segunda-feira, 28 de maio de 2012

Fundações: Capítulos 20-21



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LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 

Capítulos 20-21 
Teresa de Jesus, no seu forçado retiro toledano (1576), escreve o relato da fundação de dois Carmelos especiais: Alba de Tormes (1571) e Segóvia (1574). Ambos passarão à história do Carmelo teresiano não só pela pequena história de cada um, mas porque vão acolher o imprevisto: os restos mortais da M. Teresa, o primeiro, e o grupinho de monjas de Pastrana fugidas dos caprichos tirânicos de D. Ana de Mendoza, Princesa de Éboli, o outro.

Ambas as fundações contam com a presença activa de S. João da Cruz e com uma alargada e bela galeria de retratos, proporcionando-nos também uma série de preciosos dados sobre a vida social espanhola do séc. X VI. 

Pistas de leitura. 
1- Quem é o fundador? 
Se nos cingirmos ao relato de Teresa, trata-se da insistência do administrador do Duque de Alba e sua mulher: fui importunada para que naquela cidade fizesse uma fundação e mosteiro (F 20,1), o que faz com que Teresa de Jesus funde em Alba, apesar da sua resistência inicial, por ser o lugar pequeno e ter de fundar com renda. 
Em troca, o Carmelo segoviano surge por mandato do Senhor: Estando ali um dia em oração, disse-me Nosso Senhor que fosse fundar em Segóvia (F 21,1). 

2- Retrato de senhoras nobres 
Em ambos os capítulos sobressai a figura das fundadoras, D. Teresa de Láyz e D. Ana de Jimena, se bem que de maneira muito diferente. A figura amável e delicada de D. Ana, futura carmelita e prioresa de Segóvia, ocupa somente um par de números (F 21,2 e 3), enquanto Teresa de Láyz se apodera materialmente do capítulo, de modo que quase até ao nº 13 não se retoma a história da fundação 
A esposa do administrador Velázquez, que ocupa um lugar secundário no relato, representa a típica benfeitora intrometida que deu muito trabalho à Santa, não só durante a fundação (tornou-se difícil chegar a um acordo, F 20,13), mas também depois (Carta ao P. Jerónimo Graciano, Palência, meados de Fevereiro de 1581) e 2d 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –II 

3- Apontamentos de história do século XVI: a fundação de Alba de Tormes. 
- O problema da honra: fidalga pobre envergonhada, marido rico descendente de judeus conversos, que “limpa” a sua linhagem mediante o matrimónio. 
- A condição social da mulher no século XVI: o nascimento de uma filha, uma “tragédia” familiar. 
- Fundar o convento é outra maneira de se enobrecer. 
- A subtil ironia teresiana, não isenta de dor, perante estes factos (F20, 2 e 3). 
- A presença do “maravilhoso”: o demónio omnipresente na vida quotidiana, e também os Santos (F 20, 4.7.8). 
- De novo o problema da renda e o Concílio de Trento (nn. 1 e 13). 

4- Paisagens com rosto: a fundação de Segóvia. 
- Religiosos, clérigos, cavalheiros, damas, provedores ciosos, desfilam por este delicioso capítulo de aparência simples. Uma fundação da qual Teresa diz que teve pouco trabalho, mas que a empreendeu doente e com grandes males interiores (F 21,4). 
- As personagens: 
- O comissário apostólico Pedro Fernández, que concedeu a licença para fundar, apesar de que não desejava que se fizessem mais fundações (n. 1), segundo diz Teresa, prioresa da Encarnação e residente temporária em Salamanca. 
- A família Jimena: D. Ana e a sua filha; André de Jimena, o cavalheiro que lha pediu em nosso nome (n.5) e a sua irmã carmelita Isabel de Jesus, aquela jovem cantora que provocou o êxtase da Madre Fundadora (Relação 13) 
- João da Cruz e Julião de Ávila, maltratados pelo iracundo provedor que quis levar preso frei João e tirou o Santíssimo Sacramento às pobres monjas. 
- O cavalheiro de Alba, António Gaytán, de quem a nossa escritora traça um belo retrato (nn. 6 e 7). 
- O licenciado Herrera e aquele “sobrinho do Bispo” que fazia quanto podia a nosso favor; João Orozco e Covarrubias de Leiva. 
- Os pleitos, protagonistas de tantas fundações, com religiosos (mercedários, franciscanos) e com o cabido (nn. 8 e 9). 
- E, como quase sempre, o dinheiro facilita tudo (n. 10). 

Para reflectir, rever, interceder, agradecer, contemplar. 
1- Pobreza e liberdade: 
- Teresa de Jesus é uma apaixonada pela liberdade, a santa liberdade de espírito, e portanto inimiga de toda a dependência escravizante, seja a da honra ou dos benfeitores que se algum regalo dão ao corpo, paga-o bem o espírito (CP 9,1). 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –III 

-Neste contexto, lê o capítulo 2 de Caminho de Perfeição e compara-o com o 20 de Fundações: 
- Que dependências escravizantes encontras na tua vida? 
- Os olhos em vosso Esposo… - Olhas outros olhos? (o “que dirão”, a tua imagem, por não perder benefícios de qualquer tipo)
- Na tua situação, a quem precisas de contentar: Deus ou outros) (CP 2, 5). Revê F 21,7. 

2- A mulher no século XVI (F 20,2 e ss): 
-Sem feminismos anacrónicos, revê a situação da mulher no teu contexto cultural e eclesial. 
- Existem perto de ti pessoas tão marginalizadas hoje, pela sua condição, raça, cultura, talvez na tua paróquia, grupo, comunidade? 

3- Pareceu-me coisa impossível (F 21,1). 
Pensa nalguma situação concreta da tua vida pessoal, familiar, à tua volta, que te pareça impossível de superar, embora saibas que nisso está precisamente a vontade de Deus. 
- Teresa, que faz? E tu? 
O amor de contentar a Deus e a fé tornam possível o que por razão natural não o é (F 2,4) 
4- Para as que vierem se animem a continuar tão bons princípios (F 20,15). 
- Que traz à tua vida a leitura das Fundações? 

5- Ora com Teresa: 
“Ó amor poderoso de Deus! Quão diferentes são teus efeitos dos do amor do mundo! Este não quer companhia por lhe parecer que lhe hão-de tirar o que possui. O do meu Deus, quantos mais amadores entende que há, mais cresce e, assim, seus gozos se temperam ao ver que não gozam todos daquele bem. 
E então, [a alma] procura meios para buscar companhia e de boa vontade deixa o seu gozo, quando pensa que terá parte em que outros O procurem gozar. 
Ó Jesus meu, que grande é o amor que tendes aos filhos dos homens! Que o maior serviço que Vos pode prestar é deixar-Vos a Vós por seu amor e lucro. E então sois possuído mais inteiramente… (Exclamações, 2). 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Fundações: Capítulos 17-19



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Duas fundações novelescas, ou melhor, três (duas em Pastrana – frades e monjas, 1569, e uma em Salamanca, 1570), juntamente com uma série de conselhos oportunos às prioresas, de ontem e de hoje, constituem o enredo destes memoráveis capítulos.

Gozando da paz do seu Carmelo segoviano, em 1574, Teresa olha para trás a fim de construir um ameno relato entremeado de encontros e desencontros com aristocratas e cortesãos, ermitãos e comerciantes, cavaleiros insatisfeitos, estudantes burlescos e monjas assustadiças na noite de Finados – toda uma novela de aventuras em que se percebe claramente a acção de Deus que conduz a história. 

Pistas de leitura 
1- A Princesa e o ermitão (F 17): 

- A Princesa de Éboli, D. Ana de Mendoza 
Aconteceu mais ou menos assim: uma princesa intrigante e caprichosa tinha uma prima, D. Luísa de la Cerda, que tinha fundado um mosteiro dos da famosa monja Teresa na “sua” vila de Malagón. E, naturalmente, também quis o seu na “sua” vila de Pastrana, e por certo mais importante! Por isso, D. Ana não pode esperar: manda um criado para arrancar a Santa imediatamente de Toledo. É verdade que havia muito que as duas andávamos tratando da fundação…Mas não pensava que fosse para tão breve (F 17,2).Com razão se queixa Teresa dos senhores de cá (CP 22,4), tão diferentes do único Senhor! 
Episódios como os de Cassilda de Padilha, D. Luísa de la Cerda, a Princesa de Éboli, que supera a todos, a duquesa de Alba, etc., mostram-nos quão mal se deu com eles, e projectam uma grande luz sobre essas páginas magistrais em que Teresa de Jesus fala da honra e da pobreza. 
Ao lermos este capítulo, não podemos perder de vista a coragem de Teresa e das suas monjas ao levantarem a fundação, fugindo em plena noite para Segóvia. Este gesto custou a Teresa a denúncia à Inquisição do Livro da Vida por parte da vingativa princesa. 

- O ermitão, Mariano Azzaro 
Deste providencial encontro entre Teresa e o P. Mariano em Madrid nascerá a fundação de frades em Pastrana. 
Nada que se compare com Duruelo, muito longe do humanismo teresiano, com personagens estranhos como Baltasar Nieto, o seu primeiro Superior (F 17,15) e que, apesar de tudo, em breve experimentará um grande apogeu vocacional (entre eles, o P. Graciano) 
A estas alturas do relato, Teresa explora o entusiasmo pela sua “descoberta”, ponderando a vida do P. Mariano e seu companheiro (nº 7-8), embora não nos passe inadvertida a fina ironia com que nos relata que este Padre estava espantado por ter sido convencido tão rapidamente a tomar o hábito de descalço em especial por uma mulher (F 17,9). 

2- Suavidade e discrição (F 18). 
Ao começar a narrar a fundação de Salamanca, interrompe por duas vezes o relato; a primeira e mais breve, permite-nos contemplar o pano de fundo, por assim dizer, das fundações: os grandes trabalhos dos caminhos (F 18,4), a sua pouca saúde e a intervenção de Deus que lhe dá as forças de que precisa. A estrela que guia Teresa de Jesus no seu árduo e fatigoso caminhar brilha diante dos nossos olhos, vendo em serviço de Quem se fazia e considerando que naquela casa se haveria de louvar o Senhor e haver o Santíssimo Sacramento (F 18,5). 
Na segunda, lembra-se de algumas coisas sobre isto de mortificação… digo-as já aqui, antes que me esqueçam (F 18,6) e começa a sua série de avisos às prioresas, que poderíamos resumir assim: 
- Discrição (prudência) e suavidade no governo da comunidade (ou, como diríamos hoje, na coordenação do grupo). 

- Nada de extravagâncias em penitências e mortificações. E isto numa época tão inclinada às “penitências de bestas”, em frase de S. João da Cruz, tal como chegou a acontecer no noviciado dos frades de Pastrana, com modelos apreciados como o de Catarina de Cardona, cujo retrato pintado por Teresa com pinceladas suaves e divertidas encontramos em F 28. 
- Basta cumprir a Regra e as Constituições, embora saibamos que de guardar a guardar vai muito (CP 1,4) 
- E uma regra de ouro: É necessário olhar muito a isto e não ordenar o que para nós mesmas seria duro (F 18,6), Evangelho genuíno, sem dúvida! 

“Praza à divina Majestade que não nos faltem as moradas eternas” (F 19). 
- Assim termina este capítulo 19 dedicado à fundação de Salamanca, particularmente trabalhosa devido às dificuldades surgidas com o vendedor da casa, Pedro de la Banda, e que continuarão durante anos. São palavras suficientemente expressivas do seu cansaço por causa da contenda, que parecia sem fim, às que une um elogio da comunidade que tudo levam com alegria (F 19,12). 
- Ao começar o novo capítulo, Teresa justifica a longa digressão do capítulo anterior e ainda conclui com mais um aviso às prioresas (F 19,1). 
- Continua, quase começa, com a narração da fundação de Salamanca, apresentando-nos o “anjo da guarda” da fundação: Nicolau Gutiérrez (F 19,2 2 9). Note-se, uma vez mais, como são os seus amigos comerciantes, o equivalente à classe média de hoje, os que sempre ajudam Teresa, muito ao contrário dos aristocratas e grandes senhores. 
- O episódio cómico dos estudantes e da monja temerosa dão uma nota humorística (F 19, 3-6) 
- A experiência ensina-nos a todos. Também a Teresa, que nesta fundação já aprendeu que não é preciso, para tomar posse, colocar o Santíssimo Sacramento, e, pela primeira vez, não o faz (F 19,3). Estava bem longe, evidentemente, de imaginar que as monjas estariam três anos sem ele (F 19,6), mas no final de Setembro de 1573 mudam para a nova casa e expõe-se o Santíssimo com toda a solenidade embora não sem alguma contradição (F 19,9-10). 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 
1-“Os meus planos não são os vossos planos” (Is 55, 8). 

- À luz da Palavra de Deus, relê F 17, 1-2). Teresa sente-se satisfeita por ter terminado a fundação de Toledo, pensando que naquela Páscoa podia gozar-me um pouco com Nosso Senhor (F 17,1-2), mas acontece o inesperado… 
- Que sentes quando os teus planos são alterados por factores, pessoas, acontecimentos exteriores a ti? 
Quando a tua vida “programada”, o descanso a que tens direito depois do trabalho, as tuas opções pessoais, são transtornados por acontecimentos inesperados, que não podes controlar: - Como reages? Achas que estás desprendido/a de ti próprio/a? 
Pressupondo sempre o bem dos outros, evidentemente, lê neste contexto CP 32, 4-8) e recorda o que Teresa diz: Esta é a contemplação perfeita, de que me dissestes que escrevesse (CP 32,9). 
- Depois de todo o trabalho e os desgostos da fundação de Pastrana, esta desfaz-se (F 17,17). Que diz Teresa? 
Ora com ela, se te encontras em situações parecidas (mesmo que não tenhas fundado um mosteiro). Em suma, o Senhor o permitiu. Devia ter visto que não convinha ali aquele mosteiro, pois os seus juízos são grandes e contrários aos nossos entendimentos. 

2- Comenta no grupo F 18, 4-5 e F 19,6. Vemos aqui retratado quanto lhe custaram a Teresa as suas fundações; compara e comenta F 4,5-7) 
-Qual é a nossa /tua responsabilidade em continuar a sua obra? A que te comprometes? 

3- Lê F 18,5 e medita na tua relação, orante e vital, com o Santíssimo Sacramento: fazes da tua vida um louvor a Deus? 

F 18,8. – Achas que a mortificação está “passada de moda”? Teresa diz que é necessária para a alma adquirir liberdade… 
Sem que ninguém te mande “coisas” extraordinárias, como aceitarias uma sã mortificação - contrariar os teus gostos - na vida ordinária? 

Não pense a prioresa que conhece logo as almas; deixe, pois, isso para Deus (…) Procure levar cada uma por onde Sua Majestade a leva (F 18,9). 
- É assim que actuamos nas comunidades, grupos paroquiais, em família? 
- Julgamos rapidamente sem conhecer as pessoas nem as suas circunstâncias? Que margem deixamos ao mistério de Deus no noutro? 

4- F 19,9: um exemplo de que também Teresa sobre altos e baixos emocionais quando os acontecimentos a ultrapassam, mas Nicolau Gutiérrez, com a sua inalterável serenidade… dizia-me muito mansamente que não me afligisse, pois Deus daria solução a tudo. 
- Também a fé cresce em comunidade, ou não? 

5- Ora com Teresa Exclamações 17,nº 3. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 15-16



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Nos capítulos 15 e 16, Teresa narra-nos a fundação complicada e árdua de Toledo. Esta fundação que, à primeira vista, poderia parecer a mais fácil e cómoda por residir em Toledo dona Luísa de la Cerda, grande benfeitora de Teresa, vai converter-se numa verdadeira corrida de obstáculos. Por trás, como causa de tudo isso, um tema central do pensamento teresiano: a linhagem e a honra. Tanto que até intervém o próprio Deus para que ponha de lado esses critérios humanos.

No capítulo 16, elogia o exemplo de algumas monjas sobretudo no exercício da obediência e do desprendimento. Relata também a morte serena e alegre de uma religiosa com a visão de Jesus à cabeceira da cama, com os braços abertos em atitude de protecção e ajuda. E as palavras de Jesus de que ampararia igualmente as monjas que morressem nesses mosteiros. Daí surge o pedido de Teresa: “Filhas minhas, esforcemo-nos por ser verdadeiras carmelitas” (F 16,5).”Praza a Nosso Senhor, irmãs, que vivamos como verdadeiras filhas da Virgem e nos conformemos com a nossa profissão, para que Nosso Senhor nos faça a mercê que nos prometeu” (F 16,7). 

Pistas de leitura 

A fundação de Toledo é a “quinta” de Teresa no seu duplo sentido de ordem numérica e de lugar de descanso. Um mercador adinheirado de Toledo, Martim Ramírez, através do jesuíta Paulo Hernández, decide custear a fundação de um novo Carmelo. Não pertence à nobreza, e os nobres afastam-se: “Não eram pessoas ilustres nem fidalgas” (F 15,15). Grave contrariedade numa cidade onde a ascendência e a linhagem desempenham um papel determinante. 
As dificuldades aumentam porque, falecido o mercador, os seus parentes próximos mostram-se tão exigentes que a fundação parece impossível. Sem uns (nobres) nem outros (parentes de Martim), só com a colaboração do jovem Andrada, “nada rico, muito pobre até” (F 15,6), Teresa consegue casa e licença do Governador, mas não do Conselho.Com os poucos dinheiros que tem compra dois quadros; e apenas com dois enxergões e uma manta funda o mosteiro de Toledo. 
Renovam-se as dificuldades “sempre estimei mais a virtude do que a linhagem; mas tinham ido com tantos ditos ao Governador, que ele só me deu licença com a condição de que fundasse como em outras partes” (F 15,15). E aos ilustres e cavalheiros cede-lhes a capela e nada mais. Relações difíceis entre linhagem e virtude! 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. “Os caminhos de Deus!” (F 15, 8). Ler todo o parágrafo anterior e comentar, segundo o pensamento de Teresa, se os caminhos do Senhor são os nossos caminhos. O binómio “as pessoas tão ricas – o muito pobre Andrada” desemboca num estilo de fundação feita “com pobreza e trabalho”. Ineficácia dos ricos, proveito do pobre. 
- Custa-nos descobrir nas mediações pobres as marcas da acção de Deus? 
- É-nos mais próxima a presença de Deus nos meios mais abastados e seguros? 

2. “Talvez pareça impossível que, estando em casa daquela senhora [dona Luísa de la Cerda] tão minha amiga, começasse com tanta pobreza. Não sei a causa, só sei que Deus quis dar-nos a experimentar a excelência desta virtude. Nada lhe pedi, pois não gosto de me tornar pesada; e ela, possivelmente, nem reparou” (F 15,13). 
-Não resulta exemplar a bondade de Teresa ao considerar a “inadvertência” de dona Luísa de la Cerda? 
- Podemos melhorar a nossa benevolência perante o descuido dos outros? 
- Talvez esteja Deus por trás das “distracções” dos outros para nos tornarmos mais livres e pobres? 

3. “Tudo foi de muito proveito para nós, porque era tanto o nosso consolo interior e alegria, que muitas vezes me lembro quanto o Senhor encerra nas virtudes. Essa privação que passámos parecia como que uma suave contemplação” (F 15,14). 
-Como compreendemos o contraste entre não ter praticamente nada e estar cheios de consolo e alegria? 
Diz Teresa que viver uma virtude é promessa de uma experiência suave de Deus. Será porque o autêntico necessitado encontra tudo n’Ele? 

4. Insistindo no mesmo tema, Teresa afirma que, quando começam a dar-lhes de tudo, experimente a tristeza e a pena de ver como se lhes escapa a riqueza de serem pobres. E as suas monjas sentem da mesma maneira. Ela ficou com o “senhorio bastante para ter em pouco os bens temporais, pois a falta deles faz crescer o bem interior, o qual traz de certeza consigo outra fartura e quietação” (F 15,15). 
- Esta maneira de pensar é qualquer coisa de ilusório no nosso contexto social actual? 
- Que nos quer dizer Teresa com estas palavras: fartura e quietação? 



Bibliografia: 

1. Álvarez, Tomás, 100 fichas sobre Teresa de Jesús, Burgos, Monte Carmelo 2007. 
2. Álvarez, Tomás, Comentarios al libro de las «Fundaciones», Burgos, Monte Carmelo 2011


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 9-12



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Acompanhamos Teresa na fundação dos Mosteiros de Malagón na província de Ciudad Real (11 de Abril de 1568) e de Valhadolid (15 de Agosto de1568). E, conjuntamente à acção de Deus através das circunstâncias ordinárias e comuns da vida, vai-nos apresentar duas figuras femininas do incipiente Carmelo descalço: Cassilda de Padilha e Beatriz da Encarnação.

Pistas de leitura 

Teresa relata a fundação de Malagón durante os últimos dias da sua estadia em Salamanca, em 1573. Nos começos de 1574, transfere-se para Alba de Tormes e Segóvia, onde erigirá o novo Carmelo descalço a 18 de Março. Nele incorporará boa parte das carmelitas de Pastrana, a princípios de Abril, depois de abandonar aquela fundação por causa das intromissões e caprichos da princesa de Éboli. Em Segóvia, Teresa vai dispor de quase seis meses de tranquilidade antes de se apresentar na Encarnação para terminar o seu triénio como prioresa. É, portanto, na paz do novo Carmelo de Segóvia, onde retoma o fio das fundações com o mosteiro de Valhadolid. 
É interessante notar que foi no mosteiro de Malagón (provavelmente a 9 de Fevereiro de 1570) onde pela primeira vez Teresa teve a inspiração de escrever o livro das Fundações: “Que escrevesse a fundação dessas casas. Pensando eu como na de Medina nunca tinha achado nada para escrever sobre a fundação, disse-me ‘que mais quereria eu para ver que a sua fundação tinha sido milagrosa?’ Quis dizer com isto que só Ele a tinha feito e, parecendo não levar nenhum caminho, eu me determinara a pô-lo por obra” (Relação 9ª) 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1.Teresa é partidária de não fundar nenhum convento com renda. Em princípio, recusa a fundação em Malagón, uma pequena povoação de Ciudad Real. No entanto, aconselhada por pessoas sensatas, muda de opinião. 
- Qual a razão última das nossas posições inamovíveis: afirmar-me a mim mesmo ou procurar o bem alheio como serviço do Senhor? “Disseram-me que fazia mal, porque havendo para isso licença do Santo Concílio, não se devia deixar de fazer um mosteiro, por causa de uma opinião minha, onde tanto se podia servir ao Senhor” (F 9, 3). 
- Acaso não nos fechamos em seguranças enganosas que nos afastam de uma atitude serena de diálogo impedindo a consecução de um bem maior? 

2. Falando de possessões e heranças, que com tanto afinco são conservadas e desejadas, Teresa concentra a sua e nossa atenção no que teve e nos deixou Jesus Cristo: trabalhos, sofrimentos e desonra: “Eia, pois, filhas minhas, tem de ser esta a nossa divisa se quiséramos herdar o Seu reino. Não é com descanso, nem regalos, nem honras, nem riquezas que se há-de ganhar o que Ele comprou com tanto Sangue” (F 10, 13) 
- Como traduzimos na nossa vida pessoal este convite de Teresa? Será que a nossa vida se assemelha à de Jesus, ou procuramos antes a nossa comodidade? 

3. Com essa elegância própria de Teresa, finamente carregada de ironia, adverte aos “cavaleiros de Jesus Cristo e aos príncipes da sua Igreja” que procuram e até justificam um caminho diferente do da cruz: “Ó gente ilustre! Por amor de Deus abri os olhos! Vede que os verdadeiros cavaleiros de Jesus Cristo e os príncipes da Sua Igreja, um S. Pedro, um S. Paulo, não levavam o caminho que levais! Pensais, porventura, que há-de haver um caminho novo para vós? Desenganai-vos!” (F 10, 11). 
- Também nós pensamos, acaso, que nos convém outro caminho diferente do de Jesus? Se assim pensamos, não será uma fonte de mediocridade pessoal e de desigualdades fraternas? 

4. À margem das peripécias da vocação de Cassilda Padilha, Teresa deixa-nos algumas pérolas de como deverá ser a vida religiosa (e qualquer género de vida cristã): “servi-l’O [Sua Majestade] com grandíssimo contento, humildade e desapego do mundo” (F 11, 10) 
-Somos felices na nossa vida religiosa ou familiar? Esta felicidade dependerá de servi-l’O a Ele em tudo? 
- Será a humildade uma palavra vazia de sentido, actualmente? Ou não será antes um cristal que nos ajuda a ver as coisas com maior objectividade, tal como são? A soberba e a presunção não deturpam a realidade? 

5. Outros valores que devem embelezar a vida dos membros de uma comunidade no seio da Igreja: 
“De tão agradável condição e entendimento” (F 11, 11). “Uma alegria modesta que dava bem a entender o gozo interior que trazia na alma” (F 12,1). “Nunca se queixou de qualquer coisa ou de qualquer irmã” (F 12,1). “É incalculável o valor da mais pequenina coisa que se faça por amor de Deus” (F 12, 7). “ Poderá ser que diga mais alguma coisa acerca dela [algumas irmãs dos mosteiros], para que as que andam com alguma tibieza se esforcem por imitá-las e para que todas louvemos o Senhor que assim resplandece Sua grandeza numas fracas mulherzinhas” (F 12,10). 
- Cultivamos estes e outros valores nas nossas relações quotidianas no seio da comunidade, da família, da Igreja?


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma mulher atraente e atraída, forte e vulnerável

Santa Teresa, fundadora

Uma mulher atraente e atraída, forte e vulnerável

retirado do site:

http://www.carmelo.com.br/default.asp?pag=p000051




Teresa de Cepeda e Ahumada veio à luz em 28 de março de 1515, filha dos piedosos pais Alonso Sánchez de Cepeda e Beatriz Dávila y Ahumada. As primeiras provas de seu fervor religioso herdado dos pais foram a sua fuga de casa para morrer mártir nas terras dos mouros e sua meditação sobre a eternidade. A piedade da infância decairá na adolescência, dando lugar às preferências de toda jovem pelos encantos das relações humanas e dos atrativos mulheris, influenciada pelos devaneios dos romances de cavalaria. Desde cedo pôde constatar sua força atrativa e sua capacidade de liderança, comandando as brincadeiras e centralizando os círculos e as conversas.

Sabia, inteligentemente, ser atraente, utilizando-se de sua simpatia, que ela traduz como desejo de agradar a todos, e teve como mestra neste aprendizado uma parenta de sua idade. Aprendeu a arte da sedução.


À proteção da Santíssima Virgem colocou-se, quando perdeu a mãe, em 1529. Certo de que Maria a protegeria, continuou envolvida em seus passatempos. Preocupado, seu pai resolveu interná-la no mosteiro das monjas agostinianas de Ávila, em 1531. A solidão obrigou-a a encontrar-se consigo mesma. O monólogo é o primeiro passo para um diálogo frutífero. Além da solidão, oportuna companhia, o contato com religiosas sérias abriram-lhe o espírito às dimensões divinas até então encobertas. O desejo de fazer-se consagrada a Deus nasceu-lhe, pela primeira vez. Nem todos se tocam pela própria insatisfação existencial. Isistem em perseguir o mesmo caminho, rumo às mesmas paredes. Teresa descobre a porta ampla. O horizonte que vislumbra do lado de lá, porém, é tão longínquo e misterioso que os efeitos imediatos sentem-se no corpo. Ela somatisa a crise. Enferma volta para casa, quem sabe para tentar recuperar o fio perdido da sua vida, a liga que se rompera em seu espírito. Melhor, fisicamente, vai a Castelhanos de la Cañada, casa de sua irmã mais velha, onde permanece 7 meses. De volta à casa paterna assume, entre 1533 e 1536, a direção de tudo, como mãe e senhora, mulher amadurecida. Em 1536 não consegue segurar-se. Convencendo seu irmão Antônio, fogem de casa. Ela bate no Carmelo da Encarnação, ele na porta dos dominicanos. No Carmelo inicia uma nova vida. Aos poucos vai percebendo que de atraente deve ceder, até ser atraída por Ele, e sua aparente força deu lugar à sua real vulnerabilidade, porta por onde o Cristo entrou em sua vida.


Teresa recebeu o hábito carmelitano em 2 de novembro de 1536 e professou no dia 3 do mesmo mês de 1537, aos 22 anos. Pouco tempo depois de sua profissão, um pouco por causa da nova forma de vida e das graves penitências que se impôs sobre si mesma, e muito pelo drama interior iniciado, ficou gravemente enferma e teve que abandonar temporariamente o mosteiro. A princípios de 1538 mudou-se para um lugar chamado Becedas e depois de alguns meses voltou ao mosteiro, não só com a saúde fraca, mas meio morta e totalmente paralisada. Pouco a pouco ficou restabelecida graças à intercessão de S. José, cuja devoção era popular na Espanha e que se fortalecerá em Teresa desde então.


Sua saúde física restabelecia-se na mesma proporção em que seu espírito se debilitava. Sente-se tíbia até 1553, quando a leitura das confissões de Santo Agostinho e o fatal encontro com uma imagem do Cristo atado à coluna em um dos corredores do mosteiro, tocam-na profundamente e resolvem-lhe o impasse interior. Ela vê nesta experiência sua própria e definitiva conversão (V.9). Este foi o momento em que iniciou seu vôo para as alturas da união com Deus, que se traduziu numa entrega incondicional e valente ao serviço de Deus, que a cumulou de inumeráveis favores e graças. O incremento destes bens foi tão grande e rápido, diz o Pe. Silvério, que em menos de 5 anos havia passado por quase todos os graus do amor e da contemplação infusa, culminando, em 1559, na visita de um querubim que lhe transpassou o coração com um dardo ardente, ferindo-a de amor. Em 1560 comprometeu-se em procurar e fazer sempre o mais perfeito. Inundada da presença transformante de Deus, e diante de tantos fenômenos e graças espirituais, Teresa perturba-se, e busca o auxílio de doutos e santos, que a acalmam e a ajudam a entender o lado humanamente estranho da Graça.


O itinerário místico que Santa Teresa percorre no Carmelo da Encarnação chega à sua natural consequência no desejo de ver a Deus e gozar de sua glória. É este um passo comum nas biografias místicas de relevo. Aos Filipenses São Paulo dirá: "Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer um ganho" (Fil.1,21). São João da Cruz exprime a ânsia pela glória em sua obra “Chama viva de amor” em que a amada expressa sua incontrolável vontade de que a tela do doce encontro com o amado se rompa. Santa Teresa experimenta a mesma coisa. "Ansiosa de ver-Te, desejo morrer", repete o refrão de um poema seu, entre outros que expressam a mesma realidade. Sua definitiva conversão e o encontro com o Cristo não poderia que suscitar nela o desejo de que tudo acabasse, fazendo com que o normal medo da morte transformasse no medo de não morrer (c. V.29,8 e 10). Todavia àquele que vive em Cristo e experimenta, até o sofrimento, que o tempo se faz breve, acontece-lhe de viver em uma estranha dilatação do próprio tempo.


Para o P. Antônio Sicari, Santa Teresa, em seu caminho espiritual, passou da tensão escatológica à tensão encarnatória. Querendo morrer para viver em Cristo, amadurece ao ponto de viver para Cristo, sendo-lhe um prolongamento de humanidade, servindo-Lhe e fazendo-lhe em tudo Sua Vontade. O amadurecimento espiritual verifica-se quando não lhe interessa mais nem o medo do inferno em que poderá cair, nem o desejo do céu que o Cristo lhe pode dar, mas amá-lo em tudo, viver por Ele e por Ele morrer. É neste sentido que se deve entender o dilema colocado por ela: padecer ou morrer por Cristo.


Como a ressurreição assinala o fim do mundo, a encarnação e a paixão de Cristo prolongam-se no seu corpo eclesial. O instinto escatológico de Teresa deve fazer as contas com a encarnação eclesial.


É este o itinerário narrado no na Vida e nas Relações. O desejo da morte só pode ser aplacado por aquele de sofrer por Ele (cf. V.40,20; R.1,3).


Eventos como a visão do inferno, as notícias da Igreja dilascerada pelo movimento protestante e as missões além-mar no novo mundo descoberto, e outros fatores interiores, levaram Santa Teresa, inspirada continuamente por Cristo, a idealizar um mosteiro onde poucas monjas vivessem ao máximo sua doação ao Senhor, pela Igreja. Ela empenha-se em construí-lo, não sem penas.


O mosteiro, dedicado ao glorioso São José, foi inaugurado no dia 24 de agosto de 1562. Pela manhã uma sineta surda, porém alegre, anunciou aos habitantes de Ávila o nascimento da Reforma Teresiana. Radiantes de felicidade tomaram o hábito de descalças as quatro noviças escolhidas por Santa Teresa: Antônia de Henao (do Espírito Santo), filha espiritual de S. Pedro de Alcântara; Maria de la Paz (da Cruz), criada de D. Guiomar de Ulloa; Ursula de Sevilla (dos Santos), filha espiritual de Gaspar Daza, e Maria de Ávila (de S. José), irmã de Julião de Ávila. O Padre Gaspar Daza celebrou a Santa Missa e depôs no sacrário o SS. Sacramento. Este foi o primeiro de uma enxurrada de mosteiros que ela fundou até o fim de sua vida (17 ao todo), num movimento ainda vivíssimo nos dias de hoje.

Teresa, uma reformadora diferente


Quase todas as reformas das Ordens religiosas nascem, naquele tempo, dos sofrimentos dos reformadores pelas cativas condições e pela vulgarização de experiências que se quer conduzir ao esplendor primitivo. Também Teresa reagiu a uma determinada situação de falha. Mas tal reação foi nela absolutamente secundária na ordem das motivações.


A santa documenta candidamente algumas de suas reações que são absolutamente atípicas para um reformador: “Eu não sabia resolver... porque era contente onde estava, o mosteiro me agradava e havia uma cela ao meu gosto” (V32.10; cf. 32,12). Alguém que se colocasse com mandato divino para colocar ordem nas desordens das Ordens, jamais falaria assim. Não há traços nela de um descontentamento insustentável no andamento das coisas, nem daquela típica insatisfação pelo ambiente ou daquele desejo de excepcional austeridade que estão à base dramática de muitas tentativas de reforma religiosa no século XVI.


Do seu velho mosteiro a Santa tece grandes elogios (cf. V.7,3). Nesta linha devemos entender também a resposta que ela dá em 1581 ao pedido de uma monja que quer fazer parte de seu mosteiro, alegando vida regalada no mosteiro onde estava. Ela não a aceita, por razões jurídicas, e diz que ela pode, e diríamos deveria, ser boa onde está: “Antes de se fundarem estes mosteiros, passei vinte e cinco anos num onde havia cento e oitenta monjas. E, por escrever às pressas, só direi: a quem ama a Deus tudo lhe servirá de cruz e de proveito para a alma. Nada lhe fará mal se andar de sobreaviso, considerando que só Deus e vossa mercê estão nessa casa; e, enquanto não tiver ofício que a obrigue a olhar as coisas, nada se lhe dê de nenhuma delas. Procure antes imitar a virtude que vir em cada Irmã, a fim de mais amá-la e tornar-se melhor, descuidando-se das faltas que nela vir. Isto me aproveitou tanto, que, sendo tão numerosas como disse, não me distraíam mais do que se nenhuma houvesse, antes me eram de proveito. Porque, enfim, senhora minha, em toda parte podemos amar a este grande Deus. Bendito seja Ele, que não há quem nisto nos possa estorvar.” (Carta abril de 1581). Teresa mesma dirá de si que, malgrado tudo, fazia um grande bem em torno (V.32,9). A quantos lamentavam que levava muitas monjas da Encarnação para suas fundações ela respondia que restavam ainda mais de quarenta que poderiam fundar uma nova vida religiosa.


Se de um lado é óbvio que no seu novo mosteiro Teresa buscará cortar os abusos que encontrou na vida carmelitana do seu tempo, e que causaram danos inclusive nela, do outro lado não é igualmente óbvio dizer que esta intenção reformista tenha motivado o nascimento do novo Carmelo.


A opinião geral é a de que Santa Teresa nunca pensou na fundação de uma nova Ordem religiosa, nem sequer pretendeu reformar toda a Ordem do Carmelo como tal. A origem da sua intenção reformadora não vai além do âmbito de seus íntimos desejos de conseguir a própria perfeição e de ajudar a Igreja e as almas, cumprindo fielmente sua vocação.


A Santa não desconhece o concreto, porém não se exaspera diante dele. No livro da Vida estigmatizará com palavras enérgicas o relaxamento dos mosteiros (V.7,5). Tornará sobre o tema com expressões duras no Caminho (cap.12-14). Anos mais tarde, por ocasião de sua peregrinação através da Castilha e das províncias andaluzes, conhecerá algo do desenfreio de certos eclesiásticos (cf. Carta ao Padre Geral J. B. Rubeo, em 18 de Junho de 1575) e sentirá muito, contudo isto nem a escandalizará nem a estimulará a fazer algo para concertar o que está errado. Santa Madre é prática. Os males da Igreja e os perigos que ela corre na sua missão levam-na a fazer “esse pouquinho que posso”, como diria. E o que está ao seu alcance e o que se converteria em seu ideal é seguir os conselhos evangélicos com toda perfeição, juntamente com outras que quisessem segui-la (cf. C. Val.1,1-3), vivendo em plenitude o espírito original do Carmelo tal como ela havia chegado a vislumbrar, com sua marca eminentemente contemplativa, cujo valor evangélico e eclesial supôs compreender com profundidade inigualável, como o compreenderia também frei João da Cruz.


A Santa se limitará a criar um novo estilo de vida em que a realização de seu ideal seja mais facilmente exeqüível, sem que lhe passe nunca pelas mentes a idéia de impô-lo de algum modo a suas irmãs e irmãos de hábito, como advertia o P. José de Jesus Crucificado, para quem "a reforma de Santa Teresa não surgiu como uma espécie de rebeldia, contra a Ordem antiga do Carmelo, nem como uma intenção prévia de reformá-la enquanto tal, já que nem a Santa Teresa – que foi sempre filha fiel e amantíssima de sua Ordem – passou-lhe pelo pensamento semelhante idéia, nem o velho tronco da Ordem, de cuja seiva nutriu em boa parte seu espírito, convertendo-o em vida própria, sofreu alteração alguma de caráter jurídico, disciplinar ou espiritual por causa da Reforma ou por sua influência. Esta surgiu impulsionada por motivos e circunstâncias em parte pessoais e em parte ambientais e sociais, em consonância com o momento histórico e com as peculiares necessidades do tempo, como um movimento novo e vigoroso, destinado, não já a reformar a Ordem do Carmo enquanto tal, senão a instaurar na Igreja uma corrente de vida espiritual profunda e fecunda, que trouxesse um remédio eficaz àquelas necessidades e fosse, ao mesmo tempo, um instrumento eficiente de apostolado ao serviço da Igreja.


É de se notar que este movimento se inicia e desenvolve, não a despeito nem contra a Ordem em cujo seio se produz, senão favorecido e protegido por ela, já que não outra coisa significava, na realidade, senão uma nova e mais eficaz tentativa de melhoramento espiritual, em harmonia tanto com as diretrizes dadas pelos Sumos Pontífices à raiz do concílio de Trento como com os desejos intimamente e de muito tempo sentidos na Ordem mesma".


A idéia reformista, propriamente dita, não pertencia ao núcleo essencial da intuição nem de Santa Teresa nem de São João da Cruz. Ela somente se introduz em sua obra por intromissão do rei Filipe II que quis impor aos carmelitas sua própria reforma, instrumentalizando, para isso, a descalcez. Mas, visto por um ângulo mais largo, Santa Teresa é reformadora no sentido de ter colaborado para apontar à Igreja um caminho de fidelidade à sua própria missão. É assim, como reformadora, que a Igreja a vê. No âmbito minúsculo do Carmelo, ainda que tenha iniciado um movimento inicialmente com caráter renovador, Teresa passa a ser, mais que tudo, fundadora.