sábado, 25 de agosto de 2012

Papa escreve Mensagem lembrando os 450 anos da reforma carmelita




Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 24-08-2012, Gaudium Press)

 Nas vésperas da Solenidade de Nossa Senhora do Carmo, o Papa Bento XVI lembrou que no dia seguinte seria celebrada a memória Litúrgica da Bem Aventurada Maria do Monte Carmelo - Mãe de Deus e Senhora do Escapulário. 


Neste mesmo dia enviou uma mensagem ao Bispo de Ávila e a todo o Carmelo Teresiano pela ocasião da celebração dos 450 anos em que Santa Teeza de Jesus fundou o Carmelo de S. José, em Ávila, Espanha, no dia 24 de agosto de 1562.



Resplendens stella. «Uma estrela de imenso esplendor» (Livro da Vida 32, 11). Com estas palavras, o Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar em Ávila o mosteiro de São José, início da reforma do Carmelo, lembra o Papa, no início de sua Mensagem enviada ao Bispo de Ávila, Dom Jesús García Burillo.



O Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar o Mosteiro de São José, início da reforma do Carmelo, diz Bento XVI. "Esta mulher preclara desejava unicamente agradar-lhe em tudo. Com efeito, um santo não é aquele que realiza grandes proezas baseando-se na excelência das suas qualidades humanas, mas aquele que permite com humildade que Cristo penetre na sua alma, que aja através da sua pessoa, que Ele seja o verdadeiro protagonista de todas as suas obras e desejos, que inspire cada iniciativa e sustente cada silêncio". 



O Pontífice continua: "Só quem leva uma intensa vida de oração pode deixar-se conduzir deste modo por Cristo. Ela consiste, segundo as palavras da Santa de Ávila, em «falar de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama» (Livro da Vida 8, 5). A reforma do Carmelo, cujo aniversário nos enche de júbilo interior, nasce da oração e tende para a oração" .


"Santa Teresa propôs um novo estilo de ser carmelita, num mundo também novo. Aqueles eram «tempos árduos» (Livro da Vida 33, 5)", lembra o Santo Padre.

"O fim último da Reforma teresiana e da criação de novos mosteiros, no meio de um mundo com escassos valores espirituais, consistia em tutelar com a oração a obra apostólica; em propor um estilo de vida evangélica que fosse modelo para quantos procuravam um caminho de perfeição, a partir da convicção de que toda a autêntica reforma pessoal e eclesial passa pelo reproduzir cada vez melhor em nós mesmos a «forma» de Cristo (cf. Gl 4, 19), escreve o Papa para, logo em seguida, fazer comparações e tirar lições: "Também hoje, como no século XVI, e entre rápidas transformações, é preciso que a oração confiante seja a alma do apostolado, para que ressoe com clareza evidente e dinamismo pujante a mensagem redentora de Jesus Cristo. É urgente que a Palavra de vida vibre nas almas de forma harmoniosa, com notas sonoras e atraentes. Nesta tarefa apaixonante, o exemplo de Teresa de Ávila constitui uma grande ajuda para nós. Podemos afirmar que, no seu tempo, a Santa evangelizou sem tibieza, com ardor jamais apagado, com métodos distantes da inércia e com expressões cheias de luz. Isto conserva todo seu vigor na encruzilhada atual."

Depois de lembrar a radicalidade e fidelidade a que Santa Tereza nos convida hoje, o Papa exorta todos os membros desta Igreja particular, mas de maneira profunda os jovens, "a levar a sério a comum vocação à santidade. "Seguindo os passos de Teresa de Jesus, aspirai também vós a ser totalmente de Jesus, só de Jesus e sempre de Jesus. Não tenhais medo de o dizer a nosso Senhor, como ela fez: «Sou vossa, para Vós nasci; o que quereis fazer de mim?» (Poesia 2).
Bento XVI conclui sua Mensagem relembrando ainda a "grande devoção a Virgem Santíssima, que ela invocava com o doce nome do Carmelo" e suplicando a "Maria, Estrela da Evangelização, e o seu casto esposo São José intercedam para que aquela «estrela» que o Senhor acendeu no universo, a Igreja, com a reforma teresiana continue a irradiar o grande brilho do amor e da verdade de Cristo a todos os homens." (JSG)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Fundações: Capítulo 30 Fundação de Sória



Pistas de leitura
A fundação de Sória é, sem dúvida, a mais fácil de todas; por isso, encontram-se na narração mais elogios aos bons e grandes colaboradores, que o Senhor lhe pôs pelo meio, do que pormenores da mesma.


Devem-se aos dois principais benfeitores a rápida decisão em ir realizá-la (1-4). Também ao primeiro deles deve a Santa uma viagem tão cómoda que quase não tem que contar, e aproveita para elogiar agora um dos seus acompanhantes desde Palência (5-7). Igualmente fácil é a chegada à cidade e a realização da fundação, e de novo se detém “em dizer bem deste santo” que era o seu principal colaborador (8-11). Só a viagem de regresso a Ávila se processou de modo complicado, “mas esta fundação foi tão sem trabalhos, que deste não se há-de fazer caso” (12-14). 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. Desde o começo da leitura aparece claro o protagonismo e a qualidade do Bispo de Sória, seu amigo e antigo confessor, o Dr. Velázquez. A Santa destaca com que interesse e dedicação a atendeu em Toledo, pospondo as suas muitas ocupações (1). Disponibilidade e generosidade preciosas (pois ela não podia remunerar-lhe o tempo que lhe dedicava): - são habituais no teu ambiente eclesial? E em ti? Agradece, suplica e intercede… 

2. Recorda as razões que levavam a Santa a confiar no conselho do Dr. Velázquez (1, final). – São as mesmas que costumas procurar? Encontra-las? Cultiva-las?… 

3. – Que te faz pensar e rezar a seguinte confidência da Santa que, além de ser boa fundação, vai a Sória porque “ tinha desejo de comunicar-lhe algumas coisas da minha alma e de o ver, pois afeiçoara-me muito a ele pelo bem que me fizera” (2; cf. Vida 40,19; 37,5). 

4. Este santo Bispo será quem convença a boa da fundadora, D. Beatriz, para que faça um mosteiro de carmelitas descalças. Como sempre, o elogio que Teresa faz das virtudes de alguma pessoa, serve-nos para nos compararmos, reflectirmos… Destaca, sem dúvida, a sua generosidade. Mas não devemos passar por alto o primeiro elogio que lhe faz: sendo de tão alta linhagem (3), é alguém de temperamento muito doce (isto é, nada arrogante, nem soberba, nem intrometida, como era próprio da sua categoria social) e penitente (4). 

5. Embora este texto teresiano não o revele, porque se escreveu antes, D. Beatriz ingressará, em 1588, no Carmelo de Pamplona (que também tinha ajudado a fundar), aos 65 anos de idade; seria ainda carmelita durante 12 anos. – Qual a tua opinião sobre a admissão de uma pessoa já de certa idade? – Quais os motivos que poderiam justificá-la? 

6. O companheiro de caminho, de quem já falámos, a quem dedica também bons elogios, é o P. Nicolau Dória. Uma vez mais, reparando no que louva nele, serve-nos para conhecermos aquilo a que a Santa dá valor e confrontá-lo com as nossas vidas… Mas, como já lhe aconteceu com outras pessoas, neste mesmo livro (cf. 10,7-11; 17,5-12; 20,2-14; 25-4-5), os louvores que aqui lhe dedica, aparecem desmentidos com o tempo: às vezes, de maneira não muito escandalosa, mas outras, todo o contrário, como parece ser o caso de Dória, que acabou enfrentando e perseguindo os grandes amigos e herdeiros da Santa (Graciano, Maria de São José, Ana de Jesus). – É fácil para ti assumires isto, ou ficas confundido/a? – Choca com alguma ideia tua sobre a santidade de Teresa e o seu discernimento de espíritos e conhecimento das pessoas? – Se não o achas incoerente com a sua santidade e vida mística, saberias explicá-lo a alguém que o considerasse incoerente? 

7. Quando chegaram a Sória, diz que “o santo Bispo estava a uma janela da sua casa e, quando passámos, lançou-nos a sua bênção. Não foi pequena a minha alegria, porque a bênção de um prelado, e dum prelado santo, é digna de todo o apreço” (7). – Achas que isto poderia supor uma distinção entre bênçãos de maior e menor qualidade? 

8. Quando alude à fundação do novo convento, novamente se desfaz em exaltar as virtudes do Senhor Bispo: prestemos atenção a elas, porque são muito interessantes e úteis para o que estamos a trabalhar e a trabalhar-nos com estes textos (9-10). 

9. Se bem que, ao longo do livro, não se detenha em descrever a precaridade e o perigo das viagens naquele tempo, fá-lo um pouco no final deste capítulo (13): reparemos, confrontemos com as nossas situações e disponibilidades; agradeçamos e oremos por tantos missionários que vivem fatos parecidos por amor do Senhor e dos irmãos. 

10. E, não obstante o anterior, “nunca Deus me dá trabalhos que não mos pague logo” (14), por exemplo, com presentes como os que lhe fizeram as monjas de Segóvia depois deste duro caminho. – Compartes esta ideia e experiência? – Costumas inculcá-la noutros? Mais com palavras do que com obras, ou com um justo equilíbrio entre ambas?…



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Capítulos 28 e 29


Fundações: Capítulo 29
Pistas de leitura

Esta narração da fundação de Palência tem uma estrutura bastante clara. Em primeiro lugar, a Santa, já nos seus últimos anos de vida e muito debilitada pela epidemia de bronquite (que quase acaba com ela), fala da sua excessiva fraqueza e de como o Senhor actuou para lhe infundir força e pô-la a caminho (1-6).
Trata em seguida da duríssima viagem em pleno inverno, e da fundação em segredo, conforme o seu costume, apesar de contar com o apoio do bispo e da generosíssima gente de Palência (7-11).

Dedica, depois, a parte mais extensa do capítulo ao episódio mais complicado desta fundação: a compra da casa onde se alojaria definitivamente a comunidade. Nesta parte destacam os muitos e bons colaboradores; no entanto, também não falta as estratégias necessárias para que a compra se faça bem e os vendedores não especulem com as suas necessidades e interesses. Contudo, será uma nova locução do Senhor a que vem esclarecer a questão: resulta muito interessante reparar nas dúvidas que surgem na Santa sobre o assunto e como as esclarece… (12-29).
Finalmente, a narração fecha com a famosa alusão ao Capítulo de Alcalá e a conseguida independência jurídica dos descalços; breve, mas intensa (30-33).


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. A Santa descreve o seu estado de ânimo inicial, como “um dos grandes trabalhos e misérias da vida (…) terrível coisa… em especial se é alma que já se viu com grandes desejos de não descansar interior e exteriormente, empregando-se totalmente no serviço do seu grande Deus” (3). Depois de toda uma vida arrastando grandes enfermidades e quase 20 anos a viajar e a fundar em condições muito difíceis – quer dizer, treinada em “grandes trabalhos” – e, ao mesmo tempo, cumulada de graças místicas, que te sugere este seu estado anímico?

2. “Aqui não há outro remédio senão ter paciência, reconhecer a própria miséria e abandonar-se à vontade de Deus…” (3). Portanto, não tem nada a ver com culpabilizar-se, nem questionar-se voluntariamente… -Tem-lo em conta para ti próprio e para aqueles a quem possas aconselhar? – Revê, agradece, intercede…

3. Apesar da atitude teologal anterior, sente a falta de “alguém que me animasse” (3). Mas quando os há, também não lhe bastam (cf. 4-5a). Parece, pois, que em discernimento onde houver dados tão evidentes – como o era aqui a sua fraqueza por razões sérias e objectivas de saúde – devem prevalecer estas; salvo se o Senhor falar alto e claro (cf. 6): estás de acordo? Pratica-lo? Como?… Evidentemente, será rara uma locução assim; mas reconhecer “a voz” do Senhor exigirá, sempre, alguns frutos dos que aqui se apontam: “fiquei tão determinada e animada…” (6). - Achas isto coerente? Fácil de levar à prática?

4. A propósito de remédios e de discernimento, não deixes de te deter no seguinte texto: “Estando um dia, depois de comungar, nestas dúvidas e sem me determinar a fazer qualquer das fundações, supliquei a Nosso Senhor que me iluminasse para fazer em tudo a Sua vontade, pois não era tanta a tibieza que chegasse a ponto de diminuir, por pouco que fosse, este desejo” (6).

5. Essa grande debilidade anímica inicial acaba mesmo por obnubilar convicções e experiências tão firmes, no seu caso, como a de que “para fazer mosteiros de pobreza, sem renda, nunca me falta coragem nem confiança” (20,13; cf. 29, 1-2). – Que achas da maneira como a insegurança pessoal afecta as nossas, não só convicções, mas também experiências vitais e religiosas? Obviamente, se isto é assim, é uma boa e necessária matéria para velar e orar… (cf. Lc 22, 40).

6. Evidentemente, a graça com que o Senhor a anima, implica que, embora “me dissessem não ser possível viver de esmolas em Palência, era como se não mo dissessem (…) pois Deus me mandava fazer a fundação, Sua Majestade havia de providenciar (7). E fê-lo tão admiravelmente como era habitual, através de “quem O ajude” (8), que Teresa não se cansa “de louvar a caridade, tanto geral como particular, que encontrei em Palência” (27). Seria bom reparar nas pessoas que destaca e agradece em particular, e confrontar-nos com isso: -Levo contas do bem? Agradeço-o ao Senhor e à pessoa?…
No entanto, queremos agora ressaltar sobretudo como aquela caridade lhe pareceu “coisa da primitiva Igreja” (cf. Actos 2, 44-45): - Que achas de que, numa sociedade tão cristã, seja tão estranho encontrar quem esteja disposto a partilhar de verdade, mesmo do que lhes faz falta para viver (Lc 21, 1-4)? – Como te vês tu e o teu contexto (comunidade, família…) a esse respeito? (Cf. Caminho de Perfeição, cap.2 e a Ficha correspondente). Tal como nesta se destaca, recordar que a Santa não era uma “pauperista radical”: até compraria, mesmo que notoriamente encarecida, “uma casa que parecia convir para mosteiro” (22).

7. Que achas de que, apesar de tanta ajuda do Senhor e das pessoas, a Santa continue com as suas estratégias habituais? Tanto para a sua chegada à cidade – em segredo, porque se não o demónio inquieta, mesmo que “nada consiga” (9) - como para a compra posterior de casa definitiva, para o qual, por exemplo, visita várias “não com intenção de adquiri-las, mas para que o proprietário da outra não pensasse que não tínhamos outro recurso senão a dele” (15).

8. Aparece uma nova fala do Senhor na Comunhão (18, cf.6). Em relação ao Santíssimo Sacramento, já lemos nela coisas importantes (cf. Vida, 22 e 38,21; Caminho 33.35; e as Fichas correspondentes), embora, na realidade, sempre se possa aprofundar mais. Convidamos, no entanto, a reparar agora no discernimento posterior que implica esta nova fala (19-24): questões que relembra, como e com quem a Santa as debate, como é que ela e o seu confessor concordam na mudança de casa que o Senhor propôs… São, sem dúvida, boa matéria para reflexão e oração

9. Se este capítulo começava com “um dos grandes trabalhos e misérias” (3) que Teresa experimentou, termina, no entanto, com “um dos maiores gozos e consolações que poderia receber nesta via” (31). – Aprecias e agradeces o que significa ter um lugar na Igreja e um reconhecimento jurídico que permite encarnar e desenvolver o teu carisma e a tua própria vocação, os teus direitos e obrigações? – Vês, desde este ponto de vista, o Direito Canónico?

10. “Agora começamos, e procurem ir começando sempre, de bem em melhor…” (32). Esta frase tem sido na Ordem todo um lema da necessidade de sermos criativos para sermos fiéis. Mas parece que o seu contexto imediato aponta precisamente para o contrário: “guardem-se, por amor de Deus, de deixar cair algum ponto de perfeição. Não vá dizer-se, por sua causa, o mesmo que de muitas Ordens, das quais só se louvam os princípios (…). Olhem que, por muito pequenas coisas vai o demónio abrindo brechas por onde entram as muito grandes. Que jamais lhes aconteça dizer: isto não tem importância, são exageros.” – Que opinas? Achas que terá a ver alguma coisa com Mt 5, 17-19 e a sua necessária interpretação eclesial nada literal?…

11. O facto do Concílio Vaticano II pedir que renovássemos as nossas Constituições e, com isso, não alguma mas muitas coisas de perfeição, demonstra que a interpretação literal e rigorista destes parágrafos não é fiel ao sentir da Igreja. Portanto, este aparente paradoxo – uma “santa presunção” (33) – que Teresa pede às suas filhas como conclusão, poderia interpretar-se muito bem como fidelidade ao chamamento universal à intimidade com o Senhor 1, a santidade entendida como pertença a Ele, antes do que em sentido moral ou qualquer outro (cf., por exemplo, Novo Millennio Ineunte 30). – É esta “santa presunção” prioritária para mim? – Como potenciá-la?




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1 “Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita, de dizer: não somos anjos, não somos santas. Olhai que, embora não o sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçarmos, o poderemos ser (…). Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda aos fortes e não faz acepção de pessoas” (Caminho, 16, 8 ou 12, segundo as edições).


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Capítulo 27


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Fundações: Capítulo 27
Ficha XIII.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – I

Capítulo 27
Teresa deixa Sevilha e recolhe-se em Toledo para cumprir o mandado do Definitório: “trouxeram-me uma ordem do Definitório, dada depois de um Capítulo Geral […] para que, não só não fundasse mais, mas até para que, sob nenhum pretexto, saísse da casa que eu escolhesse para estar. Era como encarcerar-me…” (27,20). Já em Toledo, escreve a crónica da fundação de Caravaca, última da primeira etapa fundacional. Passarão quatro anos antes de voltar a sair para fundar.
Pistas de leitura
1. Teresa começa por recordar os começos da nova fundação; os inconvenientes da primeira licença; o adiamento do projecto por causa da fundação de Sevilha e, finalmente, a fundação de Caravaca, tendo a Madre delegado em Ana de Santo Alberto para levá-la a cabo (nn.1-10).
2. Segue-se, à continuação, um extenso diálogo de Teresa com as suas filhas; dá-lhes as suas razões para fazer memória dos acontecimentos (nn.11-16) 1
3. Continua um juízo avaliativo do empreendimento fundacional a modo de epílogo. A Santa volta a recordar os grandes trabalhos suportados; a autorização e licenças que recebeu do Geral Rubeo para levar a cabo as fundações; o desprestígio e condenação de que foi objecto injustamente (nn.17-21) 2
4. Com a ordem de deixar de fundar e de se recolher a um convento, cessam também as crónicas. Tinha começado a escrevê-las em 1573 por mandato do seu confessor, o P. Ripalda, e depois por ordem do comissário apostólico, Frei Jerónimo Graciano. Deixa-nos o testemunho da sua obediência ao jeito de epílogo (nn.22-24), datando o fim da obra a 14 de Novembro de 1576. Seguem-se quatro avisos para os Descalços. Teresa escreveu-os numa folha independente que incluiu no fim do caderno, embora não tenham relação directa com o livro das Fundações3


Para reflectir, rever la vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. Concluído o relato da fundação de Caravaca, Teresa trava um diálogo directo com as suas leitoras. Num instante, recolhendo todo o passado, faz uma leitura retrospectiva das fundações para testemunhar vigorosamente a obra de Deus e os grandes trabalhos que nelas passaram: “vereis que estas casas não foram, de certo modo, fundadas por homens, mas pela poderosa mão de Deus” (11). “Vede, minhas filhas, vede a mão de Deus […] Seja como for que o querais ver, tendes de reconhecer que a obra é Sua” (12). “Recordai-vos com quanta pobreza e trabalho se fez o que agora gozais com descanso” (11). Trabalhos nos caminhos, cansaço e pouca saúde (17); “o ter de suportar as maneiras de ser de muitas pessoas”, e o desgarrão afectivo de “deixar as irmãs e filhas quando partia de um lugar para outro” (18).

Finalmente, o duro golpe da incompreensão e condenação, os falsos testemunhos e a reclusão.
Memória: Voltar às fontes, re-cordar (=passar pelo coração) a origem, é apropriarmo-nos da sua força fecunda, permitir que a graça de Deus concedida aos nossos maiores continue viva e eficaz entre nós. Pode servir de reflexão ou debate em grupo ter presente a ambiguidade da lembrança. Podemos vivê-la em toda a sua força recreadora se a memória nos ajudar a nos re-conhecermos, a re-viver a graça fundante de um carisma. Mas também se pode converter num escape nostálgico ou crítico de um passado perdido. – Como fazemos memória da nossa história? – Quais os perigos que ‘o esquecimento’ leva consigo?

2. A Madre deixou claro o motivo essencial pelo qual relata os acontecimentos: que se veja a obra de Deus, que as suas filhas conheçam, em primeira mão, os sacrifícios que a reforma exigiu e que se comprometam a conservar e a transmitir fielmente às gerações futuras o dom recebido. Hoje, em cada uma delas “torna a começar esta primeira Regra da Ordem da Virgem Nossa Senhora” (11). “Digo-o, filhas, para que entendais estar mais obrigadas […]. Praza a Sua Majestade amparar-nos sempre e dar-nos a graça de não sermos ingratas a tantas mercês. Ámen” (16).
Testemunho de profecia: Contemplar a obra de Deus exige a responsabilidade do testemunho. Memória e profecia vão de mãos dadas. A obra de Deus deve converter-se em vida, convicção pessoal e compromisso actual. E o passado deve continuar vivo como dinamismo espiritual que abrace todos os horizontes. Trata-se de tomar o passado em nossas mãos, de cuidar dele com um presente fiel e criativo, e de orientá-lo para o futuro. – Como poderemos educar um ‘olhar teologal’ que abranja e integre horizontes? - Somos sensíveis aos testemunhos de entrega e santidade do passado? Tem-se falado muito sobre ‘voltar ao essencial’ (do Evangelho, do cristianismo primitivo, do carisma fundacional…). – Como compreendemos e concretizamos este ‘voltar ao essencial’ do carisma a fim de o traduzirmos hoje com todo o seu vigor?

3. “Sua Majestade é muito amigo de levar por diante as obras que faz, se por nós não for detido” (11). “Não seria justo que a diminuíssemos, ainda que tivéssemos de sacrificar a vida, a honra e o descanso” (12). – Mas como corresponder a Deus? Teresa dá conselhos muito precisos. Com cada um deles poder-se-á animar um tempo de meditação comunitária ou pessoal:
Oração: “Praza a Sua Majestade dar-nos abundantemente a Sua graça; com ela nada haverá que nos tolha os passos para ir adiantando no Seu serviço. Que a todas nos ampare e favoreça, para que não se perca, por nossa fraqueza, um tão grande princípio […]. Em Seu nome vos suplico, irmãs e filhas minhas, que sempre o supliqueis a Nosso Senhor” (11).
Fidelidade é comprometer-se com as gerações futuras. Honrar o passado é ser hoje alicerce das que estão para vir (F 4,6; 21,11).
Esperança: Descobre e medita a essência e dinamismo próprio da esperança cristã nas notas que Teresa condensa neste parágrafo:
“Vida é viver de maneira que não se tema a morte, nem todos os sucessos da vida, e possuir esta habitual alegria que todas agora tendes e esta prosperidade, que não pode ser maior, que não teme a pobreza, antes a deseja. Pois a que poderá comparar-se a paz interior e exterior em que sempre andais? Em vossa mão está viver e morrer com ela […]. Porque, se sempre pedirdes a Deus que leve por diante a Sua obra e não fiardes nada de vós, não vos negará a sua misericórdia; e se tiverdes confiança n’Ele e ânimos animosos – que disto é Sua Majestade muito amigo –, não receeis que vos falte alguma coisa” (12).

4. Ao rever a nossa vida, prestamos atenção aos nossos desejos, intenções e actos concretos. Mas examinamos os nossos medos? Eles revelam a nossa atitude teologal muito mais do que imaginamos! “Não temais”, diz Jesus reiteradas vezes no Evangelho4. Repete-o muitas vezes a Teresa em revelações privadas5. E Teresa no-lo transmite a nós, hoje: “Não tenhais medo”6. Deus não desampara, não abandona. É amigo de levar adiante as suas obras…

Segundo os capítulos das Fundações que já trabalhaste até agora, poderias recolher as afirmações teresianas sobre ‘o ser’ de Deus? – Como é Deus segundo Teresa? Contempla na tua vida o Deus fiel, fonte de paz e de fortaleza. Reconhece os teus medos, dá-lhes um nome e reza com o salmista: “O Senhor é minha luz e salvação, a quem hei-de temer? O Senhor é o protector da minha vida, de quem hei-de ter medo?” “Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor” (Salmo 26 [27],1-14).

5. Teresa oferece-se como testemunho vivo do Deus que não desampara a quem deseja servi-l’O. No meio da condenação e incompreensão, o Senhor encheu-a de paz, gozo, liberdade interior (20). Só Deus basta, as criaturas são inconstantes (10). Deus não Se muda: “Creio que o meu gozo principal estava em parecer-me que devia ter contentado o Criador, já que assim me pagavam as criaturas, pois entendo que, quem se paga com coisas da terra ou louvores dos homens, anda bem enganado; e, aliás, pouco lucra, pois hoje lhes parece uma coisa e amanhã outra e, se uma vez dizem bem, logo tornam a dizer mal. Bendito sejais Vós, Deus e Senhor meu, que sois para todo o sempre imutável, ámen. Quem Vos servir até ao fim, viverá sem fim na Vossa eternidade” (21)

- Como assumimos e vivemos a nossa solidão, esse fundo da alma que nada nem ninguém pode preencher? - Em que medida as opiniões e ditos dos outros têm influência na nossa vida, fundamentam a nossa confiança ou constroem a nossa identidade e imagem? - Como responde a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade? Para um momento de oração, pode-se rezar ou cantar o poema teresiano “Nada te perturbe”.


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1Cf. Guião pastoral de Fundações, tema V.
2Cf. Efrém da Madre de Deus e O.Steggink, em Tiempo y Vida de Santa Teresa, P. II, nº417-441.
3Cf. Tomás Álvarez, “Sobre los Cuatro Avisos dela Santa”, en Monte Carmelo 114 (2006) 257-299; Comentarios al libro de las “Fundaciones” de Santa Teresa de Jesús, 131-134.
4 Cf. Mt 8,26; 28,10;Mc 4,40; 6,50; 16,6;Lc 12,32; 24,38; Jo 14,1.27
5 Cf. F 29,6; V 25,18; 30,14; Contas de Consciência 52; 53,16; 12,1; 25 y 38; Relações 4,16; 26,1; 35; 53 y 55.
6 Cf. CV 2,2.8; 10,3;16,10.12; 17,4; 20,2; 21,5.10; 23,3.5; 38,4; V 7,20; 8,7; 11,10.13; 34,12; 35,14.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fundações: Capítulos 25-26


 


Ficha XII.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 
Nos capítulos seguintes, assistimos ao relato da inauguração do Carmelo de Sevilha, com a ajuda inestimável dos novos amigos e benfeitores de Teresa: o seu irmão Lourenço, o sacerdote sevilhano Gaciálvarez, e o Prior da Cartuxa, Hernando de Pantoja (F 25). Instala-se o Santíssimo Sacramento após uma solene procissão e a bênção do Arcebispo Cristóvão de Rojas (27.05.1576), e no dia seguinte a Madre põe-se novamente a caminho de Castela (F 26,1-2). Como epílogo, a narração encerra com a memória edificante da primeira vocação andaluza; Beatriz da Madre de Deus (F 26,3-16).


Pistas de leitura 
Há três aspectos a destacar no momento de abordar a leitura destes capítulos: a pobreza e as dificuldades que Teresa encontra em Sevilha, contra o que era de supor; o novo grupo de amigos que ajudam a Madre em tudo o que respeita à compra da nova casa; e os conflitos institucionais e graves acusações que afectam nessa altura os Descalços e Teresa dentro da Ordem. 

1. Pobreza e dificuldades: “Ninguém podia prever que numa cidade tão importante e de gente tão rica como Sevilha, haveria menos ajudas para fundar do que em qualquer das outras partes onde estivera” (F 25, 1). “Exceptuando a primeira fundação de Ávila […] nenhuma outra me custou tanto como esta, por serem os trabalhos, na sua maioria, interiores” (26,2). No mês de Dezembro de 1575, uma noviça acusa as descalças de Sevilha perante a Inquisição. Nos princípios do ano seguinte, uma comissão, em nome da Inquisição, examina o espírito da Madre. Duas Contas de Consciência, em que Teresa expõe o seu caminho espiritual, os confessores que a acompanham e a sua oração1, são fruto do processo inquisitorial a que foi submetida, a sua resposta às informações pedidas pelo tribunal. 

2. Novos colaboradores: Garciálvarez, “pessoa muito de bem e conhecida na cidade pelas suas boas obras” (25,2). Oferece-se para celebrar a missa diária à nova comunidade e impede a compra de um edifício nada conveniente para mosteiro. Além disso, encarregar-se-á de ornamentar a clausura e a igreja para a inauguração (25,12). Lourenço de Cepeda, recentemente chegado da América: “ajudou-nos muito, sobretudo em conseguir que ficássemos na [casa] em que agora estamos” (25,3). E Hernando Pantoja, “um santo velho, prior da Cartuxa de las Cuevas, grandíssimo servo de Deus” (25,9), que ajudou com as suas esmolas, fazendo-lhes bem “por todos os meios”. Ele e Garciálvarez combinarão com o arcebispo toda a solenidade da procissão, com a presença de clérigos e confrarias da cidade. Por uma carta de Teresa, conhecemos um pormenor que humildemente cala no relato desta fundação: o arcebispo D. Cristóvão de Rojas e Sandoval ajoelha-se diante da Madre, pedindo-lhe a sua bênção. Assim o contará a Ana de Jesus: “Imagine o que sentiria ao ver um tão grande prelado ajoelhado na frente desta pobre mulherzinha, sem se querer levantar até que lhe desse a bênção, na presença de todas as religiões e confrarias de Sevilha”2. 

3. Conflitos institucionais: Imediatamente após a inauguração, Teresa parte para Castela. Incompreendida e desprestigiada, chegou-lhe uma ordem do Definitório geral, reunido em Piacenza, de acabar com as fundações e recolher-se num dos seus conventos. A ordem foi adiada temporariamente por Graciano, mas agora chegara o momento e escolhe Toledo. Escreve ali o 26 capítulo, o último dedicado à Fundação de Sevilha. É o pano de fundo vivido e velado no relato que virá à luz no capítulo seguinte. Alguns dos ‘trabalhos interiores’ que Teresa padece nessas datas3. 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. Todas as gestões por conseguir uma casa em condições resultam inúteis. Passam-se noves meses de longa espera (F 25,1-2) numa incómoda casa alugada. Tudo resulta inconveniente e apertado numa cidade onde paradoxalmente abundam os recursos. 

Tendo como horizonte que a verdadeira esperança teologal sabe confiar-se totalmente a Deus na adversidade e na prosperidade, receber tudo como Seu, mas sem renunciar ao esforço, ao caminho e à meta… - Como reagimos perante as nossas fragilidades e temores, ou perante o êxito de um projecto alcançado? 

2. Teresa sofre com a ideia de ter de regressar a Castela deixando as suas filhas sem casa definitiva. Para encontrá-la, serve-se de todas as mediações: a oração, a ajuda do seu irmão Lourenço e Garciálvarez, e as suas próprias diligências embora infrutíferas: “Estando um dia em oração, pedindo a Deus que lhes desse casa, pois eram esposas Suas, tão unicamente desejosas de agradar-Lhe, recebi como resposta: Já vos ouvi. Deixa isso a meu cuidado” (25,4). 

Às vezes, nas dificuldades, é fácil perder o equilíbrio e cair nos extremos: esperar tudo de Deus, descarregar a responsabilidade nos outros, ou esperar tudo de nós mesmos. – Sabemos unir a oração e a confiança na ajuda de Deus e dos irmãos com uma atitude responsável e diligente da nossa parte? 

3. Encontram finalmente uma casa conveniente para a comunidade e mudam-se para lá. Levarão um mês a adaptar-se ao lugar e a fazer a igreja. Teresa conta-nos: “ Era meu desejo colocar o Santíssimo Sacramento sem aparato, depois de estar tudo concluído, porque sou inimiga de me tornar pesada quando o posso evitar. E assim, dirigi-me ao Padre Garciálvarez que, por sua vez, tratou com o prior de Las Cuevas” (25,11) 

Conhecemos o desenlace: estes bons homens, juntamente com o arcebispo, decidiram inaugurar o mosteiro com a maior solenidade possível. Levada a empresa a feliz termo, Teresa pode descansar. No dia seguinte, regressa a Castela. Mas não se queixa; alegra-se de ter compartilhado com as suas irmãs as penúrias e conflitos daqueles meses: “sobretudo, dava-me alegria ter gozado dos trabalhos e ir-me quando podia ter algum descanso” (26,1). 

A atitude da Madre revela uma grande delicadeza: simplicidade e sentido prático, e sobretudo caridade para não sobrecarregar ninguém com trabalhos que se podem evitar. Esta maneira de ser teresiana pode ajudar-nos a examinar pessoal e comunitariamente as nossas atitudes, particularmente a nossa caridade: não “se tornar pesada quando se pode evitar” 

Teresa descobre, a cada passo, a intimidade da sua alma, os seus estados de ânimo ou as suas lutas interiores, e ao mesmo tempo ensina-nos a viver a fraternidade, a vida em comunidade. - Como vivemos e manifestamos a alegria de compartilhar com os nossos irmãos penas e trabalhos? – Sem queixas, sem censuras, sem lhes sermos pesados, ajudando-nos mutuamente a levar os nossos fardos? 

4. A Santa termina a crónica de Sevilha com um relato vocacional. A história de Beatriz da Madre de Deus é uma das narrativas e biografias exemplares que amenizam o livro das Fundações4. Pela insistência, pela própria selecção de dados (trata-se do que se considera digno de ser contado), descobre-se o ideal destacado por Teresa como modelo para as futuras gerações. Uma coisa merece particular destaque: a firmeza de Beatriz nas contradições e a fidelidade ao ideal do Carmelo. No Caminho de Perfeição já a madre nos tinha aconselhado que, para a grande empresa da oração, é necessária “uma grande e determinada determinação” (C 21,2) de não abandonar o ideal, mesmo que se morra no caminho: “ a morrer sim, mas não a ficar vencidos” (C 3,1). 
Procurar outros paralelos com textos teresiano já trabalhados em fichas e capítulos anteriores, e reler o relato procurando descobrir substancialmente o ideal vocacional pintado por Teresa. Compará-lo com o nosso tempo, experiência e circunstâncias pessoais ou comunitárias. 


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1 Cf. Contas de Consciência, 53 e 54 (EDE e BAC); Relações 4 e 5 (Ed. Monte Carmelo). 
2 Carta dirigida à Madre Ana de Jesus, a 15 de Julho de 1576. Perdido o autógrafo e sem contar com manuscritos, conhecemos a sua existência e parte do seu conteúdo graças aos testemunhos da própria Madre Ana de Jesus no processo de Salamanca para a canonização de Teresa. 
3Cf. A carta que la Madre dirige nos fins de Janeiro de 1576 ao P. João Baptista Rubeo, Geral da Ordem. 
4 Veja-se, por exemplo, o relato de F 12.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fundações: Capítulos 23-24


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Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 
Capítulos 23-24 

Começa o relato de uma nova fundação, a do “Mosteiro do glorioso São José del Carmen, na cidade de Sevilha”, com a primeira Missa no dia da Santíssima Trindade, 29 de Maio de 1575. A Madre interrompe a crónica com um breve retrato biográfico-espiritual do Padre Jerónimo Graciano. A finalidade histórica cede o passo à intenção pedagógica e mistagógica: aprender com os sucessos e vidas edificantes, descobrir o mistério de Deus nos acontecimentos e factos providenciais quotidianos e dá-lo a conhecer. ‘Historiar’ tudo para que permaneça sempre vivo e fresco na memória das gerações futuras.
Pistas de leitura 
1- Teresa tem as suas razões para dedicar todo um capítulo ao P. Jerónimo Graciano. Acha necessário recordar a circunstância histórica do seu encontro com ele pela situação que viviam então as comunidades de Descalços. A Providência de Deus assiste-os nas necessidades da Ordem elegendo e enviando uma pessoa ‘íntegra’ para levar para a frente a reforma (F 23,3.12-13; 24,1-2). É por isso que Graciano entra em cheio no relato. E, como novo Comissário Apostólico para Andaluzia, é quem (contrariando os desejos e projectos da Madre: F 24,4), lhe ordena levar para a frente a fundação de Sevilha. 

2- Como pano de fundo histórico, recordemos que aos avatares e exigências inerentes a toda a fundação se juntam, na de Sevilha, a desconformidade e os descontentamentos dos Calçados em relação a fundações de Descalços/as na Andaluzia (F 24 20); o desentendimento e incomunicação entre o Geral Rubeo e a Madre Teresa; e ainda a oposição do bispo Fernando de Rojas y Sandoval pela fundação de um novo mosteiro em pobreza (F 24,15-16). Com tudo isto terá de lidar a Madre nesta fundação1 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1- Ler com atenção a descrição que Teresa faz de Graciano, a sua índole espiritual. Fazer uma lista de qualidades humanas e virtudes. Teresa pondera é o que admira. Tudo é dom do Senhor, a obra que Deus realizou na pessoa de Graciano para bem da Ordem. De tudo isso, o que é que destacaríamos? O que é que achamos mais importante ou necessário? Na nossa sociedade, na nossa realidade pastoral, quais as qualidades que hoje a Ordem exige aos carmelitas para enriquecer e comunicar o carisma herdado? 


Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – II 

2- No relato da vocação de Graciano, sobressai em tudo a Providência de Deus. Ele tem os seus planos, e os leva a cabo através de mediações e circunstâncias que parecem fortuitas, que escapam à consciência e à intenção inicial de Graciano: “Oh! Sabedoria e poder de Deus! Como é certo não podermos nós fugir ao que é a Sua Vontade!” (F 23,3). Como compreendemos hoje esta afirmação de Teresa? Descobrimos a Providência divina na nossa vocação, no nosso caminho de seguimento de Jesus, no discernimento da sua vontade na nossa vida? A que mediações damos valor? De quais sentimos falta? 

3- Teresa dedica vários parágrafos à presença e mediação da Virgem Maria (F 23,1-4-6.8-13). Reflecte, à luz destas afirmações, a tua própria experiência mariana. 

4- O relato das qualidades de Graciano como superior (F 23, 7.10) e a descrição da personalidade e comportamento do prior de Pastrana (23,9) revela-nos duas formas de governo: algo assim como ‘um ideal’ e uma desfiguração do ideal. - Debater o tema: as razões e as conclusões da Madre, e confrontá-las com a nossa experiência no exercício da autoridade (nas responsabilidades que nos tocam) ou com a nossa resposta teologal à autoridade que outros exercem como serviço na Igreja. 

5- Depois de longos parágrafos revelando a história e a intimidade de Graciano. Teresa justifica-se (F 23,11-13). Tem as suas razões para ‘fazer memória’ delas. - Reflectir sobre a importância da memória e do relato. Confrontá-lo com a nossa forma de compreender, viver e transmitir o carisma recebido de Deus, seja qual for o estado de vida. Pode inspirar um momento de oração e de louvor. 

6- Teresa, com espírito de fé, cede perante as exigências do novo Comissário Apostólico para a Andaluzia. Renuncia à fundação de Caravaca (contra o seu parecer, revelações particulares e desejos) e obedece a Graciano (F 24,4). Compartilhar as nossas dificuldades perante o discernimento da vontade de Deus, perante o reconhecimento e a obediência a Deus nas suas mediações. 


Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – III 

7- A Santa relata as fundações contando os inconvenientes ou peripécias do caminho. Fá-lo com muita vivacidade e humor (F 24,5ss). Não faltam episódios daqueles oito dias de caminho. A eles se acrescenta “mais de um mês” de espera da licença para fundar. Uma espera amassada com paciência nos dias mais duros do verão andaluz2. Mas Teresa nunca perde ocasião para tirar sempre um ensinamento, alguma aplicação à vida espiritual ou um motivo para descobrir a Providência e o próprio ser de Deus. - Quais são os que descobres nestes dois capítulos? Para meditar e partilhar: “Sua Majestade dá sempre os trabalhos com piedade” (F 24,11). 


8 - A Madre pondera as qualidades das irmãs que leva como fundadoras. A segurança e fortaleza que lhe inspira a virtude provada das suas monjas. – Somos receptivos e agradecidos para com as qualidades e virtudes dos outros? – Sentimo-nos amparados, edificados, estimulados pelos irmãos? – Sabemos compartilhar ideais, tarefas ou responsabilidades, confiando nos outros? – Que atitudes e virtudes deveríamos cultivar mais para viver a fraternidade e confiança mútua nos nossos projectos comunitários/familiares? 




1(Cf. T.ALVAREZ, Comentarios al libro de las “Fundaciones” de Santa Teresa de Jesús. Monte Carmelo, Burgos 2011, 117-121) 
2 A leitura desta fundação pode completar-se com a descrição pormenorizada e amena do P. Efrém da Mãe de Deus e O. Steggink, em Tiempo y vida de Santa Teresa, BAC, Madrid 1968, P II, nº 386-411. 




terça-feira, 19 de junho de 2012

Fundações: Capítulo 22









Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – I 

Capítulo 22 
Se Granada foi o escritório de S. João da Cruz, Toledo não o foi menos para Teresa de Jesus. Aqui, na cidade imperial, desde uma pobre cela do Carmelo, escreve o relato da sua primeira fundação em terras andaluzas: Beas de Segura, província de Jaén.
Tempos aqueles, desde esse fecundo ano de 1576, classificado por Teresa como de grandes trabalhos, até ao ponto dela crer que ser a causa de toda esta tormenta, e que se me deitassem ao mar, como Jonas, cessaria a tempestade (F 28, 5). 
Navegando neste mar tempestuoso e salva do naufrágio, porque, agora sim, está arrimada a esta forte coluna da oração (V 8,2), Teresa de Jesus recorda aquela difícil e complexa aventura fundacional que a levou a Andaluzia, sem o saber, pondo em risco a sua relação afectuosa, em breve desfeita, com o P. Geral Rubeo. 
Em Beas, teve lugar o encontro idílico com Jerónimo Graciano, personagem chave da sua Reforma. Aqui se forjou a entranhável relação mestre-discípulas, entre João da Cruz e as carmelitas de Beas, com abundância de “bilhetinhos” espirituais conservados devotamente por elas, e que hoje formam uma grande parte dos Ditos de Luz e Amor do Santo. Também em Beas, teve Teresa a sua gota de amargura: foi o lugar onde recebeu a dura notícia do sequestro do Livro da Vida nas mãos da terrível Inquisição. 

Pistas de leitura 
1- Os inconvenientes (F 22,1-2) 
- Uma viagem longa a perigosa (a passagem de Despeñaperros, Serra Morena e os altíssimos penhascos de Gualdinfierno) para uma mulher de 60 anos, de saúde frágil e em pleno inverno. 
- Uma pequena povoação, nada semelhante aos ambientes urbanos preferidos por Teresa, muito pouca renda (F 22, 19), tão longe da sua Ávila natal, para ela ponto de referência das distâncias. 
- A oposição do P. Pedro Fernández às novas fundações, foi superada surpreendentemente por outra dificuldade maior: Beas pertencia à Comenda de Santiago e era supostamente impossível conseguir a devida licença. 
Nesta ocasião, uma dificuldade ajuda a resolver a outra, e o próprio Filipe II outorga a licença ao saber que o futuro mosteiro era das descalças do Carmo (F 22,18). 
Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – II 

Algumas vezes penso nisto – dirá Teresa – e como o que Nosso Senhor quer, embora o não queiramos nós, se vem a realizar e chegamos a servir-Lhe de instrumento, mesmo sem darmos por isso, foi o que aqui aconteceu com o Padre Mestre Frei Pedro Fernández (F 22,3). 

2- “História Exemplar” de D. Catarina Godínez 
Tal como aconteceu com a fundação de Alba de Tormes, a biografia das fundadoras, ou antes, uma delas, D. Catarina, ocupa quase todo o capítulo (nn. 4-24). A Santa parece escrever valendo-se de um guião redaccional, talvez de mão alheia, onde se encontram registados os factos mais marcantes de tão extraordinária história: 
- Vida familiar de uma donzela fidalga rural; conversão e mudança de vida; práticas religiosas da jovem Catarina, agora “em hábito modesto”; oposição dos pais, doenças e luta enérgica para fundar o mosteiro, etc. 
- Encontramos no relato, momentos tão simpáticos como o do enfado ruidoso do demónio que fez sair da cama, de espada na mão e meio vestido, o bom D. Sancho. Sem dúvida que os estudantes de Medicina tirariam proveito desse “Pequeno Tratado” de História da Medicina do século XVI, escrito neste capítulo por Teresa de Jesus: todo um catálogo de doenças que formam um quadro clínico estranho e heterogéneo, juntamente com os remédios aplicados (ventosas, mais de 500 sangrias, cautérios, etc.) que demonstram a fortaleza física de D. Catarina que, apesar de tudo, foi capaz de sobreviver… 
- A chave desta história estranha e divertida encontra-se no n. 6: Teresa escreve para que todos O louvem - a Deus, certamente, verdadeiro protagonista do livro. É por isso que, no n.7, encontramos uma linda oração emocionada, com sabor evangélico: Sede bendito, ó meu Deus, para sempre, pois num momento abateis uma alma e a levantais renovada… 

3- História “Actual” da fundação (F 22,19-20) 
Apenas um par de números dedicados ao momento da fundação, tão breves que só referem o ano, 1575, da chegada das carmelitas chefiadas por Teresa no princípio da Quaresma, a alegria do povo, o nome do novo mosteiro (S. José do Salvador, fundado no dia de S. Matias) e uma breve menção da tomada de hábito das duas irmãs fundadoras, mas, isso sim, adornada com novos elogios à inigualável Catarina. 



Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –III 

Finalmente! O que Sua Majestade quer não se pode deixar de fazer (F 22,19). 

4- Apêndice (F 22, 1-24) 
O relato parece concluir no nº 20 com a frase final, mas Teresa acrescenta uma espécie de apêndice em que encontramos: 
- O modo “sobrenatural” como Catarina conhece a existência da Ordem do Carmo e a sua Regra, assim como o encontro com o jesuíta que lhe dá notícia dos nossos mosteiros (F 22, 21-22). 
- Novos pormenores da cura milagrosa (F 22, 23). 
- Virtudes de D. Catarina, já convertida em Catarina de Jesus, de quem Teresa traça com mão firme um retrato magistral: Nenhuma coisa vejo fazer a esta alma que não seja para ser agradável a Deus, e é assim com todas (F 22, 24). Prova de que “não é encarecimento” (como diria a Santa) é o testemunho deixado pelo Padre Graciano na sua Peregrinação de Anastácio, diálogo 16, pois escreve que a Madre Catarina é das maiores santas da Ordem. Por outro lado, o próprio S. João da Cruz se encarregou de transcrever de sua própria mão, o texto da sua autobiografia. 
- E, agora sim, Ámen. 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 
1 – Lê e medita na conversão de Catarina Godínez diante do crucifixo (F 22, 5-6); compara com V 9, 1-3, onde Teresa nos conta a sua conversão ao ver uma imagem de Cristo muito chagado. 
2 – Pode ser um bom momento para pensar e partilhar com o grupo o teu encontro com Jesus e como mudou a tua vida. 
3 – Ora com Teresa, bendiz e louva o Senhor (F 22, 7) 
4 – Julgo que Nosso Senhor nunca faz a uma alma mercê tão grande, sem que outras almas dela participem (F 22, 9). 
Esta interdependência entre os membros do corpo místico de Cristo é muitas vezes apontada por Teresa em diversos textos (4M 3,10; 5M 4,6, entre outros). 
Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –IV 

Cada um de nós não anda sozinho o caminho escolhido: para bem ou para mal, arrasta outros consigo. 

- Somos conscientes desta realidade, que é uma responsabilidade muito séria? 
- Acaso o individualismo pós-moderno, que todos padecemos, nos leva a nos esquecermos da força do testemunho cristão? São Paulo diz que temos de levar as cargas uns dos outros. 
- Ter-nos-íamos deixado “contaminar”, quase sem dar por isso, da tendência laicizante que trata de se impor, segundo a qual a fé deve ser vivida no âmbito privado e estritamente pessoal? 
- É a minha oração um intimismo mais ou menos subtil? 
Recorda que Para isto é a oração, filhas minhas; para isto serve este matrimónio espiritual: que nasçam sempre obras, obras (7M 4,6). 
- Reza novamente com Teresa CC 1, nº 14; V 16, 6-7. Partilha a tua oração sobre estes textos com o grupo de oração, comunitário, paroquial, etc. 
5 – E, por fim, um pedido: 
Praza a Sua Majestade que a grandíssima liberalidade que tem tido com esta miserável pecadora sirva, de algum modo, para que se esforcem e animem os que isto lerem, a deixar tudo, de todo em todo, por Deus (V 21,12).


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Fundações: Capítulos 20-21



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LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 

Capítulos 20-21 
Teresa de Jesus, no seu forçado retiro toledano (1576), escreve o relato da fundação de dois Carmelos especiais: Alba de Tormes (1571) e Segóvia (1574). Ambos passarão à história do Carmelo teresiano não só pela pequena história de cada um, mas porque vão acolher o imprevisto: os restos mortais da M. Teresa, o primeiro, e o grupinho de monjas de Pastrana fugidas dos caprichos tirânicos de D. Ana de Mendoza, Princesa de Éboli, o outro.

Ambas as fundações contam com a presença activa de S. João da Cruz e com uma alargada e bela galeria de retratos, proporcionando-nos também uma série de preciosos dados sobre a vida social espanhola do séc. X VI. 

Pistas de leitura. 
1- Quem é o fundador? 
Se nos cingirmos ao relato de Teresa, trata-se da insistência do administrador do Duque de Alba e sua mulher: fui importunada para que naquela cidade fizesse uma fundação e mosteiro (F 20,1), o que faz com que Teresa de Jesus funde em Alba, apesar da sua resistência inicial, por ser o lugar pequeno e ter de fundar com renda. 
Em troca, o Carmelo segoviano surge por mandato do Senhor: Estando ali um dia em oração, disse-me Nosso Senhor que fosse fundar em Segóvia (F 21,1). 

2- Retrato de senhoras nobres 
Em ambos os capítulos sobressai a figura das fundadoras, D. Teresa de Láyz e D. Ana de Jimena, se bem que de maneira muito diferente. A figura amável e delicada de D. Ana, futura carmelita e prioresa de Segóvia, ocupa somente um par de números (F 21,2 e 3), enquanto Teresa de Láyz se apodera materialmente do capítulo, de modo que quase até ao nº 13 não se retoma a história da fundação 
A esposa do administrador Velázquez, que ocupa um lugar secundário no relato, representa a típica benfeitora intrometida que deu muito trabalho à Santa, não só durante a fundação (tornou-se difícil chegar a um acordo, F 20,13), mas também depois (Carta ao P. Jerónimo Graciano, Palência, meados de Fevereiro de 1581) e 2d 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –II 

3- Apontamentos de história do século XVI: a fundação de Alba de Tormes. 
- O problema da honra: fidalga pobre envergonhada, marido rico descendente de judeus conversos, que “limpa” a sua linhagem mediante o matrimónio. 
- A condição social da mulher no século XVI: o nascimento de uma filha, uma “tragédia” familiar. 
- Fundar o convento é outra maneira de se enobrecer. 
- A subtil ironia teresiana, não isenta de dor, perante estes factos (F20, 2 e 3). 
- A presença do “maravilhoso”: o demónio omnipresente na vida quotidiana, e também os Santos (F 20, 4.7.8). 
- De novo o problema da renda e o Concílio de Trento (nn. 1 e 13). 

4- Paisagens com rosto: a fundação de Segóvia. 
- Religiosos, clérigos, cavalheiros, damas, provedores ciosos, desfilam por este delicioso capítulo de aparência simples. Uma fundação da qual Teresa diz que teve pouco trabalho, mas que a empreendeu doente e com grandes males interiores (F 21,4). 
- As personagens: 
- O comissário apostólico Pedro Fernández, que concedeu a licença para fundar, apesar de que não desejava que se fizessem mais fundações (n. 1), segundo diz Teresa, prioresa da Encarnação e residente temporária em Salamanca. 
- A família Jimena: D. Ana e a sua filha; André de Jimena, o cavalheiro que lha pediu em nosso nome (n.5) e a sua irmã carmelita Isabel de Jesus, aquela jovem cantora que provocou o êxtase da Madre Fundadora (Relação 13) 
- João da Cruz e Julião de Ávila, maltratados pelo iracundo provedor que quis levar preso frei João e tirou o Santíssimo Sacramento às pobres monjas. 
- O cavalheiro de Alba, António Gaytán, de quem a nossa escritora traça um belo retrato (nn. 6 e 7). 
- O licenciado Herrera e aquele “sobrinho do Bispo” que fazia quanto podia a nosso favor; João Orozco e Covarrubias de Leiva. 
- Os pleitos, protagonistas de tantas fundações, com religiosos (mercedários, franciscanos) e com o cabido (nn. 8 e 9). 
- E, como quase sempre, o dinheiro facilita tudo (n. 10). 

Para reflectir, rever, interceder, agradecer, contemplar. 
1- Pobreza e liberdade: 
- Teresa de Jesus é uma apaixonada pela liberdade, a santa liberdade de espírito, e portanto inimiga de toda a dependência escravizante, seja a da honra ou dos benfeitores que se algum regalo dão ao corpo, paga-o bem o espírito (CP 9,1). 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –III 

-Neste contexto, lê o capítulo 2 de Caminho de Perfeição e compara-o com o 20 de Fundações: 
- Que dependências escravizantes encontras na tua vida? 
- Os olhos em vosso Esposo… - Olhas outros olhos? (o “que dirão”, a tua imagem, por não perder benefícios de qualquer tipo)
- Na tua situação, a quem precisas de contentar: Deus ou outros) (CP 2, 5). Revê F 21,7. 

2- A mulher no século XVI (F 20,2 e ss): 
-Sem feminismos anacrónicos, revê a situação da mulher no teu contexto cultural e eclesial. 
- Existem perto de ti pessoas tão marginalizadas hoje, pela sua condição, raça, cultura, talvez na tua paróquia, grupo, comunidade? 

3- Pareceu-me coisa impossível (F 21,1). 
Pensa nalguma situação concreta da tua vida pessoal, familiar, à tua volta, que te pareça impossível de superar, embora saibas que nisso está precisamente a vontade de Deus. 
- Teresa, que faz? E tu? 
O amor de contentar a Deus e a fé tornam possível o que por razão natural não o é (F 2,4) 
4- Para as que vierem se animem a continuar tão bons princípios (F 20,15). 
- Que traz à tua vida a leitura das Fundações? 

5- Ora com Teresa: 
“Ó amor poderoso de Deus! Quão diferentes são teus efeitos dos do amor do mundo! Este não quer companhia por lhe parecer que lhe hão-de tirar o que possui. O do meu Deus, quantos mais amadores entende que há, mais cresce e, assim, seus gozos se temperam ao ver que não gozam todos daquele bem. 
E então, [a alma] procura meios para buscar companhia e de boa vontade deixa o seu gozo, quando pensa que terá parte em que outros O procurem gozar. 
Ó Jesus meu, que grande é o amor que tendes aos filhos dos homens! Que o maior serviço que Vos pode prestar é deixar-Vos a Vós por seu amor e lucro. E então sois possuído mais inteiramente… (Exclamações, 2).