa agraciada.

Finalmente, os cap. 17 e 18 recomendam um último e surpreendente exercício de humildade: desapego até da mesma contemplação! Em que sentido? Implica isto que só orem as que se sintam contemplativas? Que outros exercícios leva anexos este desapego recomendado?


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. “Algumas vezes” (16,2), inclusive “com muitos” (16,5), Deus inverte a ordem habitual (virtudes  contemplação) e “as prova para ver se com aquele favor elas se querem dispor para O gozar muitas vezes” (16,8). Evidentemente, a este tipo de excepção à regra pertence o caso da mesma santa (cf. V 38,1; Ficha cap. 4-5, questão 3). Conheces outras experiências assim? Recorda, agradece…

2. Como responder a uma graça deste tipo? Fazendo os exercícios de humildade já vistos: não desculpar-se (16,6), sofrer “uma pontinha de ser tido em menos” (16,11), ou seja, pôr os olhos n’Ele (16,7). A maior parte destas repetições têm tom exclamativo e orante: Teresa não acaba de entrar directamente no tema da oração (cf. nota 1) e, contudo, começa a custar-lhe conter-se; cf. 16,3.4.6.7 e vê o contraste com a tua forma de orar; és assim espontâneo, autêntico, cristológi-co…?

3. Outro parágrafo para nos determos e pensar, rever, orar… pois põe bem de manifesto que a humildade teresiana não tem nada a ver com a pusilanimidade, muito pelo contrário: “Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita dizer: não somos anjos, não somos santas. Olhai que, embora o não sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçamos, o poderemos ser, dando-nos Deus a mão; e não tenhais medo que falhe por Ele, se não falharmos nós. E porque não viemos aqui para outra coisa, mãos à obra, como dizem: não vejamos coisa em que se sirva mais o Senhor, que não presumamos sair bem dela com o seu favor. Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda os fortes e não faz acepção de pessoas” (16,12).

4. Deus não só mostra o seu senhorio dando a graça da contemplação a quem não a procurou, mas também não a dando a quem o fez e cultivou bem as virtudes; por isso, a santa Madre pede para exercitar a humildade inclusive acerca das próprias expectativas: “De como nem todas as almas são para contemplação e como algumas chegam a ela tarde” (cap. 17 título). A primeira coisa a fazer é não deixar a oração com a desculpa de que em tudo podemos encontrar o Senhor ou que tudo é oração (cf. 17,6 e 18,3-4). Pensa, revê, ora…

5. Por tanto, é preciso perseverar na oração, embora seja nas suas formas mais ‘pobres’ e simples (17,3; 18,4): revê, agradece…

6. É preciso também servir com alegria (17,1.5-6); consolar-se porque a falta de contemplação não impede a perfeição (17,2.4.6), mais ainda, é caminho muito meritório (17,4-7) e, enfim, se se persevera, pode acontecer, embora pareça tarde (17,2.7; 18,4); evidente, não murmurar das con-templativas (17,5; 18,5) e, decididamente, ser fértil nas virtudes tão encarecidas nestes capítulos, em vez de procurar consolos espirituais (18,9). De modo que, atender a cada coisa, rever, orar…

7. Se Deus actua assim (cf. questão 4), parece que não há métodos, nem técnicas de oração que possam garantir que se alcançará a contemplação: Concordas?, porquê? Achas que há métodos que se julga serem infalíveis?...

8. E que dizer destas aparentes contradições: é “algumas vezes” (16,2) ou “com muitos” (16,5)? ”Dá a cada um o seu ofício” (18,3) ou “não deixará de dar se é de veras o desprendimento e humildade” (17,7)?

9. Uma ideia para se ter bem em conta: “Quanto maiores são os trabalhos dos contemplativos” (cap. 18 título); de facto, contemplação igual a “trabalho disfarçado com gostos” (18,4).

10. Concluindo, mais virtudes, muito, muito especialmente obediência (também para os que não estão obrigados por um voto religioso!: 18,8), que gostos espirituais (18,7-9): revê, ora…

segunda-feira, 7 de março de 2011

Rezar Bem – Rezar mal Doze avisos de Madre Teresa de Jesus

Perguntar a Santa Teresa como ela distingue “rezar bem” de “rezar mal” é fazê-la recordar sua própria experiência. Um momento dolorido de sua vida de oração. Essa pergunta perseguiu-a anos e anos. Como uma questão decisiva, encravada nas entranhas de sua vida cristã.

É certo que, em seu caso, interferiram vários fatores agravantes. De imediato, a oração cresceu de forma envolvente e admirável. Tão alarmante que a obrigou a fazer-se a pergunta em termos decisivos: É o Espírito de Deus que reza em mim ou é outro espírito.... ou são certos recursos obscuros de fundo psicológico...? Outro agravante proveio do medo que lhe inculcaram seus conselheiros teólogos. Os homens de sua época, em surdina, tinham sempre o medo da Inquisição. E não apenas o injetaram em Teresa, mas induziram-na a outro tipo de medo, o de precisar abandonar a oração após vinte anos de fidelidade ao Senhor (Vida 23,12). Um medo — disse ela — que teria sido suficiente para fazê-la perder o juízo (Vida 28,18). Mas que, afortunadamente para nós, obrigou-a a pegar a caneta e repensar seu caso sobre o papel, para analisá-lo e dizer-nos em que consiste rezar bem e rezar mal.

Uma de suas primeiras e fortíssimas reações foi esta: Medos, não! Dito e redito aos semiteólogos e semiletrados de todos os tempos: “Não façam nenhum caso dos medos que lhes inculcarem nem dos perigos que lhes pintarem...” (C 21, 5).

Ouçamo-la, agora. Respigando nos montes de “avisos e conselhos que Madre Teresa dá às suas irmãs e filhas”, vamos recolher apenas doze conselhos. Começando pelo mais elementar:

1. Orar bem é rezar bem.

“Eu sempre porei a oração mental junto com a vocal. Não estejas falando com Deus e pensando em outras coisas. Quando digo creio, parece-me que a razão entende e sabe o que creio. E quando digo Pai-nosso, amor será entender quem é o Pai-nosso e quem é o mestre que nos ensina esta Oração” (C. 22,3.8; 24,2). Não se pode falar com Deus e com o mundo, que não é outra coisa que estar rezando e, por outro lado, escutando o que estão falando ou, sem mais, pensar no que se lhes oferece...” (C. 24, 4).

2. Rezar bem é... pensar bem?

Rezar... não é filosofar, nem apenas meditar. A coisa não está em pensar muito mas em amar muito. Assim, façam o que mais os despertar a amar” (M. 3,4;1 ,7). “Nem todas as imaginações são, naturalmente, hábeis para pensar, mas todas as almas o são para amar...” Claro, entendo bem de “amar”: porque “o aproveitamento da alma (na oração) não está em pensar muito, mas em amar muito. Como se adquirirá esse amor? Determinando-se a amar e padecer e fazendo-o..sempre que a ocasião se apresentar” (F. 5, 2-3).

3. Oração boa é...

A que se funda na verdade e na escuta da Palavra bíblica. Porque... “espírito que não esteja fundado na verdade, eu o quereria mesmo sem oração. Tendo chegado às verdades da Sagrada Escritura, fazemos o que devemos: Deus nos livre de devoções tolas” (V 13,16). “Eu sempre tive afeição pelas palavras dos Evangelhos, que me levaram sempre a maior recolhimento do que livros muito bem redigidos...” (C. 21. 4).

4. Não há oração cristã..., sem Cristo nela.

Para o orante, Ele é mestre e Senhor... “Deste Senhor nosso, nos vêm todos os bens. Ele nos ensinará; o melhor modelo é contemplar sua vida. O que podemos querer mais que tal amigo ao lado? Vi claramente que Ele é a porta por onde entrar, se quisermos que Deus nos revele grandes segredos” (Vida, 22. 6-7). “Eu quereria ter sempre diante de mim seu retrato ou imagem, já que não posso trazê-lo em minha alma tão esculpido quanto eu gostaria” (22, 4). É importante “acostumar-se a enamorar-se muito de sua sagrada humanidade, trazê-lo sempre consigo e falar com Ele..., sem procurar orações já prontas, mas palavras conforme seus desejos e necessidades” (12, 2). “Põe os olhos no Crucificado e tudo parecerá pouco” (M. 7, 4, 8).

5. Não deformar o rosto de Deus

Deus é amor. Na oração é amigo presente. “Faz tudo como queremos... Não é nada frágil o meu Deus, não olha para ninharias... Para corresponder é tão minucioso, que não devemos ter medo de que ele deixe de recompensar um simples alçar de olhos acompanhado da lembrança Dele” (C 23, 3). “Palavras e tratamentos rebuscados para Ele nada significam. Mesmo que não saibamos falar com Ele, não deixa de ouvir-nos ou de permitir que nos aproximemos dele... Este Rei gosta mais de um pastorzinho humilde e rude que vê que se mais soubesse mais diria, que dos muitos sábios e letrados por mais elegantes que sejam os raciocínios que fazem se não os fazem com humildade” (C. 22, 4).

6. A oração não é coisa cômoda.

Não existe sem cruz. “Prazer e oração não se harmonizam” — não são compatíveis (C. 4. 2). “É um disparate pensar que Ele admite à sua amizade estreita pessoas que só buscam o prazer sem trabalho” (C 18,2). Mesmo as altas formas de oração, as dos orantes contemplativos, “tenho como certo que são para fortalecer nossa fraqueza. para poder imitar Custo em seu sofrimento” (M. 7. 4,4). Quem vai á oração pelo gostinho da oração mal encontrará o caminho da oração: “a oração não é para gozar, mas para dar forças para servir” (idem 12).

7. Não há oração boa que não comprometa a vida.

“Obras, irmãs, o Senhor quer obras! E que, se vemos uma enferma a quem podemos aliviar, nos compadeçamos dela e. se tem alguma dor, doa também a nós, e se fazemos jejum que seja para que ela coma... Quando vejo muitas pessoas preocupadíssimas em entender a própria oração e cabisbaixas quando estão rezando, que não ousam mexer-se ou menear a cabeça para que não lhes fuja o pouquinho de gosto e devoção que tiveram, dou-me conta do pouco que entendem do caminho da oração... E pensam que tudo está ali! Não, irmãs, não: o Senhor quer obras” (M. 5. 3, 11).

A um amigo íntimo ela fazia a seguinte distinção entre rezar bem e rezar mal, entre a oração pior e melhor: “A oração mais bem aceita e acertada deixa melhores efeitos...; chamo “efeitos”, confirmados por obras” (carta a Graciano. de 23 de outubro de 1576). Entendes, não é? Os “efeitos” da oração são as obras e virtudes da vida cristã.

8. A boa oração não é flor do invernadouro,

nem apenas da capela. Seria difícil suportar que apenas em lugares afastados se pudesse rezar. O verdadeiro amante ama em qualquer lugar e se recorda sempre do amado... (F 5,16). No lugar em que vives, na rua, no trabalho... aí se há de mostrar o amor, não nos esconderijos. mas nas ocasiões propicias. E se for na cozinha, entenda que o Senhor está entre as panelas, ajudando-nos interior e exteriormente (F. 5, 8.15).

9. Obras... e coerência de vida com o que rezas

“pois se não procuramos as virtudes e não nos exercitamos nelas, permanecemos sempre anões (na oração)”. (M. 7,4.9). Por isso, se te interrogas sobre rezar bem ou rezar mal, examina-te no amar aos outros, na pobreza com que vives e na humildade que tens. Esta é a verdadeira prova da autenticidade da oração: que as obras estejam de acordo com as palavras, e que aquilo que não puderes pôr junto o faças pouco a pouco: e que vás dobrando tua vontade se queres que a tua oração seja proveitosa (M. 7, 4, 7).

10. Na oração não limites teus desejos...

Não há oração cristã que produza pessimismo. Ela não existe sem aumento da esperança. O orante é pessoa de grande confiança. “Convém-lhe não limitar os desejos... Deus é amigo de ânimos corajosos. Não vi nenhum destes ficar por baixo neste caminho. Nem vi nenhuma alma covarde que caminhe em muitos anos o que estas caminham em poucos. Espanta-me muito como este caminho de oração dá ânimo para grandes coisas... Eu, nisto de desejos, sempre os tive grandes” (V 13, 2-6). A oração é um elevador dos ideais: “importa muito, aos princípios da oração, não desanimar os pensamentos. Porque “ajuda muito ter altos pensamentos (grandes ideais e projetos) para que nos esforcemos a que o sejam também as obras” (V 13,7; C 4,1).

11. Não confies em tua oração se...!

Radicalismo evangélico. A oração cura o coração. Limpa-o de ressentimentos e rancores. E de outras ervas daninhas que envenenam a convivência fraterna. “Não confies muito na oração de uma pessoa que não sai da oração determinada a perdoar qualquer injúria — não as ninharias que chamamos de injúrias — por mais graves que sejam” (C 36,8).

12. A prova dos nove?

A humildade! Não há oração sem humildade. Já disse Jesus no Evangelho. Porém, que seja verdadeira humildade. “Ser humilde é andar na verdade...” “diante de Deus e das pessoas, especialmente não querendo que nos tenham por melhores que somos e, em nossas obras, procuremos dar a Deus o que é seu, e a nós o que é nosso ... Procuremos em tudo a verdade...” (M 6.10, 6-7). ‘Tenho por maior graça do Senhor um dia de conhecimento de si mesmo, ainda que nos tenha custado muitas aflições e trabalho, que muitos dias de oração” (F. 5,16). Porque isto do conhecimento de si nunca se há de deixar nem há alma tão grande no caminho da oração que não deva muitas vezes voltar a ser criança.., e nunca se esquecer disso (V 13,15).

Por fim, para tomar o pulso da oração. Teresa recomendaria o tipo de relações que. a partir dela, tens com Deus e com os outros. A Ele podes dizer de verdade “Pai-nosso” e “faça-se a tua vontade?” Porém, atenção, pois “de tal maneira podemos dizer uma vez esta oração que como Ele entenda que ainda somos dissimulados, que a não ser que façamos o que dizemos, nos deixe ricos! Como é muito amigo, tratemos de verdade com Ele. Tratando-o com simplicidade e clareza... sempre dá mais do que lhe pedimos” (C 37,4). O mesmo deverá ocorrer com Cristo. És capaz de dizer-lhe: “Que bom amigo és, Senhor ou: “Caminhemos juntos, Senhor: por onde tu fores tenho de ir..”? Em relação aos outros talvez o melhor parâmetro de saúde boa em tua oração seja a alegria de que se cresce diante do bem, o que alcançam e a boa sorte deles. E a bem-aventurança de que os outros sejam melhores, “e se vires louvarem muito alguém. te alegres muito mais que se louvassem a ti... A alegria de compreender o bem dos outros é grande coisa, e quando virmos alguma falta neles, sentir como se fosse própria e encobri-la. (M. 5, 3.11).


Enviado por Frei José Claudio, ocd

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sobre o "Caminho de Perfeição" de Santa Teresa

Sobre o "Caminho de Perfeição" de Santa Teresa

"Um dos aspectos da originalidade carismática da Santa está precisamente nessa sua disponibilidade pessoal, que a leva a manifestar às demais, com simplicidade e sinceridade, sua própria experiência e que, com seu exemplo as estimula, suscitando nelas o desejo de encaminhar-se por um caminho que leva a tais alturas.

A missão de Teresa em meio às suas filhas consiste em ajudá-las a viver, cada uma de modo personalíssimo e irrepetível, sua própria experiência. É este um elemento básico que nenhuma análise histórica, nem teológica poderá fazer-nos perceber exatamente. Poderemos recolher todas as palavras da Santa que chegaram até nós, poderemos catalogar muitíssimos testemunhos contemporâneos, porém, nunca chegaremos a conhecê-la tão profundamente como uma destas jovens que tiveram a dita de conviver com ela vários anos.

A vida se transmite vivendo e a convivência vai ampliando cada vez mais esse conhecimento pessoal que logo se torna difícil de traduzir em princípios ou transmitir a outras pessoas. Sem dúvida, ainda tendo em conta esta limitação de nosso conhecimento histórico, todo esforço por aproximar-nos o mais possível à realidade de São José de Ávila está justificado.

A Santa, pois, ainda que sempre tenha presente o fim, que para todas é o mesmo, trata de ensiná-lo a cada uma segundo sua capacidade. Cada alma que chega a este mundo tem que viver sua aventura a sós com Deus, combatida pelo demônio e o amor próprio. É um caminho que começa com o batismo e não termina até a morte, sempre em busca de Deus. E, como cada uma tem seu amor próprio e o demônio não coloca para todas os mesmos tropeços, a habilidade da guia consiste em saber indicar a cada uma qual é o seu caminho.

A Santa procura ajudar a suas novas companheiras com todos os meios a seu alcance, fazendo-lhes compreender que o agente principal é Deus, cuja ação misteriosa escapa ao alcance de nosso olhar, mas que necessita também de nosso esforço e nossa colaboração, pois, ainda que possamos ajudar pouco, podemos estorvar muito.

Aquelas jovens logo compreenderam que a experiência e a sabedoria da Madre Teresa eram algo fora do comum e para evitar que o tempo ou a ausência da Madre as privasse desse tesouro, pediram-lhe que pusesse por escrito tudo isso que costumava dizer-lhes. E assim nasceu o Caminho de Perfeição (1566):
“Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às irmãs religiosas e filhas suas”.

Como se dissesse: isto é o que eu costumo dizer-lhes nas reuniões de comunidade, nas conversas particulares com elas, cada vez que se apresenta uma circunstância ou ocasião oportuna. E o livro se converterá rapidamente em um prolongamento da presença da Madre entre suas filhas. Não será mais um livro de teorias, senão uma experiência vivida que se transmitirá com eficácia a quantas almas se aproximarem dessas páginas com ânimo aberto e desejoso de aprender. Enquanto viver a Madre, ela as ensinará; depois que morrer, o livro continuará recordando seus ensinamentos.

E efetivamente, nas comunidades que irão surgindo, ainda depois da morte da Santa, ela será considerada a verdadeira mestra de noviças: à noviça entregarão seus escritos e a mestra titular se sentirá só uma ajudante da Santa, com a missão de esclarecer os pontos mais difíceis que a noviça não conseguir entender por si mesma.

Este aspecto, fundamental para compreender o Caminho de Perfeição em toda sua transcendência para a vida do Carmelo Teresiano, moveu alguns ultimamente a chamá-lo “O Evangelho teresiano”, pondo em relevo que, como o Evangelho leva-nos ao conhecimento da Pessoa de Cristo, o Caminho de Perfeição tem que nos levar ao conhecimento da pessoa da Madre Teresa.

Tendo, pois, em conta, que na eficácia do livro tem tanta ou mais importância a pessoa da Madre Teresa que suas idéias, recordemos quais são as linhas mestras do livro, as idéias básicas sobre as quais gira o magistério teresiano em seus primeiros anos de São José de Ávila, o que – em uma palavra – a Santa quer que suas filhas não esqueçam nunca:

Reuniram-se em uma casa pobre, despojada de luxos supérfluos, poucas em número, como em um colégio apostólico, para corresponder ao amor do Senhor, ir crescendo em sua amizade e poder assim negociar mais eficazmente com Ele em favor de seus irmãos. A Igreja inteira, em especial o sacerdócio, será o objeto de suas conversações com o amigo Deus; suas preocupações e desvelos serão para as necessidades de todas as almas.

Caminho real para crescer na amizade com Deus é a vida de oração, que exige como condições indispensáveis: o amor do próximo, o desprendimento das coisas deste mundo – sobretudo de si mesmo – e a humildade, que é andar na verdade. Princípios, como se vê, claríssimos e que ninguém duvida em admitir. A dificuldade apresenta-se na hora de aplicá-los em circunstâncias concretas. É então, quando o demônio e o amor próprio desempenham seu papel, traindo a alma. É amor do próximo dizer sim, ou dizer não? É desprendimento próprio defender-se, ou calar? É humildade deixar que nossos talentos fiquem esquecidos, ou fazê-los reluzir porque humildade é andar na verdade? Responder a estas perguntas não é tão simples, e assim se explicam as digressões da Santa em seu livro.

Cada vez que se recorda de um detalhe da experiência pessoal ou alheia, escreve-o sem preocupar-se demasiadamente se seu lugar mais indicado é aquele ou outro, com a esperança de que quando suas irmãs se encontrarem em circunstâncias semelhantes, recordem-no e tirem proveito. As idéias fundamentais serão sempre as mesmas, as aplicações práticas são ilimitadas; cada pessoa é diferente das demais e os dias não são todos iguais. Assimilando esse tesouro de experiência, no momento oportuno sentir-se-á sua utilidade.

Levando a sério estas orientações da Madre, muito cedo as filhas de Teresa vêm-se livres de toda preocupação terrena e das exigências do amor próprio. Reconhecendo cada uma o pouco que possui e o muito que lhe falta, ajudando-se mutuamente com delicadeza e sinceridade que sugere o amor verdadeiro, assimilam com alegria o clima de serenidade que irradia da Madre e sentem-se parte integrante do ambiente maravilhoso que se criou em torno dela.

A Santa, dito com outras palavras, sabe criar um ambiente no qual as almas vêm abrir ante seus olhos um horizonte ilimitado para o qual dirigir seus passos. (O noviciado teresiano mais que ensinar a praticar uma porção de coisas, abre uma porta, introduz em um caminho que vai durar a vida toda).

E esse horizonte é o trato de amizade com Deus, Pai que está nos céus; cujo nome se deseja santificar, sobretudo quando se experimentou a vinda de seu reino à alma; cuja vontade deseja-se cumprir, seriamente, não por costume, enquanto durar o breve “hoje” que é esta vida, acompanhadas e sustentadas pela presença de Jesus na Eucaristia, ainda que “tão disfarçado neste acidentes de pão e vinho, que é grande tormento para quem não tem outra coisa que amar nem outro consolo”; cujo perdão se alcança perdoando de verdade aos irmãos, não à força de penitências ou de boas intenções de reconciliação; e cujo auxílio é a única garantia segura contra os enganos do demônio vestido de anjo de luz, e para livrar-se de todo mal.

A segunda parte do livro é simplesmente um comentário do Pai nosso. Quem deseja viver vida de oração não pode buscar melhor caminho que o que Cristo mesmo nos ensinou.

O Caminho de Perfeição contém, como se vê, algumas idéias básicas, fundamentais, claríssimas. O que importa à Santa é que cada noviça que chega à sua casa, as vá assimilando e fazendo suas segundo sua própria capacidade, e empenhe-se em prosseguir avançando sempre por esse caminho com a ajuda de Deus, pois na realidade o noviciado não termina nunca."

Autor: Frei Ildefonso Moriones, OCD.
Livro: O CARMELO TERESIANO - Páginas de sua história - Ediciones El Carmen.
Tradução do original: Monjas do Mosteiro de São José, Jundiaí - SP, Brasil.
Fonte: http://www.ocd.pcn.net/hp_2.htm#3

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 12-15

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Caminho 12: Requisitos para ser contemplativas: Humildade II.
Pistas de leitura.
Continua com o desprendimento de si, e passa do tema do corpo ao da honra. Depois de recordar os fundamentos das mortificações que vai propor (12,1-3), centra-se nas mesmas e apresenta-as em escala ascendente: A] evitar os movimentos de maiorias (12,4-9); B] não só evitá-los, mas cultivar os de ‘minorias’ (13,1-4) e C] não só deixar-se culpar, mas aproveitar especialmente os casos em que não tiver culpa (cap. 15).

Como é lógico, em cada alínea expõe argumentos, meios, consequências… que poderemos investigar para aprofundar. Aliás, em tudo isto, aconselha que quem não puder cultivar estes costumes (salvo C): que saia (13,5-7) e/ou que a mandem embora (cap. 14); e assim facilita importantes critérios de discernimento vocacional.


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Aparece outra vez (cf. Ficha 2ª, questão 2), a distinção entre mortificação exterior (tão rigorosa no seu convento) e interior (trabalhar, contrariar a vontade) e, por tanto, a possibilidade de ter muito da primeira e nada da segunda (cf. 12,1)1. De facto, a clave não está em “entrar na religião…” (12,5). Que te parece este reconhecimento da chamada universal à contemplação (cf. 19,15)? E a particularidade, nesse mesmo parágrafo, de que para os religiosos resulta mais fácil?

2. O que Teresa descreve como movimentos de “maiorias” (12,4), parece-lhe ser o pior tóxico do mundo (12,7), porque cria bandos (12,8-9), diminui o mérito e causa enfraquecimento pessoal (12,9). Por tanto, vamos rever (cf. 12,4.8-9), orar… [Mais adiante deter-nos-emos na precisão da afirmação do parágrafo 12,5].

3. Ao verdadeiro humilde não se lhe poupa esta tentação, como anota sabiamente (12,4.6), mas sabe combatê-la interior (12,6) e exteriormente (12,7), tal e como esclarece nesses parágrafos. Uma vez mais, revê, ora…

4. Como indicámos nas pistas de leitura, a santa Madre propõe não só evitar os movimentos de maiorias (“de más razões livre-nos Deus! 13,1), mas cultivar os contrários: “quando vos fizerem alguma honra ou mercê ou bom tratamento, venham então essas razões…” (13,2). Sabe que deu um salto qualitativo e por isso as referências às motivações sobrenaturais, à imitação do Senhor e a Nossa Senhora, são constantes (13,1-3). Sem esquecer tão-pouco textos como V 31,15: Exercito essa “verdadeira razão” (CV 13 título)?, alimento essas motivações?... Cf. p. ex. Rm 12; Ef 4,1-6.25-32.

5. As advertências acerca do discernimento vocacional requerem muita atenção. Apesar do grande dano que implica “em dar começo a um mau costume” (13,4) )2, não inclui aí por exemplo “faltas na penitência e jejuns” (CE 19,5); isto é, não se trata de todos os maus costumes, mas dos que concretiza nesses parágrafos (CV 13,5-7; CE 19,5-20,1). E não exagera! (12,5.8): por muito habitual que fosse na sua sociedade e Igreja, “se há ponto de honra ou de fazenda”, não haverá contemplação (12,5). Levas a sério esses critérios e exemplos tão concretos? Levam-se a sério na tua comunidade ou grupo? Pensa, revê, ora…

6. A santa Madre dedica ainda um capítulo mais ao tema, no qual acrescenta alguns critérios a ter em conta: deve examinar-se bem a recta intenção da candidata e, sobre tudo, se possui bom entendimento (14,1-2) )3. Meios: “grande informação e longa provação… [e] liberdade para excluí-las” (14,2); portanto, não ceder a pressões sociais (14,3), económicas (14,4) ou de qualquer outro tipo: tens em mente mais algum? Claro que se devem aplicar aqui as mesmas interrogações que na questão 5.

7. O último exercício de desprendimento próprio, que propõe S. Teresa nesta secção (explícito no título: CV 15), é tão complicado que é preciso dissipar argumentos a seu favor, para ver que te parece cada qual: cristológicos (15,1.2.4-7), antropológicos (15,3), morais-espirituais (15,4.6a), apostólicos e ‘feministas’ (15,6b). E finalmente, práticos: o Senhor defenderá o ofendido e, sobretudo, “se começa a ganhar liberdade e tanto se vos dará que digam mal ou bem” de vós (15,7). Que grande liberdade! Tantos sofrimentos por causa da interpretação de um olhar, de uma palavra, por supostos prejuízos à minha auto-imagem! Não só nos custa deixar que nos culpem sem culpa, mas até costumamos desculpar-nos sem que nos culpem: quando se aponta algo negativo, antes de acabar, tantas vezes se atalha, ‘eu não fui’; pensa, revê, ora… Considerar, também, naturalmente, acerca das experiências positivas, quando acedemos ao convite da santa Madre a deixar-nos culpar.

8. “Estas grandes virtudes, minhas irmãs, gostaria eu que as estudássemos muito e fossem a nossa penitência, que em demasiadas penitências [físicas] já sabeis que vos corto…” (15,3). Embora se trate de uma ideia conhecida e certamente trabalhada (cf. questão 1), o parágrafo completo merece nossa atenção uma vez mais.


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1 Se não se considerou já, aproveitar agora: rever, orar…

2 Trata-se de uma pretensão elitista e/ou negadora da possibilidade de crescimento da pessoa? Além do texto atrás, cf. por exemplo: “Ainda que não seja logo com toda a perfeição” (13,6). “Não digo que seja tão completamente como nas outras, mas que se entenda que vai cobrando saúde, pois logo se vê quando o mal é mortal” (13,7).

3 Que te parece?: “a todas [as monjas que entrarem] toca porventura mais parte num mau costume que pusemos, que em muitas virtudes; porque o demónio não o deixa decair, e as virtudes, a própria fraqueza natural as faz perder” (13,4). Este parágrafo mereceria uma detida reflexão teológica, antropológica, moral… ¿É demasiado pessimista? Trata-se de um recurso enfático?, de uma evidência prática?...

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM SANTA TERESA- PARTE I

Catequese 2 - Dados gerais

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2. Santa Teresa: dados gerais

2.1 Teresa, conta-nos como eras.

- Alguma coisa já deverás saber sobre mim. Contudo, digo-te que era uma mulher abulense, carmelita, mística e humanista, contemplativa-activa, escritora-autodidacta, fundadora e líder, empreendedora e negociadora, mestra e mãe espiritual. Houve quem ainda me tivesse por santa.

Mas como eras a nível físico e psicológico?

- Fisicamente, fui uma pessoa frágil: enferma crónica; mas, psiquicamente, forte: o meu espírito nunca sucumbiu às enfermidades corporais; mantive-me sempre aberta aos valores transcendentes: Deus, Cristo, Igreja, alma…; sempre pronta para as tarefas diárias (boa cozinheira!).

Que contrastes é que notavas em ti?

- Olhando para mim, as pessoas apontam o meu sentido de transcendência (o místico) e a minha habilidade negociadora e social (realismo e humanismo). Penso ser essas as duas características de maior contraste.

E a nível social?

- Sociologicamente falando, acho que sempre fui uma pessoa aberta à amizade e à comunhão com as pessoas; das minhas relações pessoais posso destacar: S. Francisco de Borja, S. Pedro de Alcântara, D. Álvaro de Mendonça, S. João da Cruz, Pe. João Baptista Rúbeo (Geral da Ordem), S. João de Ávila (apenas por carta), Pe. Jerónimo Graciano… Apenas também ocasionalmente, S. João da Ribera e S. Luís Beltrán. Mas as minhas maiores relações foram com as Irmãs dos meus Carmelos. Destaco entre elas: as duas Anas, Maria de São José, Maria Baptista, Maria de Jesus, várias Irmãs enfermas, as três Irmãs-crianças que entram no Carmelo, etc.

Pode-se saber que sentido deste à tua vida?

- Sabes, acho que tive dias bons e menos bons como todos. Recordo os dias de luta e os momentos de crise. Porém, nunca quebrei; pelo contrário, mantive um rumo unidireccional… Identificada com a minha vocação religiosa (ser religiosa foi grandíssima mercê). Mas com um certo complexo de inferioridade feminina: uma como eu, fraca e ruim, uma mulherzita como eu, sem estudos nem boa vida… Só ao atingir a maturidade é que captei plenamente o sentido da minha existência. Identifiquei-o com a minha experiência mística e a minha missão profética: mística dinâmica; e missão, ao mesmo tempo, transcendente e terrena. Ser testemunha de Cristo e fomentadora de uma nova vida religiosa. Quis ser uma mulher capaz de dar testemunho de Deus presente no mundo e na história.

Foste uma mulher escritora. Que te apraz referir desta obra por ti empreendida?

- Fui escritora, é verdade... Mas não propagandista. Sei que até vós chegaram umas 2000 páginas autografadas, mas escrevi muitas mais. A maior parte em Ávila. Em suma:
Quatro obras maiores: Vida, Caminho, Moradas e Fundações.
Vários escritos menores: Relações, Conceitos, Exclamações, Constituições, Modo de visitar os conventos, poesias…, escritos humorísticos.
Cartas: Conserva-se quase meio milhar, mas escrevi vários milhares (mais de uma centena ao Pe. Graciano).
Escritos perdidos: além das cartas (concretamente as cartas a S. João da Cruz), várias Relações, a primeira redacção de Vida, parte do meu comentário ao Cântico dos Cânticos (= Conceitos) e uma novelita de cavalaria escrita aos 14 anos (o meu primeiro escrito).
De todas estas obras, considero Vida a mais introspectiva, o melhor retrato da minha vida; as Moradas, a minha melhor síntese doutrinal; Caminho, a mais pedagógica, a única que decidi publicar em vida, se bem que não estará cá fora antes de 1583.

Volta e meia, ouve-se as pessoas a chamar-te em castelhano ‘andariega’. Porquê?

- Porque percorri mais de mil quilómetros em toda a minha vida fundando Carmelos. Fundei em Ávila, Medina, Valladolid, Toledo, Malagón, Salamanca, Alba, Pastrana (Guadalajara), Segovia, Beas (Jaén), Sevilla, Villanueva de la Jara (Cuenca), Palencia, Soria, Burgos. Além disso, colaborei nas fundações dos ‘Descalços’ de Duruelo e de Pastrana. Outros locais por mim percorridos: Gotarrendura, Guadalupe, Madrid, Torrijos, Becedas e Duruelo…
O percurso era sempre feito de diversas maneiras (por exemplo, cavalgando ou a pé…). Ao longo das minhas obras, vou dando a conhecer ao leitor.

Obrigado, Teresa. Até à próxima!
Já sei mais algumas coisas sobre ti.