sexta-feira, 1 de julho de 2011

DEUS ESTÁ PRESENTE NO CORAÇÃO DE QUEM REZA E AMA


"É claro: onde está o rei, aí está a corte, como se diz. Ora, como sabeis, Deus está em toda parte. Onde está Deus, aí está o céu. Por conseguinte, podeis crer, e não há menor dúvida, onde está Suma Majestade, aí está toda a glória.

Por isso, diz Santo Agostinho que buscava o Senhor em muitas partes e veio a achá-lo dentro de si mesmo.

Será de pouca importância para uma alma dissipada compreender esta verdade e ver que, para falar a seu Pai eterno e alegrar-se com sua companhia, não tem necessidade de ir ao céu, nem de clamar em altas vozes?

Por baixinho que fale, está Ele tão perto que sempre nos ouvirá. Para ir buscá-Lo não precisa de asas: basta pôr-se em solidão e olhá-Lo dentro de si mesma.

Não estranhe tão bom hóspede. Fale-lhe como a um pai, com grande humildade. Peça-lhe como a um pai. Conte-lhe seus sofrimentos e implore remédio para eles, entendendo que não é digna de ser sua filha" (Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição 28,2).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 30-31


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Caminho 30-31:Oração de quietude:
“santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso reino”.

Pistas de leitura.
Depois da invocação inicial ao Pai do Céu, a Santa comenta juntas as duas primeiras petições do Pai-nosso.

– Porquê juntas? Em que baseia esta inseparável correlação? Além disso, porque pedir particularmente? Não bastaria “dizer: dai-nos, Pai, o que nos convém…”? Por outro lado, e tal como anunciam os títulos dos capítulos, estas petições bem rezadas desembocam na oração de quietude (em que consiste?), para a qual dá conselhos, avisos (quais?). Além disso, falar de contemplação mística (quietude) é sem dúvida um prato forte para as leitoras; precisamente por isso, vai bordando a exposição do tema com outros recursos da sua pedagogia: a) experiências de conhecidos e próprias; b) exemplos bíblicos; c) comparações, imagens e símbolos 1 ; portanto, atender a toda esta variedade de recursos.

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Somos nós, evidentemente, e não o Pai, os que precisamos de pedir “coisa assinalada”, quer dizer, formular petições particulares para nos consciencializarmos do que pedimos e necessitamos (30,1-3), para aumentar o desejo (Carta de S. Agostinho a Proba: Ofício de Leitura, Domingo XXIX; cf. também Ficha Vida 39-40, pergunta 3).

2. “Entendamos, filhas, o que pedimos e quanto importa para nós importunar por isso e fazermos o que pudermos…” (30, 4). – Tens bem presente que nem sequer poderias começar a orar sem a sua graça (cf. 1Co 12,3)? Costumas importuná-l’O para isso?

3. – Conheces experiências como as referidas em 30,5-7? Além disso, achas que a iniciação à oração contemplativa, com base na humilde recitação do Pai-nosso (PN) deve ficar enquadrada entre esses dois modelos extremos: o louvor dos que estão no Céu e esse exemplo aparentemente pobre de oração vocal 2 ? – E também que possa ser introduzido na oração contemplativa mesmo quem se considera inimigo dela (final de 30, 7)?

4. O que faz a ligação entre as palavras rezadas (as duas petições) e os “sorvos” de contemplação é o recurso à “companhia do Mestre” que nos ensinou esta oração. Companhia orante, quer dizer, solicitada pronunciando e repetindo as palavras do PN em comunhão com os sentimentos do Mestre. De maneira que “aprender” a rezar contemplativamente a oração dominical não consista em nos apropriarmos das palavras e seu conteúdo, para as reproduzir diante do Pai, mas antes numa secreta osmose: entrar em comunhão com as palavras e sentimentos de Jesus (…) Por isso, Teresa irá aplicando a cada uma das petições do PN esta chave secreta: um simples anelo de explorar qual foi o sentido, quais os sentimentos que brotam na alma de Jesus quando disse “Pai” ou “seja feita a vossa vontade” ou até “livrai-nos do mal”. Aproximar-se dessa maravilhosa sinfonia de sentimentos filiais da oração do Senhor, é o grande pórtico de entrada na oração contemplativa, profundamente cristã. A pedagogia da Santa aponta para aí quando fala da ponte lançada entre o rezar e o contemplar 3 .

5. Embora a primeira descrição da oração de quietude pareça requerer pouco discernimento (31, 2-3), imediatamente se corrige (31, 8). Repara nisso com a ajuda da Ficha Vida 14.15. Ao princípio, sentimos que há qualquer coisa de embaraçoso nesta nova relação. Estamos muito habituados a fazer qualquer coisa que nos incomoda, quando o único que fazemos é estar tranquilos. As pessoas dizem-me com frequência: “Não sei bem o que aconteceu. A minha oração está cheia de paz, mas na maior parte do tempo parece estar vazia”. E eu pergunto: “Sentias impaciência?” Respondem: “Não! Enquanto rezo sou feliz e sinto-me satisfeito. Parece como se estivesse a fazer qualquer coisa. Às vezes surpreende-me estar simplesmente sem fazer nada; outras, nem sequer estou certo de se adormeci”. Chegados aqui, costumo perguntar se essas dúvidas surgem enquanto rezam ou depois, quando examinam a oração; isto último é um bom sinal para saber se o que aconteceu é autêntica oração. Convém, no entanto que no-lo confirme um bom director e pedir constantemente luz ao Senhor, tanto para o director como para si próprio 4 .

6. Conheces experiências deste género: 31, 4-5?

7. Ter-se-ão captado com facilidade os avisos que dá a Santa em relação à quietude. Detém-te, portanto, em cada um (31, 6-3; cf. V 15, 6-9) e revê, agradece, suplica…

8. No fim, insiste-se sobre dois erros possíveis (já conhecidos, cf. V 14-15): um existencial – voltar-se para a terra, pôr a vontade em coisas baixas (31,11-12a) 5 ; outro racional – impedir a quietude para cumprir as suas devoções (31, 12-13; portanto, reflecte, ora…

O desfile das figuras que a Santa emprega nestes capítulos culmina na da criança e a mãe (31, 9). Todas elas convergem como um feixe de luz, num motivo doutrinal. Tanto na oração como na vida do homem espiritual, há uma componente que precisa de um cuidado especial. Trata-se da gratuidade. Em proporção muito elevada, a vida é algo que o homem recebe, não que ele a produza ou a dê a si próprio. E a oração é, também em proporção muito elevada, amizade que lhe oferece o outro Amigo, não amizade que se vai conquistando palmo a palmo. Daí a importância que reveste esse saber adoptar – na vida e oração – a posição da criança regalada pela mãe: “que sem trabalho do entendimento” (tarefa mínima) “está a vontade amando” (recepção máxima) […] Ao cristão de hoje, tão ufano do seu poder de acção, é bom recordar esta lição teresiana 6 .




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1 Cf. T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, pp. 212-215.
2 Ibidem, p. 204.
3 Ibidem, pp. 204-205.
4 T. H. GREEN, Cuando el pozo se seca. La oración más allá de sus comienzos, Sal Terrae, Santander 1999, pp. 56-57.
5 No entanto, repare-se: “ainda que [o Senhor] não tire de todo o que deu, quando vivem com a con-sciência limpa” (31,12).
6 Conclusão do artigo: T. ÁLVAREZ, “Está el alma como un niño…” Glosa al pasaje teresiano de Camino 31,9: Monte Carmelo 93 (1985) 148-153.

Ficha de Trabalho: Caminho 28-29


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Caminho 28-29: Oração de recolhimento II

Pistas de leitura

Continua o tema, agora desde a perspectiva do orante (cf. primeiro parágrafo da ficha anterior) insistindo sobre tudo em oferecer os meios para aprender a recolher-se (cf. título dos capítulos): um claro indício de que na pedagogia teresiana prevalece a prática sobre a teoria. Para dar instruções, a Madre Teresa deixa a um lado toda a roupagem magistral e entrega-se ao seu estilo coloquial; sobretudo repetindo e enfatizando o que lhe interessa inculcar 1.

Continuamos, portanto, a centrar a atenção nesses meios em que tanto insiste. No entanto, nestes capítulos, define a oração de recolhimento além de explicar as suas vantagens mediante uma série de imagens e comparações; por isso, atenção também a essa definição e a estas imagens.

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
O pressuposto de base reduz-se a dois conselhos: “Olhai que vos importa muito compreender esta verdade: que o Senhor está dentro de vós, e que estejamos ali com Ele” 2 ; “pôr-se em recolhimento e olhá-l’O dentro de si mesma e não se estranhar de tão bom hóspede…” (28, 2). – Como? – Reflectindo, revendo, orando… sobre cada um dos seguintes pontos:
1. Evitando uma falsa humildade (28, 3), que, além disso, deveria estar superada a estas alturas (cf. 16,8 ou 12, segundo as edições: “não tenhais medo que falhe por Ele, se não falharmos nós…”).

2. Valendo-se da imaginação, inclusive de maneira muito simples (28, 9-10) 3 , e meditando que temos uma alma (28, 11a), quer dizer, considerando o supradito pressuposto (que o Senhor está dentro de nós) e que estamos capacitados para a relação com Ele e, portanto, actuando em consequência tanto oracional como moralmente: “não O deixara tantas vezes só (…) e mais, procuraria que não estivesse tão suja [a minha alma]” (28, 11; cf. V40, 9).

3. “Pensais, filhas, que vem sozinho? Não vedes o que diz seu Filho: ‘que estais nos Céus’? Pois, a um tal Rei, certamente que não O deixam só os cortesãos; mas estão com Ele rogando-Lhe por todos nós, em proveito nosso, porque estão cheios de caridade”(28, 13). Recordar o trabalho a este respeito na Ficha de V 37, pergunta 7, e voltar a pensar no assunto.

4. “E ainda nas mesmas ocupações, retirarmo-nos em nós mesmos. Ainda que seja só por um momento…” (29, 5) 4 .
5. Que te parece a afirmação e, de certo modo, a recomendação de se recolher com os olhos fechados, sobretudo nos princípios (28, 6)? É habitual para ti e/ou no teu contexto? Preferes outras maneiras de fixar a vista ou servir-se dela?

6. Muito mais importante: o sinal e o fruto principal de que este acostumar-se a recolher-se na oração foi bom é a aquisição, no sucessivo, do hábito, calma e facilidade para o recolhimento (28, 7); portanto, revê, agradece, suplica… Por outro lado, a Santa continua ainda, no final destes capítulos, a insistir na importância deste acostumar-se, empenhar-se… mas acrescenta um importante pormenor cronológico: “em um ano e talvez em meio, saireis com lucro, com o favor de Deus” (29, 8). Uma vez mais, reflecte, ora…

7. A Santa dedica o começo do cap. 29 (1-3) a um tema talvez surpreendente: “Do pouco em que se há-de ter o ser favorecidas pelos prelados” (título). Estes parágrafos, tão parecidos ao que tratou nos caps. 12-15, que função têm aqui? Servem para pôr em evidência um pressuposto absoluto: quem tenha o centro de gravidade da própria vida fora de si, seja no que for (mas muito mais no campo afectivo), frustra de antemão toda a entrada na oração e recolhimento. Não poderá instalar-se dentro de si, no seu espaço interior, pois encontrar-se-ia com uma interioridade fragmentada e descentrada 5 . Portanto, se acha que ali não foi suficientemente considerado (cap. 12-15), voltar a fazê-lo agora.
Além disso, não há dúvida de que estes breves parágrafos acrescentam ainda pormenores originais ao que se trata nos capítulos 12-15, tanto com o que diz em 29, 1 (veja-se), como, por outro lado, quando afirma “quanto menos consolações exteriores, mais mercês vos fará (29,2), visto que:
Choca enormemente tanto falar sobre a pobreza material e espiritual (dada a semelhança que tem com o despojo, o amor kenótico e a cruz de Cristo) com a enorme dificuldade que temos em reconhecer a presença de Deus nos nossos fracassos pessoais, comunitários e apostólicos. A leitura cristã da vida inclui a possibilidade de que o padecer, o negar-se a si mesmo seja lugar de bênção e de encontro com Deus. Na vida dos nossos fundadores, muitas vezes se lhes torceu o caminho e se encontraram com dificuldades, com fracassos e, no entanto, reconheceram que era aquele o caminho pelo qual Deus os conduzia com braço poderoso e mão estendida. No entanto, quando os nossos projectos e planos fracassam, não costuma brotar espontaneamente em nós o reconhecimento de que somos pobres e que, por conseguinte, tudo esperamos de Deus; que o Senhor talvez nos queira levar por outro caminho; que só Ele constrói a casa, não o nosso engenho, a nossa planificação. Muito mudaria o ambiente espiritual das comunidades, congregações e equipas de trabalho apostólico se lêssemos desde esta perspectiva os nossos dissabores; se isto nos levasse a ter um coração mais desprendido, mais confiado em Deus, mais abandonado nas Suas mãos. Se, em lugar de procurar culpáveis, reclamar responsabilidades, submeter a juízos sumaríssimos, quer pública, privada ou interiormente, e, por conseguinte, pôr em perigo a comunhão, os nossos fracassos levar-nos-iam a crescer juntos vocacionalmente, a aprofundar a nossa oração, a purificar as nossas intenções, a fomentar uma permuta espiritual mais profunda 6 .





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1 T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, p. 190.
2 Ibid. p.184.
3 A propósito deste imaginar, fazer “de conta que dentro de nós há um palácio de enormíssima riqueza…” (28, 9). Não esquecer, face à futura leitura do livro da Moradas, que escreveu este parágrafo (e V40, 5) mais de dez anos antes de afirmar: “estando eu hoje suplicando a Nosso Senhor que falasse por mim… ofereceu-se-me o que agora direi para começar com algum fundamento: que é considerar a nossa alma como um castelo, todo ele de um diamante ou mui claro cristal” (1M 1,1).A seu tempo, haverá que indagar sobre este ‘desfasamento cronológico’.
4 Além do exercício concreto que isto supõe e, portanto, da revisão a que nos convida, o P. Tomás vê nisso uma ajuda fundamental contra ‘o risco de introversão’ (Paso a paso…pp. 194-195); para os que puderem ter acesso a estás páginas, seria muito aconselhável que também as trabalhassem detidamente.
5 Ibid. pp. 191-192.
6 G. URIBARRI BILBAO: Portar las marcas de Jesús. Teología de la espiritualidad da la vida consagrada, DDB, Madrid 2001, p.338.

Ficha de Trabalho: Caminho 26-27


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Caminho 26-27: Oração de recolhimento I

Os capítulos 26-27 estão dedicados a declarar o que é a oração de recolhimento e a oferecer meios para adquiri-la (cf. títulos dos mesmos) 1 . E como a oração cristã é sempre encontro entre duas pessoas, por isso mesmo permite contemplar o mistério nas suas dimensões fundamentais: a cristológica (caps. 26-27 ) e a antropológica (caps. 28-29 ).

Pistas de leitura
Este passo do “recolhimento” consiste na aprendizagem e avanço no caminho da oração através de uma fase de interiorização que torna a oração mais pessoal, mais profunda, mais simples e contemplativa. O primeiro painel do díptico (caps. 26-27) insiste em que recolher-se não é ensimesmar-se (…).Seria desolador entrar dentro de si e encontrar-se só consigo mesmo 2 . Qual é, portanto, a finalidade última desse constante “acostumar-se” a que a Santa nos chama nestas páginas? Que conselhos dá para isso? Que orações compartilha e facilita como exemplo e estímulo?

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Como ficou dito anteriormente, aqui, como sempre, a Santa Madre anima a iniciar-se na oração de recolhimento; há uma grande presença de chamadas a “acostumar-se, acostumai-vos…” a várias coisas: olhá-l’O, falar-Lhe… Apesar desta abundância, a principal finalidade está clara: acostumar-se a “ que o seu Mestre o ama” (26, 10; cf. 26, 4; 27, título e 5a). Será este o fundamento e o ponto de partida da nossa oração, nossos conselhos a outros, nossa pastoral…? Revê, agradece…

2. “O exame de consciência, dizer a confissão e persignar-se, já se sabe que há-se ser a primeira coisa” (26, 1). Não se trata evidentemente do mais importante, como demonstra o resto destes capítulos. Além disso, a maioria de entre nós não segue à risca este conselho: exame, confissão, persignar-se. No entanto, a consciência de cada um e a sua situação e, ao mesmo tempo, os ‘ritos de pausa na quotidianidade’ (persignar-se, concentrar-se, posição, respiração) são, sem dúvida, fundamentais tal como a citação o indica. – Tem-los em conta? Exercitas-te neles…?

3. É óbvio que o meio mais importante é a educação do olhar, a palavra, a escuta (26, 2-10) 3 : “como O quiserdes, O achareis” (26, 3); “se estais alegres, vede-O Ressuscitado” (4); “se estais com trabalhos ou tristes…” (5). Revê, ora… Por outro lado, não te esqueças de que, embora isto seja bom, não exclui o ‘contrário’: cf. como a liturgia nos ajuda e obriga a evitar objectivismos e individualismos em excesso, quando propõe tempos e festas (Páscoa e domingos, mesmo que eu esteja triste ou penitente; Quaresma, ainda que me sinta eufórico…) ou tantos salmos como rezamos no Ofício Divino, sem que dependam do nosso estado de ânimo, mas que nos fazem solidários com os outros (cf. Completas de 6ª feira). Revê, agradece, intercede…

4. “O que podeis fazer para ajuda disto é procurar trazer uma imagem ou retrato deste Senhor que seja a vosso gosto” (26,9; cf. V 22). “É também grande remédio pegar num bom livro em romance” (26,10; cf. 17,3; V4, 9; 9, 5) e, muito mais, o Evangelho (21, 4; 26, 3-7. “Aconselharia eu aos que têm oração, sobretudo ao princípio, que procurem amizade e trato com outras pessoas que tratem do mesmo” (V 7, 20).”Aproveitava-me a mim também ver campo ou água, flores” (V9, 5). E, como não podia deixar de ser, acompanhamento de mestres (cf. V13). Toda uma lista de ajudas para ajudar a recolher-se. Reflecte, agradece…

5. A primeira e preciosa oração que aqui nos oferece a Santa (26, 6), não se reduz unicamente a tomar consciência do amor de Deus: o famoso “andemos juntos, Senhor” leva consigo propósitos de comprometer a vida por e com Ele; não se reduz a mero sentimentalismo. Uma vez mais, rever, orar…

6. A segunda oração não é menos bela, mas mais longa e até, se possível, mais cheia de pormenores do que a anterior: quase todo o capítulo 27! Multiplicam-se os motivos para contemplar, agradecer e afiançar-se: a infinita e injusta (para o nosso fraco entendimento) bondade do Pai (2b); a revelação da divindade do Filho (4); a alusão final ao Espírito Santo, para que continue o capítulo em cada um (“enamore a vossa bondade e vo-la prenda com grandíssimo amor”: 7). Por conseguinte, as evidentes intuições trinitárias que isto implica: Deus Trindade, Comunhão, é ânsia de Comunhão com todos… Portanto, há muito para aprofundar.
Mas, além disso, há pormenores talvez mais originais e curiosos, porque supõem certa correcção ao próprio Deus, como por exemplo, a sua intercessão perante o Filho para que olhe pela honra do Pai (27, 2-3; cf. o caso ao invés em 3,8). – Que achas? Que te sugere…?

7. Terá chamado a atenção a crítica da Santa ao que o casamento suponha para a mulher no seu contexto: “ vede de que sujeição vos livrastes, irmãs!” (26,4). Todos sabemos que isto é um problema e erro social, mas que o casamento cristão, embora exija a sua ascese própria, consiste na comunhão dos cônjuges e não na sujeição de um ao outro? Além disso, fica claro que a autêntica oração e vida cristã é sempre social e eclesialmente renovadora e, neste sentido, crítica e revolucionária? (cf. a questão das linhagens em 27,6)? Se não se sabia, convém aprofundar, formar-se nestes temas.



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1 “Estamos perante o tema central do Caminho. Lembremo-nos! Na pedagogia teresiana, a arte de recolher-se e entrar dentro de si é uma espécie de passo intermédio entre a oração simples rezada e a oração de pura contemplação. Degrau de passagem de uma à outra”; T.ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, p.181.
2 Ibidem.
3 Começando pelo exterior “para despertar e dirigir o olhar interior: a atenção, o próprio espírito, reeducando os sentidos, aguçando a ponta penetrante da fé e do amor”: ibid.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 22-23

Ficha de Trabalho: Caminho 22-23

ImageCaminho 22-25: “Começa a tratar da oração” II.
Convicção fundamental: a oração é sobretudo relação pessoal.

Pistas de leitura.

Depois de começar a tratar de oração pelas atitudes fundamentais, centra-se agora na convicção básica: a oração é sempre e sobretudo relação pessoal (“tratar de amizade”: V 8, 5); portanto, não é lógico pôr em confronto os diferentes tipos de oração, como faziam os “letrados”, mas sim que os diferente tipos ou métodos hão-de tender a essa mesma relação e podem inclusive complementar-se para isso.

- Que tipos de oração nomeia e define, pelo menos brevemente, nestes capítulos?
- Que relação existe entre eles? Em qual se centra, porquê e quais as suas exigências fundamentais?


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…

1. “Não é razão que, por Ele ser bom, sejamos nós descomedidos” (22,4): revê, agradece…

2. “Porque, cá nesta terra, não se têm em conta as pessoas para lhes dar honras, por muito que as mereçam, mas sim suas fazendas…” (22, 4-5): de novo, revê, intercede, agradece…

3.Ao mesmo tempo que a Santa insiste na convicção fundamental , também reitera e concretiza aquela determinação-chave, segundo os capítulos anteriores: além do propósito firme de perseverar no caminho da oração (cap. 23, título), tem de se ser fiel a um tempo concreto e autenticamente dedicado a ela (23, 2). Portanto, revê…sem perder de vista, evidentemente, o parágrafo 23, 3).

4. A propósito dessa necessária determinação, insiste em três razões interessantes a favor:
- Razão de amor (23,1-3): “a quem tanto nos tem dado e continuamente dá”, vamos tirar-lhe esse pouquinho tempo dedicado à oração?
- De estratégia defensiva ascética (23,4): o demónio não se atreve com os determinados, mas sim muito com os inconstantes.
- De eficácia psicológica (23,5-6): como quem sabe que a batalha é de vida ou morte, que luta sem pensar na rendição (5a). E aqui, melhor, pois já foi dito que há sempre prémio (5b), como garante o Evangelho (6).
- Tens ou conheces experiências que te confirmem estas razões, particularmente as duas últimas? …

5.Embora a oração vocal possa parecer a forma menos interiorizada e interiorizante da oração, há pessoas e situações para as quais ela é imprescindível: entendimentos desenfreados (19,2); pessoas atemorizadas pelo ambiente (24,1); situações de bloqueio (24,4-5); e aqueles que Deus quer (por ex., 18,3; 19,2). – Qual a tua opinião? Tens experiência de algum destes casos? Pudeste ajudar alguém de um modo similar? Revê, ora…

6. A esta altura do tema, certamente está mais claro que a oração é, antes de mais, atenção ao Outro, relação com Ele. Portanto, não se pode reduzir a repetir palavras mecanicamente; a isso contribui a soledade que a oração exige sempre (24,4): não só apartamento, mas sobretudo recolhimento, estar concentrados no Amigo: “Este tipo de soledade (.) será possível e exercitável em plena reza de grupo [também e especialmente na liturgia], na medida em que a atenção aos outros não interfira nem obnubile o primado da atenção a Ele”2. Reflecte, revê, ora…

7. Não obstante o anterior, há quem diz não poder rezar senão vocalmente, como desculpa para se poupar ao esforço, ao hábito de se recolher (24,6). Uma vez mais, revê, ora…

8. No cap. 25, a Santa Madre define claramente os três tipos de oração dos que tem vindo a tratar em todo este conjunto, e também a sua relação, a possibilidade de passar de um a outro: tens experiência de alguma coisa assim?…

Ficha de Trabalho: Caminho 19-21

Ficha de Trabalho: Caminho 19-21

ImageI. Atitudes fundamentais: desejo e “muito determinada determinação…”

Pistas de leitura.
“Começa a tratar da oração” (cap. 19 título)1:
- Algo excelente e muito desejável (19): a) excluindo desde o principio um certo tipo de oran-te e de oração e, em vez disso, centrando-se noutro: quais e por quê? b) Destacando três grandes propriedades daquela: reparar bem nelas.
- A ela estamos todos convidados e a todos devemos de arrastar (20): por quê e como.
- Mas, não obstante, requer uma “muito determinada determinação” (21), pois o caminho está cheio de “trabalho e contradição” (19,14): quais são aquela e estes?

Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Revê cada uma das três grandes propriedades que a santa atribui à oração: tens experiência de alguma? Recorda, agradece…

2. Para aprofundar: “com que sede deseja ter esta sede!” (19,2); não há oração contemplativa de verdades a secas, mas a entrada na contemplação desperta e desvela o amor, os desejos, o sen-tido de Deus e a pulsação de infinito que late, adormecida, no espírito humano. A contemplação é um derivativo de todo o ser do orante, que se vai sentir convidado à presença de Deus e requerido de amor2.

3. Teresa alude nestas páginas ao muito que ajudaria para a oração “saber as propriedades das coisas” (19,3), ter conhecimentos científicos: que te parece? Aconteceu-te alguma vez?…

4. Há um sério perigo entre tanta riqueza: a indiscrição no desejo e as penitências… ocasiões em que será preciso que interceptar aquele (19,10.12) e “limitar o tempo de oração, por gostosa que seja” (19,13): conheces algo assim. Concordas? Revê, ora…

5.Entende-se bem porque o capítulo 19 não contradiz o 17? Cf. 20,1-3.

6. No cap. 20 a santa insiste reiteradamente no trato e linguagem que hão de ter aqueles que vão a caminho da fonte de água viva da contemplação. Aprender essa língua. Ensiná-la. Não equivocar-se passando a usar a que se fala no mundo3: este é o verdadeiro amor aos outros (4), a sua liberdade (5) e apostolado (6); cf. Ficha cap. 6-9, questões 4 e 7 e, si não se tratou então, faça-se agora.

7. “Há alguns espíritos tão engenhosos que nada os contenta” (21,3), apesar de que o melhor e mais simples é centrar a oração no Evangelho (cf. 21,4): pensa, revê, ora…

8.Achas que são actuais os medos com os quais se ameaçava os orantes (cf. sobre todo, embora não só, cap. 21)? Haverá alguma outra dimensão fundamental da vida cristã, além do exemplo da oração, sujeita a semelhantes pressões no nosso contexto actual?4

9. Sea respeito à oração o a outra dimensão fundamental da vida cristã, conheces experiências do “grande bem” descrito em 21,9? Recorda, agradece…

10. A importância da comunhão com a Igreja, para a santa está fora de questão (cf. 21,10), mas isso não evita que critique as proibições de livros espirituais (21,3; CE 36,4) ou a obrigatoriedade do latim na liturgia, com a ininteligibilidade que supunha para a maior parte dos fiéis (cf. 24,2). Como vivemos esta tensão entre fidelidade e espírito crítico?

11. A santa madre atreve-se a qualificar a opinião dos letrados e inquisidores como “opinião do vulgo” e, mais ainda, as suas vidas como não conformes à de Cristo (21,10): Que te parece? Como justificar afirmações tão atrevidas?


1 “Desta última – da oração – disse-se pouco [ao leitor]. Mas, quase sem se aperce-ber, emaranhou-se uma e outra vez na oração de Teresa. Desde o capítulo primeiro sabe perfei-tamente como ora esta mulher. Orou com ela: ‘Oh, redentor meu, que é isto que se passa agora com os cristãos…’. Assistiu aos seus solilóquios. E, pouco a pouco, apercebeu-se que ela tem um modo de orar distinto. Em exclamações explosivas, em atitudes de assombro perante o mistério de Deus presente nas coisas e na história. Tal como quando pede ou intercede como quando louva, bendiz ou diz galanteios ao Senhor. É assim que ora uma contemplativa. E precisamente dessa maneira de orar vai falar agora”: T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa com su Camino de Perfección, Monte Carmelo, 112-113.

2 Ibidem, 114.

3 Ibidem, 119. Aflora assim “outra grande ideia do livro: todos os grupos de oração fazem algum apostolado da oração. Não se fecham sobre si mesmos. Possuem uma ‘linguagem’ comunicante. e sabem que todos estão chamados à fonte”: ib. 125.

4 Trata-se “de uma constante na historia da espiritualidade cristã, da tensão confli-tuosa entre acção e contemplação; ou, melhor, da resistência da acção à contemplação; pugna e incompreensão dos homens de acção contra os orantes contemplativos. Uma tensão que com alternativas pendulares de maior ou menor azedume, se repete desde o episódio evangélico de Marta e Maria até nós e até ao nosso clima de ‘aggiornamento’ pósconciliar (…) [A santa] condena isso tudo com uma sentença terminante que julga toda aquela situação: esses, os que retiram livros e atacam a oração dos contemplativos, “fogem do bem, para se libertarem do mal. Nunca vi invenção tão ruim. Bem parece do demónio!” (21,8). Tal e qual. Cada vez que na Igreja pre-valece o medo ao mal sobre o amor ao bem produz-se essa fuga fatal: fugir do bem para se livrar do mal. Unidade de medida que tem alcance muito maior do que pensou Teresa nesse momento”: ib. 127-128.130.

5Ibidem, 151.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Leitura espiritual do poema "Nada te perturbe"




Em homenagem ao aniversário de nascimento de Santa Madre, publicamos a tradução de um texto de Tomás Alvares.

Fonte: Revista "Teresa de Jesús", n. 109
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Parece quase supérfluo fazer a apresentação do poema da Santa. Quem não o conhece? Nós o lemos de sua própria letra, catamo-lo, sussurrando sua música de seda. Tantas vezes repetimos seus versos em grupos de oração, abrindo espaço ao silêncio de todos. Em momentos difíceis o oferecemos ao amigo: veja que tudo passa! Nada te perturbe, dizia Santa Teresa. Deus está acima de tudo...

É tão breve o poema que apenas ocupa espaço. O reproduzimos uma vez mais, para lê-lo pausadamente e debulhar um a um a espiga de seus versos:

Nada te perturbe,

nada te espante,

tudo passa,

Deus não muda,

a paciência

tudo alcança.

Quem a Deus tem,

nada lhe falta.

Só Deus basta!

Como ler o poema? Como entendê-lo e apropriarmo-nos dele? Será um salmo sapiencial, de corte gnômico, como pretendem os entendidos? Ou um salmo íntimo, como certos poemas do saltério bíblico, que convidam a própria alma a prorromper em determinados sentimentos? Por exemplo, "Louva, minh'alma o Senhor, e todo meu seu ser Santo Nome".
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Se é um breve salmo sapiencial, deve ser lido deixando-o flechar-nos na alma como um dardo de cada verso, carregado de ressonâncias, que a partir de cada sentença, nos devolvem às sendas da própria vida, sendas às vezes tortuosas, às vezes encrespadas ou espinhosas.

Se, ao invés, é um salmo íntimo, nos introduz na alma da autora, que vai dizendo a si mesma: "Teresa, que nada te perturbe"...

São duas leituras possíveis, ou dois ensaios de escuta diante da melodia de cada verso. Pessoalmente, prefiro a segunda.

O "nada te perturbe" é uma fineza em solidão. Teresa escreve seu poema a sós. Como fazem sempre ou quase sempre os poetas líricos e os místicos. É certo de que ela não compõe estes versos como um bilhete de envio para convertê-los em missiva espiritual para alguns de seus amigos. Mas os compõe como uma vivência a mais, ou como um simples balbucio da alma.

Em primeiro lugar, Teresa não costuma dirigir-se a seus amigos com o "tu". Nem sequer à sua irmã Juana ou à sua sobrinha Teresita. Basta ler as cartas que lhes dirige. A Teresita, por exemplo: "... filha minha, muito me alegrei com sua carta e de que lhe dêem contento as minhas." A Teresa, trata-a com o "tu" a voz interior: "Teresa, não tenhas medo"; "não te metas nisso", etc. Porém, nesse diálogo, ela é a destinatária do "tuteio".

Ela, por sua vez, só usa a segunda pessoa falando consigo mesma. Ou melhor, quando ela fala à Teresa profunda: "tu, alma minha, por que estás triste?"

Teresa é capaz desse estranho desdobramento de personalidade que lhe permite falar com o tu de si mesma. Exatamente com seu tu interior. Ela tem densa interioridade. Falando do "castelo de sua alma", não diz ela que se parecia com um castelo cheio de moradas? Está convencida de que, nessa densidade da alma, é-lhe possível enviar mensagens (ou clamores) a partir das moradas superficiais até a morada central do castelo. Porque o tu mais identificado com ela reside aí, no centro do castelo. Pois bem, aí, no fundo, nasce seu poema: "Teresa, que nada te perturbe".

À parte essa chave literária ou estilística, há também outra razão puramente espiritual, para propor a leitura do poema como um murmúrio da intimidade. Teresa já tinha vivido muitas coisas na vida. Em seu drama interior, porém, aconteceu-lhe algo tremendo, que a tomou de sobressalto. Foi o encontro repentino com uma Presença interior que a transpassa e a desborda. Essa Presença novidadeira a desconcerta de tal sorte, que prontamente surge, em seu interior, uma voz capaz de sedar toda a onda. A voz interior lhe diz: "Não tenhas medo, Teresa". Referendado pelo tremendo "Eu sou" da Bíblia. Exatamente estas três palavras: "Não tenhas medo, filha, que Eu sou, e não te desampararei" (Vida 25,18).

Esse "não tenhas medo, filha" não seria o ponto de arranque de sua inspiração poética e mística? No Livro da Vida, Teresa o comenta assim: "Parece-me que, segundo estava, eram mister muitas horas para persuadir-me a que me sossegasse, e que não bastaria ninguém. Hei-me aqui sossegada só com estas palavras, com fortaleza, com ânimo, com segurança, com uma quietude e luz, que em um segundo vi minha alma transformada... Oh, que bom Deus!" (ib).
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Pois bem. Sabemos que os autênticos poemas líricos, uma vez criados, tornam-se autônomos, têm vida própria, independentes da vontade do autor que os compôs. E que por isso, são polivalentes ou polissêmicos. Cada leitor pode escutá-los livremente: ou como uma voz em que Teresa excepcionalmente o chama de tu: "a ti, leitor, que nada te perturbe"... ou pode sentir-se convocado a esse misterioso ambiente em que sucedem muitas coisas à autora, e ele a escutará dizendo-se a si mesma: "Teresa, que nada te perturbe! 'Eu sou' está contigo!"

Não esqueçamos. Teresa é uma contemplativa. Nutre-se de palavra bíblica. Através de suas meditações, tantas palavras bíblicas ficaram presas às cordas da harpa interior.

Em nosso poema, o certo é que cada verso resulta ser um anel enfeitado de palavras bíblicas que ela passou tantas vezes do livro aos olhos, dos olhos à alma.

Nós, leitores de seu poema, podemos rastrear o eco dessas vibrações. Sem pretensões de erudita busca literária. Senão como prolongações de onda na vivência espiritual de Teresa orante ou de Teresa poeta.

O primeiro verso - nada te perturbe - é claro eco da palavra de Jesus ao amedrontados discípulos, momentos antes da Paixão: "Que o vosso coração não se perturbe" (Jo. 14,1).

O segundo verso - "nada te espante": não fala de susto, senão de assombro. Basta recordar qualquer outra passagem teresiana: comovia-se-lhe de gozo a alma, "espantada da grande bondade e magnificência e misericórdia de Deus" (V. 4,10). Também é ressonância do assombro dos discípulos diante dos gestos taumatúrgicos de Jesus: "Isto vos amedronta? Como estareis admirados quando vereis o Filho do Homem subir para onde antes residia!" (Jo. 6,63).

O verso "tudo passa", que materialmente remete á consigna do filósofo grego, também é eco da palavra de Paulo: "passa este mundo" (1Cor. 7,31), ou as palavras de Jesus: "céu e terra passarão" (Mt. 34,25), seguidas da eterna vigência da palavra de Jesus - "minhas palavras não passarão" -, que dá passo à sentença do verso seguinte.

"Deus não muda". Sim, o Senhor e sua verdade permanecem para sempre (Sl. 116,2). Para Teresa, a fidelidade de Deus na amizade ("ele é amigo verdadeiro") contrasta com a versatilidade das amizades humanas: "Vós sois o amigo verdadeiro. Todas as coisas faltam. Vós, Senhor de todas elas, nunca faltais..., que já tenho experiência da ganância com que atraís a quem só em Vós confia" (V. 25,17). Trata-se de uma antecipação do último verso do poema.

"A paciência tudo alcança"... Jesus dizia aos discípulos anunciando-lhes as perseguições: "com vossa paciência possuireis vossa vida" (Lc. 21,19). O versículo final - "só Deus basta" - é a palavra lema dos contemplativos. Trata-se do "só Deus" de São Bernardo ou do irmão Rafael. "A sós com O só" será o lema teresiano para as jovens pioneiras do Carmelo de São José.

Os três absolutos do poema são estes:

nada, nada, nada

tudo, tudo

só Deus!

Três nadas, dois tudos, um único só Deus.

É possível que a dose balsâmica e sedante que do poema impregna o leitor, deva-se à cadência dos dois versos finais, com sua assonância em a-a: "nada lhe falta / só Deus basta". Assonância suavemente introduzida nos versos anteriores: "tudo passa - tudo alcança".

Porém, sem dúvida, mais forte que essa cadência musical, é o medular e absoluto da mensagem que nos chega através do poema, com sua alternância de tudos - nadas - só Deus. Três vezes nada. Duas vezes tudo. E uma só vez, porém fechando o poema, no verso final: "Só Deus!" e ponto O "só Deus" e basta. Se o poema era um sedante psicológico, acima da psicologia prevalece a teologia da contemplativa e mística que é Teresa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ficha de Trabalho: Caminho 16-18



ImageCaminho 16-18: Requisitos para ser contemplativas: Humildade III.

Pistas de leitura.
Estes capítulos são a anotação final ao bloco das virtudes e à humildade (cap. 4-18)1 e, não obstante, começam tratando da excepção à regra que justifica esse bloco: “como é possível algumas vezes elevar Deus uma alma distraída [pouco virtuosa] à perfeita contemplação e a causa disso” (cap. 16 título; cf. p. ej. 4,3; 16,1-3); por tanto, é preciso averiguar qual é essa causa e como tem que responder a pessoa agraciada.

Finalmente, os cap. 17 e 18 recomendam um último e surpreendente exercício de humildade: desapego até da mesma contemplação! Em que sentido? Implica isto que só orem as que se sintam contemplativas? Que outros exercícios leva anexos este desapego recomendado?


Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. “Algumas vezes” (16,2), inclusive “com muitos” (16,5), Deus inverte a ordem habitual (virtudes  contemplação) e “as prova para ver se com aquele favor elas se querem dispor para O gozar muitas vezes” (16,8). Evidentemente, a este tipo de excepção à regra pertence o caso da mesma santa (cf. V 38,1; Ficha cap. 4-5, questão 3). Conheces outras experiências assim? Recorda, agradece…

2. Como responder a uma graça deste tipo? Fazendo os exercícios de humildade já vistos: não desculpar-se (16,6), sofrer “uma pontinha de ser tido em menos” (16,11), ou seja, pôr os olhos n’Ele (16,7). A maior parte destas repetições têm tom exclamativo e orante: Teresa não acaba de entrar directamente no tema da oração (cf. nota 1) e, contudo, começa a custar-lhe conter-se; cf. 16,3.4.6.7 e vê o contraste com a tua forma de orar; és assim espontâneo, autêntico, cristológi-co…?

3. Outro parágrafo para nos determos e pensar, rever, orar… pois põe bem de manifesto que a humildade teresiana não tem nada a ver com a pusilanimidade, muito pelo contrário: “Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita dizer: não somos anjos, não somos santas. Olhai que, embora o não sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçamos, o poderemos ser, dando-nos Deus a mão; e não tenhais medo que falhe por Ele, se não falharmos nós. E porque não viemos aqui para outra coisa, mãos à obra, como dizem: não vejamos coisa em que se sirva mais o Senhor, que não presumamos sair bem dela com o seu favor. Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda os fortes e não faz acepção de pessoas” (16,12).

4. Deus não só mostra o seu senhorio dando a graça da contemplação a quem não a procurou, mas também não a dando a quem o fez e cultivou bem as virtudes; por isso, a santa Madre pede para exercitar a humildade inclusive acerca das próprias expectativas: “De como nem todas as almas são para contemplação e como algumas chegam a ela tarde” (cap. 17 título). A primeira coisa a fazer é não deixar a oração com a desculpa de que em tudo podemos encontrar o Senhor ou que tudo é oração (cf. 17,6 e 18,3-4). Pensa, revê, ora…

5. Por tanto, é preciso perseverar na oração, embora seja nas suas formas mais ‘pobres’ e simples (17,3; 18,4): revê, agradece…

6. É preciso também servir com alegria (17,1.5-6); consolar-se porque a falta de contemplação não impede a perfeição (17,2.4.6), mais ainda, é caminho muito meritório (17,4-7) e, enfim, se se persevera, pode acontecer, embora pareça tarde (17,2.7; 18,4); evidente, não murmurar das con-templativas (17,5; 18,5) e, decididamente, ser fértil nas virtudes tão encarecidas nestes capítulos, em vez de procurar consolos espirituais (18,9). De modo que, atender a cada coisa, rever, orar…

7. Se Deus actua assim (cf. questão 4), parece que não há métodos, nem técnicas de oração que possam garantir que se alcançará a contemplação: Concordas?, porquê? Achas que há métodos que se julga serem infalíveis?...

8. E que dizer destas aparentes contradições: é “algumas vezes” (16,2) ou “com muitos” (16,5)? ”Dá a cada um o seu ofício” (18,3) ou “não deixará de dar se é de veras o desprendimento e humildade” (17,7)?

9. Uma ideia para se ter bem em conta: “Quanto maiores são os trabalhos dos contemplativos” (cap. 18 título); de facto, contemplação igual a “trabalho disfarçado com gostos” (18,4).

10. Concluindo, mais virtudes, muito, muito especialmente obediência (também para os que não estão obrigados por um voto religioso!: 18,8), que gostos espirituais (18,7-9): revê, ora…

segunda-feira, 7 de março de 2011

Rezar Bem – Rezar mal Doze avisos de Madre Teresa de Jesus

Perguntar a Santa Teresa como ela distingue “rezar bem” de “rezar mal” é fazê-la recordar sua própria experiência. Um momento dolorido de sua vida de oração. Essa pergunta perseguiu-a anos e anos. Como uma questão decisiva, encravada nas entranhas de sua vida cristã.

É certo que, em seu caso, interferiram vários fatores agravantes. De imediato, a oração cresceu de forma envolvente e admirável. Tão alarmante que a obrigou a fazer-se a pergunta em termos decisivos: É o Espírito de Deus que reza em mim ou é outro espírito.... ou são certos recursos obscuros de fundo psicológico...? Outro agravante proveio do medo que lhe inculcaram seus conselheiros teólogos. Os homens de sua época, em surdina, tinham sempre o medo da Inquisição. E não apenas o injetaram em Teresa, mas induziram-na a outro tipo de medo, o de precisar abandonar a oração após vinte anos de fidelidade ao Senhor (Vida 23,12). Um medo — disse ela — que teria sido suficiente para fazê-la perder o juízo (Vida 28,18). Mas que, afortunadamente para nós, obrigou-a a pegar a caneta e repensar seu caso sobre o papel, para analisá-lo e dizer-nos em que consiste rezar bem e rezar mal.

Uma de suas primeiras e fortíssimas reações foi esta: Medos, não! Dito e redito aos semiteólogos e semiletrados de todos os tempos: “Não façam nenhum caso dos medos que lhes inculcarem nem dos perigos que lhes pintarem...” (C 21, 5).

Ouçamo-la, agora. Respigando nos montes de “avisos e conselhos que Madre Teresa dá às suas irmãs e filhas”, vamos recolher apenas doze conselhos. Começando pelo mais elementar:

1. Orar bem é rezar bem.

“Eu sempre porei a oração mental junto com a vocal. Não estejas falando com Deus e pensando em outras coisas. Quando digo creio, parece-me que a razão entende e sabe o que creio. E quando digo Pai-nosso, amor será entender quem é o Pai-nosso e quem é o mestre que nos ensina esta Oração” (C. 22,3.8; 24,2). Não se pode falar com Deus e com o mundo, que não é outra coisa que estar rezando e, por outro lado, escutando o que estão falando ou, sem mais, pensar no que se lhes oferece...” (C. 24, 4).

2. Rezar bem é... pensar bem?

Rezar... não é filosofar, nem apenas meditar. A coisa não está em pensar muito mas em amar muito. Assim, façam o que mais os despertar a amar” (M. 3,4;1 ,7). “Nem todas as imaginações são, naturalmente, hábeis para pensar, mas todas as almas o são para amar...” Claro, entendo bem de “amar”: porque “o aproveitamento da alma (na oração) não está em pensar muito, mas em amar muito. Como se adquirirá esse amor? Determinando-se a amar e padecer e fazendo-o..sempre que a ocasião se apresentar” (F. 5, 2-3).

3. Oração boa é...

A que se funda na verdade e na escuta da Palavra bíblica. Porque... “espírito que não esteja fundado na verdade, eu o quereria mesmo sem oração. Tendo chegado às verdades da Sagrada Escritura, fazemos o que devemos: Deus nos livre de devoções tolas” (V 13,16). “Eu sempre tive afeição pelas palavras dos Evangelhos, que me levaram sempre a maior recolhimento do que livros muito bem redigidos...” (C. 21. 4).

4. Não há oração cristã..., sem Cristo nela.

Para o orante, Ele é mestre e Senhor... “Deste Senhor nosso, nos vêm todos os bens. Ele nos ensinará; o melhor modelo é contemplar sua vida. O que podemos querer mais que tal amigo ao lado? Vi claramente que Ele é a porta por onde entrar, se quisermos que Deus nos revele grandes segredos” (Vida, 22. 6-7). “Eu quereria ter sempre diante de mim seu retrato ou imagem, já que não posso trazê-lo em minha alma tão esculpido quanto eu gostaria” (22, 4). É importante “acostumar-se a enamorar-se muito de sua sagrada humanidade, trazê-lo sempre consigo e falar com Ele..., sem procurar orações já prontas, mas palavras conforme seus desejos e necessidades” (12, 2). “Põe os olhos no Crucificado e tudo parecerá pouco” (M. 7, 4, 8).

5. Não deformar o rosto de Deus

Deus é amor. Na oração é amigo presente. “Faz tudo como queremos... Não é nada frágil o meu Deus, não olha para ninharias... Para corresponder é tão minucioso, que não devemos ter medo de que ele deixe de recompensar um simples alçar de olhos acompanhado da lembrança Dele” (C 23, 3). “Palavras e tratamentos rebuscados para Ele nada significam. Mesmo que não saibamos falar com Ele, não deixa de ouvir-nos ou de permitir que nos aproximemos dele... Este Rei gosta mais de um pastorzinho humilde e rude que vê que se mais soubesse mais diria, que dos muitos sábios e letrados por mais elegantes que sejam os raciocínios que fazem se não os fazem com humildade” (C. 22, 4).

6. A oração não é coisa cômoda.

Não existe sem cruz. “Prazer e oração não se harmonizam” — não são compatíveis (C. 4. 2). “É um disparate pensar que Ele admite à sua amizade estreita pessoas que só buscam o prazer sem trabalho” (C 18,2). Mesmo as altas formas de oração, as dos orantes contemplativos, “tenho como certo que são para fortalecer nossa fraqueza. para poder imitar Custo em seu sofrimento” (M. 7. 4,4). Quem vai á oração pelo gostinho da oração mal encontrará o caminho da oração: “a oração não é para gozar, mas para dar forças para servir” (idem 12).

7. Não há oração boa que não comprometa a vida.

“Obras, irmãs, o Senhor quer obras! E que, se vemos uma enferma a quem podemos aliviar, nos compadeçamos dela e. se tem alguma dor, doa também a nós, e se fazemos jejum que seja para que ela coma... Quando vejo muitas pessoas preocupadíssimas em entender a própria oração e cabisbaixas quando estão rezando, que não ousam mexer-se ou menear a cabeça para que não lhes fuja o pouquinho de gosto e devoção que tiveram, dou-me conta do pouco que entendem do caminho da oração... E pensam que tudo está ali! Não, irmãs, não: o Senhor quer obras” (M. 5. 3, 11).

A um amigo íntimo ela fazia a seguinte distinção entre rezar bem e rezar mal, entre a oração pior e melhor: “A oração mais bem aceita e acertada deixa melhores efeitos...; chamo “efeitos”, confirmados por obras” (carta a Graciano. de 23 de outubro de 1576). Entendes, não é? Os “efeitos” da oração são as obras e virtudes da vida cristã.

8. A boa oração não é flor do invernadouro,

nem apenas da capela. Seria difícil suportar que apenas em lugares afastados se pudesse rezar. O verdadeiro amante ama em qualquer lugar e se recorda sempre do amado... (F 5,16). No lugar em que vives, na rua, no trabalho... aí se há de mostrar o amor, não nos esconderijos. mas nas ocasiões propicias. E se for na cozinha, entenda que o Senhor está entre as panelas, ajudando-nos interior e exteriormente (F. 5, 8.15).

9. Obras... e coerência de vida com o que rezas

“pois se não procuramos as virtudes e não nos exercitamos nelas, permanecemos sempre anões (na oração)”. (M. 7,4.9). Por isso, se te interrogas sobre rezar bem ou rezar mal, examina-te no amar aos outros, na pobreza com que vives e na humildade que tens. Esta é a verdadeira prova da autenticidade da oração: que as obras estejam de acordo com as palavras, e que aquilo que não puderes pôr junto o faças pouco a pouco: e que vás dobrando tua vontade se queres que a tua oração seja proveitosa (M. 7, 4, 7).

10. Na oração não limites teus desejos...

Não há oração cristã que produza pessimismo. Ela não existe sem aumento da esperança. O orante é pessoa de grande confiança. “Convém-lhe não limitar os desejos... Deus é amigo de ânimos corajosos. Não vi nenhum destes ficar por baixo neste caminho. Nem vi nenhuma alma covarde que caminhe em muitos anos o que estas caminham em poucos. Espanta-me muito como este caminho de oração dá ânimo para grandes coisas... Eu, nisto de desejos, sempre os tive grandes” (V 13, 2-6). A oração é um elevador dos ideais: “importa muito, aos princípios da oração, não desanimar os pensamentos. Porque “ajuda muito ter altos pensamentos (grandes ideais e projetos) para que nos esforcemos a que o sejam também as obras” (V 13,7; C 4,1).

11. Não confies em tua oração se...!

Radicalismo evangélico. A oração cura o coração. Limpa-o de ressentimentos e rancores. E de outras ervas daninhas que envenenam a convivência fraterna. “Não confies muito na oração de uma pessoa que não sai da oração determinada a perdoar qualquer injúria — não as ninharias que chamamos de injúrias — por mais graves que sejam” (C 36,8).

12. A prova dos nove?

A humildade! Não há oração sem humildade. Já disse Jesus no Evangelho. Porém, que seja verdadeira humildade. “Ser humilde é andar na verdade...” “diante de Deus e das pessoas, especialmente não querendo que nos tenham por melhores que somos e, em nossas obras, procuremos dar a Deus o que é seu, e a nós o que é nosso ... Procuremos em tudo a verdade...” (M 6.10, 6-7). ‘Tenho por maior graça do Senhor um dia de conhecimento de si mesmo, ainda que nos tenha custado muitas aflições e trabalho, que muitos dias de oração” (F. 5,16). Porque isto do conhecimento de si nunca se há de deixar nem há alma tão grande no caminho da oração que não deva muitas vezes voltar a ser criança.., e nunca se esquecer disso (V 13,15).

Por fim, para tomar o pulso da oração. Teresa recomendaria o tipo de relações que. a partir dela, tens com Deus e com os outros. A Ele podes dizer de verdade “Pai-nosso” e “faça-se a tua vontade?” Porém, atenção, pois “de tal maneira podemos dizer uma vez esta oração que como Ele entenda que ainda somos dissimulados, que a não ser que façamos o que dizemos, nos deixe ricos! Como é muito amigo, tratemos de verdade com Ele. Tratando-o com simplicidade e clareza... sempre dá mais do que lhe pedimos” (C 37,4). O mesmo deverá ocorrer com Cristo. És capaz de dizer-lhe: “Que bom amigo és, Senhor ou: “Caminhemos juntos, Senhor: por onde tu fores tenho de ir..”? Em relação aos outros talvez o melhor parâmetro de saúde boa em tua oração seja a alegria de que se cresce diante do bem, o que alcançam e a boa sorte deles. E a bem-aventurança de que os outros sejam melhores, “e se vires louvarem muito alguém. te alegres muito mais que se louvassem a ti... A alegria de compreender o bem dos outros é grande coisa, e quando virmos alguma falta neles, sentir como se fosse própria e encobri-la. (M. 5, 3.11).


Enviado por Frei José Claudio, ocd