sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fundações: Capítulos 23-24


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Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 
Capítulos 23-24 

Começa o relato de uma nova fundação, a do “Mosteiro do glorioso São José del Carmen, na cidade de Sevilha”, com a primeira Missa no dia da Santíssima Trindade, 29 de Maio de 1575. A Madre interrompe a crónica com um breve retrato biográfico-espiritual do Padre Jerónimo Graciano. A finalidade histórica cede o passo à intenção pedagógica e mistagógica: aprender com os sucessos e vidas edificantes, descobrir o mistério de Deus nos acontecimentos e factos providenciais quotidianos e dá-lo a conhecer. ‘Historiar’ tudo para que permaneça sempre vivo e fresco na memória das gerações futuras.
Pistas de leitura 
1- Teresa tem as suas razões para dedicar todo um capítulo ao P. Jerónimo Graciano. Acha necessário recordar a circunstância histórica do seu encontro com ele pela situação que viviam então as comunidades de Descalços. A Providência de Deus assiste-os nas necessidades da Ordem elegendo e enviando uma pessoa ‘íntegra’ para levar para a frente a reforma (F 23,3.12-13; 24,1-2). É por isso que Graciano entra em cheio no relato. E, como novo Comissário Apostólico para Andaluzia, é quem (contrariando os desejos e projectos da Madre: F 24,4), lhe ordena levar para a frente a fundação de Sevilha. 

2- Como pano de fundo histórico, recordemos que aos avatares e exigências inerentes a toda a fundação se juntam, na de Sevilha, a desconformidade e os descontentamentos dos Calçados em relação a fundações de Descalços/as na Andaluzia (F 24 20); o desentendimento e incomunicação entre o Geral Rubeo e a Madre Teresa; e ainda a oposição do bispo Fernando de Rojas y Sandoval pela fundação de um novo mosteiro em pobreza (F 24,15-16). Com tudo isto terá de lidar a Madre nesta fundação1 


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1- Ler com atenção a descrição que Teresa faz de Graciano, a sua índole espiritual. Fazer uma lista de qualidades humanas e virtudes. Teresa pondera é o que admira. Tudo é dom do Senhor, a obra que Deus realizou na pessoa de Graciano para bem da Ordem. De tudo isso, o que é que destacaríamos? O que é que achamos mais importante ou necessário? Na nossa sociedade, na nossa realidade pastoral, quais as qualidades que hoje a Ordem exige aos carmelitas para enriquecer e comunicar o carisma herdado? 


Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – II 

2- No relato da vocação de Graciano, sobressai em tudo a Providência de Deus. Ele tem os seus planos, e os leva a cabo através de mediações e circunstâncias que parecem fortuitas, que escapam à consciência e à intenção inicial de Graciano: “Oh! Sabedoria e poder de Deus! Como é certo não podermos nós fugir ao que é a Sua Vontade!” (F 23,3). Como compreendemos hoje esta afirmação de Teresa? Descobrimos a Providência divina na nossa vocação, no nosso caminho de seguimento de Jesus, no discernimento da sua vontade na nossa vida? A que mediações damos valor? De quais sentimos falta? 

3- Teresa dedica vários parágrafos à presença e mediação da Virgem Maria (F 23,1-4-6.8-13). Reflecte, à luz destas afirmações, a tua própria experiência mariana. 

4- O relato das qualidades de Graciano como superior (F 23, 7.10) e a descrição da personalidade e comportamento do prior de Pastrana (23,9) revela-nos duas formas de governo: algo assim como ‘um ideal’ e uma desfiguração do ideal. - Debater o tema: as razões e as conclusões da Madre, e confrontá-las com a nossa experiência no exercício da autoridade (nas responsabilidades que nos tocam) ou com a nossa resposta teologal à autoridade que outros exercem como serviço na Igreja. 

5- Depois de longos parágrafos revelando a história e a intimidade de Graciano. Teresa justifica-se (F 23,11-13). Tem as suas razões para ‘fazer memória’ delas. - Reflectir sobre a importância da memória e do relato. Confrontá-lo com a nossa forma de compreender, viver e transmitir o carisma recebido de Deus, seja qual for o estado de vida. Pode inspirar um momento de oração e de louvor. 

6- Teresa, com espírito de fé, cede perante as exigências do novo Comissário Apostólico para a Andaluzia. Renuncia à fundação de Caravaca (contra o seu parecer, revelações particulares e desejos) e obedece a Graciano (F 24,4). Compartilhar as nossas dificuldades perante o discernimento da vontade de Deus, perante o reconhecimento e a obediência a Deus nas suas mediações. 


Ficha XI.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – III 

7- A Santa relata as fundações contando os inconvenientes ou peripécias do caminho. Fá-lo com muita vivacidade e humor (F 24,5ss). Não faltam episódios daqueles oito dias de caminho. A eles se acrescenta “mais de um mês” de espera da licença para fundar. Uma espera amassada com paciência nos dias mais duros do verão andaluz2. Mas Teresa nunca perde ocasião para tirar sempre um ensinamento, alguma aplicação à vida espiritual ou um motivo para descobrir a Providência e o próprio ser de Deus. - Quais são os que descobres nestes dois capítulos? Para meditar e partilhar: “Sua Majestade dá sempre os trabalhos com piedade” (F 24,11). 


8 - A Madre pondera as qualidades das irmãs que leva como fundadoras. A segurança e fortaleza que lhe inspira a virtude provada das suas monjas. – Somos receptivos e agradecidos para com as qualidades e virtudes dos outros? – Sentimo-nos amparados, edificados, estimulados pelos irmãos? – Sabemos compartilhar ideais, tarefas ou responsabilidades, confiando nos outros? – Que atitudes e virtudes deveríamos cultivar mais para viver a fraternidade e confiança mútua nos nossos projectos comunitários/familiares? 




1(Cf. T.ALVAREZ, Comentarios al libro de las “Fundaciones” de Santa Teresa de Jesús. Monte Carmelo, Burgos 2011, 117-121) 
2 A leitura desta fundação pode completar-se com a descrição pormenorizada e amena do P. Efrém da Mãe de Deus e O. Steggink, em Tiempo y vida de Santa Teresa, BAC, Madrid 1968, P II, nº 386-411. 




terça-feira, 19 de junho de 2012

Fundações: Capítulo 22









Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – I 

Capítulo 22 
Se Granada foi o escritório de S. João da Cruz, Toledo não o foi menos para Teresa de Jesus. Aqui, na cidade imperial, desde uma pobre cela do Carmelo, escreve o relato da sua primeira fundação em terras andaluzas: Beas de Segura, província de Jaén.
Tempos aqueles, desde esse fecundo ano de 1576, classificado por Teresa como de grandes trabalhos, até ao ponto dela crer que ser a causa de toda esta tormenta, e que se me deitassem ao mar, como Jonas, cessaria a tempestade (F 28, 5). 
Navegando neste mar tempestuoso e salva do naufrágio, porque, agora sim, está arrimada a esta forte coluna da oração (V 8,2), Teresa de Jesus recorda aquela difícil e complexa aventura fundacional que a levou a Andaluzia, sem o saber, pondo em risco a sua relação afectuosa, em breve desfeita, com o P. Geral Rubeo. 
Em Beas, teve lugar o encontro idílico com Jerónimo Graciano, personagem chave da sua Reforma. Aqui se forjou a entranhável relação mestre-discípulas, entre João da Cruz e as carmelitas de Beas, com abundância de “bilhetinhos” espirituais conservados devotamente por elas, e que hoje formam uma grande parte dos Ditos de Luz e Amor do Santo. Também em Beas, teve Teresa a sua gota de amargura: foi o lugar onde recebeu a dura notícia do sequestro do Livro da Vida nas mãos da terrível Inquisição. 

Pistas de leitura 
1- Os inconvenientes (F 22,1-2) 
- Uma viagem longa a perigosa (a passagem de Despeñaperros, Serra Morena e os altíssimos penhascos de Gualdinfierno) para uma mulher de 60 anos, de saúde frágil e em pleno inverno. 
- Uma pequena povoação, nada semelhante aos ambientes urbanos preferidos por Teresa, muito pouca renda (F 22, 19), tão longe da sua Ávila natal, para ela ponto de referência das distâncias. 
- A oposição do P. Pedro Fernández às novas fundações, foi superada surpreendentemente por outra dificuldade maior: Beas pertencia à Comenda de Santiago e era supostamente impossível conseguir a devida licença. 
Nesta ocasião, uma dificuldade ajuda a resolver a outra, e o próprio Filipe II outorga a licença ao saber que o futuro mosteiro era das descalças do Carmo (F 22,18). 
Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES – II 

Algumas vezes penso nisto – dirá Teresa – e como o que Nosso Senhor quer, embora o não queiramos nós, se vem a realizar e chegamos a servir-Lhe de instrumento, mesmo sem darmos por isso, foi o que aqui aconteceu com o Padre Mestre Frei Pedro Fernández (F 22,3). 

2- “História Exemplar” de D. Catarina Godínez 
Tal como aconteceu com a fundação de Alba de Tormes, a biografia das fundadoras, ou antes, uma delas, D. Catarina, ocupa quase todo o capítulo (nn. 4-24). A Santa parece escrever valendo-se de um guião redaccional, talvez de mão alheia, onde se encontram registados os factos mais marcantes de tão extraordinária história: 
- Vida familiar de uma donzela fidalga rural; conversão e mudança de vida; práticas religiosas da jovem Catarina, agora “em hábito modesto”; oposição dos pais, doenças e luta enérgica para fundar o mosteiro, etc. 
- Encontramos no relato, momentos tão simpáticos como o do enfado ruidoso do demónio que fez sair da cama, de espada na mão e meio vestido, o bom D. Sancho. Sem dúvida que os estudantes de Medicina tirariam proveito desse “Pequeno Tratado” de História da Medicina do século XVI, escrito neste capítulo por Teresa de Jesus: todo um catálogo de doenças que formam um quadro clínico estranho e heterogéneo, juntamente com os remédios aplicados (ventosas, mais de 500 sangrias, cautérios, etc.) que demonstram a fortaleza física de D. Catarina que, apesar de tudo, foi capaz de sobreviver… 
- A chave desta história estranha e divertida encontra-se no n. 6: Teresa escreve para que todos O louvem - a Deus, certamente, verdadeiro protagonista do livro. É por isso que, no n.7, encontramos uma linda oração emocionada, com sabor evangélico: Sede bendito, ó meu Deus, para sempre, pois num momento abateis uma alma e a levantais renovada… 

3- História “Actual” da fundação (F 22,19-20) 
Apenas um par de números dedicados ao momento da fundação, tão breves que só referem o ano, 1575, da chegada das carmelitas chefiadas por Teresa no princípio da Quaresma, a alegria do povo, o nome do novo mosteiro (S. José do Salvador, fundado no dia de S. Matias) e uma breve menção da tomada de hábito das duas irmãs fundadoras, mas, isso sim, adornada com novos elogios à inigualável Catarina. 



Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –III 

Finalmente! O que Sua Majestade quer não se pode deixar de fazer (F 22,19). 

4- Apêndice (F 22, 1-24) 
O relato parece concluir no nº 20 com a frase final, mas Teresa acrescenta uma espécie de apêndice em que encontramos: 
- O modo “sobrenatural” como Catarina conhece a existência da Ordem do Carmo e a sua Regra, assim como o encontro com o jesuíta que lhe dá notícia dos nossos mosteiros (F 22, 21-22). 
- Novos pormenores da cura milagrosa (F 22, 23). 
- Virtudes de D. Catarina, já convertida em Catarina de Jesus, de quem Teresa traça com mão firme um retrato magistral: Nenhuma coisa vejo fazer a esta alma que não seja para ser agradável a Deus, e é assim com todas (F 22, 24). Prova de que “não é encarecimento” (como diria a Santa) é o testemunho deixado pelo Padre Graciano na sua Peregrinação de Anastácio, diálogo 16, pois escreve que a Madre Catarina é das maiores santas da Ordem. Por outro lado, o próprio S. João da Cruz se encarregou de transcrever de sua própria mão, o texto da sua autobiografia. 
- E, agora sim, Ámen. 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 
1 – Lê e medita na conversão de Catarina Godínez diante do crucifixo (F 22, 5-6); compara com V 9, 1-3, onde Teresa nos conta a sua conversão ao ver uma imagem de Cristo muito chagado. 
2 – Pode ser um bom momento para pensar e partilhar com o grupo o teu encontro com Jesus e como mudou a tua vida. 
3 – Ora com Teresa, bendiz e louva o Senhor (F 22, 7) 
4 – Julgo que Nosso Senhor nunca faz a uma alma mercê tão grande, sem que outras almas dela participem (F 22, 9). 
Esta interdependência entre os membros do corpo místico de Cristo é muitas vezes apontada por Teresa em diversos textos (4M 3,10; 5M 4,6, entre outros). 
Ficha X.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –IV 

Cada um de nós não anda sozinho o caminho escolhido: para bem ou para mal, arrasta outros consigo. 

- Somos conscientes desta realidade, que é uma responsabilidade muito séria? 
- Acaso o individualismo pós-moderno, que todos padecemos, nos leva a nos esquecermos da força do testemunho cristão? São Paulo diz que temos de levar as cargas uns dos outros. 
- Ter-nos-íamos deixado “contaminar”, quase sem dar por isso, da tendência laicizante que trata de se impor, segundo a qual a fé deve ser vivida no âmbito privado e estritamente pessoal? 
- É a minha oração um intimismo mais ou menos subtil? 
Recorda que Para isto é a oração, filhas minhas; para isto serve este matrimónio espiritual: que nasçam sempre obras, obras (7M 4,6). 
- Reza novamente com Teresa CC 1, nº 14; V 16, 6-7. Partilha a tua oração sobre estes textos com o grupo de oração, comunitário, paroquial, etc. 
5 – E, por fim, um pedido: 
Praza a Sua Majestade que a grandíssima liberalidade que tem tido com esta miserável pecadora sirva, de algum modo, para que se esforcem e animem os que isto lerem, a deixar tudo, de todo em todo, por Deus (V 21,12).


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Fundações: Capítulos 20-21



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LIVRO DAS FUNDAÇÕES –I 

Capítulos 20-21 
Teresa de Jesus, no seu forçado retiro toledano (1576), escreve o relato da fundação de dois Carmelos especiais: Alba de Tormes (1571) e Segóvia (1574). Ambos passarão à história do Carmelo teresiano não só pela pequena história de cada um, mas porque vão acolher o imprevisto: os restos mortais da M. Teresa, o primeiro, e o grupinho de monjas de Pastrana fugidas dos caprichos tirânicos de D. Ana de Mendoza, Princesa de Éboli, o outro.

Ambas as fundações contam com a presença activa de S. João da Cruz e com uma alargada e bela galeria de retratos, proporcionando-nos também uma série de preciosos dados sobre a vida social espanhola do séc. X VI. 

Pistas de leitura. 
1- Quem é o fundador? 
Se nos cingirmos ao relato de Teresa, trata-se da insistência do administrador do Duque de Alba e sua mulher: fui importunada para que naquela cidade fizesse uma fundação e mosteiro (F 20,1), o que faz com que Teresa de Jesus funde em Alba, apesar da sua resistência inicial, por ser o lugar pequeno e ter de fundar com renda. 
Em troca, o Carmelo segoviano surge por mandato do Senhor: Estando ali um dia em oração, disse-me Nosso Senhor que fosse fundar em Segóvia (F 21,1). 

2- Retrato de senhoras nobres 
Em ambos os capítulos sobressai a figura das fundadoras, D. Teresa de Láyz e D. Ana de Jimena, se bem que de maneira muito diferente. A figura amável e delicada de D. Ana, futura carmelita e prioresa de Segóvia, ocupa somente um par de números (F 21,2 e 3), enquanto Teresa de Láyz se apodera materialmente do capítulo, de modo que quase até ao nº 13 não se retoma a história da fundação 
A esposa do administrador Velázquez, que ocupa um lugar secundário no relato, representa a típica benfeitora intrometida que deu muito trabalho à Santa, não só durante a fundação (tornou-se difícil chegar a um acordo, F 20,13), mas também depois (Carta ao P. Jerónimo Graciano, Palência, meados de Fevereiro de 1581) e 2d 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –II 

3- Apontamentos de história do século XVI: a fundação de Alba de Tormes. 
- O problema da honra: fidalga pobre envergonhada, marido rico descendente de judeus conversos, que “limpa” a sua linhagem mediante o matrimónio. 
- A condição social da mulher no século XVI: o nascimento de uma filha, uma “tragédia” familiar. 
- Fundar o convento é outra maneira de se enobrecer. 
- A subtil ironia teresiana, não isenta de dor, perante estes factos (F20, 2 e 3). 
- A presença do “maravilhoso”: o demónio omnipresente na vida quotidiana, e também os Santos (F 20, 4.7.8). 
- De novo o problema da renda e o Concílio de Trento (nn. 1 e 13). 

4- Paisagens com rosto: a fundação de Segóvia. 
- Religiosos, clérigos, cavalheiros, damas, provedores ciosos, desfilam por este delicioso capítulo de aparência simples. Uma fundação da qual Teresa diz que teve pouco trabalho, mas que a empreendeu doente e com grandes males interiores (F 21,4). 
- As personagens: 
- O comissário apostólico Pedro Fernández, que concedeu a licença para fundar, apesar de que não desejava que se fizessem mais fundações (n. 1), segundo diz Teresa, prioresa da Encarnação e residente temporária em Salamanca. 
- A família Jimena: D. Ana e a sua filha; André de Jimena, o cavalheiro que lha pediu em nosso nome (n.5) e a sua irmã carmelita Isabel de Jesus, aquela jovem cantora que provocou o êxtase da Madre Fundadora (Relação 13) 
- João da Cruz e Julião de Ávila, maltratados pelo iracundo provedor que quis levar preso frei João e tirou o Santíssimo Sacramento às pobres monjas. 
- O cavalheiro de Alba, António Gaytán, de quem a nossa escritora traça um belo retrato (nn. 6 e 7). 
- O licenciado Herrera e aquele “sobrinho do Bispo” que fazia quanto podia a nosso favor; João Orozco e Covarrubias de Leiva. 
- Os pleitos, protagonistas de tantas fundações, com religiosos (mercedários, franciscanos) e com o cabido (nn. 8 e 9). 
- E, como quase sempre, o dinheiro facilita tudo (n. 10). 

Para reflectir, rever, interceder, agradecer, contemplar. 
1- Pobreza e liberdade: 
- Teresa de Jesus é uma apaixonada pela liberdade, a santa liberdade de espírito, e portanto inimiga de toda a dependência escravizante, seja a da honra ou dos benfeitores que se algum regalo dão ao corpo, paga-o bem o espírito (CP 9,1). 



Ficha IX.- LIVRO DAS FUNDAÇÕES –III 

-Neste contexto, lê o capítulo 2 de Caminho de Perfeição e compara-o com o 20 de Fundações: 
- Que dependências escravizantes encontras na tua vida? 
- Os olhos em vosso Esposo… - Olhas outros olhos? (o “que dirão”, a tua imagem, por não perder benefícios de qualquer tipo)
- Na tua situação, a quem precisas de contentar: Deus ou outros) (CP 2, 5). Revê F 21,7. 

2- A mulher no século XVI (F 20,2 e ss): 
-Sem feminismos anacrónicos, revê a situação da mulher no teu contexto cultural e eclesial. 
- Existem perto de ti pessoas tão marginalizadas hoje, pela sua condição, raça, cultura, talvez na tua paróquia, grupo, comunidade? 

3- Pareceu-me coisa impossível (F 21,1). 
Pensa nalguma situação concreta da tua vida pessoal, familiar, à tua volta, que te pareça impossível de superar, embora saibas que nisso está precisamente a vontade de Deus. 
- Teresa, que faz? E tu? 
O amor de contentar a Deus e a fé tornam possível o que por razão natural não o é (F 2,4) 
4- Para as que vierem se animem a continuar tão bons princípios (F 20,15). 
- Que traz à tua vida a leitura das Fundações? 

5- Ora com Teresa: 
“Ó amor poderoso de Deus! Quão diferentes são teus efeitos dos do amor do mundo! Este não quer companhia por lhe parecer que lhe hão-de tirar o que possui. O do meu Deus, quantos mais amadores entende que há, mais cresce e, assim, seus gozos se temperam ao ver que não gozam todos daquele bem. 
E então, [a alma] procura meios para buscar companhia e de boa vontade deixa o seu gozo, quando pensa que terá parte em que outros O procurem gozar. 
Ó Jesus meu, que grande é o amor que tendes aos filhos dos homens! Que o maior serviço que Vos pode prestar é deixar-Vos a Vós por seu amor e lucro. E então sois possuído mais inteiramente… (Exclamações, 2). 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Fundações: Capítulos 17-19



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Duas fundações novelescas, ou melhor, três (duas em Pastrana – frades e monjas, 1569, e uma em Salamanca, 1570), juntamente com uma série de conselhos oportunos às prioresas, de ontem e de hoje, constituem o enredo destes memoráveis capítulos.

Gozando da paz do seu Carmelo segoviano, em 1574, Teresa olha para trás a fim de construir um ameno relato entremeado de encontros e desencontros com aristocratas e cortesãos, ermitãos e comerciantes, cavaleiros insatisfeitos, estudantes burlescos e monjas assustadiças na noite de Finados – toda uma novela de aventuras em que se percebe claramente a acção de Deus que conduz a história. 

Pistas de leitura 
1- A Princesa e o ermitão (F 17): 

- A Princesa de Éboli, D. Ana de Mendoza 
Aconteceu mais ou menos assim: uma princesa intrigante e caprichosa tinha uma prima, D. Luísa de la Cerda, que tinha fundado um mosteiro dos da famosa monja Teresa na “sua” vila de Malagón. E, naturalmente, também quis o seu na “sua” vila de Pastrana, e por certo mais importante! Por isso, D. Ana não pode esperar: manda um criado para arrancar a Santa imediatamente de Toledo. É verdade que havia muito que as duas andávamos tratando da fundação…Mas não pensava que fosse para tão breve (F 17,2).Com razão se queixa Teresa dos senhores de cá (CP 22,4), tão diferentes do único Senhor! 
Episódios como os de Cassilda de Padilha, D. Luísa de la Cerda, a Princesa de Éboli, que supera a todos, a duquesa de Alba, etc., mostram-nos quão mal se deu com eles, e projectam uma grande luz sobre essas páginas magistrais em que Teresa de Jesus fala da honra e da pobreza. 
Ao lermos este capítulo, não podemos perder de vista a coragem de Teresa e das suas monjas ao levantarem a fundação, fugindo em plena noite para Segóvia. Este gesto custou a Teresa a denúncia à Inquisição do Livro da Vida por parte da vingativa princesa. 

- O ermitão, Mariano Azzaro 
Deste providencial encontro entre Teresa e o P. Mariano em Madrid nascerá a fundação de frades em Pastrana. 
Nada que se compare com Duruelo, muito longe do humanismo teresiano, com personagens estranhos como Baltasar Nieto, o seu primeiro Superior (F 17,15) e que, apesar de tudo, em breve experimentará um grande apogeu vocacional (entre eles, o P. Graciano) 
A estas alturas do relato, Teresa explora o entusiasmo pela sua “descoberta”, ponderando a vida do P. Mariano e seu companheiro (nº 7-8), embora não nos passe inadvertida a fina ironia com que nos relata que este Padre estava espantado por ter sido convencido tão rapidamente a tomar o hábito de descalço em especial por uma mulher (F 17,9). 

2- Suavidade e discrição (F 18). 
Ao começar a narrar a fundação de Salamanca, interrompe por duas vezes o relato; a primeira e mais breve, permite-nos contemplar o pano de fundo, por assim dizer, das fundações: os grandes trabalhos dos caminhos (F 18,4), a sua pouca saúde e a intervenção de Deus que lhe dá as forças de que precisa. A estrela que guia Teresa de Jesus no seu árduo e fatigoso caminhar brilha diante dos nossos olhos, vendo em serviço de Quem se fazia e considerando que naquela casa se haveria de louvar o Senhor e haver o Santíssimo Sacramento (F 18,5). 
Na segunda, lembra-se de algumas coisas sobre isto de mortificação… digo-as já aqui, antes que me esqueçam (F 18,6) e começa a sua série de avisos às prioresas, que poderíamos resumir assim: 
- Discrição (prudência) e suavidade no governo da comunidade (ou, como diríamos hoje, na coordenação do grupo). 

- Nada de extravagâncias em penitências e mortificações. E isto numa época tão inclinada às “penitências de bestas”, em frase de S. João da Cruz, tal como chegou a acontecer no noviciado dos frades de Pastrana, com modelos apreciados como o de Catarina de Cardona, cujo retrato pintado por Teresa com pinceladas suaves e divertidas encontramos em F 28. 
- Basta cumprir a Regra e as Constituições, embora saibamos que de guardar a guardar vai muito (CP 1,4) 
- E uma regra de ouro: É necessário olhar muito a isto e não ordenar o que para nós mesmas seria duro (F 18,6), Evangelho genuíno, sem dúvida! 

“Praza à divina Majestade que não nos faltem as moradas eternas” (F 19). 
- Assim termina este capítulo 19 dedicado à fundação de Salamanca, particularmente trabalhosa devido às dificuldades surgidas com o vendedor da casa, Pedro de la Banda, e que continuarão durante anos. São palavras suficientemente expressivas do seu cansaço por causa da contenda, que parecia sem fim, às que une um elogio da comunidade que tudo levam com alegria (F 19,12). 
- Ao começar o novo capítulo, Teresa justifica a longa digressão do capítulo anterior e ainda conclui com mais um aviso às prioresas (F 19,1). 
- Continua, quase começa, com a narração da fundação de Salamanca, apresentando-nos o “anjo da guarda” da fundação: Nicolau Gutiérrez (F 19,2 2 9). Note-se, uma vez mais, como são os seus amigos comerciantes, o equivalente à classe média de hoje, os que sempre ajudam Teresa, muito ao contrário dos aristocratas e grandes senhores. 
- O episódio cómico dos estudantes e da monja temerosa dão uma nota humorística (F 19, 3-6) 
- A experiência ensina-nos a todos. Também a Teresa, que nesta fundação já aprendeu que não é preciso, para tomar posse, colocar o Santíssimo Sacramento, e, pela primeira vez, não o faz (F 19,3). Estava bem longe, evidentemente, de imaginar que as monjas estariam três anos sem ele (F 19,6), mas no final de Setembro de 1573 mudam para a nova casa e expõe-se o Santíssimo com toda a solenidade embora não sem alguma contradição (F 19,9-10). 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 
1-“Os meus planos não são os vossos planos” (Is 55, 8). 

- À luz da Palavra de Deus, relê F 17, 1-2). Teresa sente-se satisfeita por ter terminado a fundação de Toledo, pensando que naquela Páscoa podia gozar-me um pouco com Nosso Senhor (F 17,1-2), mas acontece o inesperado… 
- Que sentes quando os teus planos são alterados por factores, pessoas, acontecimentos exteriores a ti? 
Quando a tua vida “programada”, o descanso a que tens direito depois do trabalho, as tuas opções pessoais, são transtornados por acontecimentos inesperados, que não podes controlar: - Como reages? Achas que estás desprendido/a de ti próprio/a? 
Pressupondo sempre o bem dos outros, evidentemente, lê neste contexto CP 32, 4-8) e recorda o que Teresa diz: Esta é a contemplação perfeita, de que me dissestes que escrevesse (CP 32,9). 
- Depois de todo o trabalho e os desgostos da fundação de Pastrana, esta desfaz-se (F 17,17). Que diz Teresa? 
Ora com ela, se te encontras em situações parecidas (mesmo que não tenhas fundado um mosteiro). Em suma, o Senhor o permitiu. Devia ter visto que não convinha ali aquele mosteiro, pois os seus juízos são grandes e contrários aos nossos entendimentos. 

2- Comenta no grupo F 18, 4-5 e F 19,6. Vemos aqui retratado quanto lhe custaram a Teresa as suas fundações; compara e comenta F 4,5-7) 
-Qual é a nossa /tua responsabilidade em continuar a sua obra? A que te comprometes? 

3- Lê F 18,5 e medita na tua relação, orante e vital, com o Santíssimo Sacramento: fazes da tua vida um louvor a Deus? 

F 18,8. – Achas que a mortificação está “passada de moda”? Teresa diz que é necessária para a alma adquirir liberdade… 
Sem que ninguém te mande “coisas” extraordinárias, como aceitarias uma sã mortificação - contrariar os teus gostos - na vida ordinária? 

Não pense a prioresa que conhece logo as almas; deixe, pois, isso para Deus (…) Procure levar cada uma por onde Sua Majestade a leva (F 18,9). 
- É assim que actuamos nas comunidades, grupos paroquiais, em família? 
- Julgamos rapidamente sem conhecer as pessoas nem as suas circunstâncias? Que margem deixamos ao mistério de Deus no noutro? 

4- F 19,9: um exemplo de que também Teresa sobre altos e baixos emocionais quando os acontecimentos a ultrapassam, mas Nicolau Gutiérrez, com a sua inalterável serenidade… dizia-me muito mansamente que não me afligisse, pois Deus daria solução a tudo. 
- Também a fé cresce em comunidade, ou não? 

5- Ora com Teresa Exclamações 17,nº 3. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 15-16



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Nos capítulos 15 e 16, Teresa narra-nos a fundação complicada e árdua de Toledo. Esta fundação que, à primeira vista, poderia parecer a mais fácil e cómoda por residir em Toledo dona Luísa de la Cerda, grande benfeitora de Teresa, vai converter-se numa verdadeira corrida de obstáculos. Por trás, como causa de tudo isso, um tema central do pensamento teresiano: a linhagem e a honra. Tanto que até intervém o próprio Deus para que ponha de lado esses critérios humanos.

No capítulo 16, elogia o exemplo de algumas monjas sobretudo no exercício da obediência e do desprendimento. Relata também a morte serena e alegre de uma religiosa com a visão de Jesus à cabeceira da cama, com os braços abertos em atitude de protecção e ajuda. E as palavras de Jesus de que ampararia igualmente as monjas que morressem nesses mosteiros. Daí surge o pedido de Teresa: “Filhas minhas, esforcemo-nos por ser verdadeiras carmelitas” (F 16,5).”Praza a Nosso Senhor, irmãs, que vivamos como verdadeiras filhas da Virgem e nos conformemos com a nossa profissão, para que Nosso Senhor nos faça a mercê que nos prometeu” (F 16,7). 

Pistas de leitura 

A fundação de Toledo é a “quinta” de Teresa no seu duplo sentido de ordem numérica e de lugar de descanso. Um mercador adinheirado de Toledo, Martim Ramírez, através do jesuíta Paulo Hernández, decide custear a fundação de um novo Carmelo. Não pertence à nobreza, e os nobres afastam-se: “Não eram pessoas ilustres nem fidalgas” (F 15,15). Grave contrariedade numa cidade onde a ascendência e a linhagem desempenham um papel determinante. 
As dificuldades aumentam porque, falecido o mercador, os seus parentes próximos mostram-se tão exigentes que a fundação parece impossível. Sem uns (nobres) nem outros (parentes de Martim), só com a colaboração do jovem Andrada, “nada rico, muito pobre até” (F 15,6), Teresa consegue casa e licença do Governador, mas não do Conselho.Com os poucos dinheiros que tem compra dois quadros; e apenas com dois enxergões e uma manta funda o mosteiro de Toledo. 
Renovam-se as dificuldades “sempre estimei mais a virtude do que a linhagem; mas tinham ido com tantos ditos ao Governador, que ele só me deu licença com a condição de que fundasse como em outras partes” (F 15,15). E aos ilustres e cavalheiros cede-lhes a capela e nada mais. Relações difíceis entre linhagem e virtude! 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1. “Os caminhos de Deus!” (F 15, 8). Ler todo o parágrafo anterior e comentar, segundo o pensamento de Teresa, se os caminhos do Senhor são os nossos caminhos. O binómio “as pessoas tão ricas – o muito pobre Andrada” desemboca num estilo de fundação feita “com pobreza e trabalho”. Ineficácia dos ricos, proveito do pobre. 
- Custa-nos descobrir nas mediações pobres as marcas da acção de Deus? 
- É-nos mais próxima a presença de Deus nos meios mais abastados e seguros? 

2. “Talvez pareça impossível que, estando em casa daquela senhora [dona Luísa de la Cerda] tão minha amiga, começasse com tanta pobreza. Não sei a causa, só sei que Deus quis dar-nos a experimentar a excelência desta virtude. Nada lhe pedi, pois não gosto de me tornar pesada; e ela, possivelmente, nem reparou” (F 15,13). 
-Não resulta exemplar a bondade de Teresa ao considerar a “inadvertência” de dona Luísa de la Cerda? 
- Podemos melhorar a nossa benevolência perante o descuido dos outros? 
- Talvez esteja Deus por trás das “distracções” dos outros para nos tornarmos mais livres e pobres? 

3. “Tudo foi de muito proveito para nós, porque era tanto o nosso consolo interior e alegria, que muitas vezes me lembro quanto o Senhor encerra nas virtudes. Essa privação que passámos parecia como que uma suave contemplação” (F 15,14). 
-Como compreendemos o contraste entre não ter praticamente nada e estar cheios de consolo e alegria? 
Diz Teresa que viver uma virtude é promessa de uma experiência suave de Deus. Será porque o autêntico necessitado encontra tudo n’Ele? 

4. Insistindo no mesmo tema, Teresa afirma que, quando começam a dar-lhes de tudo, experimente a tristeza e a pena de ver como se lhes escapa a riqueza de serem pobres. E as suas monjas sentem da mesma maneira. Ela ficou com o “senhorio bastante para ter em pouco os bens temporais, pois a falta deles faz crescer o bem interior, o qual traz de certeza consigo outra fartura e quietação” (F 15,15). 
- Esta maneira de pensar é qualquer coisa de ilusório no nosso contexto social actual? 
- Que nos quer dizer Teresa com estas palavras: fartura e quietação? 



Bibliografia: 

1. Álvarez, Tomás, 100 fichas sobre Teresa de Jesús, Burgos, Monte Carmelo 2007. 
2. Álvarez, Tomás, Comentarios al libro de las «Fundaciones», Burgos, Monte Carmelo 2011


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Fundações: Capítulos 9-12



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Acompanhamos Teresa na fundação dos Mosteiros de Malagón na província de Ciudad Real (11 de Abril de 1568) e de Valhadolid (15 de Agosto de1568). E, conjuntamente à acção de Deus através das circunstâncias ordinárias e comuns da vida, vai-nos apresentar duas figuras femininas do incipiente Carmelo descalço: Cassilda de Padilha e Beatriz da Encarnação.

Pistas de leitura 

Teresa relata a fundação de Malagón durante os últimos dias da sua estadia em Salamanca, em 1573. Nos começos de 1574, transfere-se para Alba de Tormes e Segóvia, onde erigirá o novo Carmelo descalço a 18 de Março. Nele incorporará boa parte das carmelitas de Pastrana, a princípios de Abril, depois de abandonar aquela fundação por causa das intromissões e caprichos da princesa de Éboli. Em Segóvia, Teresa vai dispor de quase seis meses de tranquilidade antes de se apresentar na Encarnação para terminar o seu triénio como prioresa. É, portanto, na paz do novo Carmelo de Segóvia, onde retoma o fio das fundações com o mosteiro de Valhadolid. 
É interessante notar que foi no mosteiro de Malagón (provavelmente a 9 de Fevereiro de 1570) onde pela primeira vez Teresa teve a inspiração de escrever o livro das Fundações: “Que escrevesse a fundação dessas casas. Pensando eu como na de Medina nunca tinha achado nada para escrever sobre a fundação, disse-me ‘que mais quereria eu para ver que a sua fundação tinha sido milagrosa?’ Quis dizer com isto que só Ele a tinha feito e, parecendo não levar nenhum caminho, eu me determinara a pô-lo por obra” (Relação 9ª) 

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar… 

1.Teresa é partidária de não fundar nenhum convento com renda. Em princípio, recusa a fundação em Malagón, uma pequena povoação de Ciudad Real. No entanto, aconselhada por pessoas sensatas, muda de opinião. 
- Qual a razão última das nossas posições inamovíveis: afirmar-me a mim mesmo ou procurar o bem alheio como serviço do Senhor? “Disseram-me que fazia mal, porque havendo para isso licença do Santo Concílio, não se devia deixar de fazer um mosteiro, por causa de uma opinião minha, onde tanto se podia servir ao Senhor” (F 9, 3). 
- Acaso não nos fechamos em seguranças enganosas que nos afastam de uma atitude serena de diálogo impedindo a consecução de um bem maior? 

2. Falando de possessões e heranças, que com tanto afinco são conservadas e desejadas, Teresa concentra a sua e nossa atenção no que teve e nos deixou Jesus Cristo: trabalhos, sofrimentos e desonra: “Eia, pois, filhas minhas, tem de ser esta a nossa divisa se quiséramos herdar o Seu reino. Não é com descanso, nem regalos, nem honras, nem riquezas que se há-de ganhar o que Ele comprou com tanto Sangue” (F 10, 13) 
- Como traduzimos na nossa vida pessoal este convite de Teresa? Será que a nossa vida se assemelha à de Jesus, ou procuramos antes a nossa comodidade? 

3. Com essa elegância própria de Teresa, finamente carregada de ironia, adverte aos “cavaleiros de Jesus Cristo e aos príncipes da sua Igreja” que procuram e até justificam um caminho diferente do da cruz: “Ó gente ilustre! Por amor de Deus abri os olhos! Vede que os verdadeiros cavaleiros de Jesus Cristo e os príncipes da Sua Igreja, um S. Pedro, um S. Paulo, não levavam o caminho que levais! Pensais, porventura, que há-de haver um caminho novo para vós? Desenganai-vos!” (F 10, 11). 
- Também nós pensamos, acaso, que nos convém outro caminho diferente do de Jesus? Se assim pensamos, não será uma fonte de mediocridade pessoal e de desigualdades fraternas? 

4. À margem das peripécias da vocação de Cassilda Padilha, Teresa deixa-nos algumas pérolas de como deverá ser a vida religiosa (e qualquer género de vida cristã): “servi-l’O [Sua Majestade] com grandíssimo contento, humildade e desapego do mundo” (F 11, 10) 
-Somos felices na nossa vida religiosa ou familiar? Esta felicidade dependerá de servi-l’O a Ele em tudo? 
- Será a humildade uma palavra vazia de sentido, actualmente? Ou não será antes um cristal que nos ajuda a ver as coisas com maior objectividade, tal como são? A soberba e a presunção não deturpam a realidade? 

5. Outros valores que devem embelezar a vida dos membros de uma comunidade no seio da Igreja: 
“De tão agradável condição e entendimento” (F 11, 11). “Uma alegria modesta que dava bem a entender o gozo interior que trazia na alma” (F 12,1). “Nunca se queixou de qualquer coisa ou de qualquer irmã” (F 12,1). “É incalculável o valor da mais pequenina coisa que se faça por amor de Deus” (F 12, 7). “ Poderá ser que diga mais alguma coisa acerca dela [algumas irmãs dos mosteiros], para que as que andam com alguma tibieza se esforcem por imitá-las e para que todas louvemos o Senhor que assim resplandece Sua grandeza numas fracas mulherzinhas” (F 12,10). 
- Cultivamos estes e outros valores nas nossas relações quotidianas no seio da comunidade, da família, da Igreja?