domingo, 14 de outubro de 2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Teresa a escritora
Surpreende muito que Teresa tenha começado a escrever desde
muito nova, sem nenhuma preparação literária, e sem contar com os meios básicos
para isso. Contudo, tem um estilo muito original, escreve nos mais variados
géneros literários: narrativo, introspectivo, poético, epistolar, etc. Escreve
com viva imaginação, ao ponto de introduzir novos vocábulos e símbolos
literários.
Algo mais que surpreende nela é a sua capacidade de escrever
de “seguido”; ou seja, em directo, sem elaboração prévia de esquemas. Quando
tem que redigir pela segunda vez algum escrito, fá-lo só “por obediência”. Uma
nota que mais caracteriza esta escritora singular é a espontaneidade na
linguagem “doméstica” que utiliza, ao ponto, de entrar em diálogo directo com o
leitor: “irei falando com elas (as suas irmãs) no que escreverei”, afirma no
prólogo das Moradas.
2010-03-03
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Fundações: Capítulo 32 -Pistas de leitura

Pistas de
leitura
Embora a santa escreva isto quase nas vésperas da sua morte, os acontecimentos que relata já tinham sucedido havia mais de cinco anos, no verão de 1577, tendo em conta a tempestade que pairava sobre os seus descalços (cf. 28,3). Embora anteriores às fundações narradas nos últimos quatro capítulos, o seu lugar é este, como epílogo, tanto por razões metodológicas – porque não se narra evidentemente nenhuma fundação – como sobretudo teológicas, visto que supõe a união não só espiritual, que já existia, mas também jurídica, da primeira fundação com todas as restantes.
Para reflectir, rever
a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Começa por aludir às razões humanas e divinas que teve para fazer a primeira fundação sob a obediência do bispo (cf. Vida 32,15; 33,16; 36,1-2) e não da Ordem, como as outras (cf. F 2,1-3). A coisa resultou bem, porque lhes deu independência e tranquilidade em certas diferenças com a Ordem. Além disso, o bispo nunca permitiu que um clérigo fizesse visita e funções de superior. Pelo contrário, não se «fazia naquele mosteiro mais do que aquilo que eu lhe suplicava», destaca Teresa (32,2). Não pode tratar-se evidentemente de desejo de protagonismo da santa, mas de garantir o que indicou em 18,6-13. - Estás de acordo com esta relação de textos? - Compartilhas e cultivas a fidelidade ao núcleo normativo do carisma, do estilo, por cima de outras particularidades, por muito geniais, devotas ou autorizadas que sejam? …- Vive-se isto no teu ambiente ou depende-se demasiado da última originalidade do responsável ou do mais influente do grupo?
2. Apesar do dito anteriormente (grandes razões humanas e divinas, cuja necessidade e bondade foram confirmadas durante 15 anos!), as circunstâncias mudam (32,3a; 28,3) e o próprio Deus a incita a libertar-se desta obediência peculiar e a dá-la à Ordem (32,3). – Não achas estranho que, segundo o que ela própria escreve, duvidasse porque lhe parecia que o Senhor se contradizia? Em contraste com isto, muito lúcido o conselho e o argumento do confessor, não é verdade? No entanto, poderá servir de regra de discernimento geral?
3. Embora o relate brevemente (32,4-5), fica claro que não foi fácil convencer o bispo e as próprias monjas da necessidade da mudança de obediência. Reparar na importância, para isso, do diálogo, as razões, o amor sincero pelo outro… Reflectir sobre si e orar. Ter também presente, uma vez mais (cf. 31.44), a humildade do bispo D. Álvaro de Mendoza, a sua disponibilidade para escutar e ser ensinado por “inferiores”.
4. Uma vez mais, teve de fazer não poucos esforços, mas «Bendito seja o Senhor que, com tanto cuidado, olha pelo que toca às Suas servas! Seja para sempre bendito! Amen». Não há melhor conclusão que esta: bênção, consciência de gratidão, experiência de como a graça trabalha connosco (1 Co 15,10) … Reflectir e evocar certezas como esta, agradecê-las, interceder pelos que mais precisam e não podem crê-lo por agora…
Propostas conclusivas:
Tal como no curso passado, convidamos a usar a nossa página na internet (www.paravosnasci.com) para partilharmos ideias ou actividades que tenhais feito. De novo, em espanhol, contamos, desde há meses com um exemplo estupendo: uma selecção de textos das Fundações pelas CARMELITAS DESCALÇAS DE PUÇOL e publicadas por EDE. Já demos notícia no momento da sua publicação, mas, à continuação, detalhamos o esquema interessante que deram à obra, caso sirva de inspiração às vossas sínteses ou trabalhos, após a leitura teresiana realizada.
CARMELITAS DESCALZAS DE PUÇOL, Comenzando siempre. Páginas escogidas del libro de las Fundaciones, Editorial de Espiritualidad, Madrid 2011, 219 pp., 21 x 13 cm.
Todas as virtudes das suas selecções anteriores de textos teresianos (Vida e Caminho) se mantêm e, além disso, aumentam. Por um lado, na Parte I e Introdução à obra, que é um tanto mais extensa e, sobretudo, rica em referências bibliográficas e conteúdos, ao mesmo tempo que conserva a linguagem leve e acessível. Por outro lado, na Parte II, a antologia de textos que, à diferença das anteriores, não segue a estrutura do escrito teresiano, mas o ordena da seguinte maneira:
1. Começa por aludir às razões humanas e divinas que teve para fazer a primeira fundação sob a obediência do bispo (cf. Vida 32,15; 33,16; 36,1-2) e não da Ordem, como as outras (cf. F 2,1-3). A coisa resultou bem, porque lhes deu independência e tranquilidade em certas diferenças com a Ordem. Além disso, o bispo nunca permitiu que um clérigo fizesse visita e funções de superior. Pelo contrário, não se «fazia naquele mosteiro mais do que aquilo que eu lhe suplicava», destaca Teresa (32,2). Não pode tratar-se evidentemente de desejo de protagonismo da santa, mas de garantir o que indicou em 18,6-13. - Estás de acordo com esta relação de textos? - Compartilhas e cultivas a fidelidade ao núcleo normativo do carisma, do estilo, por cima de outras particularidades, por muito geniais, devotas ou autorizadas que sejam? …- Vive-se isto no teu ambiente ou depende-se demasiado da última originalidade do responsável ou do mais influente do grupo?
2. Apesar do dito anteriormente (grandes razões humanas e divinas, cuja necessidade e bondade foram confirmadas durante 15 anos!), as circunstâncias mudam (32,3a; 28,3) e o próprio Deus a incita a libertar-se desta obediência peculiar e a dá-la à Ordem (32,3). – Não achas estranho que, segundo o que ela própria escreve, duvidasse porque lhe parecia que o Senhor se contradizia? Em contraste com isto, muito lúcido o conselho e o argumento do confessor, não é verdade? No entanto, poderá servir de regra de discernimento geral?
3. Embora o relate brevemente (32,4-5), fica claro que não foi fácil convencer o bispo e as próprias monjas da necessidade da mudança de obediência. Reparar na importância, para isso, do diálogo, as razões, o amor sincero pelo outro… Reflectir sobre si e orar. Ter também presente, uma vez mais (cf. 31.44), a humildade do bispo D. Álvaro de Mendoza, a sua disponibilidade para escutar e ser ensinado por “inferiores”.
4. Uma vez mais, teve de fazer não poucos esforços, mas «Bendito seja o Senhor que, com tanto cuidado, olha pelo que toca às Suas servas! Seja para sempre bendito! Amen». Não há melhor conclusão que esta: bênção, consciência de gratidão, experiência de como a graça trabalha connosco (1 Co 15,10) … Reflectir e evocar certezas como esta, agradecê-las, interceder pelos que mais precisam e não podem crê-lo por agora…
Propostas conclusivas:
Tal como no curso passado, convidamos a usar a nossa página na internet (www.paravosnasci.com) para partilharmos ideias ou actividades que tenhais feito. De novo, em espanhol, contamos, desde há meses com um exemplo estupendo: uma selecção de textos das Fundações pelas CARMELITAS DESCALÇAS DE PUÇOL e publicadas por EDE. Já demos notícia no momento da sua publicação, mas, à continuação, detalhamos o esquema interessante que deram à obra, caso sirva de inspiração às vossas sínteses ou trabalhos, após a leitura teresiana realizada.
CARMELITAS DESCALZAS DE PUÇOL, Comenzando siempre. Páginas escogidas del libro de las Fundaciones, Editorial de Espiritualidad, Madrid 2011, 219 pp., 21 x 13 cm.
Todas as virtudes das suas selecções anteriores de textos teresianos (Vida e Caminho) se mantêm e, além disso, aumentam. Por um lado, na Parte I e Introdução à obra, que é um tanto mais extensa e, sobretudo, rica em referências bibliográficas e conteúdos, ao mesmo tempo que conserva a linguagem leve e acessível. Por outro lado, na Parte II, a antologia de textos que, à diferença das anteriores, não segue a estrutura do escrito teresiano, mas o ordena da seguinte maneira:
1) O arquitecto: Deus
1. Um Deus que Se envolve
2. Um Deus que Se comunica
2) Os alicerces: a autêntica liberdade
1. A obediência
2. A pobreza
3. A verdadeira honra
3) Como cobertura, o horizonte: o carisma teresiano
1. Os grandes ideais
2. Construir o carisma
4) Os desníveis do terreno: as dificuldades
1. Sem recursos
2. Uma sociedade interessada
3. No alvo
4. Daqui para ali
5. Doença e trabalhos interiores
5) Os planos: a estratégia
1. Localização e regime económico
2. O procedimento
3. Dinheiro, negociações e pleitos
6) Parede-mestra: o amor
1. Amor a Deus
2. Amor ao irmão
7) O lar: a oração
1. A oração é amor
2. A oração é luz
8) A horta: o estilo teresiano
1. Abnegação evangélica
2. A ascese das virtudes
3. Educando com amor
9) Parede com parede: os Carmelitas Descalços
1. As fundações de frades
2. Dois sustentáculos humanos [João da Cruz e Jerónimo Graciano]
3. Uma mulher fundadora de frades
10) A galeria: rostos de mulher
1. Catarina Godínez
2. Teresa Laiz.
3. Cassilda de Padilla
4. Beatriz da Encarnação
5. Catarina de Cardona
6. Beatriz da Madre de Deus
7. Ana da Madre de Deus
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Fundações: Capítulo 31 Fundação de Burgos
Pistas de leitura
Como se tem verificado já há três capítulos – e mais ainda neste caso -, a
redacção do texto é quase imediata aos acontecimentos que narra. Além disso,
este capítulo [sobre a fundação de Burgos] destaca-se por ser o mais longo de
todos.
Desde
o início, a Santa dá-nos as duas chaves do mesmo: por um lado, as muitas
complicações que vão ter lugar; por outro, e precisamente por isso, o Senhor
dará graças especiais para alentá-la (cf.4), além das ajudas habituais e
fundamentais: pessoas boas e grandes colaboradoras. Teremos, portanto, de
reparar em ambas as chaves e ir descobrindo os seus pormenores (as pessoas e
/ou circunstâncias a que se refere, quais os sentimentos e graças que
encerram…); nos diferentes momentos que o capítulo apresenta claramente: os preparativos
(1-15), a viagem (16-18), um mês de espera na casa da fundadora (19-26), outro
no Hospital da Conceição (27-31), a compra de casa própria (32-38),
transferência da comunidade e fundação (39-45), elogio da clausura (46-47), e,
finalmente, a situação económica original em que fica a comunidade (48-50).
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Depressa aparece o problema que resulta de não contar com a licença escrita
da autoridade para fundar (3. 15. 22). - O que é que achas do facto da Santa se
atrever a meter-se a caminho sem ela, depois da experiência de Segóvia (21,5)?
Por outro lado, dás valor e tens consciência da importância dessas e de outras
licenças parecidas, na tua vida ou na daqueles a quem aconselhas (cf. Ficha XV,
pergunta9)?
2. Já aludimos ao texto que se segue: “Já tenho advertido algumas vezes, que
Sua Majestade não me dá aviso algum quando [as fundações] se fazem sem
dificuldade. Assim tem sido nisto, pois, como já se sabia o que ia passar,
desde logo começou a dar-me alento” (4). – Concordas? Em teoria ou por
experiência?…
3. Apesar da segurança que o Senhor tinha dado à Santa, como se explicou no
capítulo 29 (cf. 31,4, final),chama a atenção que, ao longo de todo este
capítulo, se mantenha convencida da realização da fundação em circunstâncias
muito, muito difíceis e quando todos os companheiros desesperavam (cf.
22.26.31). No entanto, também ela acabará por duvidar na noite anterior à
chegada da licença (44,final). – Que pensas desta prodigalidade de graças? E
destas duvidas finais?
4. Por mais que Teresa não queira carregar as tintas, é evidente que o
Arcebispo foi a maior complicação e, além disso, foi-o por razões, ou melhor
sem razões, das mais desconcertantes, caprichosas, injustas… Em tudo se
destacam os seus esforços em desculpá-lo (13.31.40): ou estaria a ironizar?), o
seu pesar pelas críticas públicas que lhe faziam (45) e, sobretudo, as suas
tentativas para que o seu amigo e promotor desta fundação, o Bispo de Palência,
não se inimistasse com aquele pelas suas veleidades (7.44-45.50). Tudo isto é,
evidentemente, um convite a rever, a orar…
5. A propósito de ambos os Bispos, há um curioso contraste: por um lado, a
cegueira do de Burgos que não só não aceita as correcções fraternas e ponderadas
do seu amigo e irmão no episcopado, e até deita a culpa a Teresa (43); e, por
outro, a humildade do de Palência (44). – Reler bem, compararmo-nos com um e
com o outro…
6. Se não quis carregar as tintas com o Arcebispo, fê-lo sim nos agradecimentos
e louvores a Dª. Catarina de Tolosa (8-10.20.24.29-30.42), pelo que, de novo,
podemos compararmo-nos com o que nela destaca, reflectirmos sobre a sua
validade actual…
7. “E assim Lhe digo [ao Senhor] que não faça caso destes sentimentos, da minha
fraqueza, para mandar-me o que for servido porque, com o Seu favor, não
deixarei de o fazer” (12). Uma boa e importante oração, sem dúvida! Cf., no
entanto, Ficha XV, pergunta 9.
8. A partir da viagem e ao longo de vários parágrafos, aparece com bastante
protagonismo a figura do seu querida P. Graciano, embora com uma evolução
valorativa decrescente, que vai da alegria e agradecimento grandes pela sua
companhia nessa viagem (17), ao reconhecimento da sua intolerância para com a
falta de licença escrita (22), assim como do seu nervosismo pelo passar das
semanas sem poderem fundar (24), até acabar reconhecendo que “pesava-me muito
que tivesse vindo connosco” (26). – Qual a tua opinião? – Inspira-te alguma
coisa para a tua situação presente?…
9. Embora tenhamos destacado os textos que se referem a Dª. Catarina, merece a
pena reler e deter-se no nº 30, tanto pelo discernimento que ambas têm de fazer
sobre o alcance das ajudas da fundadora (se vão ou não prejudicar com isso os
seus filhos). Como pela exclamação final.
10. Outra exclamação em que merece a pena deter-se: Mas, ó Senhor, como se vê
que sois poderoso! Daquilo com que ele procurava estorvá-la tirastes Vós
maneira de se fazer melhor. Sede para sempre bendito.” (31; cf. 40)
11. Também resultam muito interessantes as razões e escrúpulos económicos à
volta da compra da casa… Por isso, repare-se nos pormenores, na solução…
(35-36). E nas concessões e esforços económicos finais para comprazer quem
tanto as tinha favorecido numa compra tão beneficiosa: “em algumas coisas nos
exigiu mais do que o combinado, mas, em atenção a ele, passámos por tudo” (37).
12. “Nosso Senhor pagou-nos bem o que tínhamos passado trazendo-nos a um tal
lugar de delícias: porque, pelo seu horto, vista e água, não parece outra
coisa. Seja para sempre bendito, amen (39). Cf. “Como é certo pagardes logo com
grande tribulação a quem Vos presta algum serviço! E que prémio tão precioso
para os que deveras Vos amam…! (22)
13. – Que te parece este género de elogio da clausura (46)? Não estará
condicionado pela experiência desagradável desses meses de espera, sem
celebração da Missa na sua residência…? Será compatível com o que tinha escrito
quinze anos antes no Caminho 41, 7-8?
14. A propósito de relações entre textos teresianos, a afirmação radical
antimachista com que finaliza Fundações 31,46, há um precedente claro em
Caminho 26,4.Faz pensar e orar ou achas que é antiquado e exagerado?
15. E outro contraste mais entre a frase”…que nos tem preparado um reino sem
fim, a troco de uns pequeninos trabalhos que amanhã acabarão “ (F31,47) e a que
aludia à contemplação como “trabalho disfarçado com gosto” (C 18,4). É claro
que todos estes exemplos nos obrigam a ter sempre em conta os contextos, sem
isolar nem absolutizar as frases por belas ou impactantes que sejam…
16. “Alguns dias depois da fundação da casa, pareceu-nos, ao Padre Provincial e
a mim, que na renda dada por Catarina de Tolosa ao mosteiro, havia certos
inconvenientes dos quais podia resultar algum pleito e causar-lhe a ela algum desassossego.
E quisemos antes confiar em Deus do que ficar em condições de lhe dar
dissabores. Por esta e por outras razões […], restituímos-lhe as escrituras”
(48). Curioso epílogo que deixa a comunidade numa situação inédita entre as
suas fundações: não ter renda, mas parecendo que tem, com o qual o sustento
poderia complicar-se… A Santa chega a ficar preocupada com o assunto, até que
de novo o Senhor a favorece com outra locução… - Reparemos, portanto, nas
razões humanas de uma decisão como aquela, os sentimentos que se agitam em
Teresa…
sábado, 25 de agosto de 2012
Papa escreve Mensagem lembrando os 450 anos da reforma carmelita
Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 24-08-2012, Gaudium Press)
Nas vésperas da
Solenidade de Nossa Senhora do Carmo, o Papa Bento XVI lembrou que no dia
seguinte seria celebrada a memória Litúrgica da Bem Aventurada Maria do Monte
Carmelo - Mãe de Deus e Senhora do Escapulário.
Neste mesmo dia enviou uma mensagem ao Bispo de Ávila e a todo o Carmelo
Teresiano pela ocasião da celebração dos 450 anos em que Santa Teeza de Jesus
fundou o Carmelo de S. José, em Ávila, Espanha, no dia 24 de agosto de 1562.
Resplendens stella. «Uma estrela de imenso esplendor» (Livro da Vida 32, 11).
Com estas palavras, o Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar em Ávila o
mosteiro de São José, início da reforma do Carmelo, lembra o Papa, no início de
sua Mensagem enviada ao Bispo de Ávila, Dom Jesús García Burillo.
O Senhor animou Santa Teresa de Jesus a fundar o Mosteiro de São José, início
da reforma do Carmelo, diz Bento XVI. "Esta mulher preclara desejava
unicamente agradar-lhe em tudo. Com efeito, um santo não é aquele que realiza
grandes proezas baseando-se na excelência das suas qualidades humanas, mas
aquele que permite com humildade que Cristo penetre na sua alma, que aja
através da sua pessoa, que Ele seja o verdadeiro protagonista de todas as suas
obras e desejos, que inspire cada iniciativa e sustente cada silêncio".
O Pontífice continua: "Só quem leva uma intensa vida de oração pode
deixar-se conduzir deste modo por Cristo. Ela consiste, segundo as palavras da
Santa de Ávila, em «falar de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com quem
sabemos que nos ama» (Livro da Vida 8, 5). A reforma do Carmelo, cujo
aniversário nos enche de júbilo interior, nasce da oração e tende para a
oração" .
"Santa Teresa propôs um novo estilo de ser
carmelita, num mundo também novo. Aqueles eram «tempos árduos» (Livro da Vida
33, 5)", lembra o Santo Padre.
"O fim último da Reforma teresiana e da criação de
novos mosteiros, no meio de um mundo com escassos valores espirituais,
consistia em tutelar com a oração a obra apostólica; em propor um estilo de
vida evangélica que fosse modelo para quantos procuravam um caminho de
perfeição, a partir da convicção de que toda a autêntica reforma pessoal e
eclesial passa pelo reproduzir cada vez melhor em nós mesmos a «forma» de
Cristo (cf. Gl 4, 19), escreve o Papa para, logo em seguida, fazer comparações
e tirar lições: "Também hoje, como no século XVI, e entre rápidas
transformações, é preciso que a oração confiante seja a alma do apostolado,
para que ressoe com clareza evidente e dinamismo pujante a mensagem redentora
de Jesus Cristo. É urgente que a Palavra de vida vibre nas almas de forma
harmoniosa, com notas sonoras e atraentes. Nesta tarefa apaixonante, o exemplo
de Teresa de Ávila constitui uma grande ajuda para nós. Podemos afirmar que, no
seu tempo, a Santa evangelizou sem tibieza, com ardor jamais apagado, com
métodos distantes da inércia e com expressões cheias de luz. Isto conserva todo
seu vigor na encruzilhada atual."
Depois de lembrar a radicalidade e fidelidade a que
Santa Tereza nos convida hoje, o Papa exorta todos os membros desta Igreja
particular, mas de maneira profunda os jovens, "a levar a sério a comum
vocação à santidade. "Seguindo os passos de Teresa de Jesus, aspirai
também vós a ser totalmente de Jesus, só de Jesus e sempre de Jesus. Não
tenhais medo de o dizer a nosso Senhor, como ela fez: «Sou vossa, para Vós
nasci; o que quereis fazer de mim?» (Poesia 2).
Bento XVI conclui sua Mensagem relembrando ainda a
"grande devoção a Virgem Santíssima, que ela invocava com o doce nome do
Carmelo" e suplicando a "Maria, Estrela da Evangelização, e o seu
casto esposo São José intercedam para que aquela «estrela» que o Senhor acendeu
no universo, a Igreja, com a reforma teresiana continue a irradiar o grande
brilho do amor e da verdade de Cristo a todos os homens." (JSG)
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Fundações: Capítulo 30 Fundação de Sória
Pistas de leitura
A fundação de Sória é, sem dúvida, a mais fácil de todas; por isso,
encontram-se na narração mais elogios aos bons e grandes colaboradores, que o
Senhor lhe pôs pelo meio, do que pormenores da mesma.
Devem-se aos dois principais benfeitores a rápida decisão em
ir realizá-la (1-4). Também ao primeiro deles deve a Santa uma viagem tão
cómoda que quase não tem que contar, e aproveita para elogiar agora um dos seus
acompanhantes desde Palência (5-7). Igualmente fácil é a chegada à cidade e a
realização da fundação, e de novo se detém “em dizer bem deste santo” que era o
seu principal colaborador (8-11). Só a viagem de regresso a Ávila se processou
de modo complicado, “mas esta fundação foi tão sem trabalhos, que deste não se
há-de fazer caso” (12-14).
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Desde o começo da leitura aparece claro o protagonismo e a qualidade do
Bispo de Sória, seu amigo e antigo confessor, o Dr. Velázquez. A Santa destaca
com que interesse e dedicação a atendeu em Toledo, pospondo as suas muitas
ocupações (1). Disponibilidade e generosidade preciosas (pois ela não podia
remunerar-lhe o tempo que lhe dedicava): - são habituais no teu ambiente
eclesial? E em ti? Agradece, suplica e intercede…
2. Recorda as razões que levavam a Santa a confiar no conselho do Dr. Velázquez
(1, final). – São as mesmas que costumas procurar? Encontra-las? Cultiva-las?…
3. – Que te faz pensar e rezar a seguinte confidência da Santa que, além de ser
boa fundação, vai a Sória porque “ tinha desejo de comunicar-lhe algumas coisas
da minha alma e de o ver, pois afeiçoara-me muito a ele pelo bem que me fizera”
(2; cf. Vida 40,19; 37,5).
4. Este santo Bispo será quem convença a boa da fundadora, D. Beatriz, para que
faça um mosteiro de carmelitas descalças. Como sempre, o elogio que Teresa faz
das virtudes de alguma pessoa, serve-nos para nos compararmos, reflectirmos…
Destaca, sem dúvida, a sua generosidade. Mas não devemos passar por alto o
primeiro elogio que lhe faz: sendo de tão alta linhagem (3), é alguém de
temperamento muito doce (isto é, nada arrogante, nem soberba, nem intrometida,
como era próprio da sua categoria social) e penitente (4).
5. Embora este texto teresiano não o revele, porque se escreveu antes, D.
Beatriz ingressará, em 1588, no Carmelo de Pamplona (que também tinha ajudado a
fundar), aos 65 anos de idade; seria ainda carmelita durante 12 anos. – Qual a
tua opinião sobre a admissão de uma pessoa já de certa idade? – Quais os
motivos que poderiam justificá-la?
6. O companheiro de caminho, de quem já falámos, a quem dedica também bons
elogios, é o P. Nicolau Dória. Uma vez mais, reparando no que louva nele,
serve-nos para conhecermos aquilo a que a Santa dá valor e confrontá-lo com as
nossas vidas… Mas, como já lhe aconteceu com outras pessoas, neste mesmo livro
(cf. 10,7-11; 17,5-12; 20,2-14; 25-4-5), os louvores que aqui lhe dedica,
aparecem desmentidos com o tempo: às vezes, de maneira não muito escandalosa,
mas outras, todo o contrário, como parece ser o caso de Dória, que acabou
enfrentando e perseguindo os grandes amigos e herdeiros da Santa (Graciano,
Maria de São José, Ana de Jesus). – É fácil para ti assumires isto, ou ficas
confundido/a? – Choca com alguma ideia tua sobre a santidade de Teresa e o seu
discernimento de espíritos e conhecimento das pessoas? – Se não o achas
incoerente com a sua santidade e vida mística, saberias explicá-lo a alguém que
o considerasse incoerente?
7. Quando chegaram a Sória, diz que “o santo Bispo estava a uma janela da sua casa e, quando passámos, lançou-nos a sua bênção. Não foi pequena a minha alegria, porque a bênção de um prelado, e dum prelado santo, é digna de todo o apreço” (7). – Achas que isto poderia supor uma distinção entre bênçãos de maior e menor qualidade?
8. Quando alude à fundação do novo convento, novamente se desfaz em exaltar as
virtudes do Senhor Bispo: prestemos atenção a elas, porque são muito
interessantes e úteis para o que estamos a trabalhar e a trabalhar-nos com
estes textos (9-10).
9. Se bem que, ao longo do livro, não se detenha em descrever a precaridade e o
perigo das viagens naquele tempo, fá-lo um pouco no final deste capítulo (13):
reparemos, confrontemos com as nossas situações e disponibilidades; agradeçamos
e oremos por tantos missionários que vivem fatos parecidos por amor do Senhor
e dos irmãos.
10. E, não obstante o anterior, “nunca Deus me dá trabalhos que não mos pague
logo” (14), por exemplo, com presentes como os que lhe fizeram as monjas de
Segóvia depois deste duro caminho. – Compartes esta ideia e experiência? –
Costumas inculcá-la noutros? Mais com palavras do que com obras, ou com um
justo equilíbrio entre ambas?…
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Capítulos 28 e 29
Fundações: Capítulo
29
Pistas de
leitura
Esta narração da fundação de Palência tem uma estrutura bastante clara. Em primeiro lugar, a Santa, já nos seus últimos anos de vida e muito debilitada pela epidemia de bronquite (que quase acaba com ela), fala da sua excessiva fraqueza e de como o Senhor actuou para lhe infundir força e pô-la a caminho (1-6).
Trata em seguida da
duríssima viagem em pleno inverno, e da fundação em segredo, conforme o seu
costume, apesar de contar com o apoio do bispo e da generosíssima gente de
Palência (7-11).
Dedica, depois, a parte mais extensa do capítulo ao episódio mais complicado desta fundação: a compra da casa onde se alojaria definitivamente a comunidade. Nesta parte destacam os muitos e bons colaboradores; no entanto, também não falta as estratégias necessárias para que a compra se faça bem e os vendedores não especulem com as suas necessidades e interesses. Contudo, será uma nova locução do Senhor a que vem esclarecer a questão: resulta muito interessante reparar nas dúvidas que surgem na Santa sobre o assunto e como as esclarece… (12-29).
Finalmente, a narração fecha com a famosa alusão ao Capítulo de Alcalá e a conseguida independência jurídica dos descalços; breve, mas intensa (30-33).
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. A Santa descreve o seu estado de ânimo inicial, como “um dos grandes trabalhos e misérias da vida (…) terrível coisa… em especial se é alma que já se viu com grandes desejos de não descansar interior e exteriormente, empregando-se totalmente no serviço do seu grande Deus” (3). Depois de toda uma vida arrastando grandes enfermidades e quase 20 anos a viajar e a fundar em condições muito difíceis – quer dizer, treinada em “grandes trabalhos” – e, ao mesmo tempo, cumulada de graças místicas, que te sugere este seu estado anímico?
2. “Aqui não há outro remédio senão ter paciência, reconhecer a própria miséria e abandonar-se à vontade de Deus…” (3). Portanto, não tem nada a ver com culpabilizar-se, nem questionar-se voluntariamente… -Tem-lo em conta para ti próprio e para aqueles a quem possas aconselhar? – Revê, agradece, intercede…
3. Apesar da atitude teologal anterior, sente a falta de “alguém que me animasse” (3). Mas quando os há, também não lhe bastam (cf. 4-5a). Parece, pois, que em discernimento onde houver dados tão evidentes – como o era aqui a sua fraqueza por razões sérias e objectivas de saúde – devem prevalecer estas; salvo se o Senhor falar alto e claro (cf. 6): estás de acordo? Pratica-lo? Como?… Evidentemente, será rara uma locução assim; mas reconhecer “a voz” do Senhor exigirá, sempre, alguns frutos dos que aqui se apontam: “fiquei tão determinada e animada…” (6). - Achas isto coerente? Fácil de levar à prática?
4. A propósito de remédios e de discernimento, não deixes de te deter no seguinte texto: “Estando um dia, depois de comungar, nestas dúvidas e sem me determinar a fazer qualquer das fundações, supliquei a Nosso Senhor que me iluminasse para fazer em tudo a Sua vontade, pois não era tanta a tibieza que chegasse a ponto de diminuir, por pouco que fosse, este desejo” (6).
5. Essa grande debilidade anímica inicial acaba mesmo por obnubilar convicções e experiências tão firmes, no seu caso, como a de que “para fazer mosteiros de pobreza, sem renda, nunca me falta coragem nem confiança” (20,13; cf. 29, 1-2). – Que achas da maneira como a insegurança pessoal afecta as nossas, não só convicções, mas também experiências vitais e religiosas? Obviamente, se isto é assim, é uma boa e necessária matéria para velar e orar… (cf. Lc 22, 40).
6. Evidentemente, a graça com que o Senhor a anima, implica que, embora “me dissessem não ser possível viver de esmolas em Palência, era como se não mo dissessem (…) pois Deus me mandava fazer a fundação, Sua Majestade havia de providenciar (7). E fê-lo tão admiravelmente como era habitual, através de “quem O ajude” (8), que Teresa não se cansa “de louvar a caridade, tanto geral como particular, que encontrei em Palência” (27). Seria bom reparar nas pessoas que destaca e agradece em particular, e confrontar-nos com isso: -Levo contas do bem? Agradeço-o ao Senhor e à pessoa?…
No entanto, queremos agora ressaltar sobretudo como aquela caridade lhe pareceu “coisa da primitiva Igreja” (cf. Actos 2, 44-45): - Que achas de que, numa sociedade tão cristã, seja tão estranho encontrar quem esteja disposto a partilhar de verdade, mesmo do que lhes faz falta para viver (Lc 21, 1-4)? – Como te vês tu e o teu contexto (comunidade, família…) a esse respeito? (Cf. Caminho de Perfeição, cap.2 e a Ficha correspondente). Tal como nesta se destaca, recordar que a Santa não era uma “pauperista radical”: até compraria, mesmo que notoriamente encarecida, “uma casa que parecia convir para mosteiro” (22).
7. Que achas de que, apesar de tanta ajuda do Senhor e das pessoas, a Santa continue com as suas estratégias habituais? Tanto para a sua chegada à cidade – em segredo, porque se não o demónio inquieta, mesmo que “nada consiga” (9) - como para a compra posterior de casa definitiva, para o qual, por exemplo, visita várias “não com intenção de adquiri-las, mas para que o proprietário da outra não pensasse que não tínhamos outro recurso senão a dele” (15).
8. Aparece uma nova fala do Senhor na Comunhão (18, cf.6). Em relação ao Santíssimo Sacramento, já lemos nela coisas importantes (cf. Vida, 22 e 38,21; Caminho 33.35; e as Fichas correspondentes), embora, na realidade, sempre se possa aprofundar mais. Convidamos, no entanto, a reparar agora no discernimento posterior que implica esta nova fala (19-24): questões que relembra, como e com quem a Santa as debate, como é que ela e o seu confessor concordam na mudança de casa que o Senhor propôs… São, sem dúvida, boa matéria para reflexão e oração
9. Se este capítulo começava com “um dos grandes trabalhos e misérias” (3) que Teresa experimentou, termina, no entanto, com “um dos maiores gozos e consolações que poderia receber nesta via” (31). – Aprecias e agradeces o que significa ter um lugar na Igreja e um reconhecimento jurídico que permite encarnar e desenvolver o teu carisma e a tua própria vocação, os teus direitos e obrigações? – Vês, desde este ponto de vista, o Direito Canónico?
10. “Agora começamos, e procurem ir começando sempre, de bem em melhor…” (32). Esta frase tem sido na Ordem todo um lema da necessidade de sermos criativos para sermos fiéis. Mas parece que o seu contexto imediato aponta precisamente para o contrário: “guardem-se, por amor de Deus, de deixar cair algum ponto de perfeição. Não vá dizer-se, por sua causa, o mesmo que de muitas Ordens, das quais só se louvam os princípios (…). Olhem que, por muito pequenas coisas vai o demónio abrindo brechas por onde entram as muito grandes. Que jamais lhes aconteça dizer: isto não tem importância, são exageros.” – Que opinas? Achas que terá a ver alguma coisa com Mt 5, 17-19 e a sua necessária interpretação eclesial nada literal?…
11. O facto do Concílio Vaticano II pedir que renovássemos as nossas Constituições e, com isso, não alguma mas muitas coisas de perfeição, demonstra que a interpretação literal e rigorista destes parágrafos não é fiel ao sentir da Igreja. Portanto, este aparente paradoxo – uma “santa presunção” (33) – que Teresa pede às suas filhas como conclusão, poderia interpretar-se muito bem como fidelidade ao chamamento universal à intimidade com o Senhor 1, a santidade entendida como pertença a Ele, antes do que em sentido moral ou qualquer outro (cf., por exemplo, Novo Millennio Ineunte 30). – É esta “santa presunção” prioritária para mim? – Como potenciá-la?
_________
1 “Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita, de dizer: não somos anjos, não somos santas. Olhai que, embora não o sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçarmos, o poderemos ser (…). Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda aos fortes e não faz acepção de pessoas” (Caminho, 16, 8 ou 12, segundo as edições).
Dedica, depois, a parte mais extensa do capítulo ao episódio mais complicado desta fundação: a compra da casa onde se alojaria definitivamente a comunidade. Nesta parte destacam os muitos e bons colaboradores; no entanto, também não falta as estratégias necessárias para que a compra se faça bem e os vendedores não especulem com as suas necessidades e interesses. Contudo, será uma nova locução do Senhor a que vem esclarecer a questão: resulta muito interessante reparar nas dúvidas que surgem na Santa sobre o assunto e como as esclarece… (12-29).
Finalmente, a narração fecha com a famosa alusão ao Capítulo de Alcalá e a conseguida independência jurídica dos descalços; breve, mas intensa (30-33).
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. A Santa descreve o seu estado de ânimo inicial, como “um dos grandes trabalhos e misérias da vida (…) terrível coisa… em especial se é alma que já se viu com grandes desejos de não descansar interior e exteriormente, empregando-se totalmente no serviço do seu grande Deus” (3). Depois de toda uma vida arrastando grandes enfermidades e quase 20 anos a viajar e a fundar em condições muito difíceis – quer dizer, treinada em “grandes trabalhos” – e, ao mesmo tempo, cumulada de graças místicas, que te sugere este seu estado anímico?
2. “Aqui não há outro remédio senão ter paciência, reconhecer a própria miséria e abandonar-se à vontade de Deus…” (3). Portanto, não tem nada a ver com culpabilizar-se, nem questionar-se voluntariamente… -Tem-lo em conta para ti próprio e para aqueles a quem possas aconselhar? – Revê, agradece, intercede…
3. Apesar da atitude teologal anterior, sente a falta de “alguém que me animasse” (3). Mas quando os há, também não lhe bastam (cf. 4-5a). Parece, pois, que em discernimento onde houver dados tão evidentes – como o era aqui a sua fraqueza por razões sérias e objectivas de saúde – devem prevalecer estas; salvo se o Senhor falar alto e claro (cf. 6): estás de acordo? Pratica-lo? Como?… Evidentemente, será rara uma locução assim; mas reconhecer “a voz” do Senhor exigirá, sempre, alguns frutos dos que aqui se apontam: “fiquei tão determinada e animada…” (6). - Achas isto coerente? Fácil de levar à prática?
4. A propósito de remédios e de discernimento, não deixes de te deter no seguinte texto: “Estando um dia, depois de comungar, nestas dúvidas e sem me determinar a fazer qualquer das fundações, supliquei a Nosso Senhor que me iluminasse para fazer em tudo a Sua vontade, pois não era tanta a tibieza que chegasse a ponto de diminuir, por pouco que fosse, este desejo” (6).
5. Essa grande debilidade anímica inicial acaba mesmo por obnubilar convicções e experiências tão firmes, no seu caso, como a de que “para fazer mosteiros de pobreza, sem renda, nunca me falta coragem nem confiança” (20,13; cf. 29, 1-2). – Que achas da maneira como a insegurança pessoal afecta as nossas, não só convicções, mas também experiências vitais e religiosas? Obviamente, se isto é assim, é uma boa e necessária matéria para velar e orar… (cf. Lc 22, 40).
6. Evidentemente, a graça com que o Senhor a anima, implica que, embora “me dissessem não ser possível viver de esmolas em Palência, era como se não mo dissessem (…) pois Deus me mandava fazer a fundação, Sua Majestade havia de providenciar (7). E fê-lo tão admiravelmente como era habitual, através de “quem O ajude” (8), que Teresa não se cansa “de louvar a caridade, tanto geral como particular, que encontrei em Palência” (27). Seria bom reparar nas pessoas que destaca e agradece em particular, e confrontar-nos com isso: -Levo contas do bem? Agradeço-o ao Senhor e à pessoa?…
No entanto, queremos agora ressaltar sobretudo como aquela caridade lhe pareceu “coisa da primitiva Igreja” (cf. Actos 2, 44-45): - Que achas de que, numa sociedade tão cristã, seja tão estranho encontrar quem esteja disposto a partilhar de verdade, mesmo do que lhes faz falta para viver (Lc 21, 1-4)? – Como te vês tu e o teu contexto (comunidade, família…) a esse respeito? (Cf. Caminho de Perfeição, cap.2 e a Ficha correspondente). Tal como nesta se destaca, recordar que a Santa não era uma “pauperista radical”: até compraria, mesmo que notoriamente encarecida, “uma casa que parecia convir para mosteiro” (22).
7. Que achas de que, apesar de tanta ajuda do Senhor e das pessoas, a Santa continue com as suas estratégias habituais? Tanto para a sua chegada à cidade – em segredo, porque se não o demónio inquieta, mesmo que “nada consiga” (9) - como para a compra posterior de casa definitiva, para o qual, por exemplo, visita várias “não com intenção de adquiri-las, mas para que o proprietário da outra não pensasse que não tínhamos outro recurso senão a dele” (15).
8. Aparece uma nova fala do Senhor na Comunhão (18, cf.6). Em relação ao Santíssimo Sacramento, já lemos nela coisas importantes (cf. Vida, 22 e 38,21; Caminho 33.35; e as Fichas correspondentes), embora, na realidade, sempre se possa aprofundar mais. Convidamos, no entanto, a reparar agora no discernimento posterior que implica esta nova fala (19-24): questões que relembra, como e com quem a Santa as debate, como é que ela e o seu confessor concordam na mudança de casa que o Senhor propôs… São, sem dúvida, boa matéria para reflexão e oração
9. Se este capítulo começava com “um dos grandes trabalhos e misérias” (3) que Teresa experimentou, termina, no entanto, com “um dos maiores gozos e consolações que poderia receber nesta via” (31). – Aprecias e agradeces o que significa ter um lugar na Igreja e um reconhecimento jurídico que permite encarnar e desenvolver o teu carisma e a tua própria vocação, os teus direitos e obrigações? – Vês, desde este ponto de vista, o Direito Canónico?
10. “Agora começamos, e procurem ir começando sempre, de bem em melhor…” (32). Esta frase tem sido na Ordem todo um lema da necessidade de sermos criativos para sermos fiéis. Mas parece que o seu contexto imediato aponta precisamente para o contrário: “guardem-se, por amor de Deus, de deixar cair algum ponto de perfeição. Não vá dizer-se, por sua causa, o mesmo que de muitas Ordens, das quais só se louvam os princípios (…). Olhem que, por muito pequenas coisas vai o demónio abrindo brechas por onde entram as muito grandes. Que jamais lhes aconteça dizer: isto não tem importância, são exageros.” – Que opinas? Achas que terá a ver alguma coisa com Mt 5, 17-19 e a sua necessária interpretação eclesial nada literal?…
11. O facto do Concílio Vaticano II pedir que renovássemos as nossas Constituições e, com isso, não alguma mas muitas coisas de perfeição, demonstra que a interpretação literal e rigorista destes parágrafos não é fiel ao sentir da Igreja. Portanto, este aparente paradoxo – uma “santa presunção” (33) – que Teresa pede às suas filhas como conclusão, poderia interpretar-se muito bem como fidelidade ao chamamento universal à intimidade com o Senhor 1, a santidade entendida como pertença a Ele, antes do que em sentido moral ou qualquer outro (cf., por exemplo, Novo Millennio Ineunte 30). – É esta “santa presunção” prioritária para mim? – Como potenciá-la?
_________
1 “Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita, de dizer: não somos anjos, não somos santas. Olhai que, embora não o sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçarmos, o poderemos ser (…). Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda aos fortes e não faz acepção de pessoas” (Caminho, 16, 8 ou 12, segundo as edições).
quarta-feira, 25 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Capítulo 27
Fundações: Capítulo 27
Ficha XIII.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – I
Capítulo 27
Teresa deixa Sevilha e recolhe-se em Toledo para cumprir o mandado do Definitório: “trouxeram-me uma ordem do Definitório, dada depois de um Capítulo Geral […] para que, não só não fundasse mais, mas até para que, sob nenhum pretexto, saísse da casa que eu escolhesse para estar. Era como encarcerar-me…” (27,20). Já em Toledo, escreve a crónica da fundação de Caravaca, última da primeira etapa fundacional. Passarão quatro anos antes de voltar a sair para fundar.
Capítulo 27
Teresa deixa Sevilha e recolhe-se em Toledo para cumprir o mandado do Definitório: “trouxeram-me uma ordem do Definitório, dada depois de um Capítulo Geral […] para que, não só não fundasse mais, mas até para que, sob nenhum pretexto, saísse da casa que eu escolhesse para estar. Era como encarcerar-me…” (27,20). Já em Toledo, escreve a crónica da fundação de Caravaca, última da primeira etapa fundacional. Passarão quatro anos antes de voltar a sair para fundar.
Pistas de leitura
1. Teresa começa por recordar os começos da nova fundação; os inconvenientes da primeira licença; o adiamento do projecto por causa da fundação de Sevilha e, finalmente, a fundação de Caravaca, tendo a Madre delegado em Ana de Santo Alberto para levá-la a cabo (nn.1-10).
2. Segue-se, à continuação, um extenso diálogo de Teresa com as suas filhas; dá-lhes as suas razões para fazer memória dos acontecimentos (nn.11-16) 1
3. Continua um juízo avaliativo do empreendimento fundacional a modo de epílogo. A Santa volta a recordar os grandes trabalhos suportados; a autorização e licenças que recebeu do Geral Rubeo para levar a cabo as fundações; o desprestígio e condenação de que foi objecto injustamente (nn.17-21) 2
4. Com a ordem de deixar de fundar e de se recolher a um convento, cessam também as crónicas. Tinha começado a escrevê-las em 1573 por mandato do seu confessor, o P. Ripalda, e depois por ordem do comissário apostólico, Frei Jerónimo Graciano. Deixa-nos o testemunho da sua obediência ao jeito de epílogo (nn.22-24), datando o fim da obra a 14 de Novembro de 1576. Seguem-se quatro avisos para os Descalços. Teresa escreveu-os numa folha independente que incluiu no fim do caderno, embora não tenham relação directa com o livro das Fundações3
Para reflectir, rever la vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Concluído o relato da fundação de Caravaca, Teresa trava um diálogo directo com as suas leitoras. Num instante, recolhendo todo o passado, faz uma leitura retrospectiva das fundações para testemunhar vigorosamente a obra de Deus e os grandes trabalhos que nelas passaram: “vereis que estas casas não foram, de certo modo, fundadas por homens, mas pela poderosa mão de Deus” (11). “Vede, minhas filhas, vede a mão de Deus […] Seja como for que o querais ver, tendes de reconhecer que a obra é Sua” (12). “Recordai-vos com quanta pobreza e trabalho se fez o que agora gozais com descanso” (11). Trabalhos nos caminhos, cansaço e pouca saúde (17); “o ter de suportar as maneiras de ser de muitas pessoas”, e o desgarrão afectivo de “deixar as irmãs e filhas quando partia de um lugar para outro” (18).
Finalmente, o duro golpe da incompreensão e condenação, os falsos testemunhos e a reclusão.
Memória: Voltar às fontes, re-cordar (=passar pelo coração) a origem, é apropriarmo-nos da sua força fecunda, permitir que a graça de Deus concedida aos nossos maiores continue viva e eficaz entre nós. Pode servir de reflexão ou debate em grupo ter presente a ambiguidade da lembrança. Podemos vivê-la em toda a sua força recreadora se a memória nos ajudar a nos re-conhecermos, a re-viver a graça fundante de um carisma. Mas também se pode converter num escape nostálgico ou crítico de um passado perdido. – Como fazemos memória da nossa história? – Quais os perigos que ‘o esquecimento’ leva consigo?
2. A Madre deixou claro o motivo essencial pelo qual relata os acontecimentos: que se veja a obra de Deus, que as suas filhas conheçam, em primeira mão, os sacrifícios que a reforma exigiu e que se comprometam a conservar e a transmitir fielmente às gerações futuras o dom recebido. Hoje, em cada uma delas “torna a começar esta primeira Regra da Ordem da Virgem Nossa Senhora” (11). “Digo-o, filhas, para que entendais estar mais obrigadas […]. Praza a Sua Majestade amparar-nos sempre e dar-nos a graça de não sermos ingratas a tantas mercês. Ámen” (16).
Testemunho de profecia: Contemplar a obra de Deus exige a responsabilidade do testemunho. Memória e profecia vão de mãos dadas. A obra de Deus deve converter-se em vida, convicção pessoal e compromisso actual. E o passado deve continuar vivo como dinamismo espiritual que abrace todos os horizontes. Trata-se de tomar o passado em nossas mãos, de cuidar dele com um presente fiel e criativo, e de orientá-lo para o futuro. – Como poderemos educar um ‘olhar teologal’ que abranja e integre horizontes? - Somos sensíveis aos testemunhos de entrega e santidade do passado? Tem-se falado muito sobre ‘voltar ao essencial’ (do Evangelho, do cristianismo primitivo, do carisma fundacional…). – Como compreendemos e concretizamos este ‘voltar ao essencial’ do carisma a fim de o traduzirmos hoje com todo o seu vigor?
3. “Sua Majestade é muito amigo de levar por diante as obras que faz, se por nós não for detido” (11). “Não seria justo que a diminuíssemos, ainda que tivéssemos de sacrificar a vida, a honra e o descanso” (12). – Mas como corresponder a Deus? Teresa dá conselhos muito precisos. Com cada um deles poder-se-á animar um tempo de meditação comunitária ou pessoal:
Oração: “Praza a Sua Majestade dar-nos abundantemente a Sua graça; com ela nada haverá que nos tolha os passos para ir adiantando no Seu serviço. Que a todas nos ampare e favoreça, para que não se perca, por nossa fraqueza, um tão grande princípio […]. Em Seu nome vos suplico, irmãs e filhas minhas, que sempre o supliqueis a Nosso Senhor” (11).
Fidelidade é comprometer-se com as gerações futuras. Honrar o passado é ser hoje alicerce das que estão para vir (F 4,6; 21,11).
Esperança: Descobre e medita a essência e dinamismo próprio da esperança cristã nas notas que Teresa condensa neste parágrafo:
“Vida é viver de maneira que não se tema a morte, nem todos os sucessos da vida, e possuir esta habitual alegria que todas agora tendes e esta prosperidade, que não pode ser maior, que não teme a pobreza, antes a deseja. Pois a que poderá comparar-se a paz interior e exterior em que sempre andais? Em vossa mão está viver e morrer com ela […]. Porque, se sempre pedirdes a Deus que leve por diante a Sua obra e não fiardes nada de vós, não vos negará a sua misericórdia; e se tiverdes confiança n’Ele e ânimos animosos – que disto é Sua Majestade muito amigo –, não receeis que vos falte alguma coisa” (12).
4. Ao rever a nossa vida, prestamos atenção aos nossos desejos, intenções e actos concretos. Mas examinamos os nossos medos? Eles revelam a nossa atitude teologal muito mais do que imaginamos! “Não temais”, diz Jesus reiteradas vezes no Evangelho4. Repete-o muitas vezes a Teresa em revelações privadas5. E Teresa no-lo transmite a nós, hoje: “Não tenhais medo”6. Deus não desampara, não abandona. É amigo de levar adiante as suas obras…
Segundo os capítulos das Fundações que já trabalhaste até agora, poderias recolher as afirmações teresianas sobre ‘o ser’ de Deus? – Como é Deus segundo Teresa? Contempla na tua vida o Deus fiel, fonte de paz e de fortaleza. Reconhece os teus medos, dá-lhes um nome e reza com o salmista: “O Senhor é minha luz e salvação, a quem hei-de temer? O Senhor é o protector da minha vida, de quem hei-de ter medo?” “Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor” (Salmo 26 [27],1-14).
5. Teresa oferece-se como testemunho vivo do Deus que não desampara a quem deseja servi-l’O. No meio da condenação e incompreensão, o Senhor encheu-a de paz, gozo, liberdade interior (20). Só Deus basta, as criaturas são inconstantes (10). Deus não Se muda: “Creio que o meu gozo principal estava em parecer-me que devia ter contentado o Criador, já que assim me pagavam as criaturas, pois entendo que, quem se paga com coisas da terra ou louvores dos homens, anda bem enganado; e, aliás, pouco lucra, pois hoje lhes parece uma coisa e amanhã outra e, se uma vez dizem bem, logo tornam a dizer mal. Bendito sejais Vós, Deus e Senhor meu, que sois para todo o sempre imutável, ámen. Quem Vos servir até ao fim, viverá sem fim na Vossa eternidade” (21)
- Como assumimos e vivemos a nossa solidão, esse fundo da alma que nada nem ninguém pode preencher? - Em que medida as opiniões e ditos dos outros têm influência na nossa vida, fundamentam a nossa confiança ou constroem a nossa identidade e imagem? - Como responde a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade? Para um momento de oração, pode-se rezar ou cantar o poema teresiano “Nada te perturbe”.
______________
1Cf. Guião pastoral de Fundações, tema V.
2Cf. Efrém da Madre de Deus e O.Steggink, em Tiempo y Vida de Santa Teresa, P. II, nº417-441.
3Cf. Tomás Álvarez, “Sobre los Cuatro Avisos dela Santa”, en Monte Carmelo 114 (2006) 257-299; Comentarios al libro de las “Fundaciones” de Santa Teresa de Jesús, 131-134.
4 Cf. Mt 8,26; 28,10;Mc 4,40; 6,50; 16,6;Lc 12,32; 24,38; Jo 14,1.27
5 Cf. F 29,6; V 25,18; 30,14; Contas de Consciência 52; 53,16; 12,1; 25 y 38; Relações 4,16; 26,1; 35; 53 y 55.
6 Cf. CV 2,2.8; 10,3;16,10.12; 17,4; 20,2; 21,5.10; 23,3.5; 38,4; V 7,20; 8,7; 11,10.13; 34,12; 35,14.
1. Teresa começa por recordar os começos da nova fundação; os inconvenientes da primeira licença; o adiamento do projecto por causa da fundação de Sevilha e, finalmente, a fundação de Caravaca, tendo a Madre delegado em Ana de Santo Alberto para levá-la a cabo (nn.1-10).
2. Segue-se, à continuação, um extenso diálogo de Teresa com as suas filhas; dá-lhes as suas razões para fazer memória dos acontecimentos (nn.11-16) 1
3. Continua um juízo avaliativo do empreendimento fundacional a modo de epílogo. A Santa volta a recordar os grandes trabalhos suportados; a autorização e licenças que recebeu do Geral Rubeo para levar a cabo as fundações; o desprestígio e condenação de que foi objecto injustamente (nn.17-21) 2
4. Com a ordem de deixar de fundar e de se recolher a um convento, cessam também as crónicas. Tinha começado a escrevê-las em 1573 por mandato do seu confessor, o P. Ripalda, e depois por ordem do comissário apostólico, Frei Jerónimo Graciano. Deixa-nos o testemunho da sua obediência ao jeito de epílogo (nn.22-24), datando o fim da obra a 14 de Novembro de 1576. Seguem-se quatro avisos para os Descalços. Teresa escreveu-os numa folha independente que incluiu no fim do caderno, embora não tenham relação directa com o livro das Fundações3
Para reflectir, rever la vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Concluído o relato da fundação de Caravaca, Teresa trava um diálogo directo com as suas leitoras. Num instante, recolhendo todo o passado, faz uma leitura retrospectiva das fundações para testemunhar vigorosamente a obra de Deus e os grandes trabalhos que nelas passaram: “vereis que estas casas não foram, de certo modo, fundadas por homens, mas pela poderosa mão de Deus” (11). “Vede, minhas filhas, vede a mão de Deus […] Seja como for que o querais ver, tendes de reconhecer que a obra é Sua” (12). “Recordai-vos com quanta pobreza e trabalho se fez o que agora gozais com descanso” (11). Trabalhos nos caminhos, cansaço e pouca saúde (17); “o ter de suportar as maneiras de ser de muitas pessoas”, e o desgarrão afectivo de “deixar as irmãs e filhas quando partia de um lugar para outro” (18).
Finalmente, o duro golpe da incompreensão e condenação, os falsos testemunhos e a reclusão.
Memória: Voltar às fontes, re-cordar (=passar pelo coração) a origem, é apropriarmo-nos da sua força fecunda, permitir que a graça de Deus concedida aos nossos maiores continue viva e eficaz entre nós. Pode servir de reflexão ou debate em grupo ter presente a ambiguidade da lembrança. Podemos vivê-la em toda a sua força recreadora se a memória nos ajudar a nos re-conhecermos, a re-viver a graça fundante de um carisma. Mas também se pode converter num escape nostálgico ou crítico de um passado perdido. – Como fazemos memória da nossa história? – Quais os perigos que ‘o esquecimento’ leva consigo?
2. A Madre deixou claro o motivo essencial pelo qual relata os acontecimentos: que se veja a obra de Deus, que as suas filhas conheçam, em primeira mão, os sacrifícios que a reforma exigiu e que se comprometam a conservar e a transmitir fielmente às gerações futuras o dom recebido. Hoje, em cada uma delas “torna a começar esta primeira Regra da Ordem da Virgem Nossa Senhora” (11). “Digo-o, filhas, para que entendais estar mais obrigadas […]. Praza a Sua Majestade amparar-nos sempre e dar-nos a graça de não sermos ingratas a tantas mercês. Ámen” (16).
Testemunho de profecia: Contemplar a obra de Deus exige a responsabilidade do testemunho. Memória e profecia vão de mãos dadas. A obra de Deus deve converter-se em vida, convicção pessoal e compromisso actual. E o passado deve continuar vivo como dinamismo espiritual que abrace todos os horizontes. Trata-se de tomar o passado em nossas mãos, de cuidar dele com um presente fiel e criativo, e de orientá-lo para o futuro. – Como poderemos educar um ‘olhar teologal’ que abranja e integre horizontes? - Somos sensíveis aos testemunhos de entrega e santidade do passado? Tem-se falado muito sobre ‘voltar ao essencial’ (do Evangelho, do cristianismo primitivo, do carisma fundacional…). – Como compreendemos e concretizamos este ‘voltar ao essencial’ do carisma a fim de o traduzirmos hoje com todo o seu vigor?
3. “Sua Majestade é muito amigo de levar por diante as obras que faz, se por nós não for detido” (11). “Não seria justo que a diminuíssemos, ainda que tivéssemos de sacrificar a vida, a honra e o descanso” (12). – Mas como corresponder a Deus? Teresa dá conselhos muito precisos. Com cada um deles poder-se-á animar um tempo de meditação comunitária ou pessoal:
Oração: “Praza a Sua Majestade dar-nos abundantemente a Sua graça; com ela nada haverá que nos tolha os passos para ir adiantando no Seu serviço. Que a todas nos ampare e favoreça, para que não se perca, por nossa fraqueza, um tão grande princípio […]. Em Seu nome vos suplico, irmãs e filhas minhas, que sempre o supliqueis a Nosso Senhor” (11).
Fidelidade é comprometer-se com as gerações futuras. Honrar o passado é ser hoje alicerce das que estão para vir (F 4,6; 21,11).
Esperança: Descobre e medita a essência e dinamismo próprio da esperança cristã nas notas que Teresa condensa neste parágrafo:
“Vida é viver de maneira que não se tema a morte, nem todos os sucessos da vida, e possuir esta habitual alegria que todas agora tendes e esta prosperidade, que não pode ser maior, que não teme a pobreza, antes a deseja. Pois a que poderá comparar-se a paz interior e exterior em que sempre andais? Em vossa mão está viver e morrer com ela […]. Porque, se sempre pedirdes a Deus que leve por diante a Sua obra e não fiardes nada de vós, não vos negará a sua misericórdia; e se tiverdes confiança n’Ele e ânimos animosos – que disto é Sua Majestade muito amigo –, não receeis que vos falte alguma coisa” (12).
4. Ao rever a nossa vida, prestamos atenção aos nossos desejos, intenções e actos concretos. Mas examinamos os nossos medos? Eles revelam a nossa atitude teologal muito mais do que imaginamos! “Não temais”, diz Jesus reiteradas vezes no Evangelho4. Repete-o muitas vezes a Teresa em revelações privadas5. E Teresa no-lo transmite a nós, hoje: “Não tenhais medo”6. Deus não desampara, não abandona. É amigo de levar adiante as suas obras…
Segundo os capítulos das Fundações que já trabalhaste até agora, poderias recolher as afirmações teresianas sobre ‘o ser’ de Deus? – Como é Deus segundo Teresa? Contempla na tua vida o Deus fiel, fonte de paz e de fortaleza. Reconhece os teus medos, dá-lhes um nome e reza com o salmista: “O Senhor é minha luz e salvação, a quem hei-de temer? O Senhor é o protector da minha vida, de quem hei-de ter medo?” “Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor” (Salmo 26 [27],1-14).
5. Teresa oferece-se como testemunho vivo do Deus que não desampara a quem deseja servi-l’O. No meio da condenação e incompreensão, o Senhor encheu-a de paz, gozo, liberdade interior (20). Só Deus basta, as criaturas são inconstantes (10). Deus não Se muda: “Creio que o meu gozo principal estava em parecer-me que devia ter contentado o Criador, já que assim me pagavam as criaturas, pois entendo que, quem se paga com coisas da terra ou louvores dos homens, anda bem enganado; e, aliás, pouco lucra, pois hoje lhes parece uma coisa e amanhã outra e, se uma vez dizem bem, logo tornam a dizer mal. Bendito sejais Vós, Deus e Senhor meu, que sois para todo o sempre imutável, ámen. Quem Vos servir até ao fim, viverá sem fim na Vossa eternidade” (21)
- Como assumimos e vivemos a nossa solidão, esse fundo da alma que nada nem ninguém pode preencher? - Em que medida as opiniões e ditos dos outros têm influência na nossa vida, fundamentam a nossa confiança ou constroem a nossa identidade e imagem? - Como responde a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade? Para um momento de oração, pode-se rezar ou cantar o poema teresiano “Nada te perturbe”.
______________
1Cf. Guião pastoral de Fundações, tema V.
2Cf. Efrém da Madre de Deus e O.Steggink, em Tiempo y Vida de Santa Teresa, P. II, nº417-441.
3Cf. Tomás Álvarez, “Sobre los Cuatro Avisos dela Santa”, en Monte Carmelo 114 (2006) 257-299; Comentarios al libro de las “Fundaciones” de Santa Teresa de Jesús, 131-134.
4 Cf. Mt 8,26; 28,10;Mc 4,40; 6,50; 16,6;Lc 12,32; 24,38; Jo 14,1.27
5 Cf. F 29,6; V 25,18; 30,14; Contas de Consciência 52; 53,16; 12,1; 25 y 38; Relações 4,16; 26,1; 35; 53 y 55.
6 Cf. CV 2,2.8; 10,3;16,10.12; 17,4; 20,2; 21,5.10; 23,3.5; 38,4; V 7,20; 8,7; 11,10.13; 34,12; 35,14.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Fundações: Capítulos 25-26
Ficha XII.- LIVRO DAS
FUNDAÇÕES –I
Nos capítulos
seguintes, assistimos ao relato da inauguração do Carmelo de Sevilha, com a
ajuda inestimável dos novos amigos e benfeitores de Teresa: o seu irmão
Lourenço, o sacerdote sevilhano Gaciálvarez, e o Prior da Cartuxa, Hernando de
Pantoja (F 25). Instala-se o Santíssimo Sacramento após uma solene procissão e
a bênção do Arcebispo Cristóvão de Rojas (27.05.1576), e no dia seguinte a
Madre põe-se novamente a caminho de Castela (F 26,1-2). Como epílogo, a
narração encerra com a memória edificante da primeira vocação andaluza; Beatriz
da Madre de Deus (F 26,3-16).
Pistas de
leitura
Há três aspectos a
destacar no momento de abordar a leitura destes capítulos: a pobreza e as
dificuldades que Teresa encontra em Sevilha, contra o que era de supor; o novo
grupo de amigos que ajudam a Madre em tudo o que respeita à compra da nova
casa; e os conflitos institucionais e graves acusações que afectam nessa altura
os Descalços e Teresa dentro da Ordem.
1. Pobreza e
dificuldades: “Ninguém podia prever que numa cidade tão importante e de gente
tão rica como Sevilha, haveria menos ajudas para fundar do que em qualquer das
outras partes onde estivera” (F 25, 1). “Exceptuando a primeira fundação de
Ávila […] nenhuma outra me custou tanto como esta, por serem os trabalhos, na
sua maioria, interiores” (26,2). No mês de Dezembro de 1575, uma noviça acusa
as descalças de Sevilha perante a Inquisição. Nos princípios do ano seguinte,
uma comissão, em nome da Inquisição, examina o espírito da Madre. Duas Contas
de Consciência, em que Teresa expõe o seu caminho espiritual, os confessores
que a acompanham e a sua oração1, são fruto do processo inquisitorial a que foi
submetida, a sua resposta às informações pedidas pelo tribunal.
2. Novos
colaboradores: Garciálvarez, “pessoa muito de bem e conhecida na cidade pelas
suas boas obras” (25,2). Oferece-se para celebrar a missa diária à nova
comunidade e impede a compra de um edifício nada conveniente para mosteiro.
Além disso, encarregar-se-á de ornamentar a clausura e a igreja para a
inauguração (25,12). Lourenço de Cepeda, recentemente chegado da América:
“ajudou-nos muito, sobretudo em conseguir que ficássemos na [casa] em que agora
estamos” (25,3). E Hernando Pantoja, “um santo velho, prior da Cartuxa de las
Cuevas, grandíssimo servo de Deus” (25,9), que ajudou com as suas esmolas,
fazendo-lhes bem “por todos os meios”. Ele e Garciálvarez combinarão com o
arcebispo toda a solenidade da procissão, com a presença de clérigos e
confrarias da cidade. Por uma carta de Teresa, conhecemos um pormenor que
humildemente cala no relato desta fundação: o arcebispo D. Cristóvão de Rojas e
Sandoval ajoelha-se diante da Madre, pedindo-lhe a sua bênção. Assim o contará
a Ana de Jesus: “Imagine o que sentiria ao ver um tão grande prelado ajoelhado
na frente desta pobre mulherzinha, sem se querer levantar até que lhe desse a
bênção, na presença de todas as religiões e confrarias de Sevilha”2.
3. Conflitos
institucionais: Imediatamente após a inauguração, Teresa parte para Castela.
Incompreendida e desprestigiada, chegou-lhe uma ordem do Definitório geral,
reunido em Piacenza, de acabar com as fundações e recolher-se num dos seus
conventos. A ordem foi adiada temporariamente por Graciano, mas agora chegara o
momento e escolhe Toledo. Escreve ali o 26 capítulo, o último dedicado à
Fundação de Sevilha. É o pano de fundo vivido e velado no relato que virá à luz
no capítulo seguinte. Alguns dos ‘trabalhos interiores’ que Teresa padece
nessas datas3.
Para reflectir, rever
a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Todas as gestões
por conseguir uma casa em condições resultam inúteis. Passam-se noves meses de
longa espera (F 25,1-2) numa incómoda casa alugada. Tudo resulta inconveniente
e apertado numa cidade onde paradoxalmente abundam os recursos.
Tendo como horizonte
que a verdadeira esperança teologal sabe confiar-se totalmente a Deus na
adversidade e na prosperidade, receber tudo como Seu, mas sem renunciar ao
esforço, ao caminho e à meta… - Como reagimos perante as nossas fragilidades e
temores, ou perante o êxito de um projecto alcançado?
2. Teresa sofre com a
ideia de ter de regressar a Castela deixando as suas filhas sem casa
definitiva. Para encontrá-la, serve-se de todas as mediações: a oração, a ajuda
do seu irmão Lourenço e Garciálvarez, e as suas próprias diligências embora
infrutíferas: “Estando um dia em oração, pedindo a Deus que lhes desse casa,
pois eram esposas Suas, tão unicamente desejosas de agradar-Lhe, recebi como
resposta: Já vos ouvi. Deixa isso a meu cuidado” (25,4).
Às vezes, nas
dificuldades, é fácil perder o equilíbrio e cair nos extremos: esperar tudo de
Deus, descarregar a responsabilidade nos outros, ou esperar tudo de nós mesmos.
– Sabemos unir a oração e a confiança na ajuda de Deus e dos irmãos com uma
atitude responsável e diligente da nossa parte?
3. Encontram
finalmente uma casa conveniente para a comunidade e mudam-se para lá. Levarão
um mês a adaptar-se ao lugar e a fazer a igreja. Teresa conta-nos: “ Era meu
desejo colocar o Santíssimo Sacramento sem aparato, depois de estar tudo
concluído, porque sou inimiga de me tornar pesada quando o posso evitar. E
assim, dirigi-me ao Padre Garciálvarez que, por sua vez, tratou com o prior de
Las Cuevas” (25,11)
Conhecemos o
desenlace: estes bons homens, juntamente com o arcebispo, decidiram inaugurar o
mosteiro com a maior solenidade possível. Levada a empresa a feliz termo,
Teresa pode descansar. No dia seguinte, regressa a Castela. Mas não se queixa;
alegra-se de ter compartilhado com as suas irmãs as penúrias e conflitos
daqueles meses: “sobretudo, dava-me alegria ter gozado dos trabalhos e ir-me
quando podia ter algum descanso” (26,1).
A atitude da Madre
revela uma grande delicadeza: simplicidade e sentido prático, e sobretudo
caridade para não sobrecarregar ninguém com trabalhos que se podem evitar. Esta
maneira de ser teresiana pode ajudar-nos a examinar pessoal e comunitariamente
as nossas atitudes, particularmente a nossa caridade: não “se tornar pesada
quando se pode evitar”
Teresa descobre, a
cada passo, a intimidade da sua alma, os seus estados de ânimo ou as suas lutas
interiores, e ao mesmo tempo ensina-nos a viver a fraternidade, a vida em
comunidade. - Como vivemos e manifestamos a alegria de compartilhar com os
nossos irmãos penas e trabalhos? – Sem queixas, sem censuras, sem lhes sermos
pesados, ajudando-nos mutuamente a levar os nossos fardos?
4. A Santa termina a
crónica de Sevilha com um relato vocacional. A história de Beatriz da Madre de
Deus é uma das narrativas e biografias exemplares que amenizam o livro das
Fundações4. Pela insistência, pela própria selecção de dados (trata-se do que
se considera digno de ser contado), descobre-se o ideal destacado por Teresa
como modelo para as futuras gerações. Uma coisa merece particular destaque: a
firmeza de Beatriz nas contradições e a fidelidade ao ideal do Carmelo. No
Caminho de Perfeição já a madre nos tinha aconselhado que, para a grande
empresa da oração, é necessária “uma grande e determinada determinação” (C
21,2) de não abandonar o ideal, mesmo que se morra no caminho: “ a morrer sim,
mas não a ficar vencidos” (C 3,1).
Procurar outros
paralelos com textos teresiano já trabalhados em fichas e capítulos anteriores,
e reler o relato procurando descobrir substancialmente o ideal vocacional
pintado por Teresa. Compará-lo com o nosso tempo, experiência e circunstâncias
pessoais ou comunitárias.
---------------
1 Cf. Contas de
Consciência, 53 e 54 (EDE e BAC); Relações 4 e 5 (Ed. Monte Carmelo).
2 Carta dirigida
à Madre Ana de Jesus, a 15 de Julho de 1576. Perdido o autógrafo e sem contar
com manuscritos, conhecemos a sua existência e parte do seu conteúdo graças aos
testemunhos da própria Madre Ana de Jesus no processo de Salamanca para a
canonização de Teresa.
3Cf. A carta que la
Madre dirige nos fins de Janeiro de 1576 ao P. João Baptista Rubeo, Geral da
Ordem.
4 Veja-se, por
exemplo, o relato de F 12.
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