terça-feira, 2 de agosto de 2011

Caminho 42: “Mas livrai-nos do mal. Ámen”. Pistas de leitura.

Mais uma vez, a Santa parte dos sentimentos do Senhor quando pronunciou estas palavras, para desde aí passar para os nossos ou, mais precisamente neste caso, para os seus, quando repete esta petição final. – Que sentimentos atribui ao Senhor? Parecem-te coerentes com o que se diz d’Ele no Evangelho? – Quais os sentimentos dela) Embora se inspire nos que acaba de atribuir a Jesus, serão todos aplicáveis ao mesmo? Além disso, repara na primeira redacção deste capítulo e na definitiva.
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1.É evidente que esses sentimentos da Santa Madre, pelos quais nos perguntavam ’as pistas’, são basicamente cansaço de viver entre tanto mal ou perigo e, por conseguinte, ânsias de vida plena e eterna: “O pedir isto com grande desejo e com toda a determinação, é para os contempla-tivos grande sinal de que são de Deus as mercês que recebem na oração. Assim, os que o forem tenham-no em muito” (42,3). “Que nos custa pedir muito, se pedimos a Quem é poderoso? Mas, para melhor acertarmos, deixemos que dê conforme a Sua vontade, pois já Lhe demos a nossa” (42,4). – Que achas deste ‘contraste’ entre desejo grande e abandonar-se à Sua vontade? Revê, ora…
2. Tem em conta também o que vai suprimir e acrescentar 13 anos depois (1579: Códice de Tole-do), desde o cume do matrimónio espiritual (que não experimentou até 1572): “O pedir isto com grande desejo e toda a determinação, é para os contemplativos grande sinal de que são de Deus as mercês que recebem na oração; não para fugir dos trabalhos, mas apenas para gozar d’Ele; a quem Nosso Senhor os conceder” tenham-no em muito” (cf. 7M 3,6-8; CC 66 de Maio de 1581,10).
3. O breve e emotivo elogio do Pai-nosso com que começa o epílogo (42,5) é um eco do que já fez no capítulo 37: recordar, rever… (cf. Ficha correspondente)
Propostas conclusivas:
1) Aproveitar a pesquisa das orações da Santa ao longo de todo o livro – que se recomendou fazer no início da primeira ficha – para aprofundar na imagem de Deus que as mesmas contêm, e também para com elas orar no grupo (cf. www.paravosnasci.com: Recursos, Oração partilhada); assim se cumprirá o seu duplo desejo de que outros aproveitem e de fazer que se louve ao Senhor (cf. V 40,23).
2) Evidentemente, qualquer outra ideia ou actividade, que tenha resultado fecunda, poderia ser partilhada com todos através da página do Centenário na Internet.
3) Existe, por exemplo, em espanhol, uma publicação muito interessante e sugestiva: CARMELI-TAS DESCALZAS DE PUJOL (Valência), Juntos andemos. Páginas escogidas de Camino de Per-fección, Madrid 2010. Este trabalho começa com uma boa e sintética introdução à obra, e acaba com uma selecção das principais orações da Santa ao longo da mesma. O principal do trabalho e o que mais nos interessa agora consiste numa apresentação dos de Caminho, que estrutura assim os seus grandes temas:
1. Caminho de terra: a nova família.
2. Caminho de fogo: o amor.
3. Caminho de vento: a liberdade.
4. Caminho de luz: a humildade.
5. Caminho de aço: a determinação.
6. Caminho de água: a oração.
7. Caminho de silêncio: a mulher.
Cada um destes capítulos conta com uma breve e valiosa introdução. O mesmo se verifica em cada um das epígrafes que o compõem, que imediatamente dá passagem a essas páginas esco-lhidas, tudo posto por ordem no estilo que se mostra à continuação:
1.1. A fundação de S. José: “mil vidas daria”.
Como se eu pudesse alguma coisa: C 1,1-2.
Para o que o Senhor nos juntou nesta casa: C 3,1.
O mundo está ardendo: C 1,5.
1.2. A pobreza: “um grande senhorio”.
Os olhos no vosso esposo: C 2,1-2.
Um bem que encerra em si todos os bens do mundo: C 2,5.
Nossas armas: C 2,7-9.
Fazer bem: C 14,4.
1.3. O serviço: “ser tais”.
Procurar ser tais: C 3,2-4.
Encerradas pelejamos por Ele: C 3,5.
Nisto vão os meus desejos: C 3,6.
Trabalhar muito: 4,1.
1.4. O estilo teresiano: “o modo e maneira de viver que se leva nesta casa”.
Em somente doze quis sua Majestade que fôsseis uma: C 8,2.
Monjas e eremitas: C 13,6.
Esta casa é um Céu: C 13,7.
Quanto mais santas, mais conversáveis: C 41,7-9.
Penitências sem ordem nem concerto: C 10,6.
As virtudes interiores: C 15,3.
Andar com santa liberdade: C 41,4-5.
Pregadoras com obras: C 15,3-6.
2.1. Os que amam: “põem a vida em entender como Lhe agradarão mais”.
Os que se amam: C 4,5.
Amam muito diferentemente: C 6,3-5.
Ouro nesta mina: C 6,8.
2.2. Urgem o amor verdadeiro: “não é tempo de jogos de meninos”.
Desejando o seu próprio proveito pelo das outras: C 7,8.
Vosso trato e linguagem: 20,4.
2.3. Avivando o fogo: “tirar-lhes o trabalho e tomá-lo sobre si”… C 6 y 7.
2.4. Amando ao estilo de Jesus: “o capitão do amor”… C 6 y 7.
2.5. O fogo do amor: “dá de si grande resplendor”… C 32,6-7 y C 40,1-2.3-4.7.
E assim com os outros cinco capítulos, numa selecção de temas e textos, repetimos, muito inte-ressante e sugestivo. Portanto, vamos aproveitar e/ ou compartilhar trabalhos deste teor.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

FICHA DE LEITURA 40 E 41

Caminho 40-41: “procurando andar sempre em amor e temor de Deus,
iremos seguras entre tantas tentações
Pistas de leitura.


Essas tentações do título não são só as que vêm descritas nos capítulos precedentes (cf. 40,4; 41,2), mas também as já aludidas muito antes: “mil temores falsos” inventados pelo demónio (por ex. 23,4) e os que fará com que outros os metam (por ex., 21,2) [40,5)]. Além disso, pelo que se depreende das afirmações do Concílio de Trento (Sessão VI, cânone 16), não se pode saber de maneira certa e determinada se se tem amor de Deus (40,2). Então, será possível discernir a presença destas virtudes: amor e temor de Deus? Como cuidá-las? Serão contraditórias ou com-plementares estas virtudes? Que achas que mais preocupa a Santa aqui: os excessos de relaxa-ção ou antes os de rigor e pusilanimidade?
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Apesar das dificuldades acima enumeradas, Teresa é decisiva à hora de esclarecer a nossa primeira interrogação: ”há uns sinais que parece que até os cegos os vêem” (40,3.6-7; 41,1-4). Reflecte, revê, agradece, suplica…
2. À hora de tratar destas virtudes, parece que se remete ao que já foi dito: a importância constan-temente assinalada da humildade e, além disso, os conselhos dados, por exemplo em 39,5. Estás de acordo ou reparaste nalguma outra novidade?
3. Acerca de la 3ª cuestión de ‘las pistas’, el texto teresiano es muy claro desde el principio (40,1-2). Pero para facilitar el asunto, valga la siguiente cita:
3. Sobre a 3ª questão das ‘pistas’, o texto teresiano é muito claro desde o princípio (40,1-2). Para facilitar o assunto, valha a seguinte citação:
Recordemos, finalmente, que ‘amor’ e ‘temor’ são duas virtudes finais do “Caminho”, não só do livro mas do itinerário de oração e de todo o caminhante cristão. O trato com Deus e a prá-tica das outras virtudes cristãs dão como resultado essa dupla expressão do ‘sentido de Deus’: amá-l’O a Ele, mas temendo, ao mesmo tempo, a própria fragilidade. Amá-lo e temer perdê-l’O (…). Sublinhemo-lo: na sua experiência pessoal, a lei de proporcionalidades no crescimento de amor e temor não é inversa: a mais amor de Deus, menos temor; mas ao con-trário: a mais amor, mais de afina e se torna mais puro o temor d’Ele (…) que, na sua dimen-são teologal, não se exprime exactamente como o amor: amamos Deus, mas propriamente não tememos Deus; tememos ofendê-l’O, perdê-lO, ficar sem o seu amor (cf. 1Jo 4,17-18)1.
4. Para a Santa, o temor de Deus supõe indubitavelmente uma séria chamada à vigilância (41,1-4) e bem exigente: “que em coisas deste teor [pecado de advertência] possa haver pouco, a mim não me parece, por leve que seja a culpa, senão muito e muitíssimo” (41,3b-4a). Isso sim, chamada também muito fina, compreensiva, psicológica e espiritualmente: “isto com advertência, que de
1 “T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, pp. 287.288.290.
outra sorte, quem estará sem fazer muitos [pecados veniais]? (41,3a); “…ainda que depois caia alguma vez, porque somos fracos e não há que fiar de nós” (41,4b); “não se desanime, que talvez o permita para que se conheça melhor, mas procure logo pedir perdão” (CT). Pensa, revê…
5. No entanto, não aparecem aqui nada matizadas as alusões ao inferno, à penitência e ao purga-tório (40,9-10). Fê-lo, sim, respectivamente – e repare-se bem – em: a) Ficha Vida 32-34, pergun-tas 1-2; b) CV 15,3; 19,9; 39,3; c) Ficha Vida 20-21,pergunta 5.
6. Em relação à última interrogação das ‘pistas’, e apesar de textos como 41,9 (conclusão!) e 40,9-10, parece óbvio que a principal preocupação teresiana é a liberdade de espírito das suas filhas e a sua “afabilidade apostólica” (cf. 40,5-8 e 41,4-8). – Concordas? Quais os dois ou três textos que escolherias como mais determinantes?
7. Os bens que derivam dessa afabilidade afectam ao próprio orante, e, além disso, melhorarão os ambientes e conversações em que estiver (41,4 fim e 5 início). Pensa, revê, ora…
8. Pelo contrário, os danos de não se ser afáveis, mas encolhidos e apertados, não se limitam ao ficar-se “inabilitada para si e para os outros” (41,5), que já é gravíssimo; mas costuma induzir a juízos temerários (41,6)2: cf. Ficha Caminho 1-3, pergunta 4 c). Além disso, esta atitude também complica a função da priora ou da pessoa a quem compete o serviço de liderar e a animação comunitária (Fundações 18,6-7).
9. No caso de não se ter feito a propósito a pergunta 6, e para acabar no mesmo tom que predo-mina nestes capítulos, repare-se nos textos: “Praza a sua Majestade nos dê o Seu [amor] antes de nos tirar desta vida, porque será grande coisa, à hora da morte…” (40,8) e “Assim, pois, filhas minhas, procurai entender de Deus, em verdade, que Ele não olha a tantas minúcias como pen-sais…” (41,8).
2 “O olhar de Deus nunca é inquisidor nem diminui o homem. Está mais além dos nossos insignificantes acidentes da vida quotidiana, e relativiza as nossas pequenas e inevitáveis incoerências diárias, dilatando assim a nossa alma e o nosso ânimo. Convidando-nos sempre a olhar mais longe, a viver desde um opti-mismo transcendente, e isso apesar das nossas humanas infidelidades e ninharias. Trata-se de ir mais além dos nossos preconceitos ou etiquetas. E aprender a viver a vida sem necessidade de condenar ninguém: nem o progressista se sou conservador, nem vice-versa; nem o da direita se sou da esquerda, nem vice-versa… As pessoas são sempre mais importantes do que as ideias”: J. A. MARCOS, Un viaje a la plenitud. El ‘Camino de Perfección’ de Teresa de Jesús, EDE. Madrid 2010, pág.

Ficha de Trabalho: Caminho 38-39

Image Caminho 38-39: “E não nos deixeis cair, Senhor, em tentação;
mas livrai-nos do mal” (37,5).

Pistas de leitura.
A petição do Pai-nosso é claríssima, e os próprios títulos de ambos os capítulos o confirmam: “declara algumas tentações (…) e propõe remédios para que se possam livrar delas”. Trata-se, portanto, de captar bem aquelas (tentações) e estes (remédios).

No entanto, e como é lógico a estas alturas da obra, a Santa centra-se nos perfeitos ou contemplativos, não nos principiantes. E – o que é mais importante –, embora trate de “algumas tentações”, destaca uma em especial, de modo que é preciso reparar bem nela.

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Começa por recordar o que já destacou em 36,8-13: “os que [têm contemplação] não pedem ao Senhor que os livre de trabalhos, nem das tentações, nem de perseguições e pelejas; mas antes os desejam, pedem e amam […] Nunca temem muito os inimigos declarados” (38,1-2). Se não se trabalhou no capítulo 36, seria conveniente fazê-lo agora; caso se tenha feito, pelo menos recordá-lo.
2. Sendo assim, quando reza esta petição, Teresa não pensa nesses “inimigos declarados”, mas em “uns inimigos traidores, uns demónios que se transfiguram em anjos de luz” (38, 2). A primeira coisa que isto evoca nos contemporâneos da Santa, é a possibilidade de que o mau espírito trate de confundir o orante provocando nele gostos e regalos. – Que te parece a maneira dela tirar importância a esta tentação, considerando-a inclusive como facilitadora de bens para o contem-plativo (38,3)? – E os seus estratagemas para o conseguir: exercício de humildade, recta intenção e, sobretudo, confiança no Senhor 1 (38, 4; cf. Fundações 8,3)?
3. É evidente que onde teme um possível “grande dano” é se chegamos a “crer que temos virtudes não as tendo”: - que achas dos perigos que ela prediz como consequência (38,5) 2
4. O primeiro remédio para evitar este temível dano é como bem indica o Pai-nosso, “oração e suplicar ao Pai Eterno que não permita que andemos em tentação” (38,5) 3: revê, ora…
5. Outro remédio. Neste caso, para uma tentação tão parecida às anteriores que pode assimilá-las, se bem que não sejam idênticas: agora, não se trata de crer que se têm virtudes, que, em realida-de, não se possuem, mas afiançar-se naquelas que de facto se têm. Contra isto, uma vez mais: humildade: consciência de que as virtudes são dons que nos serão retirados com certa frequência, precisamente para nos exercitarmos nela (38, 6-7). – Que te parecem os exemplos que dá nesses parágrafos (cf., além disso, Vida 31,19; Fundações 25,1)? Reflecte, revê, ora…
6. “Notai outro aviso” (38, 8): contra virtudes imaginadas no nosso foro interno: “não façais caso (…) até que vejamos a prova” na vida, nas ocasiões e nas próprias atitudes a esse respeito. E, se essa virtude se confirma, então voltar ao conselho dado anteriormente (38, 6-7).
7. Põe “outra tentação” na mesma linha, embora com a agravante de que não é só uma questão de pensamento, mas com “costume de dizê-lo” (38,9). No entanto, reafirmam-se os mesmos remédios. Mas, ao dar o exemplo correspondente, volta ao tema da pobreza de espírito (cf. Cap. 2; 33, 1) que na primeira redacção analisou com maior detalhe4 . Reflecte, revê…
8. Achas que é adequado traduzir esta tentação (38,5-9) como “a solapada deformação da imagem que o orante tem de si mesmo” 5?
9. Agora bem, importantíssimo: muito cuidado com as falsas “humildades que põe o demónio” (39,1-3; Ficha Caminho 16-18, pergunta 3; Vida 7,11.13;19,11; 38,8-9.16 e suas Fichas). Pensa, ora…
10. E uma última tentação,””bem perigosa” (39,4-5), sobretudo para os principiantes: Em que con-siste? Qual o seu perigo? Remédio: acompanhamento espiritual e “conhecimento próprio”. Revê, agradece, intercede…
11. Além destas tentações, lembras-te de outras provocadas por “demónios que se transfiguram em anjos de luz” (38,2)?
12. A Santa conclui com os seus melhores recursos pedagógicos, tão presentes em toda esta obra: ora apaixonadamente ao próprio Deus, e, por outro lado, ironiza com muita agudeza contra os inimigos deste caminho (39,6 e 7). Repara nisso, pondera-o…

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1 “Essa suprema garantia da fidelidade de Deus para os rectos de coração será a saída libertadora do erro. Tirará o orante dos truques da própria psicologia ou das miragens do anjo da mentira”: T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, pág. 271.

2 Cf. 10, 4: “Estas virtudes [humildade e mortificação] têm tal propriedade, que se escondem de quem as possui, de maneira que nunca as vê nem acaba de crer que tem alguma, embora lho digam; mas tem-nas em tanto, que sempre anda procurando tê-las, e as vai aperfeiçoando em si cada vez mais, ainda que bem se assinalem os que as têm; logo se dão a conhecer aos que com eles tratam, sem mesmo o quererem”.

3 Cf. Salmo 18 B: “A lei do Senhor é perfeita e reconforta a alma; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são rectos, alegram o coração (…) Embora o vosso servo de deixe guiar por eles e os observe com cuidado, quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros? Purificai-me dos que me são ocultos. Preservai também do orgulho o vosso servo, que ele não tenha sobre mim poder algum: então serei irrepreensível e imune de culpa grave”.

4 CE 66, 6. O demónio faz-vos entender que sois pobres (e tem alguma razão, porque fizestes voto de pobreza - com a boca, já se vê), e ainda a outras pessoas que têm oração. Digo "com a boca", porque é impossível se com o coração entendêssemos o que prometemos e o prometêssemos, pois aqui o demónio pode meter-nos nesta tentação durante 20 anos ou por toda a nossa vida; sim, veríamos que enganamos o mundo e a nós mesmos. Agora bem, prometida a pobreza, ou dizendo aquele que pensa que é pobre: "eu não quero nada"; " tenho isto porque não posso passar sem ele", enfim, “hei-de viver para servir Deus"; "Ele quer que sustentemos estes corpos…”; são mil coisas diferentes que o demónio ensina como anjo, (porque todo isto é bom), e assim fá-lo compreender que já é pobre e tem esta virtude, que tudo está conseguido. 7. Agora, vamos à prova; isto não se conhecerá de outra maneira a não ser procurando andar-lhe sempre à mão; se houver cuidado, muito depressa dá sinal: tem excessiva renda para o que é preciso (entenda-se o necessário e não que possa passar com um criado que traga três); põe-lhe um pleito por qualquer coisa ou deixa de pagar o pobre lavrador; tanto desassossego lhe causa e tanto põe naquilo, como se sem isso não pudesse viver. - Dirá que "para que não se perca por mau recato", logo aparece uma desculpa. Eu não digo que o deixe; mas que o procure se for bom; e se não, também. Porque o verdadeiro pobre tem em tão pouco estas coisas que, por algumas causas as procura, jamais o inquietará, porque nunca pensa lhe há-de faltar. E se lhe faltar, não se importa muito; considera-o coisa acessória e não principal. Como tem pensamentos más elevados, à força de braços ocupar-se-á destes outros. 67,1. Um religioso ou religiosa (pois já está averiguado que o é, ou pelo menos que o há-de ser) nada possui porque, às vezes não o tem; mas, se houver quem lho dê, será para admirar lhe pareça que sobra. Sempre gosta de guardar alguma coisa, e se puder ter um hábito de tecido mais fino, não pede que seja de má qualidade; alguma coisinha que pode empenhar ou vender, mesmo que sejam livros, porque, se aparece uma doença, precisa habitualmente de mais regalo. Pecadora de mim! É isso o que prometeste? Despreocupar-se de si e abandonar-se a Deus, venha o que vier; porque se andais amealhando para o futuro sem distracção, tereis renda certa. 2. Embora isto se possa fazer sem pecar, é bom atender a estas imperfeições, para ver que muito nos falta para ter esta virtude, e a peçamos a Deus e a procuremos; porque, com pensar que a temos, estamos descuidados e enganados, que é ainda pior.

5 T. ÁLVAREZ, Paso a paso… pág. 271.