segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Primeiras Moradas: Capítulos 1-2


Primeiras Moradas: Capítulos 1-2




Desde o cume da sua oração, Teresa oferece-nos a sua visão de Deus e do homem com o fim de centrar a nossa vida espiritual na relação com Deus, a que Teresa chama oração, isto é, amizade.
Partindo do símbolo do Castelo, é-nos dito que cada um de nós é como um castelo, no interior do qual está a alma, que a porta para entrar é a oração, ensinando-nos a dar os primeiros passos. 


Pistas de leitura 

Teresa convida-nos a considerar a nossa alma como «um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal», onde há muitos aposentos ou moradas e no centro de todas estas tem a mais principal onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e alma (1,1.3)
Anima-nos a não nos cansarmos em querer compreender a formosura deste castelo, a entender e a saber quem somos, os bens que possuímos e quem nos habita (1,2) Quer que compreendamos as mercês de Deus, sabendo que é possível comunicarmos com Ele, Bondade e Misericórdia (1, 3). 
Ganhar consciência de que esta dignidade e formosura nos vem de sermos feitos à imagem do nosso Criador (1, 1).
Teresa diz que, para poder entrar, a porta é a oração, advertindo com Quem falamos e o que pedimos (1, 7), avisando-nos que «vai muito de estar a estar». 

a) Há almas que se ficam pela cerca e que não se lhes dá de entrar (1, 5), tão doentes e dispostas a permanecer em coisas exteriores que não há remédio nem parece que possam entrar dentro de si (1,6)!

b) Outras entram no castelo e, embora estejam muito metidas no mundo, têm bons desejos… encomendam-se a Nosso Senhor e consideram quem são… cheias de mil negócios… e o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro. Propõem algumas vezes, para consigo mesmas, desocupar-se… (1, 8)
As primeiras (a), sendo de natureza tão ricas e podendo ter a sua conversação com Deus, por não voltarem a cabeça para si mesmas, não têm remédio (1, 6); as segundas (b), embora entrem nas primeiras dependências, entram com tantas sevandijas, que não lhes deixam ver a formosura do castelo nem sossegar (1, 8). 
No 2º capítulo, Teresa, continua a pôr-nos perante o mistério do mal (2, 1), sublinhando a desordem que produz no nosso interior ao frustrar a nossa relação com Deus, embora Ele continue a habitar-nos (1, 3).
Teresa quer evitar que percamos o sentido do pecado, que nos faz perder o sentido da realidade, podendo errar o caminho e não chegarmos ao mais profundo do nosso encontro com Deus. Agora faz-nos voltar ao castelo advertindo-nos que:
«as coisas da alma devem-se considerar com amplidão, largueza e grandeza, e nisto não há demasia, pois tem maior capacidade do que nós podemos considerar, e a todas as partes dela se comunica este Sol…(2,8). 

Continua com a importância do autoconhecimento e como este se consegue (2, 9), ensinando-nos à continuação onde se encontra a verdadeira humildade (2, 11). 
Fazendo-nos ver onde nos encontramos no princípio deste caminho, faz-nos conscientes de estarmos numa situação de luta e pobreza pessoal, aconselhando-nos como poder avançar para as segundas moradas (2,14). 
E termina lembrando-nos em que consiste a verdadeira perfeição. «amor de Deus e do próximo» (2, 7). 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. Relendo e saboreando como Teresa descreve a nossa realidade interior desde a sua visão positiva: - Acreditamos nisto realmente? Sabemo-nos verdadeiramente habitados pelo próprio Deus?

2.Avançamos no caminho do conhecimento próprio ou já sabemos tudo por nós próprios? 

3. Coloquemo-nos em silêncio perante o olhar de Deus: experimentamos como Ele nos descobre a nossa verdade?
Agradeçamos sinceramente o seu convite a adentrarmo-nos cada vez mais ao seu encontro. 

4. Sejamos conscientes da nossa fraqueza e, sem nos desanimarmos, peçamos-Lhe que nos ajude a nos libertarmos das nossas ataduras.

5. Teresa recorda-nos que todos estamos chamados à comunhão com Deus e que Ele nos trata cada um livremente.
Oremos para que toda a pessoa possa viver esta comunhão e alegremo-nos pelos que têm a graça de gozá-la. 

6. Entendendo que a perfeição verdadeira é amor de Deus e dos nossos irmãos, contemplemos Cristo para aprendermos a conhecer o verdadeiro Amor 


BICHO DA SEDA


bicho da seda

Em pleno coração do livro do castelo interior e dentro das quintas moradas, Santa Teresa descreve a transformação que experimenta a pessoa na oração, com um símbolo muito belo: o bicho da seda, o qual se fecha no seu casulo interior, e aí “com as suas boquitas vão fiando a seda, e fazendo uns casulos muito apertados onde se fecham… E morre este bicho, que é grande e feio, e sai do mesmo casulo uma borboleta branca muito bonita”.


Esta imagem do bicho da seda serve para que Teresa expresse melhor a mudança e a transformação da pessoa, como mistério pascal de morte e ressurreição.
No desenvolvimento desta transformação, como no processo em que o bicho da seda se metamorfoseia em borboleta, é muito importante a ação do Espírito Santo que vai ajudando nessa disposição e no nosso trabalho para não ficarmos pelo meio do caminho.

Podemos agora visualizar os diferentes elementos contidos no processo desta imagem: 
Semente: São uns bagos, como grãos de pimenta, que se convertem em larvas.
A folha da amoreira: É o primeiro espaço onde se desenvolvem, é o alimento.
Ambiente: Calor, elemento que necessita a semente para viver,  é a graça do Espírito Santo. 

Bicho da seda: É cada um de nós a partir  da perspectiva da transformação profunda. 
Tecer o casulo ou a “casa”: é um convite para construir a própria habitação, a viver a interioridade. 
Fabricar a seda, lavrar a seda: Cristo é a morada. Vive dentro de cada um. A seda é o resultado das maravilhas que Deus faz através de nós.

Trabalhos: São todos os esforços e ações que temos que fazer para corresponder à graça, para não vivermos superficialmente.

A borboleta: equivale ao “homem novo”, é o fruto da ação transformadora de Deus.
É graça, libertação.

Este símbolo é a síntese da história de todo o homem nascido para ter asas e elevar-se.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

AS MORADAS ou CASTELO INTERIOR Guião doutrinal




Eis aqui o terceiro “guião de leitura” para nos acompanhar na leitura anual de Santa Teresa que, de acordo com o programado, este ano vai centrar-se mo Livro d’As Moradas ou Castelo Interior.
Diferentemente de outros anos, desta vez, desta vez só enviamos um guião, o doutrinal. Tomámos esta decisão tendo em vista que muitas comunidades usam para a leitura comum e para a pastoral, as fichas que se publicam na página Web do Centenário, e pareceu-nos melhor concentrar o trabalho nelas e não oferecer outro guião que possa ser de menor utilidade
As comunidades que não disponham de internet ou que não possam aceder a ela frequentemente, podem solicitar aos Superiores Maiores que lhes enviem ditas fichas, ou então pôr-se em contacto com a Comissão do Centenário através da página Web, para que lhas enviemos a uma direcção de correio electrónico (não nos é possível fazê-lo por correio postal).
Empreendamos, pois, juntos, esta viagem apaixonante rumo ao castelo de diamante ou mui claro cristal…
 
Comissão preparatória OCD do Vº Centenário do Nascimento de Santa Teresa
O CASTELO INTERIOR ou AS MORADAS 

de SANTA TERESA.

Mandato de escrever

O livro d’As Moradas ou Castelo Interior de Santa Teresa é habitualmente considerado como a sua melhor obra. Mais do que história, este livro contém biografia, ou melhor, autobiografia. Em diálogo com Graciano, falando do livro da Vida, disse-lhe ele: “Faça memória do que se lembrar e de outras coisas, e escreva outro livro, e diga a doutrina em geral, sem nomear a quem aconteceu tudo aquilo que nele disser”.
Este “outro livro” foi o Castelo Interior. A própria autora, contente com a sua obra, dá a preferência a este – as Moradas, sobre o outro – a Vida. E, usando termos de ourivesaria, embora para ela o livro da Vida seja uma jóia, o Castelo Interior é mais precioso e com mais delicados esmaltes e lavores, ou dito de outra maneira por ela própria: “ A meu parecer, avantaja-se-lhe o que escrevi depois, embora frei Domingos Báñez diz que não está bom; pelo menos tinha mais experiência do que quando o escrevi”.
O mandato de escrever As Moradas veio-lhe de três lados: do padre Graciano, do doutor Velázquez e do “vidreiro” Maior: Cristo Jesus que, por outra parte, era o seu “livro vivo”.
As condições de saúde que a Madre atravessava eram muito penosas, “com ruído e fraqueza tão grande de (cabeça) que mesmo os negócios forçosos escrevo com pena”. A situação da Ordem era de grande risco e a própria Teresa encontrava-se confinada em Toledo, a modo de cárcere. Mas a fortaleza desta mulher dá-lhe o equilíbrio necessário para poder escrever amplamente. E a que levou acabo tantas fundações sem saúde e no meio de tantas contradições, vai agora construir este seu castelo com a mesma força de vontade.
 

Tempo de escritura, autógrafo, destinatárias

A hora da primeira pedra e da última é ela própria quem no-la revela: “E assim começo a cumpri-la hoje, dia da Santíssima Trindade, ano de 1577, neste mosteiro de S. José do Carmo em Toledo, onde estou presentemente” Isto no prólogo. E, na conclusão do livro: “Acabou-se isto de escrever no mosteiro de São José de Ávila, no ano de 1577, véspera de Santo André, para glória de Deus, que vive e reina para sempre sem fim, amen” (7M, conclusão 5).
Um total de seis meses menos dois dias, desde que começou a escrever até que lhe pôs ponto final. Fala-nos, pelo menos duas vezes, da interrupção da escrita, “porque os negócios e a saúde me fazem deixá-lo na melhor altura” (4M 2,1). E noutro lugar dirá: “já passaram quase cinco meses desde que comecei até agora; e, como a cabeça não está para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvez diga algumas coisas duas vezes” (5M 4,1). Volta ao mesmo manuscrito e termina a obra a 29 de Novembro.
E, concluído o livro, dá “por bem empregado o trabalho, embora confesso que foi bem pouco”. O autógrafo das moradas encontra-se no mosteiro das carmelitas descalças de Sevilha desde Outubro de 1618. Em 1622, foi levado em procissão pelas ruas de Sevilha por ocasião dos festejos pela canonização da autora. E a última e mais prolongada saída do manuscrito até Roma teve lugar em 1961, onde foi devidamente restaurado pelo “Istituto Ristauro Scientifico del libro” do Vaticano e o “Istituto di Patologia del libro” de Itália. Voltou a Sevilha em 1962 e ali se conserva no convento das Descalças, num indescritível estojo relicário: as muralhas de Ávila convertidas em castelo para abrigar e custodiar o autógrafo do Castelo Interior. Esta obra deve-se à ideia e solicitude do então Geral da Ordem, Padre Anastácio Ballestrero
As primeiras destinatárias são as suas monjas, como diz nesta espécie de dedicatória: “JHS. Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de nossa Senhora do Carmo, para as suas irmãs e filhas, as monjas carmelitas descalças”.
Destinatário da obra é também todo o fiel cristão, candidato à santidade desde o seu baptismo e por ele.

Visita ao Castelo. 

É a própria autora a que nos vai guiando a partir de uma das suas primeiras confissões. Está com a pena na mão pensando como poderá começar a escrever, e “ofereceu-se-me o que agora direi para começar com algum fundamento. É considerar a nossa alma como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal, onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas (Jo 14,2). Que, se bem o considerarmos, irmãs, não é outra coisa a alma do justo, senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias” (Prov 8, 31) ” (1M 1,1).
Já, desde aqui, sem nenhuma complicação, compreendemos qual, ou melhor, quem é para ela o castelo interior: a pessoa humana, e vemos como se vai deixando iluminar, por esse par de textos bíblicos, de João e Provérbios.
Para organizar a leitura ou estudo de obra tão importante como esta, para assaltar este Castelo (passe a expressão), publicaram-se já há alguns anos, “um grande trabalho em que se analisam com lupa os núcleos básicos do simbolismo teresiano, os eixos temáticos de cada uma das moradas, o itinerário léxico da interiorização, o caminho para a construção simbólica da própria interiorização” (Monserrat Izquierdo Sorli).
Este tipo de estudo e de leitura não resulta fácil à maioria dos leitores em cujas mãos cai o livro d’ As Moradas. Mais ao alcance da mão estão uns esquemas muito simples, mas muito compreensíveis. Nesta elaboração entram elementos doutrinais básicos, em que se interrelacionam necessariamente os dois protagonistas: Deus e o homem. Deus que vive e actua e Se comunica dentro. O homem (a alma) como cenário e protagonista da aventura espiritual. E a oração, que é a ponte de comunicação entre Deus e a alma. Daqui brota a ideia, o conceito de “moradas”.
Teresa divide a obra do Castelo em sete moradas, mas adverte: “não considerem poucos aposentos, senão um milhão deles” (2M 2,12), e mais claramente: “Embora não se trate senão de sete moradas, em cada uma destas há muitas: por baixo, por cima. Dos lados” (7M conclusão 3).
Prescindindo da compreensão do Castelo em que se encontram e se vêem e se podem visitar e percorrer os diferentes aposentos, estâncias, salas, moradas, devemos ter sempre presente que a alma é a que tem em si mesma as diversas ou diferentes moradas, as leva consigo e é considerada como repartida em sete moradas, sem prejuízo de que essas sete se convertam em setenta vezes sete, quer dizer, em inumeráveis.
Em Fundações 14, 5, encontra-se uma frase que ilumina bem este facto: “Quanto menos tivermos na terra, mais gozaremos naquela eternidade onde as moradas são conforme ao amor com que imitámos a vida do nosso nom Jesus”. Esse mais além tem-no ela bem presente no momento em que começa a escrever: “Onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas” (1M 1,1). Ouve-se, aqui, o eco da passagem evangélica, embora sem mencioná-la: “Na Casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)
O percurso do Castelo torna-se mais fácil e prazenteiro da mão da autora. Lido devagar o prólogo, o leitor deixe-se levar pelos títulos dos 27 capítulos que compõem o livro. A Santa tem uma habilidade especial para sintetizar nesses epígrafes o que quer dizer. Além disso, como parece certo que os títulos estão escritos depois de redigido o texto, resulta dupla a habilidade sintetizadora e esclarecedora da autora.
Terminada a leitura dos 27 títulos, leia-se com atenção a Conclusão, particularmente os nn. 2 e 3, onde a Madre lança, uma vez mais, critérios de vida e de leitura, que foi semeando ao longo do livro.
Outro método bastante simples para ir fixando na mente a doutrina do Castelo interior consiste em atender à substância bíblica incluída em textos, tipos, personagens, motivos bíblicos.
Como exemplo, pode ver-se, nas Segundas Moradas, onde se encontram: 1. Textos: “Quem anda no perigo, nele perece” (Si 3,26); “ não sabemos o que pedimos” (Mt 20,22); “sem a sua ajuda nada podemos fazer” (Jo 15,5); “a paz esteja convosco” (Jo 2,19.21). 2. Tipos bíblicos: O filho pródigo, perdido e comendo manjar de porcos (Lc 15,16); e os soldados de Gedeão quando iam para a batalha (Jz 7, 5-7. 16,22). 3. Textos e também motivos: “Ninguém subirá ao Pai senão por Mm” (Jo 14, 6); “quem Me vê a Mim, vê Meu Pai” (Jo 14,19).
O fio condutor é bem fácil de seguir e muito útil ao longo de todas as moradas. Não podemos esquecer tampouco uma coisa tão frequente na Santa escritora: o mundo dos símiles, exemplos ou comparações, que, na sua pedagogia, a assemelham tanto ao divino Mestre. Um dos exemplos generalizados é a comparação do castelo: 1M 1,3. Este símile não é exclusivo (nem no seu espírito nem na sua pena) d’As Moradas: também o usou no Caminho (CV 28,9-12; CE 48, 1-4); no Caminho, não usa a palavra ”castelo”, mas “palácio”; no entanto, a substância é a mesma. Outro exemplo de comparação- e acaso a melhor – é a do bicho-da-seda: 5M 2, 1-10.
O tema, ou melhor, a realidade da oração, está presente em todo o Castelo como fio condutor. A presença da oração já a deixa bem claramente proposta em 1M 1,7: “Tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios”.
Não podemos perder de vista esta afirmação, contando com a evolução que se vai seguindo: oração rudimentar, como primeiros ensaios; meditação, um simples olhar, estar na presença de Deus; recolhimento infuso, quietude, gostos; oração de união. Deus no fundo da alma; formas extáticas, visões, locuções, êxtases, ferida de amor; ânsias de eternidade; contemplação perfeita. Da conjunção de todos estes elementos que vamos assinalando, bem saboreados, irá surgindo no leitor, além do gosto mental, a compreensão da doutrina teresiana.
Alguém, desde a França, escreveu há tempos, embora não a propósito da doutrina teresiana: “A oração é o primeiro de tudo. Não é o essencial: o essencial é a caridade, que resume em si mesma a perfeição, Deus mesmo. Mas a oração é o primeiro”. Por isso, escreveu José Vicente Rodríguez com toda a razão: “Partindo da realidade da graça e do amor, que fazem que a alma seja agradável a Deus, que seja o paraíso onde Ele Se deleita (1M 1,1), as moradas vão-se convertendo na base do amor, virão a ser os diferentes graus de amor da alma, visto que ”o aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito” (F 5,2), e também “para subir às moradas que desejamos, não está a coisa em pensar muito, mas em amar muito” (4M 1,7). Este amor não é exclusivo mas inclusivo de outras actividades, outros exercícios, e assim resulta que a alma estabelecida em amor empregar-se-á, por exemplo, no conhecimento próprio e no exercício da humildade: as primeiras moradas (1M 2, 8-9). Dar-se-á também diversificação segundo as diferentes mercês recebidas de Deus (1M 1,3). Isto vê-se bem claro na leitura seguida da obra teresiana, sendo a oração de quietude algo típico e fundante, por exemplo, das Moradas Quartas; das Moradas Quintas a oração de união; das Sextas o desposório espiritual e das Sétimas o matrimónio espiritual”.
Para compreendermos plenamente como leva a Santa toda a sua carga doutrinal, aconselhamos a ler com toda a atenção o último capítulo de todo o livro: (7M c. 4). Aqui, dá a impressão de que a Madre quer aterrar nos fundamentos mais sólidos da vida cristã: o amor fraterno e a configuração com Cristo. O Castelo interior é, sem dúvida, um esplêndido manual de santidade.
Como ajudas e pontos de referência no percurso do Castelo, também resulta útil imprimir na memória alguns pontos nos quais a Madre condensa a doutrina que vai estendendo os seus tentáculos ao longo de todo o livro. Bastarão alguns exemplos: Grandeza, dignidade, capacidade, formosura da alma humana: 1M 1, Presença total, natural e sobrenatural de Deus na alma: 5M 1,10. Consciência teresiana da diversidade de almas:1M 1,3; 5M 3,4. Fabricar cada um a sua morada em Deus: 5M 2, título e corpo do capítulo. Ser de veras espirituais: 7M 4,8. Não ficarem anãos: 7M 4,9. Ser plenamente realistas: 7M 4, 14. Não pôr medida às obras de Deus: 6M 4,12.
E, como capítulo imprescindível sobre Cristo Jesus, deve ler-se 6M 7, cujo título reza assim: “Diz quão grande erro é não se exercitar, por espiritual que seja, em trazer presente a humanidade de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e sua sacratíssima Paixão e vida, e a Sua gloriosa Mãe e os santos. É de muito proveito”. Trata-se de um capítulo paralelo a Vida 22.

Concluindo 

Em 6M 10,3, a Santa surpreende-nos com a identidade e, ao mesmo tempo, com a diversidade que assinala nesta passagem: “Façamos agora de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus”. Partindo destas palavras, chega-se imediatamente àquilo de “sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito” (Mt 5,48). Aqui, diríamos: sede castelos formosos como o vosso Pai Celestial o é.
O famoso Catecismo holandês apresenta assim aos crentes de hoje esta obra teresiana: “Santa Teresa escreveu um livro em que a alma está representada por um Castelo com sete moradas. Morada após morada, chega-se à sétima onde habita Deus, quer dizer, Cristo. A sua presença percebe-se em todo o Castelo, mas ao chegar a alma ao centro, imersa na própria realidade, sente-se toda invadida pelo sereno sentimento de que Deus está nela. A alma vive dentro da realidade terrena, que se apresenta magnífica aos seus olhos, pois compreende que Deus é o coração inefável de toda a realidade”.
Na Positio para o Doutoramento da Santa, encontra-se, como peça principal, o Relatório do advogado da causa. Para defender a altura da eminente doutrina da santa doutoranda, oferece da seguinte maneira uma espécie de resumo d’As Moradas. 
Esta “é a principal obra teresiana e mesmo – segundo alguns- de toda a mística cristã […]. O livro divide-se em sete partes ou moradas, das quais cada uma tem vários capítulos, excepto as segundas moradas, que tem um único capítulo.
As Primeiras Moradas (2 capítulos) são as almas que têm desejos de perfeição, mas ainda estão metidas nas preocupações do mundo, das quais devem fugir e procurar a soledade.
As Segundas Moradas (1 capítulo) são as almas com grande determinação de viver em graça e que se entregam, portanto, à oração e a alguma mortificação, embora com muitas tentações por não deixarem de todo o mundo.
As Terceiras Moradas (2 capítulos) são para as almas que exercitam a virtude e a oração, mas pondo nisso um amor dissimulado a si mesmas. Precisam de humildade e obediência.
As Quartas Moradas (3 capítulos) são já o começo das coisas “sobrenaturais”: a oração de quietude e um início da união. Os frutos não são ainda estáveis: por isso, as almas devem fugir do mundo e das ocasiões.
As Quintas Moradas (4 capítulos) são já de plena vida mística, com a oração de união que é sobrenatural e dá-a Deus quando quer e como quer, embora a alma se possa preparar. Os sinais verdadeiros desta união é que seja total, que não falte a certeza da presença de Deus e que sucedam tribulações e dores em que provar o amor a Deus. Necessita-se grande fidelidade.
As Sextas Moradas (11 capítulos). Consegue-se uma grande purificação interior da alma, e, entre as graças que nela se dão, totalmente sobrenaturais, estão as locuções, êxtases, etc., grande zelo pela salvação das almas, que leva a deixar a sua soledade. É necessária a contemplação da humanidade de Cristo para chegar aos últimos graus da vida mística.
As Sétimas Moradas (4 capítulos) são o cume da vida espiritual, em que se recebe a graça do matrimónio espiritual e uma íntima comunicação com a Trindade, da que brota espontaneamente uma grande paz em que vive a alma, sendo ao mesmo temo activa e contemplativa. Uma contemplação que não é subjectiva, mas que transcende o homem levando-o a esquecer-se de si e a entregar-se a Cristo e à Igreja”.
Esta espécie de resumo autorizado é como uma apresentação do Castelo no seu conjunto; e vem a ser, ao mesmo tempo, como um convite a ir verificando toda essa estrutura, não de maneira mental ou intelectual, mas vivencialmente, isto é, desde a praxis e experiência cristã, e tudo isso pela mão de Teresa de Jesus, a Doutora da Igreja Universal.  

domingo, 21 de outubro de 2012

O CASTELO INTERIOR OU AS MORADAS DE SANTA TERESA


foto tirada por Frei Salinho em Ávila 

Ordem para  escrever
         O livro das Moradas ou Castelo Interior de Santa Teresa é considerado normalmente como o melhor dela. Este livro mais que história, tem biografia, mais ainda, autobiografia. Em seu diálogo com Gracian, falando do livro da Vida, este falou à santa: “Faça memória daquilo que lembrar e de outras coisas e escreva outro livro, e diga doutrina em comum, sem nomear a pessoa que tenha experimentado”.
Esse outro livro foi o Castelo Interior. A própria autora contenta com sua obra, gosta mais desta que da outra: a Moradas sobre a Vida e em termos de joalheria, mesmo sendo para ela Vida uma joia, é mais precioso e com mais delicadas pedras preciosas o segundo (Castelo Interior), ou, como ela mesma nos diz: “A meu parecer é melhor o que escrevi depois, apesar de dizer Frei Domingos Bañez   que não é tão bom; pelo menos tinha mais experiência que quando o escrevi”.
         A ordem de escrever As Moradas veio de três lugares, do Pe. Gracian, do Doutor Velazque, e do “Vidreiro” maior: Jesus, que por outro lado era seu livro Vivo”.
As condições de saúde que estava passando a Madre eram muito penosas “com ruído e fraqueza tão grande (de cabeça) que ainda os negócios escrevo com pena”. A situação da Ordem era de perigo e Teresa estava confinada em Toledo, como uma prisão. Mas a fortaleza desta mulher faz que tenha equilíbrio para poder escrever coisas grandes. E aquela que levou  tantas fundações sem saúde e no meio de tantas contradições, vai agora construir este seu castelo com a mesma força de vontade.

Tempo de escritura, autógrafo e destinatárias

         A hora da primeira pedra e da última é ela mesma quem nos fala: “E assim começo a cumprir ( a obediência que encomendaram) hoje, dia da Santíssima Trindade ano de 1577 neste mosteiro de São José do Carmo em Toledo onde me encontro”. Isto no prólogo. Na conclusão do livro: “Acabou-se de escrever no mosteiro de São José de Ávila, ano de 1577, véspera de Santo Andre (29 de novembro), para a glória de Deus que vive e reina por sempre jamais, amém” (7M,conclusão 5)  
         Total de seis meses menos dois dias, desde que começou a escrever até o final. Um par de vezes, ao menos, fala de interrupção na escritura, “porque os negócios e a saúde me obrigam a parar” (4M 2,1) e em outro lugar dirá: “passaram quase cinco meses desde que comecei até agora, e, como a cabeça não está boa para torná-lo a ler, todo deve ir desbaratado, e por ventura falei algumas coisas duas vezes” (5M 4,1). Volta sobre o manuscrito e termina a obra em 29 de novembro.
         E uma vez concluído o livro, dá “por bem empregado o trabalho, apesar de que confesso que não foi muito”. O autógrafo das Moradas se encontra no mosteiro das carmelitas descalças de Sevilla desde outubro de 1618. Em 1622 foi levado em procissão pelas ruas de Sevilla por ocasião das festas pela canonização da autora. E a última e mais prolongada saída do manuscrito foi até Roma em 1961, onde foi restaurado pelo “Instituto Ristauro Scientifico do livro” do Vaticano e o “Instituto di Patologia do livro” de Itália. Voltou a Sevilla em 1962 e ali se conserva no convento das descalças, em um relicário bonito: as muralhas de Ávila, que se converteram em castelo para encerrar e custodiar o autógrafo do Castelo Interior. Idéia do Geral da Ordem naquela época Padre Anastásio Ballestrero.
         As destinatárias primeiras são suas monjas, como disse na “dedicatória”: “JHS. Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de nossa Senhora do Carmo, a suas irmãs e filhas as monjas carmelitas descalças”.
         Destinatário da obra é também todo fiel cristão, candidato à santidade desde seu batismo.

Visita ao Castelo

         É a autora que nos vai guiando desde uma de suas confissões primeiras. Está com a pena na mão vendo como poderá começar a escrever e “se me ofereceu o que agora vou dizer para começar com algum fundamento, que é; considerar nossa alma como um castelo de um diamante ou claro cristal onde existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas (Jô 14,2; que),se bem consideramos irmãs, não é outra coisa a alma do justo senão um paraíso onde disse que tem seus deleites.” ( Prov. 8,31) (1M 1,1)
         Desde esta perspectiva, sem nenhuma complicação, entendemos qual, aliás, quem é para ela o castelo interior: a pessoa humana, e vemos como está deixando-se iluminar por esses dois textos bíblicos, de João e de Provérbios.
         Para organizar a leitura, o estudo de obra tão importante como esta, para assaltar este Castelo (se me permitem usar a frase) tem se publicado já faz tempo “um grande trabalho no qual se analisam com lupa os núcleos básicos da simbologia Teresiana, os eixo temáticos de cada uma das moradas, o itinerário léxico da interiorização, o caminho à construção simbólica da interiorização mesma” (Montserrat Esquerdo Sorte).
         Este tipo de estudo e de leitura não é fácil para a maioria dos leitores do livras das Moradas. Porém temos ao alcance das mãos uns esquemas simples, mas fácil de compreender. Nesta elaboração entram elementos doutrinais básicos, nos quais se inter-relacionam os dois protagonistas: Deus e o homem. Deus que vive e atua, e se comunica dentro. O homem (a alma) como cenário e protagonista da aventura espiritual. E a oração, que é a ponte de comunicação entre Deus e a alma. Aqui surge a ideia, o conceito de “moradas”.
         Teresa divide a obra O Castelo em sete moradas, mas ela mesma avisa: “não considerem poucas peças senão um milhão” (2M 2,12), e mais claramente: “Mesmo se tratando só de sete moradas, em cada uma delas tem mais: em baixo e alto e a os lados” (7M conclusão três).
         Prescindindo da compreensão do castelo no qual se encontram e se veem e se pode visitar e recorrer os diversos aposentos, estâncias, quartos, moradas, temos que lembrar que a alma é a que tem em si mesma as diversas ou diferentes moradas, as leva consigo, é considerada como dividida em sete moradas, sem prejuízo de que essas sete se convertam em setenta vezes sete, isto é, em inumeráveis.
         Isto fica iluminado pelo que disse nas Fundações 14, 5: “Quanto menos tenhamos aqui, mais gozaremos naquela eternidade, onde são as moradas conforme o amor com que tenhamos imitado na vida de nosso bom Jesus”. Esse além já está presente no momento em que começa a escrever: “Onde há muitos aposentos, assim como no céu existem muitas moradas” (1m 1,1). Aqui sentimos o sussurro do passo evangélico, mesmo sem mencionar: “Na casa de meu Pai tem muitas moradas” (Jó 14,2).
         O percurso pelo Castelo se torna fácil e prazeroso da mão da autora. Lendo devagar o prólogo, se deixe levar o leitor pelos títulos dos 27 capítulos que tem o livro. A Santa tem uma habilidade singular para sintetizar nesses epígrafes o que quer dizer. Mais ainda, como parece seguro, que os títulos estão escritos depois de relatado o texto, é dupla a habilidade sintetiza Dora e clarificadora da autora.     
         Terminada a leitura dos 27 títulos, ponha atenção o leitor na Conclusão, especialmente nos nº 2 e 3, onde a Madre deposita uma vez mais critérios de vida e de leitura que foi semeando ao longo do livro.
         Outro método simples para ir fixando na mente a doutrina do Castelo Interior consiste em atender à sustância bíblica que a Santa move em cada uma das moradas. Falamos sustância bíblica integrada de textos, de tipos, de personagens, de motivos bíblicos.
          Podemos ver como exemplo nas Segundas Moradas, onde encontraremos:
1. -Textos: “Quem anda no perigo nele perece” (Si 3,26); “não sabemos o que pedimos” (MT 20,22); “sem sua ajudo não podemos fazer nada” (Jô 15,5); “a paz esteja convosco” (Jô 2, 19. 21)
2.-Tipos bíblicos: o filho pródigo, perdido e comendo manjar de porcos (Luc 15,16); e os soldados de Gedeon quando iam à batalha (Ju 7, 5-7)
3.-Textos e motivos ao mesmo tempo: “Nenhum irá ao Pai senão por mim” (Jo 14,6); “quem me vê a mim vê a meu Pai” (Jo 14,19).
         Este fio condutor é fácil de seguir e mui útil ao longo de todas as moradas. Não podemos esquecer tampouco algo que ela usa muito: o mundo de seus símiles, exemplos ou comparações, que em sua pedagogia faz com que se pareça a Mestre. Um dos exemplos completos é a comparação do Castelo: 1M 1,3. Este símile não é exclusivo ( não em seu espírito e na sua pena )das Moradas já tem usado no Caminho: CV, 28, 9-12; CE 48, 1-4; em Caminho não usa a palavra “castelo”, senão “palácio”, mas a sustância é a mesma. Outro exemplo de comparação, e talvez o melhor, o do verme de seda: (5M 2, 1-10).
          O tema por assim dizer, a realidade da oração, está presente em todo o Castelo como fio condutor. A presença da oração está bem claramente exposta já em 1M 1,7: “A quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e consideração, não digo mais mental ou vocal, que sendo oração há de ser com consideração; porque aquela que não adverte com quem fala ou pede e quem é quem pede e a quem isso não é oração, mesmo que mexa muito os lábios”.
         Esta afirmação não podemos perder de vista, tendo em conta a evolução que vamos seguindo: oração rudimentar, como primeiro ensaios; meditação, simples olhar, estar na presença de Deus; recolhimento infuso, quietude, gostos; oração de união, Deus no fundo da alma; formas extáticas, visões. Alocuções, êxtases, ferida de amor; ânsias de eternidade; contemplação perfeita. Da conjunção de todos esses elementos que vamos assinalando, bem usados, irá surgindo no leitor, além do gosto mental, a compreensão da doutrina Teresiana.
         Alguém da França escreveu faz tempo, porém não era por causa da doutrina Teresiana: “A oração é o primeiro de tudo. Não é o essencial: o essencial é a caridade, que resume em si mesma a perfeição, Deus mesmo. Mas a oração é o primeiro”.
         Por isso escreveu com toda a razão José Vicente Rodriguez: “Partindo da realidade da graça e do amor, que fazem que a alma seja agradável a Deus, que seja o paraíso onde ele se deleita (1M 1,1), as moradas vão se fazendo a partir do amor, viram a ser os diversos graus de amor da alma, já que “o aproveitamento da alma não está em pensar muito, senão em amar muito” (F 5,2), e também para “subir às moradas que desejamos, não está a coisa em pensar muito, senão em amar muito” (4M 1,7). Esse amor não exclui de outras atividades, outros exercícios, e assim teremos que a alma estabelecida em amor, se empregará, v. Gr., no próprio conhecimento e no exercício da humildade, e termos as primeiras moradas (1M 2,8-9). Dar se também diversificação segundo as diferentes Mercedes recebidas de Deus (1M 1,3). Isto vemos bem claro na leitura seguida desta obra Teresiana, sendo com algo típico e fundante, v. Gr., das quartas moradas, a oração de quietude; das quintas, a oração de união; das sextas, os esponsais espiritual e das sétimas, o matrimonio espiritual”.
         Para entender plenamente como a santa leva todo seu carregamento doutrinal, se aconselha ler com toda atenção o último capitulo de todo o livro: (7M c. 4). Aqui temos a impressão que a Madre quer chegar sobre os fundamentos mais sólidos da vida cristã: o amor fraterno e a configuração com Cristo. O Castelo Interior é, sem dúvida, um manual muito bom de santidade.
         Como ajudas e pontos de referencia no recorrido do Castelo é importante e útil gravar na memória alguns pontos nos quais a Madre condensa a doutrina que vai estendendo seus tentáculos ao longo de todo o livro. Vejamos uns exemplos: Grandeza, dignidade,, capacidade, formosura da alma humana: 1M 1. Presença total, natural, sobrenatural de Deus na alma: 5M 1,10. Consciência Teresiana da diversidade de almas: 1M 1,3;5M 3,4. Fabricar cada um sua morada em Deus: 5M 2, titulo e corpo do capitulo. Ser espirituais de verdade: 7M 4,8. Não ficar anões: 7M 4,9. Ser plenamente realistas: 7M 4,14. Não colocar taxa às obras de Deus: 6M 4,12.
         E como capitulo imprescindível sobre Cristo temos que ler 6M 7, onde o titulo diz o seguinte: “disse quão grande erro é não se exercitar, por muito espirituais que sejam, em trazer presente a Humanidade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e sua sacratíssima Paixão e vida, e em sua gloriosa Mãe e santos. È de muito proveito”. É um capitulo paralelo com Vida 22.


Conclusão

         Em 6M 10,3 nos surpreende a Santa com a identidade e ao mesmo tempo com a diversidade que assinala neste passo: “Façamos agora conta de que é Deus como uma morada ou palácio grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus”. Tirando dessas palavras chegamos a aquilo de “sede castelos formosos como vosso Pai celestial O é”.
         O famoso catecismo holandês apresenta assim aos crentes de hoje esta obra Teresiana: “Santa Teresa escreveu um livro em que a alma está representada por um Castelo com sete moradas. Morada trás morada se chega à sétima na que habita Deus, isto é, Cristo. Sua presença se percebe em todo o Castelo, mas ao chegar a alma ao centro, imersa na própria realidade, se sente invadida ou pelo sereno sentimento de que Deus está nela. A alma vive dentro da realidade terrena, que se apresenta  magnífica diante de seus olhos, pois compreende que Deus é o coração inefável de toda realidade”.
         Na postulação para o doutorado da Santa se encontra como peça principal o Informe do advogado da causa. Para defender a altura da iminente doutrina da doutoranda se oferece um pequeno resumo das Moradas desta maneira:
         Esta “é a principal obra Teresiana, e mais, segundo alguns, de toda a mística cristã [...].O livro se divide em sete partes, ou por moradas, das quais cada uma tem vários capítulos, exceto as segundas que só tem um capitulo.
         As primeiras moradas (02 capítulos) são as almas que tem desejos de perfeição, mas estão ainda dentro das preocupações do mundo, das quais devem fugir e buscar a solidão.
         As segundas moradas (01 capítulo) são para as almas com grande determinação de viver em graça e que se dedicam à oração e alguma mortificação, ainda com muitas tentações por não deixar totalmente o mundo.
         As terceiras moradas (02 capítulos) são para as almas que exercitam a virtude e a oração, mas colocando um disfarçado amor de si mesmos. Precisam de humildade e obediência.
         As quartas moradas (03 capítulos) são já o começo das coisas “sobrenaturais”: a oração de quietude e um inicio da união. Os frutos não são ainda estáveis; as almas devem por isso tem que fugir do mundo e das ocasiões.
         As quintas moradas (04 capítulos) são já de plena vida mística, com a oração de união que é sobrenatural e a de Deus quando quer e como quer, apesar de que a alma pode se preparar. Os sinais verdadeiros de esta união é que seja total, que não falte a certeza da presença de Deus e que sucedam tribulações e dores em que provar o amor a Deus. Necessita se de muita fidelidade.
         As sextas moradas (11 capítulos). Logra se uma grande purificação interior da alma, e entre as graças que nela se dão, totalmente sobrenaturais, estão as alocuções, êxtases, etc., Grande zelo pela salvação das almas, que leva a desejar sua solidão. É necessária a contemplação da Humanidade de Cristo para chegar aos últimos graus da vida mística.
         As sétimas moradas (04 capítulos) são o cume da vida espiritual, na que se recebe a graça do matrimonio espiritual e uma intima comunicação com a Trindade, da qual brota espontaneamente uma grande paz na que vive a alma, sendo ativa e contemplativa ao mesmo tempo. “Uma contemplação que não é subjetiva, senão que transcende ao homem fazendo que se esqueça de si mesmo e assim entregar-se a Cristo e à Igreja”.
         Esta espécie de resumo autorizado é como a apresentação do castelo em seu conjunto; e é ao mesmo tempo um convite para ir verificando toda essa estrutura, não de uma maneira mental ou intelectual senão vivencialmente, isto é, desde a práxis e experiência cristã e tudo  isso levados da mão de Teresa de Jesus doutora da igreja.
Tradução : Frei Francisco Xavier Yudego Marin, ocd

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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Teresa a escritora


Surpreende muito que Teresa tenha começado a escrever desde muito nova, sem nenhuma preparação literária, e sem contar com os meios básicos para isso. Contudo, tem um estilo muito original, escreve nos mais variados géneros literários: narrativo, introspectivo, poético, epistolar, etc. Escreve com viva imaginação, ao ponto de introduzir novos vocábulos e símbolos literários.
Algo mais que surpreende nela é a sua capacidade de escrever de “seguido”; ou seja, em directo, sem elaboração prévia de esquemas. Quando tem que redigir pela segunda vez algum escrito, fá-lo só “por obediência”. Uma nota que mais caracteriza esta escritora singular é a espontaneidade na linguagem “doméstica” que utiliza, ao ponto, de entrar em diálogo directo com o leitor: “irei falando com elas (as suas irmãs) no que escreverei”, afirma no prólogo das Moradas.


2010-03-03


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Fundações: Capítulo 32 -Pistas de leitura



Pistas de leitura


Embora a santa escreva isto quase nas vésperas da sua morte, os acontecimentos que relata já tinham sucedido havia mais de cinco anos, no verão de 1577, tendo em conta a tempestade que pairava sobre os seus descalços (cf. 28,3). Embora anteriores às fundações narradas nos últimos quatro capítulos, o seu lugar é este, como epílogo, tanto por razões metodológicas – porque não se narra evidentemente nenhuma fundação – como sobretudo teológicas, visto que supõe a união não só espiritual, que já existia, mas também jurídica, da primeira fundação com todas as restantes.
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Começa por aludir às razões humanas e divinas que teve para fazer a primeira fundação sob a obediência do bispo (cf. Vida 32,15; 33,16; 36,1-2) e não da Ordem, como as outras (cf. F 2,1-3). A coisa resultou bem, porque lhes deu independência e tranquilidade em certas diferenças com a Ordem. Além disso, o bispo nunca permitiu que um clérigo fizesse visita e funções de superior. Pelo contrário, não se «fazia naquele mosteiro mais do que aquilo que eu lhe suplicava», destaca Teresa (32,2). Não pode tratar-se evidentemente de desejo de protagonismo da santa, mas de garantir o que indicou em 18,6-13. - Estás de acordo com esta relação de textos? - Compartilhas e cultivas a fidelidade ao núcleo normativo do carisma, do estilo, por cima de outras particularidades, por muito geniais, devotas ou autorizadas que sejam? …- Vive-se isto no teu ambiente ou depende-se demasiado da última originalidade do responsável ou do mais influente do grupo?

2. Apesar do dito anteriormente (grandes razões humanas e divinas, cuja necessidade e bondade foram confirmadas durante 15 anos!), as circunstâncias mudam (32,3a; 28,3) e o próprio Deus a incita a libertar-se desta obediência peculiar e a dá-la à Ordem (32,3). – Não achas estranho que, segundo o que ela própria escreve, duvidasse porque lhe parecia que o Senhor se contradizia? Em contraste com isto, muito lúcido o conselho e o argumento do confessor, não é verdade? No entanto, poderá servir de regra de discernimento geral?

3. Embora o relate brevemente (32,4-5), fica claro que não foi fácil convencer o bispo e as próprias monjas da necessidade da mudança de obediência. Reparar na importância, para isso, do diálogo, as razões, o amor sincero pelo outro… Reflectir sobre si e orar. Ter também presente, uma vez mais (cf. 31.44), a humildade do bispo D. Álvaro de Mendoza, a sua disponibilidade para escutar e ser ensinado por “inferiores”.

4. Uma vez mais, teve de fazer não poucos esforços, mas «Bendito seja o Senhor que, com tanto cuidado, olha pelo que toca às Suas servas! Seja para sempre bendito! Amen». Não há melhor conclusão que esta: bênção, consciência de gratidão, experiência de como a graça trabalha connosco (1 Co 15,10) … Reflectir e evocar certezas como esta, agradecê-las, interceder pelos que mais precisam e não podem crê-lo por agora…
Propostas conclusivas:
Tal como no curso passado, convidamos a usar a nossa página na internet (www.paravosnasci.com) para partilharmos ideias ou actividades que tenhais feito. De novo, em espanhol, contamos, desde há meses com um exemplo estupendo: uma selecção de textos das Fundações pelas CARMELITAS DESCALÇAS DE PUÇOL e publicadas por EDE. Já demos notícia no momento da sua publicação, mas, à continuação, detalhamos o esquema interessante que deram à obra, caso sirva de inspiração às vossas sínteses ou trabalhos, após a leitura teresiana realizada.

CARMELITAS DESCALZAS DE PUÇOL, Comenzando siempre. Páginas escogidas del libro de las Fundaciones, Editorial de Espiritualidad, Madrid 2011, 219 pp., 21 x 13 cm.
Todas as virtudes das suas selecções anteriores de textos teresianos (Vida e Caminho) se mantêm e, além disso, aumentam. Por um lado, na Parte I e Introdução à obra, que é um tanto mais extensa e, sobretudo, rica em referências bibliográficas e conteúdos, ao mesmo tempo que conserva a linguagem leve e acessível. Por outro lado, na Parte II, a antologia de textos que, à diferença das anteriores, não segue a estrutura do escrito teresiano, mas o ordena da seguinte maneira: 


1) O arquitecto: Deus
1. Um Deus que Se envolve
2. Um Deus que Se comunica
2) Os alicerces: a autêntica liberdade
1. A obediência
2. A pobreza
3. A verdadeira honra
3) Como cobertura, o horizonte: o carisma teresiano
1. Os grandes ideais
2. Construir o carisma
4) Os desníveis do terreno: as dificuldades
1. Sem recursos
2. Uma sociedade interessada
3. No alvo
4. Daqui para ali
5. Doença e trabalhos interiores
5) Os planos: a estratégia
1. Localização e regime económico
2. O procedimento
3. Dinheiro, negociações e pleitos
6) Parede-mestra: o amor
1. Amor a Deus
2. Amor ao irmão
7) O lar: a oração
1. A oração é amor
2. A oração é luz
8) A horta: o estilo teresiano
1. Abnegação evangélica
2. A ascese das virtudes
3. Educando com amor
9) Parede com parede: os Carmelitas Descalços
1. As fundações de frades
2. Dois sustentáculos humanos [João da Cruz e Jerónimo Graciano]
3. Uma mulher fundadora de frades
10) A galeria: rostos de mulher
1. Catarina Godínez
2. Teresa Laiz.
3. Cassilda de Padilla
4. Beatriz da Encarnação
5. Catarina de Cardona
6. Beatriz da Madre de Deus
7. Ana da Madre de Deus

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Fundações: Capítulo 31 Fundação de Burgos


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Pistas de leitura 

Como se tem verificado já há três capítulos – e mais ainda neste caso -, a redacção do texto é quase imediata aos acontecimentos que narra. Além disso, este capítulo [sobre a fundação de Burgos] destaca-se por ser o mais longo de todos.

Desde o início, a Santa dá-nos as duas chaves do mesmo: por um lado, as muitas complicações que vão ter lugar; por outro, e precisamente por isso, o Senhor dará graças especiais para alentá-la (cf.4), além das ajudas habituais e fundamentais: pessoas boas e grandes colaboradoras. Teremos, portanto, de reparar em ambas as chaves e ir descobrindo os seus pormenores (as pessoas e /ou circunstâncias a que se refere, quais os sentimentos e graças que encerram…); nos diferentes momentos que o capítulo apresenta claramente: os preparativos (1-15), a viagem (16-18), um mês de espera na casa da fundadora (19-26), outro no Hospital da Conceição (27-31), a compra de casa própria (32-38), transferência da comunidade e fundação (39-45), elogio da clausura (46-47), e, finalmente, a situação económica original em que fica a comunidade (48-50). 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. Depressa aparece o problema que resulta de não contar com a licença escrita da autoridade para fundar (3. 15. 22). - O que é que achas do facto da Santa se atrever a meter-se a caminho sem ela, depois da experiência de Segóvia (21,5)? Por outro lado, dás valor e tens consciência da importância dessas e de outras licenças parecidas, na tua vida ou na daqueles a quem aconselhas (cf. Ficha XV, pergunta9)? 

2. Já aludimos ao texto que se segue: “Já tenho advertido algumas vezes, que Sua Majestade não me dá aviso algum quando [as fundações] se fazem sem dificuldade. Assim tem sido nisto, pois, como já se sabia o que ia passar, desde logo começou a dar-me alento” (4). – Concordas? Em teoria ou por experiência?… 

3. Apesar da segurança que o Senhor tinha dado à Santa, como se explicou no capítulo 29 (cf. 31,4, final),chama a atenção que, ao longo de todo este capítulo, se mantenha convencida da realização da fundação em circunstâncias muito, muito difíceis e quando todos os companheiros desesperavam (cf. 22.26.31). No entanto, também ela acabará por duvidar na noite anterior à chegada da licença (44,final). – Que pensas desta prodigalidade de graças? E destas duvidas finais? 

4. Por mais que Teresa não queira carregar as tintas, é evidente que o Arcebispo foi a maior complicação e, além disso, foi-o por razões, ou melhor sem razões, das mais desconcertantes, caprichosas, injustas… Em tudo se destacam os seus esforços em desculpá-lo (13.31.40): ou estaria a ironizar?), o seu pesar pelas críticas públicas que lhe faziam (45) e, sobretudo, as suas tentativas para que o seu amigo e promotor desta fundação, o Bispo de Palência, não se inimistasse com aquele pelas suas veleidades (7.44-45.50). Tudo isto é, evidentemente, um convite a rever, a orar… 

5. A propósito de ambos os Bispos, há um curioso contraste: por um lado, a cegueira do de Burgos que não só não aceita as correcções fraternas e ponderadas do seu amigo e irmão no episcopado, e até deita a culpa a Teresa (43); e, por outro, a humildade do de Palência (44). – Reler bem, compararmo-nos com um e com o outro… 

6. Se não quis carregar as tintas com o Arcebispo, fê-lo sim nos agradecimentos e louvores a Dª. Catarina de Tolosa (8-10.20.24.29-30.42), pelo que, de novo, podemos compararmo-nos com o que nela destaca, reflectirmos sobre a sua validade actual… 

7. “E assim Lhe digo [ao Senhor] que não faça caso destes sentimentos, da minha fraqueza, para mandar-me o que for servido porque, com o Seu favor, não deixarei de o fazer” (12). Uma boa e importante oração, sem dúvida! Cf., no entanto, Ficha XV, pergunta 9. 

8. A partir da viagem e ao longo de vários parágrafos, aparece com bastante protagonismo a figura do seu querida P. Graciano, embora com uma evolução valorativa decrescente, que vai da alegria e agradecimento grandes pela sua companhia nessa viagem (17), ao reconhecimento da sua intolerância para com a falta de licença escrita (22), assim como do seu nervosismo pelo passar das semanas sem poderem fundar (24), até acabar reconhecendo que “pesava-me muito que tivesse vindo connosco” (26). – Qual a tua opinião? – Inspira-te alguma coisa para a tua situação presente?… 

9. Embora tenhamos destacado os textos que se referem a Dª. Catarina, merece a pena reler e deter-se no nº 30, tanto pelo discernimento que ambas têm de fazer sobre o alcance das ajudas da fundadora (se vão ou não prejudicar com isso os seus filhos). Como pela exclamação final. 

10. Outra exclamação em que merece a pena deter-se: Mas, ó Senhor, como se vê que sois poderoso! Daquilo com que ele procurava estorvá-la tirastes Vós maneira de se fazer melhor. Sede para sempre bendito.” (31; cf. 40) 

11. Também resultam muito interessantes as razões e escrúpulos económicos à volta da compra da casa… Por isso, repare-se nos pormenores, na solução… (35-36). E nas concessões e esforços económicos finais para comprazer quem tanto as tinha favorecido numa compra tão beneficiosa: “em algumas coisas nos exigiu mais do que o combinado, mas, em atenção a ele, passámos por tudo” (37). 

12. “Nosso Senhor pagou-nos bem o que tínhamos passado trazendo-nos a um tal lugar de delícias: porque, pelo seu horto, vista e água, não parece outra coisa. Seja para sempre bendito, amen (39). Cf. “Como é certo pagardes logo com grande tribulação a quem Vos presta algum serviço! E que prémio tão precioso para os que deveras Vos amam…! (22) 

13. – Que te parece este género de elogio da clausura (46)? Não estará condicionado pela experiência desagradável desses meses de espera, sem celebração da Missa na sua residência…? Será compatível com o que tinha escrito quinze anos antes no Caminho 41, 7-8? 

14. A propósito de relações entre textos teresianos, a afirmação radical antimachista com que finaliza Fundações 31,46, há um precedente claro em Caminho 26,4.Faz pensar e orar ou achas que é antiquado e exagerado? 

15. E outro contraste mais entre a frase”…que nos tem preparado um reino sem fim, a troco de uns pequeninos trabalhos que amanhã acabarão “ (F31,47) e a que aludia à contemplação como “trabalho disfarçado com gosto” (C 18,4). É claro que todos estes exemplos nos obrigam a ter sempre em conta os contextos, sem isolar nem absolutizar as frases por belas ou impactantes que sejam… 

16. “Alguns dias depois da fundação da casa, pareceu-nos, ao Padre Provincial e a mim, que na renda dada por Catarina de Tolosa ao mosteiro, havia certos inconvenientes dos quais podia resultar algum pleito e causar-lhe a ela algum desassossego. E quisemos antes confiar em Deus do que ficar em condições de lhe dar dissabores. Por esta e por outras razões […], restituímos-lhe as escrituras” (48). Curioso epílogo que deixa a comunidade numa situação inédita entre as suas fundações: não ter renda, mas parecendo que tem, com o qual o sustento poderia complicar-se… A Santa chega a ficar preocupada com o assunto, até que de novo o Senhor a favorece com outra locução… - Reparemos, portanto, nas razões humanas de uma decisão como aquela, os sentimentos que se agitam em Teresa…


sábado, 25 de agosto de 2012

Papa escreve Mensagem lembrando os 450 anos da reforma carmelita




Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 24-08-2012, Gaudium Press)

 Nas vésperas da Solenidade de Nossa Senhora do Carmo, o Papa Bento XVI lembrou que no dia seguinte seria celebrada a memória Litúrgica da Bem Aventurada Maria do Monte Carmelo - Mãe de Deus e Senhora do Escapulário. 


Neste mesmo dia enviou uma mensagem ao Bispo de Ávila e a todo o Carmelo Teresiano pela ocasião da celebração dos 450 anos em que Santa Teeza de Jesus fundou o Carmelo de S. José, em Ávila, Espanha, no dia 24 de agosto de 1562.



Resplendens stella. «Uma estrela de imenso esplendor» (Livro da Vida 32, 11). Com estas palavras, o Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar em Ávila o mosteiro de São José, início da reforma do Carmelo, lembra o Papa, no início de sua Mensagem enviada ao Bispo de Ávila, Dom Jesús García Burillo.



O Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar o Mosteiro de São José, início da reforma do Carmelo, diz Bento XVI. "Esta mulher preclara desejava unicamente agradar-lhe em tudo. Com efeito, um santo não é aquele que realiza grandes proezas baseando-se na excelência das suas qualidades humanas, mas aquele que permite com humildade que Cristo penetre na sua alma, que aja através da sua pessoa, que Ele seja o verdadeiro protagonista de todas as suas obras e desejos, que inspire cada iniciativa e sustente cada silêncio". 



O Pontífice continua: "Só quem leva uma intensa vida de oração pode deixar-se conduzir deste modo por Cristo. Ela consiste, segundo as palavras da Santa de Ávila, em «falar de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama» (Livro da Vida 8, 5). A reforma do Carmelo, cujo aniversário nos enche de júbilo interior, nasce da oração e tende para a oração" .


"Santa Teresa propôs um novo estilo de ser carmelita, num mundo também novo. Aqueles eram «tempos árduos» (Livro da Vida 33, 5)", lembra o Santo Padre.

"O fim último da Reforma teresiana e da criação de novos mosteiros, no meio de um mundo com escassos valores espirituais, consistia em tutelar com a oração a obra apostólica; em propor um estilo de vida evangélica que fosse modelo para quantos procuravam um caminho de perfeição, a partir da convicção de que toda a autêntica reforma pessoal e eclesial passa pelo reproduzir cada vez melhor em nós mesmos a «forma» de Cristo (cf. Gl 4, 19), escreve o Papa para, logo em seguida, fazer comparações e tirar lições: "Também hoje, como no século XVI, e entre rápidas transformações, é preciso que a oração confiante seja a alma do apostolado, para que ressoe com clareza evidente e dinamismo pujante a mensagem redentora de Jesus Cristo. É urgente que a Palavra de vida vibre nas almas de forma harmoniosa, com notas sonoras e atraentes. Nesta tarefa apaixonante, o exemplo de Teresa de Ávila constitui uma grande ajuda para nós. Podemos afirmar que, no seu tempo, a Santa evangelizou sem tibieza, com ardor jamais apagado, com métodos distantes da inércia e com expressões cheias de luz. Isto conserva todo seu vigor na encruzilhada atual."

Depois de lembrar a radicalidade e fidelidade a que Santa Tereza nos convida hoje, o Papa exorta todos os membros desta Igreja particular, mas de maneira profunda os jovens, "a levar a sério a comum vocação à santidade. "Seguindo os passos de Teresa de Jesus, aspirai também vós a ser totalmente de Jesus, só de Jesus e sempre de Jesus. Não tenhais medo de o dizer a nosso Senhor, como ela fez: «Sou vossa, para Vós nasci; o que quereis fazer de mim?» (Poesia 2).
Bento XVI conclui sua Mensagem relembrando ainda a "grande devoção a Virgem Santíssima, que ela invocava com o doce nome do Carmelo" e suplicando a "Maria, Estrela da Evangelização, e o seu casto esposo São José intercedam para que aquela «estrela» que o Senhor acendeu no universo, a Igreja, com a reforma teresiana continue a irradiar o grande brilho do amor e da verdade de Cristo a todos os homens." (JSG)