quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 10-11

Ficha de Trabalho: Caminho 10-11

ImageCaminho 10-11: Requisitos para ser contemplativas: Humildade I.

Pistas de leitura.
Começa a tratar daquela “humildade, que embora a diga no fim, é a principal [virtude] e abrange- as a todas” (4,4). Após uma introdução geral (10,1-4), acomete “o primeiro que temos de procurar” (10,5): de que se trata?, que recomenda para isso: penitências, meditação, exercício…?

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. O objectivo fica claro desde o princípio: desapegar-nos de nós mesmos, contrariar em tudo a nossa vontade, para ser livres de espírito (10,1; 11,5; 12,1-3; 15,7). Já convidámos a atender a isto na última questão da segunda ficha e evidentemente nestes capítulos continuaremos a aprofundar, mas não está mal recordar desde o principio: significa algo para mim contrariar a própria vontade ou parece-me demasiado perigoso ou antiquado…? Boas e más experiências a esse respeito?...

2. “Grande remédio é para isto trazer muito de contínuo no pensamento a vaidade que tudo é e quão depressa se acaba (…) embora pareça fraco meio” (10,2). “E pensando que cada hora é a última, quem não há-de trabalhar?” (12,2). Esta ideia já a conhecemos (cf. “Vida” Ficha 1, questão 3), mas podemos agora voltar a ela.

3. Outro texto em que devemos deter-nos: “Estas virtudes [humildade e desapego] têm tal propriedade, que se escondem de quem as possui, de maneira que nunca as vê nem acaba de crer que tem alguma, embora lho digam; mas tem-nas tanto, que sempre anda procurando tê-las…” (10,4).

4. E outro: “achando-as [humildade e mortificação] achareis o maná; todas as coisas saber-vos-ão bem; por mau sabor que tenham ao gosto do mundo, se vos farão doces” (10,4); cf. Rm 8,28.

5. À hora de concretizar, é obvio que a santa Madre começa a tratar de liberdade de espírito pelo corpo, não por ser rigorista1, mas porque sabe que a vontade tem uma perigosa artimanha no círculo vicioso das necessidades corporais (cf. 11,2). Por isso, a primeira coisa que recomenda, junto com a guarda das coisas mais simples (silêncio, assistência ao coro), é exercitar-se em algo tão quotidiano como a atitude nas doenças não graves ou “males leves” (11,1). Certamente muitos de nós sorrimos com ironias como “algumas monjas parece que não viemos ao convento para outra coisa, senão a procurar não morrer” (10,5) ou as do final de esse mesmo parágrafo ou os exemplos do seguinte (10,6: mais incisivo ainda em CE). Mas é claro que também pode dar-nos que pensar, rever, orar… (Cf. V 13,7; 24,2; F 7,5).

6. O certo é que depois de ridicularizar ‘as queixinhas’, sublinha: [a] se há necessidade de cuidados, “seria muito pior não o dizer, que tomá-lo sem ela, [b] e muito mau se não se compadecessem de vós” (11,1), especialmente as prioresas: estejam atentas para não faltar à caridade e não se tornarem incrédulas a respeito das necessidades das irmãs! (10,7; 11,4) 2. Portanto, posso estar a ser pouco humilde ao não solicitar uma ajuda necessária? Não serei mais incómodo a curto ou médio prazo do que se atendesse agora certas necessidades pessoais? Se sou prior ou responsável, estou solícito…? Também tem lugar aqui evidentemente a oração: agradecimento perante atenções recebidas, petição de luz à hora de acompanhar, súplica se temos carências importantes…

7. Entre as motivações das quais se serve, há algumas bem clássicas (“lembremo-nos dos nossos antigos santos Padres eremitas”: 11,4) e outras quiçá mais surpreendentes, como pôr como referência para as suas monjas a vida dos leigos (cf. 11,3): conheces, respeitas as demais vocações eclesiásticas e inclusive as rotinas diárias de tanta gente, embora não seja cristã? Serviu-te de estímulo ou lição como aqui à santa Madre?... Pensa, revê, ora…



_________

1. “Em demasiadas penitências já sabeis vos dou para trás, porque podem causar dano à saúde, se são sem discrição” (15,3; cf. 10,6).

2. Portanto, não interpretar mal a exortação da santa madre a tragar o medo à morte e à falta de saúde (11,4-5).

Ficha de Trabalho: Caminho 6-9

Ficha de Trabalho: Caminho 6-9

ImageCamino 6-9: Requisitos para ser contemplativas:
Amor de umas para com as outras: em que consiste (cap. 6-7).
Do amor aos familiares (cap. 8-9).

Pistas de leitura.
Embora o tema não fique aqui esgotado (cf. p. ex. cap. 36), por fim trata positivamente do amor perfeito, espiritual: 6,3-7,4 (teoria) e 7,5ss (prática). Por tanto, consideremos: em que consiste e, sobretudo, como amam os que o têm (algo que apresenta em diálogo explícito com as leitoras). e depois aos “avisos [exercícios concretos] para ganhá-lo” (cap. 7 título). Por último (cap. 8-9), aplica os mesmos critérios generosos e exigentes ao amor aos familiares; mas não esqueçamos que dis-tingue entre estes o amor aos pais e irmãos (9,3).

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Este amor “puro espiritual” é uma graça que poucos “têm” (6,1; CE 11,4), de facto, a nossa inclinação costuma ser mais para o contrário (cf. 6,5.7). Contudo, a santa convida a desejá-lo e a procurá-lo. Tens experiências próprias ou aproximadas de um amor assim? Recorda, agradece, louva…

2. O tema do amor em geral e deste em particular costumava ser tido como sinal de iluminismo e, portanto, muito alvejado pela Inquisição. Isso explica sem dúvida o tom do parágrafo 6,2 e a tão revista reelaboração de algumas destas páginas. Mas, é preciso ver também nisso a complexidade da questão dos afectos: há que ter naturalidade, mas também prudência, não ser tola, etc. (cf. CE 7,2 e 11,4?)

3. Repararam no apaixonado texto CV 7,1? Por outro lado, sabiam que na última revisão (CT) a santa acrescentou a meio do parágrafo: “não se deve entender que é com inquietude interior”? Pensa, revê, ora…

4. Neste amor não cabe “fingimento, porque se os vêem torcer caminho [aos seus seres queridos], ou cometerem alguma falta, logo lho dizem,” (7,4; 6,5) e, no entanto, também é preciso saber aco-lher, ter paciência, conversar… (cf. 7,7; 41,7). Que te parece este contraste? Em que achas que melhoraste e em que pioraste: correcção fraterna ou ‘deixa andar’…? Por quê? E a tua comunida-de ou grupo? Depois de reflectir, como sempre, não deixes de agradecer, interceder, pedir para ti, louvar…

5. Ainda que se trata de una graça concedida a poucos (cf. antes questão 1), pode exercitar-se (7,5) e, sobre tudo, deve fazer-se, pois de contrário “poderia por aqui o demónio ir esfriando a caridade com os próximos e fazer-nos entender é perfeição o que é defeito” (7,6) . Para isso a santa madre oferece agora elenco completo de propostas concretas: I) “como seja em geral , é bom e necessário mostrar algumas vezes ternura”, especialmente nas penas (7,5-6); II) “velar e orar”, discernir sempre, buscando essa finura (7,6); III) saber folgar com as irmãs (7,7; cf. 41,7); IV) ser compreensivas com as suas faltas (7,7; cf. 36,7.12-13); V) corrigir com a virtude: “exercer a virtude contrária” (7,7-8; cf. 4,10); VI) recordar as suas virtudes (7,9); VII) tirar-lhes trabalho (7,9); VIII) orar pela união nas dificuldades (7,10)e, acrescentamos, fora delas .
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6. Assim, “é muito bom que umas se compadeçam das necessidades das outras. Atendam a que não seja com falta de discrição em coisas que sejam contra a obediência! Ainda que interiormente pareça áspero o que mandar a prelada, não o mostrem nem o dêem a entender a ninguém, a não ser à mesma prioresa, com humildade, porque faríeis muito dano!” (7,7). Ou seja, compadecer-se é bom, mas não para alimentar tentações contra a obediência: pensa, revê, ora…

7. Se nas duras advertências dos cap. 8-9 não há que incluir a padres e irmãos ou, pelo menos, não do mesmo modo que aos demais parentes (9,3), então a questão não é uma rejeição desu-mana das relações familiares, mas uma sensata experiência de que as obrigações sociais da família – em sentido amplo, como clã, próprias do seu tempo – são uma fonte enorme de distrac-ções (cf. 9,1-2). Claro que não há que discernir somente a intenção ou ‘maçada’ desses familiares, amigos… mas também a de si mesmo (8,3). E isto é válido sem dúvida para todos, não só con-templativos ou célibes (cf. 8,1; 9,5; Mt 10,34-39) . Una vez mais, pensa, revê, ora…

8. A santa congratula-se nestas páginas, por um lado, de certa “mercê” (8,2) e, por outro, dos “melhores parentes” que Sua Majestade lhe foi dando (9,5): recorda, revê, agradece, suplica…

Ficha de Trabalho: Caminho 4-5

Ficha de Trabalho: Caminho 4-5

ImageCaminho 4-5: Requisitos para ser contemplativas:
Amor de umas para com as outras: primeiro, em que não consiste.

Pistas de leitura

A santa madre, em coerência com o destacado nos capítulos iniciais, começa avisando que “antes de falar do interior, que é a oração direi algumas coisas que são necessárias” (4,3); dedicará a isso os quinze capítulos seguintes (4-18). “A primeira, amai-vos muito umas às outras” (cap. 4-7) e, neste contexto, dois tipos de amores lícitos (cf. 7,2) que é preciso evitar ou vigiar (4,4-9 e 4,13-5,7). Portanto, atendamos às descrições, consequências e remédios de ambos.

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. A propósito de 4,1: tenho “altos pensamentos” e esforço-me para “que o sejam as obras” ou, melhor, vivo numa atitude rotineira, conformista ou indiferente, pensando que a minha vida ou a da minha comunidade, congregação… pouco pode dar por si, ou que interessa isso ao mundo…? Se tenho esses pensamentos altos e me esforço, faço-o tendo em conta as minhas constituições ou criando, ou até improvisando, de acordo com elas?

2. É óbvio que também não se trata de ser meros cumpridores de constituições, normas ou costumes, pois “de cumprir a cumprir vai muito” (4,1), mas de buscar una autêntica relação com Deus, com os outros e consigo mesmo (cf. 4,4; Mt 6,1-18). Por isso, ainda que “o regalo e a oração não se harmonizam” e a santa supõe observada a disciplina monacal (4,2), vai insistir nas virtudes e na abnegação que implicam (4,3-4). De modo que, pensa, revisa, ora…

3. Ora, apesar da insistência da santa em que sem essas virtudes não há contemplação (4,3), é preciso estar alerta no que diz respeito ao erro contrário, para o qual advertirá no cap. 16. Recordar também V 23-31; p. ej. 23,11 ou, mais detalhadamente, www.paravosnaci.com: Recursos, Subsídios Fichas de Trabalho, Capítulos 23-31 Vida.

4. Acerca das “amizades particulares”, ficou claro que o problema são os particularismos exclusivistas1 e a amizade? Cf. V 7,20 y, sobre tudo, as páginas seguintes de Caminho (p. ex. 7,5-10). De outra forma, cairemos no equívoco ‘tradicional’ de pensar que, porque não gostamos de ninguém, gostamos de todos; e assim “poderia por aqui o demónio ir arrefecendo a caridade com os próximos e fazer-nos entender que é perfeição o que é falta” (7,6).
5. É claro que os sentimentos se inclinarão mais para umas pessoas do que para outras (4,7), mas o que importa é não se guiar por eles, mas pela verdade e pelos valores2. Por tanto, examinemo-nos atendendo às descrições do erro (4,6; 7,2-3.8.10), do ideal (4,7) e dos remédios (4,9).

6. Somos as comunidades e/ou os responsáveis capazes de “interceptar estas parcialidades” (4,9) o preferimos inibir-nos?

7. Por outro lado, é obvio que inclusive em muitos mosteiros acabou havendo “casa de lavor” (4,9) e, além disso, meios de comunicação social… Esforçamo-nos por viver o silêncio, com todas as suas ressalvas, inclusive aí ou, pelo contrário, tendemos a considerá-lo ultrapassado?

8. Liberdade (de consulta) e cultura aparecem como premissas indispensáveis para o amor autêntico e a contemplação; para que a opressão de corpo, que as monjas aceitaram voluntária e evangelicamente (cf. cap. 1-3), se perverta, como costumava acontecer, em opressão também de alma (cf. 5,1); pois este consolação é lícita e fundamental para o orante (5,5). Assim, ambas são apresentadas como remédio e garantia contra:
– enredos afectivos delas (CE 7,2) ou, sobretudo, do confessor (CV 4,16; 5,1);
– carências intelectuais do mesmo (5,3-4);
– auto-enganos: “quanta mais mercê o Senhor vos fizer na oração, mais necessário é ir bem fundada a oração e as suas obras” (5,2.4).
Cultivamos, reclamamos… essas necessárias liberdade e cultura? Agradecemo-las, celebramos…? Se sou confessor ou conselheiro, assumo e procuro esta liberdade nos ‘meus’ aconselhados? (cf. S. Juan de a Cruz: LB 3,61).

9. Se a ‘competência’ entre confessores ou consultores aumenta o nível dos mesmos (5,5), por que a reticência de tantas pessoas e grupos em conhecer algo mais (consultado, lido…) que o que ‘o padre’ ou o responsável costumam tratar?

10. Evidentemente, esta liberdade sobre a qual vimos reflectindo, deve converter-se em desculpa para buscar o que me resulta mais cómodo (cf. V 26,3) ou que acabem dando-me razão, especialmente à margem da obediência e/ou do projecto comunitário3. Por tanto, pensa, revê, ora.


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1 “Lo demasiado” [em demasia (na trad. Portuguesa)] (4,5), os “danos para a comunidade” (4,6), las “particularidades” (4,7), a vontade escrava e “as ninharias” (4,8).
2 Cf. p. ex. Mt 5,44-48 e as interpretações de S. Teresinha em Ms C 15r.28r…
3 “Como não podemos, de maneira nenhuma assenhorear a nossa vontade, para aplicá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a sujeitarmos à razão, a obediência é o verdadeiro caminho para a sujeitar. Não é com boas razões que isto se alcança, porquanto a natureza e o amor-próprio têm tantas, que nunca chegaríamos ao fim; e muitas vezes, o mais razoável, se bem que não é do nosso agrado, parece-nos disparate pela pouca vontade que temos de fazê-lo”. Fundações 5,11.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

LENDO O CAMINHO DE PERFEIÇÃO-Ficha de Trabalho: Caminho 1-3

Ficha de Trabalho: Caminho 1-3

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Caminho 1-3:

Finalidade da fundação de S. José e da oração contemplativa


Avisos prévios: 1) também este ano fornecemos as fichas quinzenalmente e numa só folha, excepto esta primeira; 2) e, muito mais importante, continua a ser fundamental, em todas as secções, anotar as frequentes orações explícitas, que aparecem e a quem se dirigem, como e porquê.

Pistas de leitura1 .

Como se verá facilmente, são capítulos apaixonados, com alma (1,3-5; CE 4); história (1, 2; 3, 8) e tese (1, 2). A Santa Madre converte finalmente esta última num símbolo que lhe serve para se espraiar em qual é a missão das suas monjas e, ao mesmo tempo, para mostrar quais são, na sua opinião, os verdadeiros problemas e soluções da situação eclesial de então; portanto, prestemos atenção a isso (quer dizer, aos três sublinhados deste parágrafo). E, no meio destes capítulos, uma aparente digressão sobre a pobreza, não só oportuna, mas querida por Deus (2, 11). Portanto, anotar as vezes que aparece a palavra “experiência” e, sobretudo, de que pobreza se trata: 1) em quê ou quem se inspira; 2) em que consiste; 3) que desafogos materiais consente.

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. Certamente, ficou claro o carácter apostólico, eclesial e comunitário que a Santa dá à vida contemplativa. Também o facto de que o afirma contra toda a piedade individualista (cf. 3, 6; 1, 2) ou ‘materialista’ (cf. 1, 5) 2. – Está claro o que isto supõe para mim, para a minha comunidade, para a minha igreja local…? – E a revolução que aquilo implicava numa sociedade em que a vida religiosa feminina era vista facilmente como um ‘estacionamento’ de mulheres não casadoiras e, ao mesmo tempo, como uma servidão a favor dos benfeitores e suas intenções mais pitorescas (cf. 2, 5; V 34, 3)? – Somos assim tão livres de espírito? …
2. E, no centro destas reflexões teresianas, a mais evangélica e talvez mesmo surpreendente: esta vocação consiste, ‘mais do que’ em rezar (cf. 1, 2; 3, 5), em:

“Uma determinação operativa e resoluta: determinou-se a fazer. Mas o tom drástico desta decisão fica contrastado ou mitigado com um toque de modéstia: fazer esse pouquito. Veremos, a seguir, o ingente que é esse pouquito. Nada utópico: resolução bem enquadrada no âmbito do real, do possível: esse pouquito que eu posso e está em mim, escreveu no rascunho. Não só possível e real, mas situado na terra firme do Evangelho: esse pouquito será seguir os conselhos evangélicos. E, finalmente, um toque decisivo, que recupera a força do determinei inicial: com toda a perfeição que eu pudesse (…). Impõe-se uma dupla constatação: impossível delinear o novo carisma do grupo sem conectar com a experiência viva e eclesial da Santa. Impossível igualmente penetrar na lição do Caminho sem ter em conta esta preciosa chave da ascética teresiana 3.

3. Portanto, a questão está em ser autênticos, na coerência dos cristãos: no “braço eclesiástico e não o secular” (3, 2); não forças humanas nem armas (cf. 3, 1). – Estamos livres – pessoas e comunidades – da tentação de recorrer a estas ou outras formas mais subtis de pressão ou manipulação das consciências…?

4. Visto que a chave é a autenticidade própria, a questão passa da divisão da Igreja e da rejeição do facto ‘protestante’ para a crítica interna perante possíveis relaxações (3, 3-4):
a) Porque é uma luta difícil o estar no mundo sem ser do mundo (3, 3): – corro este risco ao evangelizar ou sou mero espectador? – Rezo pelos que estão na linha da frente ou esqueço-me do apelo premente da Santa? …
b) Por muitas infidelidades (3, 3-4;cf.V 7, 5; 27, 15): – fortaleço o meu interior (3, 4) ou lanço-me a evangelizar de qualquer maneira? – Velo e oro para ser fiel? …
c) Dada a parcialidade do mundo para julgar e a facilidade para condenar (3,4; cf. V 31, 17-18): aceito isto quando me toca, ou afecta-me demasiado? – Evito os juízos ou, pelo contrário, até me exponho a julgar regalo o que é virtude (3, 4; cf. Mt 5, 22)?
d) Oras pelos teus superiores, inclusive os mais chegados: local, provincial (cf. 3,10)?
Nota: estas questões serão aprofundadas nos capítulos 4-18.

5. Também se podem pospor até aos capítulos 33-35 as palavras apaixonadas sobre a Eucaristia de 3, 8; mas não seria conveniente deixar passar, sem mais, essa maneira de falar das outras confissões cristãs (cf. também 1,4): - compreendo o contexto da Santa? – Sou consciente da muita diferença que existe em relação ao actual discurso ecuménico da Igreja Católica? – Formo-me a esse respeito? …

6. Certamente chamou a nossa atenção a oração de 3,7-10 e ainda mais na sua primeira redacção (CE 4): compara com a tua o estilo e conteúdo desta.

7. Dentro de CE 4, 1 aparece não só uma apologia da mulher, mas uma autêntica teologia, cujo ponto de partida é a recta intenção (não pela própria salvação, nem para fazer carreira, etc.: 3,3-5) e cujos fundamentos são: 1) Cristo, a sua maneira de actuar; 2) Maria, os seus méritos; 3) Deus, juiz justo; 4) Situação histórica. – Reparaste na profundidade, não simplesmente a paixão, deste breve parágrafo? Que te parece no seu contexto? – Em que pode contribuir para o nosso ou ao teu em particular? …

A importância da pobreza já se pôs em relevo em Vida 35 e muito mais agora:
a) ao aparecer nestes primeiros capítulos e não no bloco seguinte (4-18);
b) pelo rico fundamento teológico 4 e até sociológico (2, 5-6; cf. V 20, 26-27);
c) pelo relevo dado à experiência pessoal e comunitária (2,1.3.6.7); d) e, entre outras coisas, pelos seguintes matizes em relação a V 35:

8. Não se trata só de não ter renda, mas de “não andar a contentar os do mundo (…) jamais, por artifícios humanos, pretendais sustentar-vos (…) deixai os cuidados da comida” (2, 1) e da esmola (2, 2.4) ou acabareis roubando os pobres (2, 3.9). Enfim, “seria enganar o mundo, fazendo-nos pobres não o sendo de espírito, mas somente no exterior” (2, 3): pensa, revê, ora…

9. “Ele vos há-de sustentar”, ainda que seja por terceiros (2, 1); portanto, confiar em que Ele não falta e confiai também quando aparentemente falha, quando “alguma vez vos faltar” (2, 2); – tenho experiência disto? –, soube vivê-lo assim? …

10. Obviamente, o dito anteriormente não significa que se tenha de viver fiada e desgovernadamente no económico, mas tudo o contrário: é preciso dedicar tempo e energias a cuidá-lo e a formar-se para viver essa verdadeira pobreza de espírito5; portanto, pensa, revê, ora …

11. A propósito de tudo isto, também a Santa criticou a falsa paz que dão as muitas poupanças e a sua incoerência com o destino universal dos bens da terra, embora exclua as suas filhas de dita crítica, devido à sua pobreza 6. Com certeza que muitos de nós e as nossas comunidades temos poupanças sobre cujo uso nos questionamos seriamente: – Partilhamos? – Pensamos maneiras solidárias de poupar e investir? – Estamos atentos ao apelo do papa a participarmos na banca ética 7? …

12. Voltando à Santa – mesmo que as nossas poupanças não sejam muitas –, ela acabou sendo pioneira e especialista numa coisa fundamental para a vida religiosa dos nossos dias, com frequência provida de rendas mais ou menos fixas: a importância de funcionar com orçamentos realistas e que tendam a manter a sobriedade (não a aumentar), como meio de encarnar a pobreza evangélica 8; portanto, pensa, ora, revê…

13. No texto do Caminho insiste-se, além da pobreza no pensamento e palavras (cf. acima nº8), nos vestidos e, sobretudo, na casa, até ao ponto de pedir que, se o edifício chegar a ser sumptuoso, “se torne a cair, que as mate a todas, tendo boa consciência o digo e o pedirei ao Senhor” (CE 2,8). Sem esquecer que se permite a liberdade de certa amplidão, campo e ermidas (2,9) 9: – sinto-me tranquilo neste tema ou interpelado por esta ameaça da Santa? …

14. Também no Caminho se permite guardar de um dia para o outro, o que difere dos nossos santos padres do Carmelo (cf. 2, 7) e de carismas tão actuais como o das Missionárias da Caridade, da M. Teresa de Calcutá. De facto, quando faltam os mínimos para a alimentação, é uma das poucas ocasiões em que a Santa permite às suas monjas contrair dívidas. – Qual a tua opinião? …

15. A Santa Madre impôs o trabalho artesanal às suas filhas, mas nunca permitiu que este se personalizasse, porque o sabia incompatível com a vida contemplativa 10. O Concílio Vaticano II viu conveniente animar toda a vida religiosa em sentido contrário, e a isso responderam generosamente os mosteiros teresianos. No entanto, nalgumas zonas, a diminuição do número de monjas e o envelhecimento das mesmas, torna inviável a manutenção de alguma daquelas opções laborais e cumpre os piores prognósticos da Santa a respeito de apuros, excessos… – Já tinhas pensado nisso? – Tens alguma ideia do que se deve fazer? …

16.Para a pobreza ou para qualquer outro tema, um critério precioso: “Duas horas temos de vida e grandíssimo é o prémio; e mesmo que não houvesse nenhum, a não ser o de cumprir o que nos aconselhou o Senhor, seria já grande paga imitar em alguma coisa a Sua Majestade” (2, 7); pensa, revê, ora…

CAMINHO...

“Não vos peço senão que olheis para Ele”

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Querida Madre Teresa:

Há livros que não resistem dois anos nem duas leituras. Há outros, em troca, que atravessam os séculos e nos acompanham permanentemente. Tal é caso do Caminho de Perfeição, o livro que tu escreveste para as tuas monjas, tomando-as como protótipo de leitores ideais, para nos comunicares a tua experiência e ensinar-nos o teu “modo de oração” (CV 29,7), o que elas aprenderam com tanto êxito (F 4,8) e tu querias que fosse para todos (cf. CV 19,15), convencida como estavas de que “por essa via chegam mais depressa à contemplação (V 4,7).

Hoje também há muitas pessoas que se interessam e perguntam pela oração contemplativa, não tanto pela necessidade de afirmar ou justificar a sua importância quanto pela maneira de chegar a ela, decididas a empreender “esta viagem divina, que é caminho real para o Céu” (CV 21,1), arriscando inclusive perderem-se numa multiforme variedade de ofertas que nem sempre oferecem o que prometem e que tornam mais evidente o que há já alguns anos advertiu um conhecido teólogo: que o problema pastoral mais urgente do nosso tempo é como ensinar o povo a orar.

Por outro lado, aprender a orar não é uma tarefa que dependa de nós, por mais que nos esforcemos em aplicar técnicas e dedicar-lhe horas. Orar é uma realidade que nos precede e nos ultrapassa, é uma presença escondida nas profundidades do coração. Gosto de que, no teu Castelo Interior, no começo das quintas moradas, a tenhas comparado com a parábola evangélica do tesouro escondido e da pérola preciosa (cf. 5M 1,2, Mt 13, 44-46). Tenho imaginado muitas vezes a história daquele homem que tinha arrendado um campo desde havia anos, aonde ia todos os dias e cuja paisagem árida lhe resultava tão familiar que pouco mistério tinha para ele.

Mas, um dia, inesperadamente, quando cavava fundo para arrancar alguma raiz ou remover alguma pedra, descobriu com surpresa aquele tesouro que levava anos junto dele sem sabê-lo. Uma coisa parecida nos pode acontecer com a oração: sentimos a sua chamada, tentámo-la algumas vezes e talvez nos tenhamos desanimado. Costumamos dizer: é difícil, não sei como fazer, não encontro um lugar sossegado, não consigo concentrar-me… O caso é que procuramos o tesouro longe do nosso campo, longe da nossa vida. Não acabamos de acreditar que o tesouro está aí, no fundo do nosso ser, que estamos habitados pela oração.

Este é, na minha opinião, o grande acerto do teu Caminho de Perfeição, o mais interessante do livro e o elemento mais eficaz do teu magistério: que nos ensinas a descobrir a presença orante que nos habita e, consequentemente, a orar de maneira directa e imediata, orando tu mesma na presença de Deus e do leitor; e não porque pretendas com isso dar-nos exemplo, senão porque não se pode falar de Deus sem se falar a Deus mesmo, e porque também não se pode ensinar a orar desde fora desse acto, mas na presença da fonte e da meta da oração, a partir dela, nela e para ela.

Na vida humana, existem realidades que não podem ser captadas desde um ponto exterior a elas, porque afectam e actualizam a totalidade da pessoa: o que é o amor, a fidelidade, a angústia ou a esperança, só se compreendem no acto que as realiza. Não se podem ensinar desde fora desse acto. O mesmo acontece com a oração. A sua possibilidade e o seu sentido só se captam na própria oração. Pode-se falar dela só desde a referência àquilo que está sempre presente no fundo do nosso coração e que o apóstolo Paulo chama “gemidos inefáveis do Espírito (Rm 8,16; 5,5; Gal 4,6). Só desde aí se pode ensinar e aprender a orar.

Neste sentido, e tratando de simplificar as coisas, creio que o método (o “modo” como tu dizes) mais útil para aprender a orar é o que tu própria propões no capítulo 26 do Caminho de Perfeição. Indica-lo bem claro no título: “Vai declarando o modo de recolher o pensamento. Dá meios para isso. Este capítulo é muito proveitoso para os que começam a ter oração”. Lido em voz alta e diante de uma imagem de Cristo, tal como aparece na foto (o Cristo da paz, quadro que deixaste na tua última fundação, a de Burgos), é realmente impressionante e de uma eficácia extraordinária. E é que existe uma tal semelhança entre o texto e a imagem, entre o ouvir e o ver, que ambos se dão as mãos, dizem o mesmo (toda uma pedagogia do olhar) e não são precisos mais recursos para começar a orar.

De igual eficácia são também os outros capítulos que dedicas à exegese do Pai-nosso (CV 27-42), oração que contém em síntese todo o Evangelho (breviarum totius evangelii, lhe chamou Tertuliano, o primeiro comentarista), e que, como tal, é referência obrigatória para todo o tipo de orantes e para todas as etapas do caminho espiritual: “Pasmo de ver como, em tão poucas palavras, está encerrada toda a contemplação e perfeição… todo o modo de oração e de alta contemplação, desde os principiantes na oração mental, até à de quietude e união” (CV 37,1; cf. 42,5). Lendo e orando contigo as palavras do Pai-nosso, descobrimos que não são frases feitas, mas frases por fazer…, que têm mais do que soam e operam a realidade que conotam, que revertem sobre o próprio leitor e têm capacidade para o transformar. Agradeço-te, portanto, por tudo isto e também pela alegria de voltar a ler este ano o Caminho de Perfeição. Porque, se ler é útil, neste caso reler é-o duplamente.

Salvador Ros Garcia

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Convite a ler Caminho de Perfeição

Caminho de Perfeição

Caminho de Perfeição

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Seguindo as directrizes do nosso Capítulo Geral, continuamos com a leitura das Obras da Santa Madre Teresa. Este ano de pastoral (2010-2011), como aí foi indicado, dedicamo-lo à leitura reflectida do Caminho de Perfeição. Para facilitar a sua leitura, apresentamos, embora sucintamente, o ambiente espiritual em que ela viveu e que justifica o historial desta obra que não foi pacífico.

O Caminho de Perfeição é a segunda obra composta por Santa Teresa de Jesus. Ela nasce da conjugação de três quereres: dos seus confessores, dela própria e das suas irmãs do convento por ela fundado.

Depois de ter entregado o Livro da Vida aos seus confessores, estes acharam que ela deve continuar a escrever. Este livro era interessante e de muito proveito para as suas irmãs, mas tal como se encontrava, e dadas as circunstâncias da igreja espanhola, não se podia colocar em mãos das suas freiras. Embora não o tivesse escrito para elas, era pena privá-las de tão valiosas orientações espirituais que o livro continha. Além disso, encontrava-se retido nos arquivos da inquisição. Portanto a solução era escrever outro, de estilo diferente, que recolhesse tudo o que fosse de “proveito para aviso de coisas espirituais” e servisse de código de formação para as suas freiras. Assim o manifesta Teresa numa Conta de Consciência escrita em 1567: “Esta relação foi de sorte que todos os letrados, que a têm visto – que eram seus confessores –, diziam que era de grande proveito para aviso de coisas espirituais, e mandaram-lhe que a trasladasse e fizesse outro livrito para as suas filhas – pois era prioresa – onde lhes desse alguns avisos” (Rel. 4,6).

Tendo em conta o mandato dos confessores, Teresa pôs mãos à obra. Aliás, ela também estava convencida da necessidade de pôr por escrito o carisma com que o Senhor a regalou.

E as suas irmãs, que são conhecedoras do mandato que ela tem dos seus confessores, “pedem-lhe”, “mandam-na”, chegaram mesmo a importuná-la: “Sabendo as irmãs deste Mosteiro de S. José que eu tinha licença... para escrever algumas coisas de oração... têm-me importunado tanto para que lhes diga alguma coisa sobre ela, que me determinei a obedecer-lhes” (Pról. 1).

Teresa é consciente das dificuldades que se lhe deparam. Ela continua a pensar que é “coisa desconcertada eu escrever isto”( ib. 2). Em plena redacção da obra confessará abertamente a “confusão” com que escreve: “Que vergonha é para mim eu dizer-vos que façais caso de coisa minha! O Senhor bem sabe a confusão com que escrevo muito daquilo que escrevo!”(C 25, 4).

Mas Teresa acredita na assistência do Espírito do Senhor, que não lhe tem faltado e no amor das irmãs. Ela não tem dificuldade em acreditar na assistência especial do Senhor, pois já tinha deixado escrito no Livro da Vida: “Esclareceu-me Deus o entendimento, umas vezes com palavras e outras pondo-me diante como o havia de dizer... parece que Sua Majestade quer dizer o que eu não posso nem sei. Isto que digo é inteira verdade...” (V 18, 8).

Depois conta com o amor e a oração das irmãs: “Penso que o grande amor que me têm pode fazer-lhes mais aceite o mau estilo e imperfeito daquilo que eu disser... e confio nas suas orações, pois poderá ser que, por elas, o Senhor seja servido que eu acerte em dizer alguma coisa do que convém”( Pról. 1).

A abertura amorosa das suas irmãs vai fazer com que a palavra nascida da sua experiência seja profundamente comunicativa e esclarecedora. Com esta sua atitude a comunidade começa a ser também parte activa e dialogante na obra que Teresa se dispõe a escrever.

A este amor das irmãs junta-se o amor que Teresa nutre por todas elas: “Sei que não me falta amor e desejo de ajudar naquilo que puder, para que as almas das minhas irmãs vão muito adiante no serviço do Senhor. Este amor, junto com os anos e a experiência que tenho de alguns conventos, poderá ser que sirva para eu atinar” (Pról. 3).

Foram todas estas as razões que moveram Teresa a tomar novamente a pluma e escrever esta nova obra que se chamaCaminho de Perfeição.

Este título não é da sua autoria. Encontra-se nas primeiras páginas da obra, mas é de iniciativa alheia. A Santa revela o conteúdo do autógrafo da seguinte maneira: “Este livro trata de avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às Religiosas, irmãs e filhas suas, dos mosteiros que, com o favor de Nosso Senhor e da gloriosa Virgem Mãe de Deus, Senhora Nossa, tem fundado”( Prol. ).

Embora, como ela diz no mesmo prólogo, o tivesse escrito para as irmãs de S. José de Ávila onde ela se encontrava de prioresa, quando o escreveu, está dirigido a todas as suas irmãs de outros conventos, que já tem em vista.

Santa Teresa redigiu por duas vezes este livro. A primeira sem divisões de capítulos que se encontra na Biblioteca do Escorial e a segunda já dividida em capítulos que está nas Carmelitas Descalças de Valladolide.

Estas duas redacções foram feitas no convento de S. José de Ávila, provavelmente no ano de 1566, depois de terminar oLivro da Vida (finais de 1565) e antes da visita do franciscano Afonso Maldonado ao Carmelo de S. José. Teresa tomou a decisão de o redigir por segunda vez, pelos seguintes motivos apontados pelo P. Tomás Alvarez:

1º. Para lhe dar forma de livro, de mais fácil leitura na sua comunidade;

2º. Para cumprir as indicações feitas pelo teólogo amigo que reviu o manuscrito e riscou numerosas passagens, entre elas a famosa apologia das mulheres no capítulo terceiro;

3º. E para diminuir o estilo coloquial e confidencial da primeira redacção, aligeirando o texto de comparações, de alusões polémicas e de referências à própria experiência religiosa.

Depois de o ter redigido por segunda vez, tendo em conta as sugestões dadas pelo teólogo amigo, teve que o submeter aos teólogos censores que lhe rasuraram numerosas passagens e fizeram com que arrancasse diversas folhas onde ela comparava o jogo de xadrez com a humildade (cap. 16). Teresa teve que arrancar cinco folhas e substituí-las por uma.

P. Jeremias Vechina
In: Flor do Carmelo, n.º 37