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domingo, 25 de abril de 2010
Novidade Editorial
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Capítulo 10

Capítulo 10
Começa a declarar as graças que o Senhor lhe concedia na oração. Como podemos nos ajudar a nós mesmos e como é importante entendermos os dons de Deus. Pede ao seu destinatário que doravante o que ela escrever seja secreto, visto que a mandaram falar de uma coisa tão particular quanto são essas graças.
1. Como disse,1 eu tinha começado a sentir às vezes, embora com brevi da de, o que passo a relatar. Vinha-me de súbito, na representação interior de es tar ao lado de Cristo, de que falei,2 tamanho sentimento da presença de Deus que eu de maneira alguma podia duvidar de que o Senhor estivesse dentro de mim ou que eu estivesse toda mergulhada nele. Não se tratava de uma visão; acredito ser o que chamam de teologia mística: a alma fica suspensa de tal modo que parece estar fora de si; a vontade ama, a me mória parece estar quase perdida, o intelecto não discorre, mas, a meu parecer, não se per de; entretanto, repito, também não age, ficando como que espantado com o muito que alcança, porque Deus lhe dá a entender que ele nada com preen de daquilo que Sua Majestade lhe representa.
2. Antes, eu tivera continuamente uma ternura que, em parte, é possível procurar: uma satisfação que não é completamente dos sentidos nem é bem espiritual. Tudo é dado por Deus; mas, ao que parece, para isso podemos con tribuir considerando nossa inferioridade e a ingratidão para com Deus, o muito que Ele fez por nós, sua Paixão, em que sofreu graves dores, Sua vida tão cheia de aflições; deleitando-nos por ver Suas obras, Sua grande za, o amor que tem por nós e muitas outras coisas que quem deseja progredir espiritualmente encontra por toda parte, mesmo que não as viva procurando. Se, ao lado disso, houver algum amor, a alma fica inebriada, o coração fica terno, vêm lágrimas; às vezes, parece que as arrancamos à força e, em ou tras, elas vêm do Senhor, e com tanta energia que não podemos resistir. Ao que parece, Sua Majestade nos recompensa pelo nosso pequeno esforço com um dom imenso que é o consolo sentido pela alma ao ver que chora por tão gran de Senhor; e não me espanto com isso, pois razão há de sobra para sentir consolo, pois ali ela se inebria e se deleita.
3. Considero boa a comparação que agora me ocorreu: os prazeres obtidos da oração devem ser os dos que estão no céu, porque, como não vêem mais do que o Senhor, de acordo com o seu merecimento, quer que vejam, e como reconhecem os poucos méritos que têm, cada um deles se contenta com o lugar em que está, embora haja uma enorme diferença entre a felicidade de cada um no céu, que é muito maior do que a que há entre os gozos espirituais daqui da terra.
E, com efeito, a alma, no início, ao receber essa graça de Deus, quase tem a impressão de que não há mais a desejar, dando-se por bem paga por tudo quanto serviu. E sobram-lhe razões, pois uma lágrima dessas, que, como digo, quase procuramos — embora sem Deus nada se faça —, não me pareça poder ser comprada nem com todos os trabalhos do mundo, pois muito se ganha com elas; e que lucro maior do que ter um testemunho de que contentamos a Deus? Por isso, quem chegar a esse ponto louve muito a Deus, reconhecendo que muito Lhe deve, porque parece que o Senhor já o deseja para a Sua casa e o escolheu para o Seu Reino — se a alma não voltar atrás.
4. Não procure as humildades, de que pretendo falar, de certas pessoas que crêem ser humilde não compreender que o Senhor vai lhes concedendo dons.3 Entendamos, como deve ser, que Deus no-los dá sem nenhum merecimento nosso, e agradeçamos a Sua Majestade; porque, se não reconhecermos que recebemos, não vamos despertar para amar. Uma coisa é certa: quanto mais vemos que estamos ricos, sabendo que somos pobres, tanto maior o nosso aproveitamento e ainda mais verdadeira a humildade. O resto é abater o ânimo por pensar que não se é capaz de obter grandes bens se, começando o Senhor a dá-los, a alma se atemoriza com medo da vaidade. Acreditemos que Aquele que nos dá os bens nos concederá a graça para que, começando o demônio a tentar-nos nesse aspecto, nós o entendamos e nos fortaleçamos para resistir-lhe; isto é, se andarmos com retidão diante de Deus, voltados para contentar apenas a Ele, e não aos homens.
5. É evidente que amamos mais a uma pessoa quando nos lembramos muito das boas obras que faz por nós. Pois, se é ilícito e tão meritório nos lembrarmos sempre de que Deus nos deu a vida, nos criou do nada, nos sustenta, e de todos os outros benefícios que a Sua morte e os Seus sofrimentos nos deram, bem como do fato de que muito antes de nos criar Ele já os sofrera por cada um de nós, por que não seria lícito que eu reconheça, veja e considere muitas vezes que costumava falar em vaidades e que agora, pelo favor de Deus, só tenho vontade de falar Dele? Eis aqui uma jóia que, se reconhecermos que nos foi dada e que a possuímos, nos força a amar, porque o amor é todo o bem da oração fundada na humildade. Pois o que deve ocorrer quando tivermos em nosso poder jóias mais preciosas — que alguns servos de Deus já receberam — como as do menosprezo do mundo e de nós mes mos? É claro que nos consideraremos mais devedores e mais obrigados a servir e a compreender que não tínhamos nada disso e a reconhecer a ge nerosidade do Senhor. Porque, para alma tão pobre, ruim e pouco merecedo ra como a minha, bastava a primeira jóia destas, que ainda seria muito, mas ain da assim o Senhor quis cumular-me de mais riquezas do que eu poderia desejar.
6. Devemos tirar forças para servir mais e procurar não ser ingratos; por que o Senhor nos oferece esses dons com essa condição, pois, se não usar mos bem o tesouro e o elevado estado em que nos põe, Ele voltará a to má -los, e ficaremos ainda mais pobres; e Sua Majestade dará essas jóias a quem as preze e beneficie com elas a si e aos outros.
Como pode aproveitar e gastar com liberalidade quem não sabe que está rico? É impossível — a meu ver devido à nossa natureza — que tenha ânimo para grandes coisas quem não percebe ser favorecido por Deus; porque, dada a nossa inferioridade e inclinação para as coisas da terra, dificilmente nos desapegaremos de fato, com grande aversão, das coisas da terra se não souber mos que partilhamos dos bens celestes. Com esses dons, o Senhor nos dá a força que, pelos nossos pecados, perdemos. Se não tivermos provas do amor de Deus, ao lado de uma fé viva, como poderemos desejar que todos fiquem des contentes e se aborreçam conosco e com todas as grandes virtudes que os perfeitos exibem? Carecemos tanto de estímulo que logo acreditamos no que te mos diante dos olhos; assim, são esses favores que despertam e fortalecem a fé. Pode ser que eu, por ser tão ruim, esteja julgando por mim, podendo haver outros para quem basta a verdade da fé para fazerem obras muito per feitas, enquanto eu, miserável que sou, precisei de todas essas graças.
7. Que eles falem disso; eu falo do que aconteceu comigo, como me ordenaram. Se eu estiver errada, aquele a quem me dirijo4 destruirá esta relação; pois ele saberá entender, mais do que eu, o que está errado; a ele suplico, pelo amor do Senhor, que publique o que eu disse até agora da minha vida ruim e dos meus pecados (concedo-lhe a licença a partir de agora, estendendo-a a todos os meus confessores, sendo um deles aquele a quem me dirijo), e, se quiser, enquanto eu estiver viva, para que o mundo não se engane mais pensando que há em mim algum bem; e por certo, digo sinceramente, pelo que agora sinto, isso me trará grande consolo.
Para o que vou falar, não dou igual licença, nem desejo que, caso o mostrem a alguém, digam quem o escreveu, quem é nem a quem sucedeu; por isso, não direi o meu nome, nem o de ninguém, tentando escrever o melhor que puder para não ser reconhecida, e assim o peço pelo amor de Deus. Bastam pessoas tão instruídas e sérias para aprovar alguma coisa boa se o Senhor me der graça de dizê-la; se houver algo assim, será Dele, e não meu, porque não sou instruída, não tenho boa vida, nem fui educada por mestres nem por ninguém (porque só os que me mandaram escrever sabem que eu o faço, e no presente não está aqui);5 e quase furtando o tempo, e com pesar, porque me impede de fiar e porque, estando em casa pobre,6 há muitas ocupações… Assim, mesmo que o Senhor me tivesse dado mais capacidade e memória, podendo eu me aproveitar, com esta, do que ouvi ou li, o que não é o caso, se alguma coisa de bom eu disser, é o Senhor que o quer para algum bem; o que for ruim terá vindo de mim, e vossa mercê o suprimirá. Em nenhum dos casos há proveito em dizer o meu nome. Enquanto eu estiver viva, está claro que não se deve divulgar o bem; estando morta, isso de nada vai servir, a não ser para que o bem perca a autoridade e o crédito por ser dito por uma pessoa tão ínfima e ruim.
8. E por pensar que vossa mercê e os outros que o virem haverão de fazer o que peço, pelo amor de Deus, escrevo com liberdade; se assim não fosse, eu teria grandes escrúpulos, não para falar dos meus pecados, que nesse aspecto não tenho nenhum. Quanto ao mais, basta-me ser mulher para estar restrita, ainda mais sendo mulher e ruim. Assim, o que ultrapassar a simples narrativa da minha vida, tome-o vossa mercê para si — já que tanto me importunou para que eu indicasse as graças que Deus me faz na oração —, caso esteja em conformidade com as verdades da nossa santa fé católica; se não o estiver, que vossa mercê o queime logo, que a isso me sujeito. E direi o que se passa comigo para que, respeitada a fé, possa vossa mercê tirar disso algum proveito e, caso contrário, para que desenganeis a minha alma, e para que o demônio não ganhe onde eu penso ganhar; pois o Senhor já sabe, como depois direi,7 que sempre procurei buscar quem me dê luz.
9. Por mais clara que eu tente ser falando das coisas de oração, tudo será bem obscuro para quem não tiver experiência. Falarei de alguns impedimentos que no meu entender impedem o progresso nesse caminho, bem como de coisas em que há perigo, daquilo que o Senhor me ensinou por experiência e do que aprendi discutindo com grandes mestres e pessoas que há muito se dedicam às coisas do espírito. Todos estes reconhecem que, nos vinte e sete anos em que me dedico à oração, Sua Majestade me deu a experiência — apesar dos meus tantos tropeços e de eu ter trilhado tão mal esse caminho — que outros conseguiram em trinta e sete ou quarenta e sete anos, sempre na penitência e na virtude.
Bendito sejais por tudo! E, por quem sois, Senhor, servi-vos de mim, pois bem sabeis que não pretendo outra coisa senão que sejais louvado e engrandecido um pouco por haverdes plantado um jardim de flores tão suaves num pântano tão sujo e malcheiroso. Queira Sua Majestade que eu, pela minha culpa, não volte a arrancá-las nem torne a ser o que era. Suplico a vossa mercê que, pelo amor do Senhor, peça-Lhe isso, pois sabeis quem sou com mais clareza do que me permitistes dizer aqui.
terça-feira, 23 de março de 2010
Capítulo 9

Conta de que modo o Senhor começou a despertar a sua alma, dando-lhe luz em tão grandes trevas, e a fortalecer suas virtudes para não ofendê-Lo.
1. A minha alma já estava cansada e, embora quisesse, seus maus costumes não a deixavam descansar. Aconteceu-mede, entrando um dia no oratório, ver uma imagem guardada ali para certa festa a ser celebrada no mosteiro. Era um Cristo com grandes chagas que inspirava tamanha devoção que eu, de vê-Lo, fiquei perturbada, visto que ela representava bem o que Ele passou por nós.1 Foi tão grande o meu sentimento por ter sido tão mal-agradecida àquelas chagas que o meu coração quase se partiu; lancei-me a seus pés, derramando muitas lágrimas e suplicando-lhe que me fortalecesse de uma vez para que eu não O ofendesse.
2. Eu era muito devota da gloriosa Madalena e muitas vezes pensava em sua conversão, em especial quando comungava, certa de que o Senhor estava dentro de mim, pondo-me a Seus pés, por ter a impressão de que as minhas lá grimas não seriam desdenhadas; e eu não sabia o que dizia (pois muito fa zia quem permitia que eu as derramasse, já que eu logo esquecia aquele sen timento), encomendando-me a essa gloriosa Santa para que ela me alcanças se o perdão.
3. Mas esta última vez, com a imagem de que falei, parece-me ter sido mais proveitosa, porque eu já desconfiava muito de mim mesma e depositava toda a minha confiança em Deus. Creio que eu disse que não me levantaria dali enquanto a minha súplica não fosse atendida. Tenho certeza de que isso me beneficiou, porque a partir de então fui melhorando muito.
4. Eu rezava assim: como não podia raciocinar com o intelecto, esforçava-me por representar Cristo dentro de mim, e sentia-me melhor — ao que pa rece — nas passagens onde o via mais sozinho. Eu acreditava que, estando só e aflito, Ele haveria de me acolher, sendo eu pessoa necessitada. Eram mui tas as minhas simplicidades desse tipo.
Eu me sentia muito bem, em especial na oração do Horto, onde Lhe fazia companhia; ficava pensando no suor e na aflição que ele sofrera, desejando, caso fosse possível, enxugar-Lhe o suor tão doloroso, mas lembro-me de que nunca ousei fazê-lo, pois vinham à lembrança os meus graves pecados; eu fi cava ali, com Ele, enquanto os meus pensamentos deixavam, porque eram muitos os que me atormentavam. Por longos anos, quase todas as noites, antes de dormir, ao me encomendar a Deus para dormir, eu sempre pen sava um pouco nessa passagem da oração do Horto, mesmo antes de ser monja, porque me disseram que com isso se obtinham muitos perdões; e tenho para mim que a minha alma muito ganhou com isso, porque comecei a orar sem saber que o fazia, tendo esse costume ficado tão constante que nunca o aban donei, assim como nunca deixei de me persignar para dormir.
5. Voltando ao que dizia do tormento que os pensamentos me tra ziam: proceder sem o discurso do entendimento requer que a alma esteja muito con centrada ou perdida, perdida em distrações. Aproveitando, é grande o ga nho da alma, por ser progresso no amor. Mas, para chegar a isso, fazem--se grandes esforços, a não ser que o Senhor se digne conduzir a alma, num breve espaço de tempo, à oração de quietude, o que acontece com algumas pessoas que conheço. Para quem segue esse caminho, é útil um livro que leve ao rápido recolhimento. Eu também me beneficiava de ver campos, águas, flores; encontrava nessas coisas a lembrança do Criador, isto é, elas me despertavam e me recolhiam, servindo-me de livros, ao mesmo tempo que me lembrava da minha ingratidão e dos meus pecados. Era tão grosseiro o meu intelecto que jamais pude imaginar coisas do céu ou coisas elevadas, até que o Senhor as representasse de outra maneira para mim.
6. Eu era tão pouco hábil na representação de imagens mentais que, se não visse com os meus próprios olhos, pouco uso fazia da imaginação, ao contrá rio de certas pessoas que conseguem servir-se dela quando se recolhem. Eu só podia pensar em Cristo como homem, mas nunca pude representá--Lo no meu interior, por mais que lesse sobre a Sua beleza e por mais que con templasse as Suas imagens; eu agia como uma pessoa cega ou no escuro, e que, falando com outra, sabe que está com ela porque tem certeza da sua pre sença (digo, percebe e crê que ela está ali, mas não a vê); assim ficava eu quando pensava em Nosso Senhor. E por isso eu gostava tanto de imagens. In felizes os que por sua culpa perdem esse bem! Bem parece que não amam o Senhor, porque, se o amassem, gostariam de ver o Seu retrato, como no mun do há prazer em contemplar o retrato daqueles a quem se quer bem.
7. Deram-me nessa época as Confissões de Santo Agostinho.2 Parece que o Senhor o ordenou, porque nunca as procurei nem as tinha visto. Sou muito afei çoada a Santo Agostinho, porque o mosteiro onde fui secular era de sua Ordem,3 e também por ele ter sido pecador. Nos santos que o foram e, de pois de sê-lo, foram atraídos outra vez pelo Senhor eu encontrava muito con solo, parecendo-me que neles encontraria ajuda e que, como os havia perdoado, o Senhor também poderia me perdoar. Só uma coisa me desconso lava, como eu disse:4 o Senhor só os chamou uma vez, e eles não voltaram a cair; quanto a mim, já eram tantos os chamados que isto me afligia. Mas, considerando o amor que Ele tinha por mim, eu me reanimava, pois da Sua misericórdia jamais duvidei, enquanto de mim duvidava com freqüência.
8. Valha-me Deus! Como me espanta a teimosia da minha alma, apesar de tanta ajuda de Deus! Traz-me medo ver minha grande fraqueza e os vín culos que me impediam de me entregar por inteiro a Deus.
Começando a ler as Confissões, tive a impressão de me ver ali. Passei a encomendar-me muito a esse glorioso Santo. Quando cheguei à sua conversão e li que ele ouvira uma voz no jardim,5 senti ser o Senhor quem me fa lava, tamanha foi a dor do meu coração. Passei muito tempo chorando, com grande aflição e sofrimento. Como sofre uma alma, valha-me Deus, por perder a liberdade de ser senhora de si mesma, e que tormentos padece! Hoje me admiro por ter podido viver com tanta aflição. Glória a Deus, que me deu vida para eu sair de uma morte tão mortal.
9. A minha alma ganhou grandes forças da Divina Majestade, que deve ter ouvido minhas súplicas e ter-se condoído por tantas lágrimas. Aumentou em mim a vontade de ficar mais tempo com Ele; passei a fugir das ocasiões de pecado porque, livre delas, logo voltava a amar Sua Majestade. Eu bem sabia que O amava, mas não compreendia, como iria entender, o que é amá--Lo verdadeiramente.
Creio que eu nem bem me dispunha a querer servi-Lo e Sua Majestade já recomeçava a me deliciar. Eu via que aquilo que os outros procuram adquirir com muito esforço, o Senhor instava comigo para que eu o recebesse, visto que, nos últimos anos, já me concedia gostos e regalos.6 Jamais me atrevi a suplicar que me desse isso ou ternura de devoção; eu lhe pedia apenas que me desse graças para que não O ofendesse e que perdoasse os meus grandes pecados. Vendo-os tão grandes, nunca me atrevi conscientemente a desejar regalos ou gostos. Para mim, a Sua piedade já fazia demais permitindo-me permanecer diante de Si e trazendo-me à Sua presença, pois eu via bem que, se Ele não me procurasse tanto, eu sozinha nunca o faria.
Lembro-me apenas de uma ocasião em que Lhe pedi consolações, por estar muito necessitada; porém, vendo que o fazia, fiquei tão confusa que a dor de me ver com tão pouca humildade me deu o que eu me atrevera a pedir. Eu sabia que não era errado pedi-las, mas achava que quem as merecia eram os que estavam bem dispostos, e que tinham procurado a verdadeira devoção com todas as suas forças, sendo esta não ofender a Deus e estar pronto e determinado para todo bem. Eu pensava que as minhas lágrimas eram coisinhas de mulher, ineficazes, pois eu não conseguia com elas o que desejava. No entanto, acho que me valeram; porque, especialmente depois dessas duas vezes7 de tão grande arrependimento e de tanta dor no coração, passei a me dedicar mais à oração e a me afastar das coisas que me pudessem trazer a perdição, embora não o fizesse de todo, contando com a ajuda de Deus para delas me separar. Como Sua Majestade só esperava alguma correspondência de minha parte, as graças espirituais foram aumentando da maneira como vou contar. Trata-se de algo incomum, porque o Senhor as costuma dar aos que têm maior pureza de consciência.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
capitulo 8
Fala do grande bem que obteve do fato de não se afastar por inteiro da oração para não perder a alma e do grande auxílio que isso é para se recuperar o que se perdeu.
Defende essa prática por parte de todos. Diz que são grandes os ganhos dela decorrentes e que, mesmo que a deixem, é muito bom fruir por algum tempo de tão grande bem.
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1. Houve uma causa para que eu insistisse tanto em relatar essa época da minha vida. Sei bem que não agrada a ninguém ver coisa tão ruim, e por cer to eu gostaria que os que lessem isto me detestassem ao ver uma alma tão teimosa e ingrata para com quem tantas graças lhe tem dado. Gostaria de ter permissão para falar das muitas vezes que, nessa época, falhei diante de Deus, por não1 me ter apoiado na forte coluna da oração.
2. Singrei esse mar tempestuoso durante quase vinte anos, caindo e levan tan do — levantando-me mal, pois voltava a cair. Era tão pouca a minha per feição que quase não me importava muito com os pecados veniais, e, em bora temendo os mortais, nem por isso me afastava dos perigos. Trata-se de uma das vidas mais penosas que, a meu ver, se pode imaginar: eu não me rejubilava em Deus nem me alegrava no mundo. Nos contentamentos mundanos, era atormentada pela lembrança do que devia a Deus; quando estava com Ele, era perturbada pelos contentamentos do mundo. É tão dura essa batalha que nem sei como suportaria um mês, quanto mais tantos anos.
Porém, vejo claramente a grande misericórdia do Senhor ao me dar ânimo para orar enquanto eu tratava com o mundo. Digo ânimo, porque não creio que haja na terra algo que exija mais coragem do que trair o rei, sabendo que ele o sabe, sem conseguir sair de sua presença. Naturalmente, todos estão sempre diante de Deus; mas, para quem trata da oração, isso ocorre em outro plano; enquanto estes percebem que o Senhor os olha, os outros conseguem às vezes passar muitos dias sem nenhuma lembrança de que Deus os vê.
3. É verdade que, nesses anos, houve muitos meses e, talvez, anos em que eu não ofendi ao Senhor, dedicando-me à oração e me esforçando para não desagradá-lo. Digo-o para não faltar à verdade. Pouco me lembro dessas boas épocas, que devem ter sido raras, já que as outras foram muito mais numerosas. Poucos dias passei sem ter longos períodos de oração, a não ser que estivesse muito mal de saúde ou bastante ocupada; quando estava doente, relacionava-me melhor com Deus, procurando levar as pessoas próximas a assim ficarem, suplicando ao Senhor que as ajudasse e falando dele freqüentemente.
Desse modo, afora o ano de que falo, em vinte e oito anos de oração, passei mais de dezoito nessa luta entre lidar com Deus e lidar com o mundo.2 Nos outros, de que ainda vou falar, mudou a razão da contenda, mas a guerra ainda é dura. Contudo, estando, a meu ver, a serviço de Deus e com conhecimento da vaidade que é o mundo, tudo foi suave, como adiante direi.
4. Eu me estendi tanto, como já disse,3 para que se vejam a misericórdia de Deus e a minha ingratidão, bem como para que se compreenda o grande be nefício que Deus dá à alma dispondo-a a ter oração com vontade, mesmo que a sua dis posição não seja a necessária. Com perseverança, tenho certeza de que o Senhor conduzirá a alma a um porto de salvação, como — pelo que vejo agora — fez comigo, apesar dos pecados, tentações e mil quedas que o de mônio ocasiona. Queira Sua Majestade que eu não volte a me perder.
5. O bem que quem pratica a oração — refiro-me à oração mental — obtém já foi tratado por muitos santos e homens bons. Glória a Deus por isso! Se assim não fosse, embora pouco humilde, eu não sou tão soberba que me atre vesse a falar disso.
Do que tenho experiência posso falar: quem começou a ter ora ção não deve deixá-la, por mais pecados que cometa. Com ela, terá como se recuperar e, sem ela, terá muito mais dificuldades. E que o demônio nunca tente ninguém como tentou a mim, levando-me a abandonar a oração por hu mildade; creiam-me que as palavras do Senhor não hão de faltar se nos arre pendermos de verdade e tivermos o firme propósito de não mais ofendê-Lo; nesse caso, Ele nos recebe com a mesma amizade, concedendo-nos as mes mas graças de antes e, às vezes, se o arrependimento fizer jus a isso, muitas mais.
Por isso, peço aos que ainda não começaram que, por amor a Deus, não se privem de tanto bem. Não há o que temer, mas o que desejar. Porque, mes mo que não vá adiante nem se esforce pela perfeição, a ponto de merecer os gostos e regalos que Deus dá aos perfeitos, ao menos irá conhecendo o ca minho que leva ao céu. Se perseverar, tudo espero da misericórdia de Deus, pois ninguém fez amizade com Ele sem dele obter grande recompensa.4 Para mim, a oração mental não é senão tratar de amizade — estando muitas vezes tratando a sós — com quem sabemos que nos ama. E se ainda não O amais (porque, para que o amor seja verdadeiro e duradoura a amizade, deve haver compatibilidade; o Senhor exige, como se sabe, que não se cometam faltas, que se seja perfeito; nós, no entanto, somos viciosos, sensuais e ingratos), não podeis por vós mesmos chegar a amá-Lo, porque não é de vossa condição; mas, levando-se em conta o muito que Ele vos ama e o quanto vale ter a Sua amizade, passai pelo sofrimento de estar muito na presença de quem é tão diferente de vós.
6. Ó infinita bondade do meu Deus, que me parece que Vos vejo e me vejo dessa maneira! Ó delícia dos anjos, que, ao ver isso, todo o meu ser gostaria de desfazer-se em Vosso amor! Como é certo que sofreis com quem sofre por ter-Vos junto a si. Que bom amigo sois, Senhor meu! Como vais brindando a alma, e sofrendo, à espera de que ela alcance Vossa condição, suportando a sua, até que ela o consiga! Considerais, Senhor meu, os instantes em que ela o quer e, por um vislumbre de arrependimento de sua parte, esqueceis que ela Vos tem ofendido!
Vi isso com clareza em mim mesma, e não entendo, Criador meu, por que o mundo inteiro não procura travar convosco essa amizade particular. Os maus, que não têm a Vossa condição, deviam fazê-lo para que nos fizésseis bons. Isso acontecerá se eles permitirem que estejais com eles ao menos duas horas por dia, mesmo que não estejam convosco, mas às voltas com mil cuidados e pensamentos do mundo, como eu fazia. Devido ao esforço que fazem por querer estar em tão boa companhia, sabeis que, no princípio, e até depois, não podem fazer mais; Vós, como recompensa, impedis os ataques dos demônios, reduzindo a força destes a cada dia, ao mesmo tempo que for taleceis a alma. Jamais matais os que confiam em Vós e que Vos querem por amigo — Vida de todas as vidas! Vós lhes sustentais a vida do corpo, dan do-lhes mais saúde, vivificando a alma.
7. Não entendo o que temem os que temem começar a ter oração mental, nem sei de onde vem esse medo. Bem sabe o demônio criá-lo para provocar o verdadeiro mal, levando-me, pelo terror, a não pensar em que ofendi a Deus nem no muito que Lhe devo; assim agindo, ele não deixa que pensem no inferno, na glória e nos grandes sofrimentos e dores que Deus passou por mim.
Nessas coisas consistiu toda a minha oração enquanto eu corria esses perigos, sendo esses os meus pensamentos quando eu podia. E muitas vezes, durante alguns anos, eu me preocupava mais em desejar que passasse o tempo para mim determinado de estar ali e em escutar quando batia o relógio, do que em outras coisas boas. Com freqüência, acolhia com maior vontade alguma penitência grave do que o recolhimento em oração.
E é certo que a força que o demônio fazia — ou o meu mau costume — era tão incomparável, e tamanha a tristeza que eu sentia ao entrar no oratório, que eu precisava empregar todo o meu ânimo (que, dizem, não é pouco, tendo Deus me feito mais corajosa do que a maioria das mulheres, embora eu a tenha usado mal) para me obrigar, contando por fim com a ajuda do Senhor.
E, depois de me ter obrigado assim, eu ficava com maior quietude e alegria do que algumas vezes em que tinha desejo de rezar.
8. Porque, se o Senhor suportou por tanto tempo alguém tão ruim quanto eu, sendo claro que foi por isso que se curaram todos os meus males, que pessoa, por pior que seja, poderá temer? Porque, por mais que o seja, não o será por tantos anos depois de ter recebido tantas graças do Senhor. Quem poderá duvidar disso se o Senhor tanto me suportou, apenas porque eu desejava e procurava algum lugar e tempo para que Ele estivesse comigo, e isso muitas vezes sem vontade, graças à grande força que eu empregava contra mim ou que o próprio Senhor usava em mim? Se para os que não O servem, mas O ofendem, a oração faz tão bem e é tão necessária, quem poderia objetar que não há maior dano para os que servem a Deus e O querem servir do que deixar de fazê-la? Com certeza não posso entender que as pessoas passem com mais dores pelos sofrimentos da vida ao fecharem para Deus a porta através da qual Ele lhes daria a verdadeira felicidade. Na verdade, tenho pena delas, pois servem a Deus prejudicando a si mesmas, enquanto os que se dedicam à oração recebem a ajuda do Senhor, que, por menos que eles se esforcem, lhes dá contentamento para que suportem os sofrimentos.
9. Como tratarei adiante das alegrias dadas pelo Senhor aos que perseveram na oração, nada falarei aqui. Digo apenas que a oração foi a porta que me levou às grandes graças que recebi; se a fecharmos, não sei como Ele as poderá conceder; porque, ainda que queira entrar para deliciar-se com uma alma e cumulá-la de contentamento, Deus não terá por onde, pois a quer sozinha, pura e com vontade de recebê-Lo. Se lhe impusermos obstáculos e nada fizermos para retirá-los, como Ele poderá vir até nós? E ainda queremos que Deus nos conceda grandes favores!
10. Para que todos vejam a misericórdia de Deus e o grande benefício que tive por não ter abandonado a oração e a lição ou leitura, falarei, pois importa muito que se entenda isso, de como o demônio ataca uma alma para conquistá-la, e do artifício e benevolência com que o Senhor busca levá-la para Si. Digo-o para que se acautelem dos perigos que não evitei. Peço sobretudo, por amor de Nosso Senhor e pela grande afeição com que Ele procura fazer-nos voltar para Si, que se evitem as ocasiões de pecado; porque, uma vez nelas, em nada podemos confiar numa guerra onde tantos inimigos nos combatem e onde são tão fracas as nossas defesas.
11. Eu gostaria de saber descrever a escravidão da minha alma naquela época, porque bem entendia que estava cativa, mas não percebia em que con sistia o cativeiro, nem podia crer de todo que aquilo que os confessores não consideravam tão grave fosse tão ruim como eu o sentia em minha alma. Um deles, a quem consultei a respeito de uma reserva minha, disse-me que, mesmo que eu chegasse a um alto grau de contemplação, as relações e conversas de que eu me ressentia não me fariam mal.
Isso aconteceu nos últimos tempos, quando eu, com o favor de Deus, me afastara mais dos grandes perigos, apesar de não evitar por inteiro as ocasiões. Como me viam com bons desejos e ocupada com a oração, pensavam que eu fazia muito; minha alma, contudo, sabia que eu não fazia o que Aquele a quem eu tanto devia merecia. Lamento agora o quanto a minha alma sofreu, e a pouca ajuda que recebeu, a não ser de Deus, bem como a liberdade que lhe era dada para os passatempos e alegrias por aqueles que os consideravam lícitos.
12. Não era pequeno o meu tormento nos sermões, de que gostava muito. Quando eu via alguém pregar com espírito e discorrer bem, adquiria por essa pes soa uma afeição particular, sem que eu a procurasse e sem saber de onde me vi nha. Quase nunca o sermão me parecia tão ruim que eu não o ouvisse com von tade, embora os presentes dissessem que [o pregador] não pregava bem. Se fosse bom, causava-me um deleite particular. Eu quase nunca me cansava de falar de Deus ou de ouvir sobre Ele depois que comecei a ter oração. De um lado, con se guia grande consolo nos sermões, mas, de outro, me atormentava, porque eles me faziam ver que em muitas coisas eu não era como devia ser. Eu suplicava ao Senhor que me ajudasse; mas, pelo que vejo agora, eu não depositava total confiança em Sua Majestade nem perdia de todo a que punha em mim. Eu pro curava soluções, fazia esforços; mas ainda não compreendia que isso de nada serve se, mesmo não confiando por inteiro em mim, eu não pusesse a confiança em Deus.
Eu desejava viver, pois bem entendia que não vivia, combatendo, em vez disso, uma sombra da morte, sem que ninguém me desse vida e sem poder consegui-la eu mesma; e quem podia dá-la a mim tinha razão para não socorrer--me, pois tantas vezes me chamara a Si e outras tantas fora abandonado.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Capítulo 7
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Capítulo 6


sábado, 16 de janeiro de 2010
capitulo 5

Capítulo 5
Continua a falar das grandes enfermidades que teve e da paciência que o Senhor lhe deu para suportá-las, e diz como Ele do mal extrai o bem, como se verá pelo que aconteceu a ela no lugar ao qual foi para curar-se.
1. Esqueci de dizer que, no ano de noviciado, tive grandes desassossegos com coisas que, em si, pouca importância tinham. Culpavam-me muitas vezes sem que eu tivesse culpa, e eu sofria com muitos desgostos e imperfeições, embora o meu grande contentamento com o fato de ser monja a tudo compen sasse. Como me viam buscar a solidão, bem como chorar algumas vezes por meus pecados, pensavam que eu estivesse descontente, e o diziam.
Eu gostava de todos os costumes religiosos, mas não tolerava sofrer o que me parecesse menosprezo. Apreciava que gostassem de mim, dedicava--me a tudo o que fazia. Tudo me parecia virtuoso, embora isso não me sirva de des culpa, porque eu sabia procurar o que me dava prazer, razão por que a ignorância não me tira a culpa. O fato de o mosteiro não estar fundado em muita perfeição pode relevar algumas faltas minhas; contudo, por minha ruin dade, eu acolhia o que era defeituoso e desprezava o que era bom.
2. Uma das religiosas sofria então, prostrada por grande e dolorosa enfer midade; devido a uma obstrução, fizeram-lhe abertura no ventre, por onde re gurgitava tudo o que comia. Em pouco tempo faleceu. Eu via todas temerem aquele mal, mas tinha grande inveja de sua paciência; pedia a Deus que, dando-me semelhante paciência, também me desse as enfermidades que dese jasse. Parece-me que eu não temia nenhuma, pois estava tão determinada a obter bens eternos que me dispunha a ganhá-los por qualquer meio. E espanto-me porque então ainda não tinha — a meu ver — amor a Deus, como acreditei que tivesse depois que comecei a fazer orações. Tratava-se apenas de uma luz que me levava a ver o pouco valor do perecível e o alto preço dos bens que com ele se podem ganhar, visto serem eternos.
Sua Majestade me ouviu tanto que, em menos de dois anos, a minha condição era tal que, embora diferente daquela, a minha enfermidade não foi menos dolorosa nem deu menos trabalho; durou três anos, como agora vou narrar.
3. Chegado o momento de ir me tratar, que eu aguardava com a minha irmã nesse lugar,1 esta, o meu pai e a monja amiga minha que viera comigo, e que muito gostava de mim, me levaram com extremo cuidado.
O demônio logo começou a inquietar minha alma, mas Deus retirou dis so grandes benefícios. No lugarejo onde fui me curar,2 morava um sacerdo te que, além de nobre e inteligente, tinha alguma instrução. Comecei a confessar --me com ele, porque sempre fui amiga das letras, apesar do grande dano que me tinham feito confessores mais ou menos letrados, a quem eu recorria por não encontrar algum mais instruído. Sei por experiência que é melhor que os re ligio sos, sendo virtuosos e de vida santa, sejam antes totalmente ignorantes do que doutos pela metade. Os ignorantes não confiam em si, consultando os mais sábios; os verdadeiramente cultos nunca se enganam, ao passo que os ou tros, embora não pretendam enganar, também não sabem mais do que ensinam. Eu achava que os confessores de pouca instrução fossem competentes, julgando que bastava apenas lhes dar crédito. Por outro la do, a doutrina que me transmi tiam era ampla e de maior liberdade. Se assim não fosse, sou tão ruim que por certo buscaria outros. O que era pecado ve nial, eles me diziam não ser pe cado; o que era pecado mortal gravíssimo, diziam que era venial. Isso me fez tanto mal que é preciso dizê-lo aqui, para alertar ou tras pessoas sobre os danos que isso traz. Bem sei que isso não é desculpa aos olhos de Deus; o simples fato de certas coisas não serem boas em si devia ser suficiente para que eu as evi tasse. Creio que, por causa dos meus pecados, Deus permitiu que esses con fessores se enganassem e me enganassem. E eu en ganei outras tantas pes soas por lhes transmitir o mesmo que eles me tinham dito.
Fiquei com essa cegueira, creio eu, por mais de dezesseis anos, até que um padre dominicano,3 grande erudito, dissipou esses erros; os da Companhia de Jesus incutiram em mim um saudável temor, revelando-me a gravida de de princípios tão maus, como depois vou contar.
4. Assim, comecei a confessar-me com o sacerdote de que falei; ele se afei ço ou muito a mim, porque então eu tinha pouco o que confessar, em com paração com o que tive, depois de me tornar monja. Sua afeição não era má, mas, em seu excesso, deixou de ser boa. Ele passou a acreditar que eu jamais faria coisas graves contra Deus por nada deste mundo; ele também me assegurava isso, sendo muita a confiança recíproca. Fascinada por Deus, o que mais me agradava era falar somente Dele. E, sendo eu tão jovem, o sa cerdote ficou, diante disso, muito confuso. Por fim, dada a grande amizade que tinha por mim, começou a me confessar a perdição em que vivia. E não era pouca, porque há quase sete anos ele estava em situação muito perigosa, com amizade e relações com uma mulher do lugar, mas, ainda assim, dizia missa. Era uma coisa tão pública que ele perdera a honra e a fama, e ninguém ousava contestá-lo. Isso me entristeceu muito, pois era grande a minha amizade por ele. Eu tinha a grande leviandade e cegueira, que me parecia virtude, de ser grata e pagar na mesma moeda aos que me queriam bem. Maldito seja esse princípio, que chega a ponto de ser contra os de Deus! É um despropósito comum no mundo que me desatina: devemos todo o bem que nos fazem a Deus, mas temos como virtude, embora indo contra Ele, manter essa ami za de. Ó cegueira do mundo! Quem dera, Senhor, que eu tivesse sido in grata com todos, mas sem me opor em um único ponto a Vós! No entanto, devido aos meus pecados, ocorreu o contrário.
5. Procurando saber e me informar com as pessoas de sua casa, entendi melhor a sua perdição e percebi que o pobre não tinha tanta culpa; porque a desventurada mulher havia posto feitiços num idolozinho de cobre, que lhe rogara trouxesse ao pescoço por amor a ela. E ninguém tinha sido capaz de tirá-lo dele.
Decididamente não acredito em feitiços; mas digo o que vi, para avisar aos homens que se afastem de mulheres que recorrem a semelhantes ardis. Acre ditem que, sendo obrigadas, mais do que os homens, a ter honestidade, as mulheres, ao perderem a vergonha diante de Deus, em nada merecem con fiança, porque, para levar adiante a sua vontade e o desejo que o demônio lhes incute, são capazes de tudo. Embora tenha sido tão ruim, eu nunca caí em nada dessa espécie, e jamais pretendi fazer mal ou forçar alguém, mesmo que pudesse, a gostar de mim, porque o Senhor me protegeu disso; mas, se Ele me tivesse permitido, eu também teria feito mal em outros planos, pois em mim não há nada digno de confiança.
6. Assim, como soube disso, comecei a demonstrar-lhe mais afeição. A minha intenção era boa, mas a ação, má, pois não se deve, por maior que seja o bem que se deseje conseguir, fazer um pequeno mal. Eu falava muito de Deus. Isso devia lhe trazer proveito, mas creio que ele era movido, sobretudo, por me querer muito. Desejando agradar-me, terminou por me entregar o ido lozinho, que eu logo mandei jogar no rio. Assim que este desapareceu, ele começou, como quem desperta de um grande sono, a se dar conta de tudo o que fizera naqueles anos; e, espantado consigo mesmo, sofrendo pela sua per dição, começou a libertar-se dela. Nossa Senhora deve tê-lo ajudado muito, pois ele era muito devoto de sua Conceição, festejando-a, naquele dia, com muito fervor. Por fim, deixou de ver a mulher, e não se cansava de dar graças a Deus por havê-lo iluminado.
Exatamente um ano depois que o conheci, ele faleceu. Por todo esse tempo, perseverou no serviço de Deus. Nunca achei que a sua afeição por mim fosse má, embora pudesse ter sido mais pura; mas também houve ocasiões em que, não estivesse a lembrança de Deus bem presente, ele podia ter cometido ofensas mais graves. Como já disse,4 eu não seria capaz de cometer o que considerasse pecado mortal. Parece-me que essa minha disposição o aju dava a ter amizade por mim; pois creio que todos os homens devem ser mais amigos de mulheres inclinadas à virtude; por esse caminho, elas têm mais a ganhar, como depois direi. Tenho certeza de que aquele sacerdote está no caminho da salvação. Morreu muito bem, e bem afastado de suas antigas faltas. Parece que o Senhor desejou salvá-lo por esse meio.
7. Penei naquele lugar durante três meses, porque o tratamento foi mais forte do que a minha compleição. Em dois meses, graças aos remédios, a mi nha vida quase chegou ao fim; as dores no coração, de que me fora curar, aumentaram tanto que eu às vezes sentia que ele era rasgado por dentes agudos, a ponto de temerem que eu tivesse contraído raiva. Fiquei muito fra ca (porque não podia comer nada, apenas bebendo um pouco, e com esfor ço), com febre contínua, e muito desgastada, devido a quase um mês de pur ga tivos diários. Estava tão ressequida que meus nervos começaram a doer de maneira insuportável, não me dando descanso nem de dia nem à noite. Sentia uma tristeza muito profunda.
8. Diante disso, meu pai voltou a me levar aos médicos; todos me desen ganaram, dizendo que, além de todos os males, eu estava tuberculosa. Isso não me incomodava muito; o que me fatigava eram as dores, porque eram contínuas, e dos pés à cabeça. Os próprios médicos diziam serem essas dores es pasmódicas intoleráveis. Eu sofria duros tormentos e, graças a Deus, não perdi, por minha culpa, tantos méritos.
Fiquei sofrendo assim por três meses; e parecia impossível que alguém pu desse suportar tantos males ao mesmo tempo. Hoje me espanto e considero gran de graça do Senhor a paciência que Ele me deu, pois era claro que vinha De le. Para tê-la, muito me serviu ter lido a história de Jó, nas Moralia5 de São Gre gório. Creio que o Senhor me preparou com isso, e com a oração, que eu co meçara a fazer, para eu poder suportar os meus males com tanta conformida de. Meu pensamento estava sempre no Senhor. Lembrava-me amiúde das pala vras de Jó, que costumava repetir: Se das mãos do Senhor recebemos os bens, por que não sofreremos também os males?6 Ao que parece, isso me dava forças.
9. Veio a festa de Nossa Senhora de Agosto. O tormento vinha desde abril, embora tivesse aumentado nos últimos três meses. Apressei-me a confessar-me, pois sempre gostei de fazê-lo freqüentemente. Pensaram que eu tinha medo de morrer e, para não me alarmar, meu pai não consentiu. Ó amor carnal demasiado, que mesmo vindo de um pai tão católico, e tão esclarecido, o que ele era em grande grau, não tendo agido por ignorância, tanto mal me poderia fazer! Naquela noite, tive um paroxismo tão forte que fiquei sem sentidos por quase quatro dias. Administraram-me o Sacramento da Unção dos Enfermos, pensando que eu poderia morrer a qualquer hora. Não paravam de repetir o Credo, como se eu entendesse alguma coisa. Tinham tanta certeza de que eu morreria que até cera achei depois nos olhos.7
10. Foi grande o pesar do meu pai de não me ter permitido confessar-me; muitos foram seus clamores e orações a Deus. Bendito seja Aquele que se dignou ouvi-lo; há um dia e meio a sepultura estava aberta no meu mosteiro à espera do corpo, e já tinham sido feitas as exéquias num convento de frades fora da cidade, quando o Senhor quis que eu recuperasse os sentidos. Desejei logo confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas; para mim, contudo, não eram só de sentimento e de pena por ter ofendido a Deus — isso teria bastado para me salvar, não me desculpando o engano, em que alguns confessores me fizeram cair, ao dizerem que não eram pecado mortal certas coisas que sem dúvida o eram. Porque as dores com que fiquei eram insuportáveis, não me permitindo a plena recuperação dos sentidos, embora, a meu ver, a minha confissão tenha incluído todas as minhas faltas contra o Senhor. Entre outras, Sua Majestade me concedeu a graça de, depois que comecei a comungar, jamais deixar de confessar qualquer coisa que eu considerasse pecado, mesmo venial. Mas por certo acho muito duvidosa a minha salvação se eu tivesse morrido então; de um lado, por serem tão pouco instruídos os confessores e, de outro, por ser eu tão ruim — para não dar muitos outros motivos.
11. Neste ponto da minha vida, vendo que, de certa maneira, o Senhor me ressuscitou, é tão grande o meu espanto que chego a tremer. Creio que foi para que visses, alma minha, de que perigo o Senhor te livrava; já que por amor não dei xavas de ofendê-lo, tu o fizeste, ao menos, por temer os castigos, porque Ele po deria matar-te outras mil vezes numa condição ainda mais pe rigosa. Acho que não exagero muito ao falar outras mil, mesmo que seja repreendida por quem me mandou ter moderação ao narrar os meus pecados. Por isso, formoseados vão.
Peço que, pelo amor de Deus, essa pessoa em nada diminua as minhas cul pas, para que brilhe mais a magnificência de Deus e se perceba o que sofre uma alma. Bendito seja Ele para sempre. Queira Sua Majestade que eu antes me consuma a deixar de lhe ter amor.
