quarta-feira, 28 de julho de 2010

Capitulos 20 a 24

Capítulo 20

Trata da diferença entre união e arroubo. Explica o que é o arroubo e fala do bem que a alma que o Senhor, pela sua bondade, aproxima de Si obtém. Fala dos efeitos que isso produz. Isso é de causar muita admiração.1

1. Eu queria saber explicar, com o favor de Deus, a diferença que há entre união e arroubo, ou enlevo, ou vôo que chamam de espírito, ou arrebatamento, que são uma coisa só. Digo que esses diferentes nomes se referem a uma só coisa, que também se chama êxtase.2 É grande a vantagem que ele tem diante da união. Produz efeitos muito maiores e vários outros benefícios, porque a união parece ser igual no início, no meio e no fim, e o é no interior; mas esses outros fins alcançam um grau mais alto, manifestando-se seus efeitos tanto interior como exteriormente. Que o Senhor o declare como o fez com as outras coisas, pois, por certo, se Sua Majestade não me tivesse dado a entender os modos e formas de dizer, eu não o saberia.

2. Consideremos agora o fato de que esta última água é tão abundante que, se a terra o permitisse, poderíamos crer que já se encontra conosco a nuvem da grande Majestade. Mas quando Lhe agradecemos por esse bem enorme, fazendo obras de acordo com as nossas forças, o Senhor nos colhe a alma tal como as nuvens colhem os vapores da terra, afastando-a por inteiro desta.3 E a nuvem vai ao céu, levada pelo Senhor, que começa a lhe mostrar as coisas do reino que tem preparado para ela. Não sei se a comparação é adequada, mas na verdade é assim que acontece.

3. Nesses arroubos, parece que a alma não anima o corpo, que sente faltar-lhe o calor natural; ele vai se esfriando, embora com uma enorme suavidade e deleite. Aqui, não há como resistir, ao contrário da união, em que ficamos em nosso próprio terreno, podendo quase sempre, mesmo que com sofrimentos e esforços, resistir; nos arroubos, na maioria das vezes, isso não é possível, pois eles amiúde surgem sem que penseis nem coopereis, vindo como um ímpeto tão acelerado e forte que vedes e sentis uma nuvem ou águia possante levantar-se e colher-vos com suas asas.

4. E digo que percebeis e vos vedes levados, sem saber aonde; porque, mesmo com júbilo, a fraqueza que é nosso natural no início nos causa temor, sendo necessária uma alma determinada e corajosa — muito mais do que para o que eu já falei — que arrisque tudo, ocorra o que ocorrer, entregando--se nas mãos de Deus e indo de bom grado para onde for levada, visto que, mesmo resistindo, é levada.

Isso acontece de maneira tão forte que muitas vezes tentei resistir, empregando todas as minhas forças, especialmente em situações públicas, e também estando a sós, pois temia ser enganada; algumas vezes eu conseguia, mas com grande prostração, como quem combateu um forte gigante, ficando depois exausta; outras, eu não o podia: a alma era arrebatada e quase sempre levava a cabeça atrás de si, sem que eu pudesse controlar, havendo ocasiões em que o corpo inteiro ficava suspenso do chão.

5. Isso ocorreu poucas vezes, como certa feita em que estávamos juntas no coro, indo comungar; eu estava ajoelhada e fiquei muito pesarosa, pois me parecia uma coisa muito extraordinária que logo haveria de chamar muita atenção; assim, mandei que as monjas (pois isso se passou depois que assumi o ofício de Priora) não o revelassem. Mas outras vezes, ao perceber que o Senhor ia fazer isso (e, numa delas, na presença de importantes senhoras, pois era a festa da Vocação,4 durante um sermão), eu me estendia no chão, e as irmãs me rodeavam para segurar meu corpo, mas isso não passava despercebido. Supliquei muito ao Senhor que não quisesse mais me conceder graças que tivessem mostras exteriores; porque eu estava cansada de andar com tanta cautela, podendo Sua Majestade conceder-me esse favor sem que os outros o percebessem. Parece que Ele, pela Sua bondade, dignou-se ouvir-me, porque, até agora, isso não voltou a acontecer; é verdade que faz pouco tempo.5

6. Parecia-me, quando eu queria resistir, que se erguiam sob os meus pés forças tão grandes que não sei como explicar, forças muito mais impetuosas do que as presentes em outras coisas do espírito. E eu ficava em pedaços, porque grande é a luta e pouco o seu proveito, porque, quando o Senhor quer, nada se opõe ao Seu poder. Há ocasiões em que Ele se contenta em nos mostrar que deseja nos conceder uma graça e que não faltará; se resistirmos por humildade, Ele produzirá os mesmos efeitos que produziria caso o consentíssemos.

7. São grandes esses efeitos: um deles6 é a demonstração do grande poder do Senhor, a lição de que, quando Sua Majestade o quer, não controlamos o corpo nem a alma, nem somos senhores deles; verificamos que, a despeito de nós, há uma coisa superior, essas graças são dadas por Ele e nada podemos fazer — o que nos traz grande humildade. E eu confesso que tive muito medo e, no princípio, um enorme medo, por ver o corpo se levantar da terra, levado pelo espírito com grande suavidade, quando não se resiste. Não se perdem os sentidos; eu ao menos ficava num estado em que podia perceber que era arrebatada. Mostra-se tão bem a majestade de Quem pode fazer aquilo que os cabelos se arrepiam, ficando um grande temor de ofender a Deus tão grandioso; esse temor vem envolto num enorme amor por Aquele que ama tanto um verme tão podre a ponto de dar a impressão de que não se contenta em levar a alma a Si, querendo levar também o corpo, mesmo sendo este tão mortal e de terra tão suja — pois assim se tornou por causa de suas muitas ofensas.

8. O arroubo deixa também um estranho desapego, que não sei descrever. Acho que posso dizer que é diferente, isto é, maior do que as outras coisas do espírito; porque, embora estas provoquem o desprendimento de todas as coisas no campo do espírito, no desapego o Senhor parece querer que o corpo também seja envolvido, o que cria uma nova estranheza diante das coisas da terra, tornando a vida muito penosa.

9. Depois ele nos traz um tormento que não podemos criar por nós mes mos nem, quando acontece, evitar. Eu queria muito explicar esse sofrimen to tão grande, mas acho que não conseguirei, embora vá dizer alguma coisa. É bom notar que essas coisas7 são recentes, vindo depois de todas as visões e revelações de que vou falar; no tempo em que costumava ter oração, época em que o Senhor me dava grandes consolos e alegrias, bem como agora, já que isso não parou, o mais comum é que venha esse sofrimento de que vou falar. Ele pode ser maior ou menor. Falo agora de quando ele é maior, falando adiante8 dos grandes ímpetos que me acometiam quando o Senhor queria me conceder os arroubos. A dor que eu então sentia em nada se parece com o tormento de que falo agora, distinguindo-se como se distingue uma coisa muito corporal de uma muito espiritual, e creio que não exagero. De fato, o primeiro sofrimento é sentido pela alma, mas esta está acompanhada do corpo e parece que os dois o dividem, não havendo o extremo desamparo de que agora falo.

O segundo sofrimento, como eu disse, não tem a nossa participação; mui tas vezes, vem de repente um desejo cuja origem não se sabe, desejo que pe netra a alma por completo, começando a fatigá-la a tal ponto que ela se eleva acima de si mesma e de toda a criação; Deus a deixa tão isolada de to das as coisas que, por mais que a alma trabalhe, parece-lhe que não há na ter ra quem a acompanhe, nem ela o queria, desejando apenas morrer naquela solidão. Se alguém lhe fala, ela não pode responder, por mais que se esforce, pois o seu espírito não sai dessa solidão. Embora pareça estar muito longe, Deus às vezes lhe comunica Suas grandezas do modo mais estranho que se pode imaginar; assim, não9 se sabe explicar, nem creio que acredite nisso ou o entenda quem não teve a experiência; porque a comunicação não vem consolar, mas mostrar a razão que a alma tem de afligir-se por estar distante do bem que contém em si todos os bens.

10. Crescem com essa comunicação o desejo e a extrema solidão em que a alma se vê, com um pesar tão sutil e penetrante que ela pode dizer ao pé da letra, como se estivesse no deserto (e o disse, na mesma solidão, o real Profeta, que, sendo santo, teve a permissão do Senhor para senti-la de maneira mais extrema): Vigilavi, et factus sum sicut passer solitarius in tecto.10 Assim, vem-me à memória esse verso, e pareço vê-lo realizado em mim, vindo o meu consolo do pensamento de que outras pessoas sentiram essa solidão em tão alto grau. Tem-se a impressão de que a alma não está em si, mas no telhado de si mesma e de toda a criação, e até acima da parte superior de seu espírito.

11. Outras vezes, parece que a alma tem extrema necessidade de Deus, dizendo e perguntando a si mesma: Onde está o teu Deus?11 Devo observar que eu não sabia bem o significado desses versos em romance e, quando pude entendê-lo, consolei-me por ver que o Senhor os tinha trazido à minha memória sem que eu o procurasse. Outras vezes, eu me lembrava de que São Paulo disse que estava crucificado para o mundo.12 Não digo que estou assim, pois bem vejo que não é verdade; mas a alma parece não ter consolo do céu nem estar nele, ao mesmo tempo que não mais habita a terra, cujo consolo não quer; ela parece estar crucificada entre o céu e a terra. Com efeito, o que vem do céu (que é, como eu já disse,13 uma notícia tão admirável de Deus que supera tudo quanto possamos desejar) lhe causa mais tormento, visto aumentar tanto o desejo que às vezes priva a alma dos sentidos, embora por pouco tempo.

Esse sofrimento é semelhante às agonias da morte, mas traz em si tamanho contentamento que não tenho termos de comparação. É um duro martírio delicioso, pois tudo o que é oferecido à alma, mesmo o que costumava agradá-la, é recusado por ela, que não admite nenhuma coisa da terra. Ela bem entende que só deseja o seu Deus; mas não ama uma coisa particular dele, desejando-O por inteiro, e não sabe o que quer. Digo “não sabe” porque a imaginação nada lhe apresenta. Acho até que as suas faculdades não agem em grande parte do tempo em que ela está assim. A dor as suspende, assim como o júbilo o faz na união e no arroubo.

12. Ó Jesus! Gostaria que houvesse alguém que o pudesse explicar a vossa mercê,14 ao menos para que me dissesse o que é, pois assim se encontra sempre a minha alma. De maneira geral, estando desocupada, ela fica com essas ânsias de morte e tem medo, quando vê que elas começam, porque sabe que não vai morrer; mas, quando fica nesse estado, gostaria de viver nesse sofrimento, embora ele seja tão excessivo que mal consigo suportá-lo, o que às vezes me faz perder o pulso quase inteiramente, como dizem as irmãs que se aproximam de mim e que já compreendem melhor a minha situação. Fico com os braços muito abertos e com as mãos tão rígidas que às vezes não con sigo juntá-las; fico com dor nos pulsos e no corpo, como se estivessem desconjuntados, até o dia seguinte.

13. Penso que numa dessas vezes o Senhor será servido, se tudo continuar assim, em me tirar a vida, pois, a meu ver, esse grande sofrimento é ca paz disso, embora eu não o mereça. Nesses momentos, só tenho o desejo de que isso aconteça; não me lembro do purgatório, nem dos grandes pecados que cometi, pelos quais mereceria o inferno. Esqueço tudo no anseio de ver a Deus; e o deserto e a solidão me parecem melhores do que toda a companhia do mundo. Se algo poderia consolar a alma, esse algo seria falar com quem já tivesse passado por esse tormento; mas, embora ela se queixe disso, parece-lhe que ninguém vai lhe dar crédito.

14. Outra fonte de tormento é que, diante de dor tão intensa, a alma não de seja a solidão como antes e só quer a companhia de alguém a quem possa quei xar-se. É como se estivesse sendo enforcada e procurasse tomar fôlego. Creio que essa vontade de ter companhia vem da nossa fraqueza, porque o so frimento como que nos expõe a um perigo mortal (como já estive várias vezes exposta a esse perigo, quando tive graves enfermidades e em outras situações, co mo falei,15 creio que posso afirmar que esse sofrimento é tão grande quanto qual quer outro). O desejo que o corpo e a alma têm de não se separarem é a cau sa do pedido de socorro para tomar fôlego; queremos narrar o nosso sofrimen to, queixar-nos e distrair-nos, buscando conservar a vida, bem contra a vontade do espírito ou da parte superior da alma, que não deseja sair desse penar.

15. Não sei se percebo a verdade ou se sei explicá-lo, mas, pelo que percebo, assim acontece. Veja vossa mercê que descanso pode a alma ter nesta vida, porque o que tinha — a oração e a solidão, que atraíam o consolo do Senhor — agora se tornou, quase sempre, este tormento, que é, porém, tão saboroso e, reconhece a alma, de preço tão alto que ela passa a desejá-lo, preferindo-o, ainda assim, a todas as consolações anteriores. Ela o julga mais seguro por ser o caminho da cruz, que traz em si um gosto de muito valor, porque o corpo só participa do sofrimento, e a alma é quem padece, mas saboreia sozinha o prazer e o contentamento que vêm dessa dor.

Ignoro como isso pode ser dessa maneira, mas de fato acontece assim; acho que não trocaria essa graça dada pelo Senhor (porque bem16 de Sua mão — como eu disse —, pois nada fiz para consegui-lo, por ser ele deveras sobrenatural) por todas aquelas de que falarei; não digo juntas, mas cada uma delas por si. E não deve ser esquecido o fato de isso vir depois de tudo quanto relato neste livro, e daquilo em que o Senhor agora me mantém.17

16. No princípio, eu tinha medo, como ocorre quase sempre que recebo alguma dádiva das mãos de Deus, até que, continuando, Sua Majestade me tranqüiliza. Numa ocasião, o Senhor me disse que não temesse e que valorizasse mais essa graça do que todas as já recebidas, porque, nesse sofrimento, a alma se purifica, tal como o ouro no crisol, para melhor se dispor a receber o esmalte dos Seus dons, padecendo ali o que haveria de sofrer no purgatório.

Eu já entendia que recebia uma grande graça, mas depois disso fiquei muito mais segura. Meu confessor me disse que isso é bom. Embora temendo, por ser tão ruim, eu nunca pude acreditar que isso não fosse bom; o que me fazia temer era a grandeza excessiva do favor recebido, pois me lembrava do meu pouco merecimento. Bendito seja o Senhor, que é tão bom. Amém.

17. Parece que fugi do meu propósito, porque comecei a falar de arroubos,18 embora o que falei seja superior a eles e deixe os efeitos citados.

18. Voltemos agora aos arroubos e aos seus efeitos gerais. Muitas vezes, eu tinha a impressão de deixar o corpo com tanta rapidez que ficava livre do seu peso, chegando mesmo a um ponto em que mal sentia tocar o chão com os pés. Quando está enlevado, o corpo parece morto, sem ação, mantendo--se na posição em que é tomado: se de pé, se sentado, se com as mãos aber tas, se fechadas.19 É rara a perda dos sentidos. Há ocasiões em que os perco por inteiro, mas elas são poucas e é pequena a duração; de modo geral, a alma, mesmo perturbada e sem poder agir no exterior, continua a perceber e ouvir como se estivesse distante.

Não digo que ela perceba e ouça quando se encontra no mais alto grau de arroubo,20 isto é, no tempo em que as faculdades se perdem por estarem unidas a Deus, porque, então, ao que parece, ela nada vê nem ouve nem sente. Mas, como falei ao tratar da oração de união,21 essa transformação total da alma em Deus dura pouco; mas, enquanto dura, nenhuma faculdade age nem sabe o que acontece ali. Não devem ser coisas que se possam entender enquanto se vive na terra; pelo menos Deus não quer que o entendamos, pois não devemos ser capazes disso, o que sei por experiência própria.

19. Vossa mercê há de perguntar como é que o arroubo dura às vezes tantas horas e ocorre muitas vezes. O que acontece comigo é que — como falei na oração passada —22 a felicidade vem com intervalos: de vez em quando, a alma se engolfa ou, melhor dizendo, o Senhor a engolfa em si, e, enquanto Ele a mantém consigo um pouco, ela conserva somente a vontade. Parece-me que o movimento das outras duas faculdades tem como que uma lingüeta de relógio de sol, que nunca pára; mas, quando o quer, o Sol da Justiça as detém. Isto23 é o que digo ter pouca duração; contudo, como o ímpeto e a elevação de espírito foram grandes, mesmo que as outras faculdades voltem a se agitar, a vontade fica mergulhada em Deus e, como senhora do todo, realiza no corpo aquela operação;24 logo, se as duas outras faculdades turbulentas desejarem importuná-la, que sejam as únicas a fazê-lo, não vindo perturbá-la também os sentidos, porque assim quer o Senhor. Na maior parte do tempo, os olhos ficam fechados, mesmo contra a nossa vontade; nas poucas vezes em que ficam abertos, não conseguem, como eu disse,25 perceber ou distinguir o que vêem.

20. Aqui, é muito pouco o que o corpo pode fazer de si para que, quando as faculdades voltarem a se juntar, não haja tanto o que fazer. Por isso, aquele a quem o Senhor conceder isso não deve se desconsolar quando vir o corpo preso assim por muitas horas, com a memória e o entendimento às vezes distraídos. É verdade que, em geral, essas faculdades estão mergulhadas em louvores a Deus ou na busca da compreensão e do entendimento do que lhes ocorreu; mas, mesmo para isso, elas não estão bem despertas, mas como uma pessoa que dormiu muito, e sonhou, e ainda não acabou de despertar.

21. Detenho-me tanto nisso porque sei que existem hoje, neste lugar,26 pessoas a quem o Senhor concede esses favores, e se os que as dirigem não passaram por isso, talvez tenham a impressão de que elas parecem estar mortas no arroubo, especialmente se não forem letrados, e é uma lástima o que se padece com confessores que não o compreendem, como mais tarde falarei.27 Talvez eu não saiba o que digo; vossa mercê saberá dizer se sou coerente, pois o Senhor já lhe deu experiência disso, se bem que não há muito tempo, e é possível que vossa mercê não o tenha considerado tanto quanto eu.

Com efeito, por mais que eu tente, durante longos períodos não há forças no corpo para me mover; a alma as levou todas consigo. Muitas vezes — estando bastante enfermo e cheio de dores —, fica restabelecido28 e com maior capacidade, pois é grandioso o que ali acontece, querendo o Senhor algumas vezes que ele também se beneficie, porque já obedece ao que a alma deseja. Depois que recupera a consciência, se foi grande o arroubo, acontece à alma ficar um dia ou dois, e até três, com as faculdades tão absortas — ou como se estivesse abobada —29 que não parece estar consciente.

22. Vem então a dor de voltar a viver; a penugem já lhe caiu, e a alma tem agora asas para voar bem alto. Ela ergue o estandarte pela causa de Cristo, parecendo que o comandante da fortaleza subiu ou foi levado à torre mais alta para desfraldar a bandeira de Deus. Ela olha para os de baixo como quem está a salvo; já não teme os perigos, mas os deseja, como quem de alguma maneira tivesse a garantia da vitória. Vê-se com muita clareza quão pouco se devem estimar as coisas daqui, que nada valem. Quem está no alto percebe muitas coisas; já não quer querer, nem gostaria de ter livre-arbítrio,30 e assim o suplica ao Senhor, entregando-lhe as chaves de sua vontade.

Eis o jardineiro feito comandante; ele não deseja coisa alguma além da vontade do Senhor nem quer sê-lo31 de si, nem de nada, sequer de uma pêra da horta. Seu único desejo é que, se houver nessa horta alguma coisa boa, Sua Majestade a distribua, porque, doravante, o jardineiro nada quer ter de seu; que Deus disponha de tudo de acordo com a Sua glória e a Sua vontade.

23. E é isso o que acontece quando os arroubos são verdadeiros, ficando a alma com os efeitos e os benefícios indicados. Se os arroubos não fossem verdadeiros, eu muito duvidaria de que viessem de Deus, receando que fossem os acessos de raiva de que fala São Vicente.32 Sei por experiência que numa hora a alma fica senhora de tudo e com liberdade — e até em menos de uma hora —, a ponto de não poder se reconhecer. Ela percebe que não fez nada para receber tanto bem, nem sabe como ele lhe foi dado, mas percebe com clareza o enorme proveito que cada um desses arrebatamentos lhe traz.

Quem não passou por isso não pode acreditar; e assim a pobre alma, cuja grande maldade foi vista e que de repente aspira a coisas tão elevadas, não merece crédito, visto não se contentar em servir pouco ao Senhor, buscando chegar a extremos. As pessoas pensam que isso é tentação e disparate. Se compreendessem que isso não vem dela, mas do Senhor, a quem ela já entregou as chaves de sua vontade, não se espantariam.

24. Tenho para mim que a alma que chega a esse estado já não fala nem age por si, pois o soberano Rei cuida de tudo o que ela há de fazer. Valha--me Deus! Como é clara a declaração do verso e quanta razão tinha o salmista, e têm todos, de pedir asas de pomba.33 Entende-se bem que o espírito dá um vôo para elevar-se acima de todo o criado e, antes de tudo, de si mesmo; mas é vôo suave, vôo jubiloso, vôo sem ruído.

25. Que poder tem a alma que o Senhor transporta até aqui; ela olha tudo sem estar apegada a coisa alguma! Como está longe o tempo em que esteve ape gada! Quão espantada fica ela de sua cegueira! Como lastima os que estão enredados, especialmente se são pessoas de oração a quem Deus já concede favores! Ela gostaria de dizer em voz alta quão enganadas elas estão, e faz isso algumas vezes, atraindo mil perseguições. Ela é considerada pouco humil de, alguém que quer ensinar a pessoas de quem devia aprender, em particular se for mulher. E as pessoas a condenam — e com razão — porque não sabem o ímpeto que a move, ímpeto que às vezes a impede de se conter e a leva a de senganar aqueles de quem gosta, que ela deseja ver livres do cárcere desta vida, pois o cativeiro em que ela esteve não é menor nem lhe parece menor.

26. Ela fica aflita ao lembrar-se da época em que se preocupava com a honra e em que se enganava ao crer que era honra o que o mundo assim diz; ela percebe a grande mentira que isso é e vê que todos nos enganamos; ela percebe que a verdadeira honra não é mentirosa, mas plena de verdade; essa honra valoriza o que de fato tem valor e não leva em conta o que nada vale, porque é nada, e menos que nada, tudo o que se acaba e não alegra a Deus.

27. Ela ri de si mesma, do tempo em que levava em conta o dinheiro e a sua cobiça, embora nesse aspecto eu não creia — e é verdade — que tenha tido culpa, sendo porém grande culpa levar isso em conta. Se com o dinheiro eu pudesse comprar o bem que agora vejo em mim, eu muito o apreciaria; mas vê--se que esse bem só se alcança ao abandoná-lo por inteiro. O que se com pra com esse dinheiro tão desejado? Uma coisa de valor? Um objeto du radouro? Para que o desejamos? Que horrível descanso se procura obter com algo que custa tão caro! Muitas vezes, consegue-se com ele o inferno, com prando-se um fogo inextinguível e dores infinitas. Se todos o desprezassem, o mundo teria muita ordem e alegria! Com que amizade se tratariam todos se não ligássemos para a honra e o dinheiro! Creio que assim tudo seria corrigido.

28. A alma vê a grande cegueira dos prazeres e percebe que, com eles, só consegue sofrimento, mesmo para esta vida, bem como desassossego. Que inquietude, pouco contentamento, trabalho vão! E ela vê não somente as teias de aranha que há em si mesma, suas grandes faltas, como até algum cis co, por menor que seja, já que está exposta a muita luz; assim, por mais que trabalhe para a sua perfeição, se de fato for atingida por este Sol, ela logo se considerará muito impura. É como a água que está num vaso: não sendo ilu minada, parece límpida; se o sol a atinge, logo se vê que está cheia de poeira.

Entenda-se essa comparação literalmente. Antes de alcançar o êxtase, a alma acredita que procura não ofender a Deus e que faz o que pode segundo suas forças; chegando aqui, porém, atinge-a este Sol de Justiça, e ela, abrindo os olhos, vê tanta poeira que desejaria voltar a fechá-los, porque ainda não é tão filha dessa Águia majestosa que seja capaz de olhar este Sol frente a frente; e, por menos que abra os olhos, vê-se toda turva e se recorda do verso que diz: Quem será justo diante de ti?34

29. Quando olha esse sol divino, a alma fica deslumbrada com a claridade. Quando olha para si, a impureza lhe tapa os olhos e essa pombinha fica cega. Assim é que, inúmeras vezes, ela fica totalmente ofuscada, absorta, espantada, desfeita diante de tantas grandezas que vê. Aqui alcança a verdadeira humildade, não dando importância a falar bem de si nem ao que os outros digam. Quem reparte a fruta da horta é o Senhor, e não ela, não tendo a alma nada de seu; todo o bem que possui é dado por Deus, e quando fala algo de si, ela o faz para a Sua glória. Ela sabe que nada tem ali e, mesmo que quisesse, não o poderia ignorar, porque o vê com os seus próprios olhos. Sem que ela cooperasse, o Senhor os fechou às coisas do mundo e fez que ela os tivesse abertos para compreender verdades do espírito.

Capítulo 21

Termina de explicar o último grau de oração. Fala do que sente a alma que o alcança ao voltar a viver no mundo e da luz que o Senhor dá a ela para ver os enganos dele. É boa doutrina.

1. Concluindo o que falava,1 digo que, neste grau, a alma não precisa consentir; ela já pertence ao Senhor e sabe que se entregou em Suas mãos com vontade e que não pode enganá-Lo porque Ele conhece tudo. Não é como aqui, onde a vida está toda cheia de enganos e fingimentos: quando se pensa ter conquistado um coração com base nas provas de afeição que dele vêm, descobre-se que tudo é mentira. Não há quem possa viver com tantas intrigas, especialmente quando há um pouco de interesse.

Bem-aventurada a alma que o Senhor faz entender verdades! Que ótimo estado para os reis! Como seria muito melhor para eles procurá-lo, em vez de um grande reino! Que retidão haveria no reino! Quantos males teriam sido evitados e se evitariam! Nele, não se temeria perder a vida nem a honra por amor de Deus! Que grande bem é esse para quem está mais obrigado a zelar pela honra do Senhor, pois todos o estão menos, já que devem seguir os reis! Por um pequeno aumento da fé e por alguma luz dada aos hereges, perdería mos mil reinos, e com razão. Ganharíamos assim um reino que não se acaba, visto que a alma, ao provar uma única gota de sua água, aborrece de tudo o que há na terra. E que será quando estiver de todo engolfada nele?

2. Ó Senhor! Se me désseis condições para dizer isso em voz alta, não me acreditariam, tal como não acreditam nos que sabem dizê-lo de outra maneira, mas eu ao menos me satisfaria. Parece-me que, para explicar uma única verdade dessas, eu daria de bom grado a vida como coisa de pouco valor; não sei o que faria depois, porque não se pode confiar em mim. Sendo quem sou, tenho grande vontade de dizer isso aos que governam, consumindo-me por nada poder. Assim sendo, volto-me para Vós, Senhor meu, pedindo-Vos um remédio para tudo; e bem sabeis que de muito boa vontade eu me despojaria das graças que me tendes dado, permanecendo num estado que não Vos ofendesse, e as daria aos reis; porque sei que, recebendo-as, eles não poderiam consentir no que agora toleram, daí resultando grandes benefícios.2

3. Ó Deus meu! Fazei-os compreender as suas obrigações, pois quisestes de tal maneira diferenciá-los na terra que, pelo que ouvi dizer, surgem sinais no céu quando levais algum deles desta vida.3 Na realidade, comovo-me ao pensar que desejais que percebam, com essas demonstrações no céu, na época em que morrem, tal como ocorreu na Vossa, que devem imitar-Vos em vida.

4. Atrevo-me muito. Rasgue-o vossa mercê se lhe parecer ruim, e acredite que eu o diria melhor na presença deles, se pudesse ou pensasse que acreditariam em mim, porque os muito encomendo a Deus e gostaria que disso viesse proveito. Por isso valeria arriscar a vida, de que desejo muitas vezes ser privada, e o preço seria pequeno, pois o benefício seria muito; porque não se pode viver quando se vê com os próprios olhos a grande ilusão em que vivemos e a cegueira que demonstramos.

5. Chegando aqui, a alma não deseja apenas a glória de Deus; Sua Majestade lhe dá condições para levar isso a efeito. Não há nada que ela veja e considere que O serve que não se disponha a fazer; e nada faz, porque — como falei —4 ela vê com clareza que só tem valor agradar a Deus. O sofrimento vem do fato de não haver oportunidades disso para pessoas tão inúteis quanto eu. Que um dia, Bem meu, eu possa pagar um centavo do muito que Vos devo. Ordenai, Senhor, de acordo com a Vossa vontade, que esta serva Vossa Vos sirva em algo. Outras também eram mulheres, e fizeram coisas heróicas por amor a Vós. De minha parte, só sei tagarelar e por isso não quereis, Deus meu, levar-me a agir; sirvo somente em palavras e desejos, e nem para isso tenho liberdade, e, caso a tivesse, em tudo cometeria faltas.

Fortalecei minha alma, preparando-a primeiro, Bem de todos os bens e Jesus meu, ordenando em seguida os meios para Vos servir, pois já não suporto receber tanto e nada pagar. Custe o que custar, Senhor, não permitais que eu chegue diante de Vós com mãos tão vazias, pois a recompensa será dada de acordo com as obras. Aqui está a minha vida, aqui está a minha hon ra e a minha vontade; tudo Vos dei, Vossa sou, disponde de mim de acor do com a Vossa vontade. Bem vejo, meu Senhor, que pouco posso; mas, apro ximando-me de Vós, chegando a essa fortaleza de onde se vêem verdades, e não Vos afastando de mim, tudo poderei; se me afasto de Vós, por me nos que seja, voltarei para onde estava, o inferno.

6. O que é para uma alma que aqui chegou ter de voltar a tratar com as pessoas, de olhar e ver a farsa desta vida tão desorganizada, perder tempo com o corpo, dormindo e comendo! Tudo a cansa; ela não sabe como escapar, ven do-se acorrentada e prisioneira. Ela sente mais verdadeiramente o cativeiro do corpo e a miséria da vida. Vê com que razão São Paulo suplicou a Deus que o livrasse dele;5 ao lado do apóstolo, ela pede a Deus liberdade, como falei.6

Aqui, muitas vezes é grande o ímpeto; a alma parece querer sair do corpo em busca de liberdade, já que não a tiram dele. Ela se sente uma es crava em terra estrangeira, e o que mais a cansa é não achar muitas pessoas que se queixem com ela e supliquem por isso; a maioria deseja viver. Se fôssemos desapegados e não tivéssemos contentamento em nenhuma coisa da ter ra, a dor de viver sempre sem Ele compensaria o medo da morte com o desejo de gozar da vida verdadeira!

7. Penso algumas vezes que, se uma pessoa como eu, tendo recebido do Senhor esta luz e sendo tão fraca em caridade e vivendo em tão grande in certeza de alcançar o verdadeiro descanso, por não tê-lo merecido com as mi­nhas obras, sofre tanto por se ver neste desterro, qual seria o sentimento dos santos? O que devem ter passado São Paulo, Santa Madalena e outros, cu jo anseio do amor de Deus era tão intenso? Viver deve ter sido para eles um contínuo martírio.

Parece-me que obtenho algum alívio e consolo no relacionamento com pessoas que também têm esses desejos; falo de desejos acompanhados de obras; digo de obras porque há pessoas que, a seu ver, estão desprendidas e o alar­deiam, e que de fato deveriam estar, pois seu estado o exige, bem como os muitos anos em que vêm seguindo o caminho da perfeição. Mas esta alma conhece de longe os que são perfeitos em palavras e os que tiveram suas palavras confirmadas por obras; ela tem visto o pouco proveito de alguns e o muito de outros, porque quem tem experiência o reconhece com muita facilidade.

8. Citados os efeitos que vêm de Deus…7 é verdade que há maiores ou menores. Menores porque, no início, embora os arroubos os produzam, eles não são muito perceptíveis por não terem sido comprovados por obras. A alma vai crescendo em perfeição e busca afastar os vestígios de impurezas, o que exige algum tempo; quanto mais aumentam o seu amor e a sua humildade, maior o odor que vem dessas flores de virtude para a alma e para os outros. É verdade que o Senhor pode agir de tal maneira na alma num desses enlevos que pouco trabalho lhe resta para alcançar a perfeição, mas quem não tem experiência não pode acreditar no que o Senhor concede aqui nem no fato de não haver esforço nosso capaz de alcançá-lo.

Não afirmo que, passados muitos anos, essa alma não alcance, com a graça de Deus, a perfeição, bem como um grande desapego, com muita labuta, empregando os meios descritos pelos que falaram de oração, de princípios e recursos. Mas não em tão breve tempo como os alcança, sem nenhum esforço, quando o Senhor age e, com determinação, tira a alma da terra e lhe dá domínio sobre tudo o que há nela, mesmo que essa alma não tenha mais merecimento do que a minha, não sendo exagero dizer que não tinha quase nenhum.

9. Sua Majestade o faz porque quer, e como quer,8 e, mesmo que não haja disposição na alma, Ele a dispõe para receber o bem que lhe dá. E nem sempre Ele o dá a quem merece, trabalhando bem no jardim — embora seja certo que quem faz isso bem, procurando desapegar-se, não deixa de ser recompensado —, pois em certas ocasiões deseja mostrar Sua grandeza na pior terra, como eu disse,9 preparando-a para todo o bem; e o faz de tal maneira que ela já não pode viver ofendendo a Deus como o fazia. O seu pensamento se acostuma a tal ponto a compreender a verdade verdadeira que todas as outras coisas lhe parecem brinquedo de criança. Ela ri muito quando vê pessoas graves, dedicadas à oração e vivendo em estado religioso, darem demasiada importância a questões de honra que para ela já não existem. Essas pessoas dizem que têm prudência e que zelam pela dignidade de sua condição para o seu maior proveito. Contudo, maior proveito teriam se renunciassem à honra um único dia do que defendendo-a durante dez anos.

10. Assim, a alma tem uma vida árdua e cheia de cruzes, mas cresce muito. Os que têm relação com ela têm a impressão de que chegou ao auge; mas em pouco tempo ela está muito mais perfeita, porque Deus sempre a favorece mais, pois é alma Sua que está a Seu cargo. Ele a ilumina, parecendo que a assiste e guarda permanentemente para que ela não O ofenda, protegendo-a e despertando-a para que O sirva.

Quando a minha alma recebeu de Deus esse favor tão grande, meus males cessaram e o Senhor me deu forças para me livrar deles. As situações e pessoas que antes me distraíam já não me causavam prejuízo; era como se não existissem; o que outrora me prejudicara passou a me ajudar. Tudo era um meio para mais conhecer e amar a Deus, para ver o quanto Lhe devia e mais lamentar o que eu tinha sido.

11. Eu tinha certeza de que aquilo não vinha de mim nem dos meus esforços, porque ainda não havia tempo para tanto. Sua Majestade me dera forças para isso só por bondade.

Até agora, desde que o Senhor começou a me conceder a graça desses arroubos, essas forças têm crescido, pois Ele, por Sua generosidade, me tem conduzido pela mão para que eu não fraqueje; assim, quase nada faço, e vejo com clareza que é o Senhor quem age.

Isso me faz pensar que as almas às quais o Senhor concede esses favores — almas que, vivendo com humildade e temor, sempre entendem que o próprio Senhor age e elas quase nada fazem — poderiam viver entre quaisquer pessoas; mesmo que fossem as mais distraídas e viciosas, essas pessoas não as abalariam em nada nem as impressionariam, antes10 ajudando-as a ser de tal maneira que obtenham um proveito muito maior. Essas já são almas fortes escolhidas pelo Senhor para fazer o bem a outras, embora sua força não venha delas mesmas. Quando atrai uma alma, o Senhor vai lhe comunicando segredos muito grandes.

12. Nesse êxtase, vêm as verdadeiras revelações, bem como grandes favores e visões, e tudo contribui para apequenar e fortalecer a alma, afastando-a cada vez mais das coisas desta vida e dando-lhe um maior conhecimento da grandeza da recompensa que o Senhor tem preparada para os que O servem.

Queira Sua Majestade que a imensa generosidade que tem tido com esta miserável pecadora sirva de alguma maneira para incitar e animar os que isto lerem a tudo deixar por Deus. Porque, se Sua Majestade paga já nesta vida com tanta abundância, vendo-se com clareza o prêmio e o lucro que recebem os que O servem, como não o fará na outra?

Capítulo 22

Diz que o caminho mais seguro para os contemplativos é não elevar o espírito a coisas superiores se o Senhor não o levanta, e que o meio para a contemplação mais sublime é a Humanidade de Cristo. Fala de uma ilusão em que esteve por algum tempo. Este capítulo é muito proveitoso.

1. Quero dizer uma coisa que me parece importante; se vossa mercê o considerar bom, isso servirá de aviso, talvez de aviso necessário. Porque alguns livros de oração dizem que, embora não possa por si chegar a esse estado, já que tudo é obra sobrenatural do Senhor nela, a alma pode ajudar-se elevando o espírito acima das coisas criadas, fazendo-o com humildade, depois de muitos anos de vida purgativa e de ter aproveitado a iluminativa. Não sei bem por que dizem “iluminativa”; deve ser o caminho dos que vão progredindo.

Esses livros insistem em que se deve afastar toda imaginação corpórea, chegando-se a contemplar a Divindade; eles afirmam que, para quem chegou tão longe, mesmo a Humanidade de Cristo é um embaraço e um empecilho à contemplação mais perfeita. Recorrem esses livros ao que o Senhor disse aos Apóstolos quando da vinda do Espírito Santo — digo, quando subiu aos céus.1 Porque lhes parece que, sendo essa obra toda espiritual, qualquer coisa corpórea a pode impedir ou prejudicar; e que, vendo-se as coisas de modo amplo,2 deve--se considerar que Deus está em toda parte e ver-se engolfado nele.

Isso me parece correto algumas vezes. O que não posso tolerar é o total afastamento de Cristo e a consideração de Seu divino Corpo como membro da relação de nossas misérias e das coisas criadas. Que Sua Majestade me permita saber explicá-lo.

2. Eu não o contradigo, porque os seus autores são letrados, pessoas espirituais, que sabem o que dizem; além disso, Deus conduz as almas por muitos caminhos e veredas. Quero explicar agora como conduziu a minha — nas outras coisas não me intrometo — e o perigo em que me vi por querer seguir aquilo que lia. Acredito que quem chegar a ter união e não passar adiante — isto é, chegar a ter arroubos, visões e outras graças que Deus dá às almas — vai considerar muito boa, como eu considerei, essa doutrina; mas, se eu tivesse continuado a acreditar, creio que nunca teria chegado ao ponto em que estou, porque, a meu ver, ela é errônea. Talvez eu é que esteja enganada; mas vou contar o que me aconteceu.

3. Como não tinha diretor, eu costumava ler tais livros, imaginando ir aos poucos entendendo alguma coisa (mais tarde percebi que, se o Senhor não me mostrasse, eu pouco poderia aprender com os livros, porque nada compreendia até que Sua Majestade me permitia entender por experiência; eu não sabia sequer o que fazia); quando comecei a ter alguma oração sobrenatural, isto é, de quietude, eu procurava afastar todas as coisas corpóreas, embora não me atrevesse a elevar a alma, porque, como era sempre tão ruim, eu sabia ser ousadia. Mas eu tinha a impressão de sentir a presença de Deus, o que é verdade, procurando estar recolhida com Ele — trata-se de oração saborosa, se Deus ajuda, de grande deleite.

Vendo-me com tais proveitos e gostos, não havia o que me fizesse voltar à Humanidade, a qual, para falar a verdade, me parecia um impedimento. Ó Senhor de minha alma e Bem meu, Jesus Cristo crucificado! Não me recordo uma única vez dessa opinião que tive sem sentir pesar; parece-me que cometi uma grande traição, embora por ignorância.

4. Sempre fui muito devota de Cristo (porque isto3 aconteceu depois, sendo pouco o tempo que durou essa opinião) e sempre voltava ao costume de alegrar-me com esse Senhor, em especial quando comungava. Quisera ter sempre diante dos olhos o Seu retrato e a Sua imagem, já que não podia tê--Lo tão gravado na minha alma como desejava.

Será possível, Senhor meu, que tenha estado por um instante no meu pensamento a idéia de que me havíeis de impedir alcançar o maior bem? De onde me vieram todos os bens senão de Vós? Nem quero pensar que fui culpada disso, porque muito me lastimo, sendo a causa, por certo, a ignorância; e Vós quisestes, por Vossa bondade, remediá-la, dando-me alguém para me tirar desse erro, permitindo também que eu Vos visse muitas vezes, como adiante direi,4 para que percebesse com mais clareza quão grande era o erro, e para que eu o dissesse a muitas pessoas, como já o fiz e o faço agora.

5. Tenho para mim que isso é o que impede muitas almas de não aproveitar mais nem alcançar uma liberdade de espírito muito maior quando chegam a ter oração de união. Parece-me que há duas razões para isso, e talvez eu não diga nada pertinente, mas o que digo sei por experiência, já que a minha alma estava muito mal, até que o Senhor a iluminou. Todas as alegrias da alma vinham a sorvos, e ela, saindo dali, não sentia a Companhia que depois teve nos sofrimentos e tentações.

Uma delas é5 certa falta de humildade, estando esta tão escondida e dissimulada que não a sentimos. E quem será o orgulhoso e miserável, como eu, que, quando tiver passado toda a vida com todas as penitências, orações e perseguições que se puderem imaginar, não se considere muito rico e muito bem pago, quando o Senhor lhe consente ficar ao pé da cruz com São João?6 Não sei em que outra cabeça, além da minha, caberia a idéia de não se contentar com isso, perdendo no que havia de ganhar.

6. Porque se, todas as vezes, a nossa condição ou enfermidade não nos permitem, por ser penoso, pensar na Paixão, quem nos impede de estar com Ele depois de ressuscitado, pois tão perto O temos no Sacramento, onde já está glorificado, e onde não o contemplamos tão fatigado e despedaçado, sangrando, cansado de caminhar, perseguido por aqueles a quem fez tanto bem, privado da crença dos Apóstolos?7 Pois com certeza ninguém suporta pensar sempre nos tantos sofrimentos que Ele teve.

Ei-Lo aqui, sem sofrimentos, cheio de glória, confortando uns, animando outros, antes de subir aos céus, nosso companheiro no Santíssimo Sacramento, porque parece que Ele não poderia afastar-se um momento de nós. Mas eu pude afastar-me de Vós, Senhor meu, para melhor servir-Vos! Quando Vos ofendia, eu não Vos conhecia; mas, conhecendo-Vos, como pude pensar em ganhar mais seguindo esse caminho? Ó Senhor, que mau rumo eu seguia! Parece-me que eu me teria perdido se Vós não me fizésseis voltar ao caminho, pois, ao ver-Vos junto a mim, vi todos os bens. Não há sofrimento que eu, vendo o que sofrestes diante dos juízes, não me alegre em padecer. Com tão bom amigo presente, com tão bom capitão, que se ofereceu para sofrer em primeiro lugar, tudo se pode suportar; Ele é auxílio e encorajamento, nunca falta, é amigo verdadeiro.

E vi com clareza, e continuei a ver, que Deus deseja, para O agradarmos e para que nos conceda grandes favores, que os recebamos por meio dessa Humanidade sacratíssima, em que Sua Majestade se deleita.8 Muitíssimas vezes o tenho visto por experiência; o Senhor me disse. Tenho certeza de que temos de entrar por essa porta9 se quisermos que a soberana Majestade nos revele grandes segredos.

7. Assim, que vossa mercê, senhor,10 não deseje outro caminho, mesmo que esteja no auge da contemplação; pois esse caminho é seguro. É por meio desse Senhor nosso que nos vêm todos os bens.11 Ele o ensinará; o melhor modelo é contemplar a Sua vida. Que mais queremos além de um amigo tão bom ao nosso lado, que não nos deixa passar sozinhos por sofrimentos e tribulações, ao contrário dos do mundo? Bem-aventurado quem O amar de verdade e sempre O tiver junto a si. Contemplemos o glorioso São Paulo, de cuja boca só saía o nome de Jesus, tão bem gravado o tinha no coração. Observei com cuidado, depois que compreendi isso, alguns santos, grandes contemplativos, que não seguiam outro caminho. São Francisco dá mostras disso nas chagas; Santo Antônio de Pádua, no Menino; São Bernardo se deleitava com a Humanidade; Santa Catarina de Sena… e tantos outros que vossa mercê conhece melhor do que eu.

8. Deve ser correto apartar-se do corpóreo, porque pessoas muito espirituais o aconselham; mas, para mim, só quando a alma já está muito adiantada, porque, antes disso, está claro, deve-se buscar o Criador por intermédio das criaturas.12 Tudo depende de como o Senhor concede graças a cada alma; nisso não me intrometo. O que eu queria explicar é que a Humanidade sacratíssima de Cristo não faz parte disso. E que se entenda bem esse ponto, que eu gostaria de saber explicar.

9. Quando Deus quer suspender todas as faculdades, como nos modos de oração que vimos,13 está claro que, mesmo sem desejarmos, essa presença nos é tirada. Que ela vá em boa hora; essa perda é ditosa, pois serve para fluirmos mais do que temos a impressão de perder; porque, então, a alma se entrega toda a amar aquilo que o intelecto procurou conhecer; ela ama o que não compreen deu, regozijando-se no que não poderia se comprazer tão bem se não perdesse a si mesma para melhor ganhar. O que não me parece correto é que, intencional e cuidadosamente, acostumemo-nos a não procurar com todas as forças ter sem pre diante dos olhos — e quisera o Senhor que fosse sempre — essa sa cratíssima Humanidade; fazê-lo é ter a alma no ar, como dizem; porque parece que ela não tem apoio, por mais que pense estar plena de Deus.

É muito importante, enquanto vivemos e somos humanos, ter um apoio hu mano, sendo este o outro inconveniente de que falo. O primeiro, como co mecei a dizer,14 é a falta de humildade, que faz a alma querer se levantar antes que o Senhor a eleve, e não contentar-se com meditar uma coisa tão preciosa, pretendendo ser Maria antes de ter trabalhado como Marta.15 Quando o Senhor o permite, mesmo que seja no primeiro dia, não há o que temer; mas sejamos comedidos, como acho que já disse. Esse pequeno argueiro da pouca humildade, embora não pareça ser grande coisa, muito prejudica quem deseja progredir na contemplação.

10. Voltando ao segundo ponto, não somos anjos, pois temos um corpo; querer ser anjo estando na terra — ainda mais do modo como eu estava — é um disparate, devendo-se ter um apoio material para o pensamento; ainda que algumas vezes a alma saia de si ou ande tão plena de Deus que não precise de coisas criadas para atingir o recolhimento, isso não é algo tão comum; quando não é possível ter tranqüilidade, quando se anda às voltas com negócios, perseguições e sofrimentos, e em tempo de aridez, Cristo é um amigo muito bom, porque O vemos Homem, com fraquezas e sofrimentos, e permanecemos em Sua companhia; e, quando nos acostumamos, encontramo--Lo com facilidade junto a nós, embora haja dias em que não conseguimos nem uma coisa nem outra.

Quando isso acontece, é bom aquilo que já falei:16 não procuremos consolos do espírito; aconteça o que acontecer, ficar abraçado à cruz é muito bom. Este Senhor se viu privado de todo o consolo, restando-Lhe apenas os sofrimentos; não O deixemos só, fazendo-O sofrer mais. Ele nos ajudará mais do que os nossos esforços, ausentando-se quando vir que convém e que o Senhor quer tirar a alma de si mesma, como falei.17

11. Muito alegra a Deus que uma alma se sirva humildemente do Seu Filho, amando-O tanto que, mesmo que Sua Majestade queira levá-la a uma grande contemplação — como falei —,18 ela se reconhece indigna, dizendo com São Pedro: Apartai-vos de mim, Senhor, porque sou homem pecador.19

Passei por essa experiência; assim Deus tem conduzido a minha alma. Outros irão, como eu já disse,20 por outro atalho. O que entendo é que todo o alicerce da oração tem como base a humildade e que, quanto mais se humilha na oração, tanto mais a alma é elevada por Deus.21 Não me recordo de ter recebido nenhuma graça especial das que falarei adiante num momento em que não estivesse desfeita por ver que era tão ruim; e Sua Majestade ainda procurava dar-me a entender coisas que eu jamais saberia imaginar para que eu melhor me conhecesse.

Acredito que tudo o que a alma faz para se ajudar nessa oração de união logo volta a desaparecer, mesmo que pareça muito proveitoso, por ser coisa sem fundamento. Receio que, com isso, nunca se alcance a verdadeira pobreza de espírito, que consiste em não buscar consolo nem prazer na oração — porque os da terra já foram abandonados —, mas consolação nos sofrimentos, por amor Daquele que sempre viveu em meio a eles, e em ter paz nos sofrimentos e nas securas. Mesmo que sinta alguma coisa, a alma não deve se inquietar ou perturbar, como o fazem certas pessoas que consideram tudo perdido se não estiverem sempre trabalhando com o intelecto e sentindo fervor, como se, pelos seus esforços, pudessem merecer tão grande bem. Não digo que não se queira estar nem se esteja com reverência diante de Deus; mas que, se não puderem ter um único pensamento bom, como já falei,22 que as pessoas não se matem. Somos servos inúteis; que pensamos poder?

12. O Senhor quer antes que saibamos disso e que sejamos como jumentinhos para trazer a água por meio da nora de que falei;23 porque, mesmo com os olhos fechados e sem saber o que fazem, eles vão tirar mais água do que o jardineiro com todos os seus esforços. Temos de percorrer esse caminho com liberdade, entregues às mãos de Deus; se Sua Majestade quiser que sejamos Seus camareiros e confidentes de Seus segredos, que vamos de boa vontade; se Ele não o quer, que O sirvamos em tarefas subalternas e não nos sentemos no melhor lugar,24 como já falei. Deus tem mais cuidado do que nós e sabe o que é bom para cada um.

Que proveito obtém de governar-se a si quem já entregou toda a sua von tade a Deus? Para mim, tolera-se isso aqui muito menos do que no primei ro grau de oração, havendo muito mais prejuízo; trata-se de bens sobrenaturais: quem tem uma voz ruim não a torna boa, por mais que se esforce para cantar. Se Deus quiser dá-la, só se tem de recebê-la sem esforço. Supliquemos sempre que Ele nos dê Suas graças, com a alma submissa, embora confiante na grandeza de Deus. Como é permitido à alma ficar aos pés de Cristo, que esta não procure sair dali,25 seja qual for a sua condição; que ela imite Madalena e, quando estiver forte, Deus a levará ao deserto.

13. Assim, que vossa mercê, até achar quem tenha mais experiência que eu e saiba melhor, acredite nisso. Se forem pessoas que começam a gostar de Deus, não lhes dê crédito, pois elas têm a impressão de que aproveitam e obtêm mais prazer ajudando-se a si mesmas.26 Quando o Senhor quer, apresenta-se por inteiro sem essas ajudazinhas! Por mais que façamos, Ele arrebata o espírito, como um gigante a uma palha, e não há quem resista — como crer que, quando o quer, Ele espere que o sapo voe por si mesmo? O nosso espírito fica ainda mais pesado e difícil de levantar quando Deus não o eleva; estando carregado de terra e de mil impedimentos, pouco o beneficia o querer voar. Porque, embora isso seja mais natural para ele do que para o sapo, o espírito está tão mergulhado na lama que perdeu essa capacidade por sua própria culpa.

14. Quero concluir dizendo: sempre que pensarmos em Cristo, lembremo--nos do amor com que nos deu tantas graças e da grande prova que Deus nos dá disso ao nos conceder esse penhor do muito que nos ama; recordemo-nos de que o amor gera amor. E, mesmo que seja bem no princípio e embora sejamos muito ruins, procuremos ver isso sempre, e despertemo-nos para amar; porque, se o Senhor nos conceder uma vez o favor de que esse amor fique impresso no nosso coração, tudo ficará fácil, e faremos muito com rapidez e sem esforço. Que Sua Majestade nos dê esse amor — pois sabe o quanto ele nos convém —, em nome do amor que nos teve e do Seu Filho glorioso, que com muitos sofrimentos no-lo mostrou. Amém.

15. Desejo perguntar uma coisa a vossa mercê: por que, começando o Senhor a conceder graças a uma alma, e graças tão elevadas, como levá-la à perfeita contemplação, não fica ela logo totalmente perfeita (e com razão, porque quem recebe semelhante favor não devia mais querer consolos na terra)? Quando ela chega a ter arroubos e já está mais habituada a receber graças, por que será que os efeitos não ficam mais elevados? A alma deveria ficar tanto mais desapegada quanto mais se multiplicassem as graças; chegando a esse ponto, não poderia o Senhor santificá-la de uma vez, da mesma maneira como, mais tarde, com a passagem do tempo, vai aperfeiçoando-a nas virtudes?27

Isso eu gostaria de saber, pois o ignoro; mas sei que a força que Deus infunde no princípio, quando essa graça dura somente um piscar de olhos e só é perceptível pelos efeitos, é diferente da que vem de uma concessão mais generosa desse favor. E muitas vezes eu tenho a impressão de que o problema está em a alma não se dispor logo por inteiro, devendo o Senhor, pouco a pouco, educá-la, torná-la determinada, dando-lhe forças viris, para que ela tudo ponha inteiramente sob os pés. Tal como Ele o fez com Madalena num breve instante, o faz com outras pessoas, na medida da sua entrega à ação divina. Nunca acreditaremos o bastante no fato de Deus recompensar, ainda nesta vida, concedendo cem por um.28

16. Também pensei nesta comparação: as almas adiantadas e principiantes recebem o mesmo alimento, um manjar de que comem muitas pessoas. As que comem pouco ficam somente com o bom sabor por algum tempo; as que comem um pouco mais obtêm dele a ajuda para se sustentar; as que comem muito recebem alento e força. É possível que se coma tantas vezes, e com tanto proveito, desse manjar da vida que já não se possa comer qualquer outra coisa; porque se vê o benefício que ele traz e fica-se com o paladar tão afeito a esse gosto suave que se prefere morrer a comer outras coisas, que só servem para tirar o gosto agradável deixado pelo bom manjar.

Também privar de uma companhia santa não traz tanto benefício num dia como em muitos; e podem ser tantos os dias em que estamos com ela que, se Deus nos favorecer, nos tornemos como ela. Na verdade, tudo depende do que Sua Majestade quer dar e a quem quer dar; mas é muito importante que a alma que começa a ser agraciada se desapegue de tudo e aprecie devidamente esse favor.

17. Também tenho a impressão de que Sua Majestade procura descobrir quem O ama ou não. E Ele revela quem é, com um deleite muito soberano, capaz de avivar a fé — caso esta esteja amortecida — naquilo que há de nos dar, dizendo: “Olhai, que isto é uma gota do imenso mar de bens”. Ele nada deixa por fazer àqueles a quem ama. E, vendo que O recebem, dá e se dá a Si mesmo. Ele ama a quem O ama; e como sabe amar e que bom amigo é! Ó Senhor de minha alma, quem dera que eu tivesse palavras para explicar o que dais a quem confia em Vós e o que perde quem chega a esse estado e fica apegado a si mesmo! Vós não desejais isso, pois fazeis muito mais vindo a uma pousada tão ruim quanto a minha. Bendito sejais por todo o sempre!

18. Volto a suplicar a vossa mercê que, se tratar dessas coisas de oração que escrevi com pessoas espirituais, que elas o sejam de fato; porque, se não conhecerem senão um caminho ou se tiverem ficado na metade dele, elas não o poderão compreender. E há algumas que são levadas desde o início por um caminho muito elevado; a essas parece que outros também poderão tirar proveito ali, aquietando o intelecto, sem se valerem de coisas materiais — ficando assim secas como paus. Outras, tendo tido um pouco de quietude, logo pensam que, como têm uma coisa, podem fazer a outra; e, em vez de aproveitarem, desperdiçam, como eu disse.29 Em resumo, em tudo há necessidade de experiência e discernimento. Que o Senhor no-los conceda pela Sua bondade.

Capítulo 23

Retoma a narração de sua vida e diz como começou a crescer na perfeição e por que meios. É proveitoso para as pessoas que se encarregam de dirigir almas que têm oração saberem como devem agir no princípio e tomarem conhecimento do benefício que obteve por ter encontrado quem a dirigisse.

1. Quero agora voltar ao ponto em que interrompi a narração da minha vida,1 pois creio que me desviei mais do que devia para que se entendesse melhor o que vem a seguir. Daqui por diante, é um novo livro, isto é, uma vida nova. A que levei até aqui era minha; a que passei a viver depois que comecei a falar dessas coisas de oração é a que Deus vive em mim. Porque entendo que era impossível sair por mim mesma em tão pouco tempo de costumes e ações tão maus. Louvado seja o Senhor, que me livrou de mim mesma.

2. Tão logo abandonei as ocasiões e me dediquei mais à oração, o Senhor começou a dar-me graças, como quem desejasse, ao que parece, que eu as quisesse receber. Sua Majestade passou a me conceder com freqüência a oração de quietude e, muitas vezes, de união, que durava um longo tempo. Como naquela época havia casos de grandes ilusões e enganos provocados nas mulheres pelo demônio,2 eu comecei a temer, visto serem grandes o de­leite e a suavidade que eu sentia, amiúde sem poder evitar, por ver em mim uma enorme segurança que era Deus, em especial quando estava em oração. Eu via que, nessa condição, ficava muito melhor e mais forte; mas, quando me distraía um pouco, voltava a ter medo e a pensar se o demônio não que reria, fazendo-me entender que era bom, suspender-me o intelecto para pri var-me da oração mental, impedindo-me de pensar na Paixão e de me be neficiar do raciocínio, pois isso me parecia a maior perda, porque eu não com preendia as coisas.

3. Contudo, como Sua Majestade já queria me iluminar para que eu não O ofendesse e reconhecesse o muito que Lhe devia, esse temor aumentou tanto que fui procurar com urgência pessoas espirituais com quem tratar, pois já tinha conhecimento de algumas, visto a minha casa ter sido visitada por membros da Companhia de Jesus, de quem eu — sem conhecer nenhum deles — gostava muito, só por conhecer o seu modo de vida e de oração. Mas eu não me considerava digna de falar com eles nem capaz de obedecer-lhes, o que me trazia mais medo, pois me parecia muito difícil suportar tratar com eles e permanecer sendo quem era.

4. Assim continuei por algum tempo, até que, com muita luta e temores, decidi procurar uma pessoa espiritual para perguntar-lhe o que era a oração que eu tinha, para que ela me desse luz, explicando-me se eu estava errada, ajudando-me a fazer tudo o que eu pudesse para não ofender a Deus; porque, como eu disse,3 a falta de coragem que via em mim me deixava muito tímida. Que erro tão grande, valha-me Deus: por querer ser boa, eu me afastava do bem! O demônio deve fazer muita oposição aos iniciantes no caminho da virtude, pois eu não conseguia vencê-la. Ele sabe que todo o recurso de uma alma está em se relacionar com amigos de Deus, e por isso eu nunca conseguia me decidir a fazê-lo. Eu esperava me corrigir antes, como quando deixei a oração,4 o que jamais deveria ter feito, pois já estava tão envolvida em coisinhas de mau costume, sem conseguir perceber que eram más, que precisava da ajuda de outros que me dessem a mão para me levantar. Bendito seja o Senhor, pois a Sua mão foi a primeira.

5. Como vi que o meu temor crescia, porque a oração progredia, pensei que nisso havia grande bem ou imenso mal; eu já compreendia que tinha uma coisa sobrenatural, porque às vezes não podia resistir-lhe nem conseguia tê--la quando desejava. Pensei comigo que não havia remédio se não procurasse ter a consciência limpa e afastar-me de toda ocasião de pecado, mesmo venial; se isso vinha do espírito de Deus, o benefício era claro; se vinha do demônio, o fato de eu procurar alegrar o Senhor e não ofendê-Lo fazia com que eu me prejudicasse pouco, ao mesmo tempo que derrotava o demônio. Determinada, e suplicando sempre a Deus que me ajudasse, agi assim por algum tempo e vi que a minha alma não tinha força para manter-se tão per feita sozinha, devido a alguns apegos a coisas que, embora não fossem más em si, bastavam para estragar tudo.

6. Falaram-me de um culto sacerdote5 neste lugar, cuja bondade e vida santa o Senhor começava a mostrar às pessoas. Eu o procurei por meio de um fi dalgo santo6 que vive aqui. É casado, mas tem vida tão exemplar e virtuosa, e de tanta oração e caridade, que em todo o seu ser resplandecem a bondade e a perfeição. E com muita razão, porque grande bem tiveram muitas almas por seu intermédio, visto ter ele tantos talentos que, embora a sua condição não o ajude, não pode deixar de praticar boas obras: é muito inteligente e muito amável com todos; sua conversa não é monótona, mas suave e gracio sa, além de reta e santa, dando grande contentamento a quem com ele se relaciona. Ele tudo faz para o grande bem das almas com quem conversa, não tendo outro desejo senão beneficiar a todos, dando-lhes contentamento.

7. Pois esse bendito e santo homem, com seu engenho, me parece ter sido o princípio da salvação da minha alma. Sua humildade me provoca admiração. Ele, pelo que sei, há cerca de quarenta anos tem oração — talvez com uma diferença de dois ou três anos a menos — e leva a vida de maior perfeição que seu estado lhe permite; pois tem uma mulher tão grande serva de Deus e tão caridosa que só pode ajudá-lo; em suma, Deus a escolheu como esposa de alguém que Ele sabia que viria a ser um grande servo Seu. Alguns dos seus parentes tinham desposado pessoas da minha família,7 havendo também um estreito relacionamento seu com outro servo de Deus casado com uma prima minha.

8. Por esse meio, procurei que viesse falar-me o sacerdote que eu disse ser tão servo de Deus,8 muito amigo daquele fidalgo. Eu pretendia tê-lo como confessor e diretor. O fidalgo o trouxe para que eu lhe falasse; eu me senti muito confusa na presença de homem tão santo e falei-lhe apenas da minha alma e da minha oração, pois ele não quis confessar-me, dizendo que era muito ocupado, o que era verdade. Ele começou com a santa resolução de conduzir-me como alma forte — pois havia razão para que eu assim fosse, a julgar pela oração que ele viu que eu tinha —, a fim de que eu, de nenhuma maneira, ofendesse a Deus. Vendo sua determinação imediata em coisinhas que eu, como disse,9 não tinha forças para enfrentar com tanta perfeição, fiquei aflita, e, percebendo que ele considerava as coisas da minha alma dificuldades que seriam vencidas de uma só vez, vi que tinha necessidade de muito mais cuidado.

9. Enfim, entendi que os recursos que ele me oferecia não me levariam a me remediar, por serem adequados a uma alma mais perfeita, enquanto eu, embora avançada nas graças de Deus, mal começava a praticar as virtudes e a mortificação. Se eu tivesse de tratar somente com ele, creio que certamente a minha alma nunca iria progredir, porque a própria aflição que me dava por eu ver que não fazia — nem parecia poder fazer — o que ele me dizia era suficiente para que eu perdesse a esperança e abandonasse tudo.

Fico algumas vezes espantada com o fato de que, sendo ele uma pessoa que tem a graça particular de conduzir a alma de principiantes a Deus, não tivesse podido entender a minha, nem se dispusesse a encarregar-se dela; e vejo que tudo foi para o meu maior bem, para que eu conhecesse e me relacionasse com pessoas tão santas quanto as da Companhia de Jesus.

10. Combinei com esse fidalgo santo que me visitasse algumas vezes. Aqui se provou sua grande humildade, pois ele se dispôs a tratar com uma pessoa tão ruim quanto eu. Ele começou a visitar-me, animando-me e dizendo que eu não pensasse que um dia me afastaria de tudo de uma vez, e que Deus faria isso aos poucos. Contava-me que, durante anos, ele mesmo estivera envolvido com coisas ruins, não as tendo podido acabar por si mesmo. Ó humildade, que grandes bens fazes onde te encontras e aos que se aproximam de quem te tem! Dizia-me esse santo (que, a meu ver, posso chamar assim), para me beneficiar, que tinha fraquezas — porque, com sua humildade, ele assim as considerava; mas, levando-se em conta o seu estado, não eram faltas nem imperfeição, ao passo que, para o meu, o eram em alto grau.

Não é sem razão que digo isso, embora pareça que me estendo em detalhes: isso importa muito para que uma alma comece a aproveitar e para levá-la a voar (mesmo sem asas, como dizem), o que só pode receber crédito de quem tiver passado por isso. Faço-o também porque espero em Deus que vossa mercê beneficie muitos. Digo que toda a minha salvação foi ter quem soubesse me curar, tivesse humildade e caridade para ficar comigo e sofresse ao ver que eu não me corrigia de todo. Discretamente, ele ia me ensinando aos poucos várias maneiras de vencer o demônio. Comecei a ter tamanho afeto por ele que não havia maior descanso do que o dia em que o via, embora isso não fosse muito freqüente. Quando ele demorava a me visitar, eu ficava muito aflita, crendo que, por ser eu tão ruim, não viesse mais.

11. Como ele foi percebendo minhas imensas imperfeições, e talvez pecados (embora depois do meu contato com ele eu estivesse melhor), e como eu lhe contasse das graças que Deus me concedia, para que ele me esclarecesse, disse-me o fidalgo que uns e outros não eram compatíveis entre si, pois aqueles regalos eram de pessoas muito avançadas e mortificadas, razão por que não podia deixar de temer muito, pois algumas coisas lhe pareciam vir do mau espírito, apesar de ele não chegar a uma conclusão definitiva. Ele me disse que refletisse bem sobre tudo o que percebia em minha oração e lhe contasse. Isso era difícil para mim, que não sabia dizer nada sobre o que era a minha oração, porque essa graça de entender o que ela é, e de poder explicá-la, me foi dada por Deus há pouco tempo.

12. Quando ele me disse isso, como eu já estivesse com medo, foi grande a minha aflição, e muitas as lágrimas que derramei; porque, é claro, eu desejava contentar a Deus e não podia me convencer de que aquilo fosse obra do demônio. Mas temia que, devido aos meus grandes pecados, Deus me cegasse para que eu não o entendesse. Olhando livros para ver se conseguia uma descrição da oração que eu tinha, encontrei em um, Subida del Monte,10no tocante à união da alma com Deus, todos os sinais que se manifestavam em mim, notadamente a impossibilidade de pensar. Pois isso era o que eu mais observava: quando tinha aquela oração, eu não podia pensar; sublinhei essas passagens e dei-lhe o livro, para que ele e o clérigo a que me referi11 olhassem e me dissessem o que devia fazer. Eu lhes disse que, se essa fosse a sua opinião, eu deixaria a oração por inteiro, pois não havia motivo para me expor a tais perigos. Porque, se ao fim de quase vinte anos de prática12 nada conseguira lucrar — só tendo obtido enganos do demônio —, melhor seria deixá-la, embora isso também fosse muito ruim, visto eu já saber como ficava a minha alma sem a oração. É grande o sofrimento que disso advém, como quem cai no rio e, vá para onde vá, vê maior perigo, estando prestes a se afogar.

Este é um grande sofrimento, e desse tipo tenho tido muitos, como fa larei adiante.13 Embora pareça não importar muito, talvez seja benéfico en tender como se há de provar o espírito.

13. E é sem dúvida grande a aflição por que passamos, sendo necessária a prudência, em especial quando se é mulher, porque, sendo grande a nossa fraqueza, seria muito ruim dizer com clareza que se trata de obra do demônio; é preferível observar muito bem, afastando-as dos perigos que possa haver, avisando-as discretamente, e mantendo o segredo, porque assim convém.

Falo isso porque muito sofri pelo fato de algumas pessoas com quem tratei da minha oração não terem sido discretas, falando com uns e outros, causando-me, por bem, imenso dano, divulgando coisas que ficariam melhor ocultas — pois não são para todos — e dando a impressão de que eu as tornava públicas. Creio que o Senhor permitiu que assim agissem, sem culpa sua, para que eu padecesse. Não digo que revelassem segredos da confissão; contudo, como eram pessoas a quem eu contava meus temores para que me esclarecessem, eu achava que tinham de ficar caladas. Todavia, nunca ousei ocultar-lhes coisa alguma.

Afirmo, pois, que se alertem as pessoas com muita prudência, estimulando-as e aguardando: o Senhor as ajudará como ajudou a mim. Se Ele não me tivesse ajudado, eu me teria prejudicado muito, temerosa e medrosa que era. Como eu sofria muito do coração, espanto-me que isso não tenha me trazido muitos malefícios.

14. Dei o livro e um relato14 da minha vida e dos meus pecados, que fiz o melhor que pude (não como confissão, por ser ele secular, mas dando bem a entender quão ruim eu era), para que os dois servos de Deus verificassem, com sua grande caridade e amor, o que era conveniente para mim.

Quando veio a resposta que eu, muito temerosa, esperava, depois de ter pedido a muitas pessoas que me encomendassem a Deus e de ter feito muitas orações naqueles dias, o fidalgo, muito aflito, veio a mim e me disse que, ao ver de ambos, se tratava do demônio, sendo recomendável que eu procurasse um padre da Companhia de Jesus, que viria se eu o chamasse dizendo quanta necessidade tinha; eu deveria contar-lhe toda a minha vida, numa confissão geral, falando-lhe de minha condição, de maneira muito explícita. A virtude do sacramento da confissão lhe daria, com a graça de Deus, mais luz; disseram-me que esses padres têm muita experiência nas coisas do espírito e que eu não deveria descuidar daquilo que me dissesse, pois corria grande risco se não houvesse quem me dirigisse.

15. Isso me trouxe tanto medo e pesar que só pude chorar. Estando num oratório, desfeita, sem saber o que haveria de ser de mim, li num livro que o Senhor parece ter posto em minhas mãos, o que dizia São Paulo: Deus é muito fiel e jamais consente que os que o amam sejam enganados pelo demônio.15 Isso me trouxe muito consolo.

Comecei a cuidar da minha confissão geral, anotando todos os males e bens, narrando a minha vida da maneira mais clara que podia, sem omitir nada.16

Recordo-me que, depois de escrever, vi muitos males e quase nenhum bem, o que me deu muita dor e aflição. Eu também sofria pelo fato de me verem tratar em casa com pessoas santas como as da Companhia de Jesus, temendo pela minha ruindade, pois me parecia, fazendo isso, ficar mais obrigada a não ser tão ruim e a afastar-me dos meus passatempos, porque, se não o fizesse, estaria agravando a minha situação. Por essa razão, pedi à sacristã e à porteira que não o revelassem a ninguém. Isso pouco me valeu, porque estava à porta, quando me chamaram, quem o contou a todo o convento. Que empecilhos e temores põe o demônio no caminho de quem deseja chegar a Deus!

16. Tratando com aquele servo de Deus17 — muito dedicado e prudente —, revelei-lhe tudo o que me ia na alma. Bom conhecedor dessa linguagem, ele me disse o que era e muito me estimulou. Afirmou ser notoriamente es pírito de Deus, mas que havia necessidade de que eu recomeçasse a oração, porque ela não estava bem fundada, e eu não tinha começado a entender a mortificação (e isso era tão verdadeiro que até o nome eu parecia não entender). Eu de nenhuma maneira deveria deixar a oração, sendo preciso que eu me esforçasse muito, já que o Senhor me concedia favores tão particulares. Ele declarou que talvez o Senhor quisesse, por meu intermédio, beneficiar muitas outras pessoas, bem como fazer outras coisas (parece que ele profetizou o que depois o Senhor fez comigo), e que eu seria muito culpada se não correspondesse às graças que Deus me dava. Em tudo me parecia falar nele o Espírito Santo, para curar a minha alma, tamanha a força com que se imprimiam nela as palavras dele.

17. Isso me deixou muito confusa, levando-me por caminhos que me davam a impressão de que eu me tornara uma pessoa completamente diferente. Que grande coisa é compreender uma alma! Ele me disse que eu orasse todos os dias com uma passagem da Paixão, que me beneficiasse de Cristo e não pensasse senão em Sua Humanidade, e que resistisse o quanto pudesse aos recolhimentos e gostos, só permitindo que ocorressem quando ele me ordenasse outra coisa.

18. Ele me deixou consolada e estimulada; o Senhor me ajudou, e a ele, para que entendesse a minha condição e a maneira de me dirigir. Fiquei determinada a não me desviar do que ele me mandasse em nenhuma coisa, e tenho agido assim até hoje. Louvado seja o Senhor, que me deu a graça de obedecer aos meus confessores, ainda que de modo imperfeito; tenho tido como confessores, quase sempre, esses benditos homens da Companhia de Jesus e, como digo, eu os tenho seguido, se bem que imperfeitamente.

A minha alma começou a ter uma sensível melhora, como agora direi.

Capítulo 24

Prossegue no relato iniciado e conta como a sua alma foi progredindo depois que começou a obedecer, dizendo quão pouco lhe adiantava resistir às graças de Deus e como Sua Majestade continuava a dá-las com maior abundância.

1. Depois dessa confissão, a minha alma ficou com tanta paz que eu tinha a impressão de que não havia nada a que eu não me dispusesse. Assim, comecei a mudar muitas coisas, embora o confessor não me pressionasse, parecendo antes não fazer caso de nada. Isso me estimulava mais, pois me levava pelo caminho do amor a Deus, dando-me liberdade para que eu agisse por amor, e não pela recompensa.

Assim fiquei quase dois meses, tudo fazendo para resistir aos regalos e graças de Deus. Quanto ao exterior, a mudança era perceptível, porque o Senhor já começava a me dar forças para suportar certas coisas que pessoas que me conheciam consideravam extremas, inclusive as da minha casa.1 Levando em conta o que eu fazia antes, elas tinham razão em pensar assim; mas, considerando as obrigações que o meu hábito e profissão impunham, isso não era nada.

2. Resistindo a esses gostos e regalos de Deus, consegui que Sua Majestade me ensinasse; porque, antes, eu pensava que, para que Ele me desse regalos na oração, precisava de total isolamento, e quase não me atrevia a me mexer. Depois percebi que isso pouco adiantava; porque, quanto mais eu procurava me distrair, tanto mais o Senhor me cobria de uma suavidade e de uma glória que me pareciam rodear por inteiro, deixando-me sem condições de fugir. Era tanta a minha preocupação que eu muito sofria. O Senhor se preocupava mais em me conceder favores e a se manifestar mais intensamente nesses dois meses, para que eu melhor compreendesse que não podia resistir-Lhe.

Comecei a sentir de novo amor pela sacratíssima Humanidade. A minha oração melhorou, como um prédio melhor assentado; passei a ter afeição pelas práticas de penitência que não costumava seguir devido às minhas grandes enfermidades. Aquele santo homem a quem me confessei me disse que algumas coisas não poderiam me prejudicar e que, se porventura Deus me mandava tanto sofrimento, isso devia ser por causa de eu não fazer penitência, desejando Sua Majestade que eu a fizesse. Ele me mandava praticar algumas mortificações de que eu não gostava muito. Porém, eu tudo fazia, por achar que o Senhor o tinha enviado a mim, dando-lhe a graça de me ordenar de uma maneira que me fizesse obedecer. A minha alma já começa a se ressentir de qualquer ofensa que fizesse a Deus, por ínfima que fosse, razão por que, enquanto houvesse alguma coisa supérflua, eu não podia ficar em recolhimento. Eu rezava muito para que o Senhor me levasse pela mão; tratando com seus servos, eu Lhe pedia que me permitisse não recuar, pois isso me parecia ser um grande delito, capaz de fazê--los perder crédito por minha causa.

3. Nessa época, veio a este lugar o Padre Francisco,2 que era duque de Gan día e que, há alguns anos, tinha abandonado tudo e entrado na Companhia de Jesus. Meu confessor3 fez com que eu travasse contato com ele; o fidalgo de que falei também veio a mim, pedindo que eu lhe falasse e contasse sobre a oração que tinha, pois sabia que o Padre Francisco vivia num alto grau de contemplação, sendo muito favorecido e consolado por Deus; desde aquele momento, Deus o recompensava por ter ele deixado tudo pelo Senhor.

Tendo me ouvido, ele declarou tratar-se do espírito de Deus, parecendo--lhe ruim resistir-lhe, embora até então isso não tivesse feito mal. Ele me recomendou que eu sempre começasse a oração com uma passagem da Paixão e que, caso depois o Senhor me arrebatasse o espírito, eu não resistisse, mas me deixasse levar por Sua Majestade, também não O procurando. Como praticante avançado, ele me deu remédios e conselhos, visto que a experiência é muito importante nesse aspecto. Ele me disse que seria um erro resistir por mais tempo. Isso trouxe muito consolo a mim e ao fidalgo, que se alegrou muito por saber que tudo vinha de Deus. Ele sempre me ajudava e avisava no que podia, que era muito.

4. Nessa época, transferiram meu confessor,4 o que senti muitíssimo, pois pensei que voltaria a ser ruim, não me parecendo possível encontrar outro como ele. A minha alma ficou como num deserto, muito desconsolada e temerosa. Eu não sabia o que fazer de mim. Uma parente minha levou-me para sua casa, e procurei logo arranjar outro confessor na Companhia. Quis o Senhor que eu começasse a fazer amizade com uma senhora viúva, muito nobre e dedicada à oração, que tinha constante contato com os jesuítas.5 A instâncias dela, seu próprio diretor me ouviu. Fiquei vários dias em sua casa, porque ela morava perto dos padres, e eu gostava muito de conversar com eles; a minha alma muito se beneficiava só por ver a santidade de sua vida.

5. Esse padre6 passou a exigir de mim mais perfeição. Dizia-me que, para contentar por inteiro a Deus, nada era demais. Ele o fazia com tato e suavidade, porque a minha alma ainda não estava nada forte, e sim bem frágil, em especial no tocante a certas amizades; embora manter essas amizades não ofendesse a Deus, a afeição era muita, parecendo-me ser ingratidão abandoná-las. Eu lhe dizia que, como não ofendia a Deus, eu não tinha por que ser mal agradecida. Disse-me ele que eu me encomendasse a Deus por alguns dias e rezasse o hino Veni, Creator, para que Ele me desse luz sobre a melhor decisão a tomar. Certo dia, depois de muita oração e súplicas ao Senhor para que me ajudasse a contentá--Lo em tudo, comecei o hino e, quando o rezava, veio-me um arrebatamento tão repentino que quase me tirou de mim, coisa de que não pude duvidar, por ter sido muito manifesto. Essa foi a primeira vez que o Senhor me concedeu o favor dos arroubos. Entendi as palavras: Já não quero que fales com homens, mas com anjos.7 Isso me causou um grande espanto, porque a moção da alma foi grande e porque essas palavras, ditas no fundo do meu espírito, me causaram temor. Contudo, também me deram grande consolo, que permaneceu depois que se foi o temor, que, assim me pareceu, foi provocado pela novidade do fato.

6. Essas palavras se cumpriram, pois nunca mais consegui permanecer em amizades nem ter consolo nem afeição particular senão por pessoas que, pelo que percebo, amam a Deus e procuram servi-Lo. Mesmo que se trate de parentes e amigos, não tenho como agir de outro modo. Tratar com quem não ama a Deus nem se dedica à oração se tornou uma penosa cruz. Assim é, segundo me parece, sem nenhuma exceção.

7. Desde aquele dia, fique animada a deixar tudo por Deus, de uma maneira que me deu a impressão de que Ele quis, naquele momento — pois não me parece ter sido mais do que isso —, transformar por inteiro Sua serva. Assim, não foi necessário que me mandassem fazê-lo; o confessor, vendo-me tão apegada até então, não se atrevera a me dizer de modo patente que abandonasse as amizades. Ele devia estar esperando que o Senhor agisse como agiu. De minha parte, nunca pensei que o conseguisse; eu já tentava fazê-lo, mas era tanta a dor que sentia que desistia, ainda mais por não ver nessas amizades nenhum inconveniente. Naquele momento, porém, o Senhor me dera liberdade e força para levá-lo a efeito. Eu disso isso ao confessor e tudo abandonei, seguindo sua determinação. A pessoa com quem eu conversava tirou muito proveito do fato de ver que eu estava decidida.

8. Bendito seja Deus para sempre, por ter me dado, num instante, a liberdade que eu, com todos os esforços que fizera por muitos anos, não pude alcançar sozinha, tendo chegado muitas vezes a ponto de me exaurir tanto que abalava a própria saúde. Como foi dada por Aquele que é poderoso e Senhor verdadeiro de tudo, essa liberdade não me causou nenhum sofrimento.

domingo, 4 de julho de 2010

cap.: 11, 12, 13, 14


Aqui postaremos esses 4 capitulo juntos por se tratarem de um so assunto e que um sem o outro ficariam incompletos.

Capítulo 11

Diz por que não amamos a Deus com perfeição desde o início. Mediante uma comparação, afirma a existência de quatro graus de oração. Tratará aqui do primeiro, que considera muito proveitoso para os principiantes e para os que não têm prazer na oração.1

1. Falando agora dos que começam a ser servos do amor (que não me parece outra coisa além de nos decidirmos a seguir por esse caminho de oração Aquele que tanto nos amou), considero uma dignidade tão grande que sinto enorme prazer só de pensar nela; porque o temor servil logo desaparece se passamos por esse primeiro estágio como devemos. Ó Senhor de minha alma e Bem meu! Por que não quisestes que, determinando-se a amar-Vos — fazendo tudo o que pode para deixar o mundo e se dedicar ao amor de Deus —, a alma não gozasse logo a elevação a esse amor perfeito? Não me exprimo bem: tinha de falar e me queixar do fato de nós não a querermos; a cul pa é toda nossa por não gozarmos logo de tamanha dignidade, pois, se che garmos a ter com perfeição esse verdadeiro amor de Deus, também obte remos todos os bens. Somos tão difíceis e demoramos tanto a nos entregar de todo a Deus que, como Sua Majestade não deseja que gozemos coisa tão preciosa sem pagar um grande preço, nunca acabamos de nos dispor.

2. Bem vejo que não há com que se possa comprar na terra tão grande bem; mas, se fizéssemos o que está em nossas mãos, desapegando-nos das coisas dela, dedicando-nos por inteiro ao céu, creio que sem dúvida teríamos esse bem muito depressa, se logo nos entregássemos de todo, como o fizeram alguns santos. Contudo, julgamos dar tudo quando oferecemos a Deus somente a renda e os produtos, ficando com a raiz e a propriedade. Determinamo--nos a ser pobres — o que é bastante nobre —, mas muitas vezes voltamos a preocupar-nos e a labutar para que não nos falte não apenas o necessário como o supérfluo, e para granjear amigos que no-los dêem, e temos maiores preocupações (expondo-nos, por vezes, a perigos) para que nada nos falte do que antes, quando éramos proprietários.

Parece também que abandonamos a honra quando nos fizemos religiosos ou quando começamos a ter vida espiritual e a procurar a perfeição; no en tanto, se um ponto de honra é atacado em nós, esquecemo-nos de que já consagramos a honra a Deus e buscamos recuperá-la e — por assim dizer — ar rancá-la das Suas mãos, depois de tê-Lo feito senhor dela por nossa própria vontade, ao menos aparentemente. Assim ocorre com todas as outras coisas.

3. Estranha maneira de buscar o amor de Deus! E logo o queremos em abundância, como se diz. Não fica bem manter nossas afeições (já que não procuramos realizar nossos desejos nem nos apartamos totalmente deles) ao lado das muitas consolações espirituais que recebemos, nem essas duas coisas me parecem compatíveis. Com isso, como não damos tudo de uma vez, também não recebemos de vez esse tesouro. Queira o Senhor que, gota a gota, Sua Majestade nos dê esse tesouro, mesmo que isso nos custe todos os sofrimentos do mundo.

4. Ele é rico em misericórdia para com aqueles a quem dá graça e ânimo para que se decidam a procurar esse bem com todas as forças; porque Deus não se nega a quem persevera, habilitando pouco a pouco o seu ânimo a alcançar a vitória. Digo ânimo porque são muitas as coisas que o demônio põe diante de quem começa, para impedi-lo de começar de fato esse caminho. Porque este último sabe do prejuízo que tem ao perder não somente essa alma, mas muitas. Se o iniciante se esforça, com o favor de Deus, para chegar ao auge da perfeição, creio que nunca vai sozinho ao céu, levando sempre muita gente consigo; como a bom capitão, dá-lhe Deus quem vá em sua companhia.

São tantos os perigos e as dificuldades que ele põe2 que não é pouco o ânimo necessário para não voltar atrás, além do constante favor de Deus.

5. No princípio está a maior dificuldade dos que estão determinados a bus car esse bem e a realizar esse empreendimento (quanto ao que comecei a falar sobre a teologia mística — acho que é esse o seu nome —, retomarei adiante); porque, no início, são eles que trabalham, embora o Senhor lhes dê o capital. Nos outros graus de oração, só há prazer, embora no começo, no meio e no fim todos carreguem suas cruzes, ainda que diferentes; pelo mesmo caminho que Cristo percorreu devem passar os que O seguem, se não quiserem se perder. Benditos sofrimentos que, ainda nesta vida, são pagos tão excessivamente!

6. Terei de recorrer a alguma comparação, embora, por ser mulher, prefe ris se evitá-las e escrever simplesmente o que me mandam. Mas é tanta a di ficuldade da linguagem espiritual3 para os que, como eu, não têm instrução que terei de buscar algum meio, correndo o risco de nem sempre acertar nes sa comparação; divertirá vossa mercê4 ver tanta ignorância.

Parece-me que li ou ouvi esta comparação — como tenho memória ruim, não sei onde nem por quê; mas, para o meu objetivo aqui, basta-me citá-la.5 Quem principia deve ter especial cuidado, como quem fosse plantar um jardim, para deleite do Senhor, em terra muito improdutiva, com muitas ervas daninhas. Sua Majestade arranca as ervas daninhas e planta as boas. Façamos de conta que isso já aconteceu quando uma alma decide dedicar-se à oração e começa a se exercitar nela. Com a ajuda de Deus, temos de procurar, como bons jardineiros, que essas plantas cresçam, tendo o cuidado de regá-las para que não se percam e venham a dar flores, cujo perfume agradável delicie esse nosso Senhor, para que Ele venha a se deleitar muitas vezes em nosso jardim e a gozar entre essas virtudes.

7. Vejamos agora a maneira de regar, para sabermos o que fazer e o quanto isso nos há de custar; verificar se o lucro é maior do que o esforço e o tempo que o trabalho levará.

Parece-me que é possível regar de quatro maneiras:

— tirando a água de um poço, o que nos parece grande trabalho;

tirá-la com nora e alcatruzes movidos por um torno; assim o fiz algumas vezes:6 dá menos trabalho que a outra e produz mais água;

trazê-la de um rio ou arroio; rega-se muito melhor, a terra fica bem mo lhada, não é preciso regar com tanta freqüência e o jardineiro faz menos esforço;

contar com chuvas freqüentes; neste caso, o Senhor rega, sem nenhum trabalho nosso, sendo esta maneira incomparavelmente melhor do que as outras.

8. Agora, apliquemos à oração essas quatro maneiras de regar, com as quais haveremos de conservar o jardim, que, sem ser irrigado, perecerá. Com esta comparação acredito poder explicar algo dos quatro graus de oração em que o Senhor, pela sua bondade, pôs algumas vezes a minha alma. Queira a Sua bondade que eu o diga de um modo que traga proveito a uma das pessoas que me mandaram escrever,7 porque o Senhor, em quatro meses, a fez avançar mais do que eu consegui em dezessete anos. Essa pessoa se dispôs melhor do que eu e, assim, rega sem trabalho seu vergel com essas quatro águas, embora a última só lhe venha gota a gota; mas, a prosseguir assim, logo estará mergulhada nela, com a ajuda do Senhor, e gostarei que ria se lhe parecer disparatada a minha forma de dizer.

9. Pode-se dizer dos que começam a ter oração que apanham a água do poço, o que é muito trabalhoso, como eu disse,8 porque eles têm de cansar--se para recolher os sentidos, algo que, como não estão acostumados a concentrar-se, requer muito esforço. É preciso que eles vão se habituando a não se incomodar com o que vêem ou ouvem, fazendo-o efetivamente nas horas de oração, ficando em solidão e afastados para pensar em sua vida passada. Na verdade, todos devem fazer isso com freqüência, tanto iniciantes como os que estão avançados, pensando mais ou menos nisso, como depois direi.9 No princípio, os iniciantes ainda sofrem, por julgarem que não se arrependem dos pecados, embora o seu arrependimento seja sincero, pois estão de fato determinados a servir a Deus. Eles devem procurar pensar na vida de Cristo e, nisso, cansa-se a mente.

Até aqui podemos chegar sozinhos, claro que com o favor de Deus, pois, como se sabe, sem Ele, não podemos ter um único bom pensamento. Isso é começar a tirar água do poço, e queira Deus que este não esteja seco. Pelo menos fazemos a nossa parte, indo apanhar água e fazendo o que podemos para regar as flores. E é o bom Deus que, por motivos que Ele conhece — talvez para grande proveito nosso —, quer que o poço esteja seco, devendo nós fazer como o bom jardineiro, que, sem água, mantém as flores e faz crescer as virtudes. Chamo de “água” aqui as lágrimas e, à falta delas, a ternura e o sentimento interior de devoção.

10. E o que fará aqui quem vir que, em muitos dias, só há secura, des gosto, dissabor e tão má vontade para ir tirar a água? Se não se recordasse de que serve e agrada ao Senhor do jardim e se não receasse perder todo o serviço já feito, além do que espera ganhar com o grande trabalho que é lançar mui tas vezes o balde ao poço e tirá-lo sem água, abandonaria tudo? Muitas vezes, nem conseguirá levantar os braços, nem poderá ter um bom pensamento, porque esse trabalho com o intelecto, entenda-se, é tirar água do poço.

Como eu dizia, que fará aqui o jardineiro? Alegrar-se, consolar-se e considerar uma enorme graça trabalhar no jardim de tão grande Imperador. Sabendo que contenta ao Senhor com aquilo, e que a sua intenção não há de ser senão contentar a Ele, louve-O muito, pois o Senhor nele confia, por ver que, sem nada receber, a alma cuida muito do seu trabalho; que o jardineiro O ajude a carregar a cruz e pense que o Senhor nela viveu por toda a vida; que não procure seu reino aqui na terra e nunca abandone a oração. E se de termine, mesmo que essa secura dure a vida inteira, a não deixar que Cristo caia com a cruz, pois virá o momento em que toda a sua recompensa lhe será dada de uma vez. Não tenha medo de que o seu trabalho se perca, pois ele ser ve a bom patrão, que o está olhando. Não se incomode com os maus pen samentos; pense que o demônio também os representava a São Jerônimo no deserto.10

11. Esses trabalhos têm seu valor, eu o sei, pois os fiz durante muitos anos (quando eu tirava uma gota de água desse poço bendito, pensava que Deus me concedia uma graça), sendo necessário, para vencê-los, mais coragem do que para muitos outros trabalhos do mundo. Mas vi com clareza que Deus não deixa de dar grande recompensa, ainda nesta vida; pois é certo que, em uma hora na qual o Senhor me permite rejubilar-me nele, considero pagas todas as angústias por que, para perseverar na oração, passei.

Creio que o Senhor deseja dar, muitas vezes no princípio e outras no final, esses tormentos e muitas outras tentações que aparecem, para testar os que O amam e saber se poderão beber o cálice e ajudá-Lo a levar a cruz, antes de lhes oferecer grandes tesouros. E é para o nosso bem que Sua Ma jestade deseja levar-nos dessa maneira para que compreendamos quão pou co somos; porque as graças que depois vêm têm tamanha dignidade que Ele, antes de dá-las, deseja que, pela experiência, percebamos antes a nossa in significância, a fim de que não aconteça conosco o que sucedeu a Lúcifer.

12. Que fazeis Vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da alma que já sabeis ser Vossa e que se põe em Vosso poder para seguir-Vos por on de fordes, até a morte na cruz, determinada a ajudar-Vos a carregá-la e a não Vos deixar sozinho com ela?

Quem vir em si essa determinação… de modo algum deve temer. Não tem razão para afligir-se quem se dedica às coisas do espírito. Estando já no nível tão alto que é o do desejo de ficar a sós com Deus e de renunciar aos pas­satempos do mundo, a alma fez a maior parte. Louvai por isso Sua Majes ta de e confiai em Sua bondade, pois Ele nunca faltou aos seus amigos. Fechai os olhos da mente para não pensardes: por que Ele dá devoção a alguém em pou cos dias e a nega a mim em tantos anos? Acreditemos que é tudo para o nos so bem maior. Guie Sua Majestade por onde quiser. Já não somos nossos, mas Seus. Ele já nos favorece bastante ao nos dar disposição para cavar no Seu jardim e estar aos pés do seu Senhor, que por certo está conosco. Se Ele deseja que essas plantas e flores cresçam, para uns jardineiros com a água que tiram do poço e, para outros, sem ela, que importância tem isso para mim? Fazei Vós, Senhor, o que quiserdes. Que eu não Vos ofenda e que não se percam as virtudes, se alguma já me destes só por Vossa bondade. Desejo padecer, Senhor, pois Vós padecestes. Faça-se em mim, de todas as maneiras, a Vossa vontade, e não permitais que uma coisa tão valiosa quanto o Vosso amor seja dada a quem só Vos serve em busca de consolações.

13. Deve-se acentuar — e o digo por experiência — que a alma que, nessa trilha da oração mental, começa a caminhar com determinação e con segue de si mesma não fazer muito caso, nem consolar-se ou desconsolar-se muito por faltarem ou não esses gostos e essa ternura, ou por lhos dar o Senhor, já venceu boa parte do caminho; e que não tenha medo de recuar, por mais que tropece, já que começou o edi fício com firmes alicerces. Sim, pois o amor de Deus não está em ter lá grimas nem em ter esses gostos e essa ternura, que em geral desejamos e com os quais nos consolamos, mas em servir com justiça, força de ânimo e hu mildade. Isso me parece mais receber do que dar alguma coisa.

14. Para mulherzinhas como eu, fracas e pouco constantes, creio que con vém, como Deus agora o faz comigo: conduzir-me com regalos, para que eu possa so frer algumas dificuldades que Sua Majestade desejou que eu tivesse. Mas, para servos de Deus, homens de valor, instruídos, inteligentes, desgosta--me ou vi-los se queixarem tanto de que Deus não lhes dá devoção; não digo que não a aceitem, se Deus a der, tendo-a em alta conta, porque, nesse caso, Sua Majestade sabe que isso lhes convém, mas que, quando não a tiverem, que não se aflijam, entendendo que ela não lhes é necessária, já que Sua Majestade não a dá, e sigam seu caminho. Acreditem que é uma imperfeição. Eu o vi e experimentei. Acreditem que é imperfeição e falta de liberdade de espírito; é mostrar fraqueza para qualquer empreendimento.

15. Não falo isso tanto para os que começam (embora eu o acentue tanto porque é muito importante para eles começar com essa liberdade e determinação), mas para outros, pois haverá muitos, e há realmente, que começaram e nunca acabam de acabar; e creio que isso se deve em grande parte ao fato de eles não abraçarem a cruz desde o início, razão por que ficam aflitos, julgando que nada fazem. Não conseguem suportar que o intelecto deixe de atuar, não percebendo que, então, a vontade aumenta e se fortalece.

Temos de pensar que o Senhor não olha coisas que, embora nos pareçam faltas, não o são. Sua Majestade já conhece a nossa miséria e baixeza natural melhor do que nós mesmos, sabendo que essas almas desejam sempre pensar nele e amá-Lo; o que Ele quer é essa determinação, não servindo essa outra aflição senão para inquietar a alma. Quem está incapacitado de obter frutos durante uma hora assim o estará por quatro. Porque muitíssimas vezes (tenho enorme experiência nisso, e sei que é verdade, porque o examinei com cuidado e disso tratei com pessoas espirituais) tudo vem da indisposição corporal; somos tão miseráveis que essa pobre alma está aprisionada aos males do corpo; e as mudanças do tempo e variações dos humores muitas vezes fazem com que, sem culpa, ela não possa fazer o que quer, padecendo de todas as maneiras. Nesses momentos, quanto mais a quisermos forçar, tanto pior e mais duro será o mal; nesse caso, é preciso ter discrição para ver quando se deve fazer o quê, para não atormentar a pobre. Que elas percebam que estão doentes e mudem a hora da oração, o que amiúde durará alguns dias. Suportem como puderem esse desterro, pois é grande a desventura da alma amante de Deus ao ver que passa por essa desolação, sem poder fazer o que quer, por ter um hóspede tão ruim quanto o corpo.

16. Eu disse “ter discrição” porque às vezes o demônio age. Assim, é bom que não se deixe sempre a oração quando se está muito distraído e perturbado no intelecto, nem se atormente sempre a alma, obrigando-a a fazer o que não pode.

Há outras ocupações além de obras de caridade e de leitura, mesmo que por vezes nem isso seja possível. Sirva-se então ao corpo por amor a Deus, para que ele, em muitas outras ocasiões, sirva à alma; dedique-se o tempo a conversas virtuosas ou a passeios pelo campo, segundo o conselho do confessor. Em tudo, vale muito a experiência, que nos dá a entender o que nos convém e nos faz ver que em tudo servimos a Deus. Suave é o seu jugo, e muito vale a pena não arrastar a alma, como se diz, mas levá-la com suavidade11 para seu maior aproveitamento.

17. Assim, repito — e mesmo que não pare de fazê-lo, ainda não o terei enfatizado o bastante — que importa muito que não nos atormentemos nem nos aflijamos com essas securas, com a inquietude e com a distração nos pensamentos. Quem quiser obter liberdade de espírito e não ficar sempre atribulado deve começar por não se espantar com a cruz; se o fizer, verá que o Senhor também ajuda a levá-la, e viverá contente e tirando proveito de tudo. É natural, pois se o poço está seco, nós não podemos enchê-lo de água; é verdade que não podemos nos descuidar, para que, quando houver água, a tiremos — porque, nesse caso, Deus deseja por meio dela multiplicar as virtudes.

Capítulo 12


Prossegue no primeiro estado. Diz até onde podemos chegar, com o favor de Deus, por nós mesmos, e fala do prejuízo que é querer, antes que o Senhor o faça, elevar o espírito a coisas sobrenaturais.1

1. O que pretendi dar a entender no capítulo anterior — embora tenha enveredado por outras coisas que me pareciam muito necessárias — foi o ponto até o qual podemos chegar por nós mesmos e a maneira como, nessa primeira devoção, podemos valer-nos dos nossos próprios recursos. Porque, ao pensarmos detalhadamente no que o Senhor passou por nós, alcançamos a compaixão, encontrando sabor nesse sofrimento e nas lágrimas que dele vêm; pensar na glória que esperamos, no amor que o Senhor teve por nós e em Sua ressurreição nos dá um prazer que não é de todo espiritual nem dos sentidos, mas é um prazer virtuoso e um pesar muito meritório. Assim são todas as coisas que causam devoção quando o entendimento está envolvido, muito embora, se Deus não a desse, não se poderia merecê-la nem ganhá-la. É muito bom que uma alma que só chegou até aqui graças ao Senhor não procure ir além por si — e muito se atente para isso —, para que não obtenha, em vez de lucro, prejuízo.

2. Neste estado, ela pode fazer muito para se determinar a servir bastante a Deus e despertar o amor, assim como para ajudar a crescer as virtudes, como o diz um livro chamado Arte de servir a Dios,2 que é muito bom e apropriado para os que estão nesse estado em que a mente age. A pessoa pode imaginar que está diante de Cristo e acostumar-se a enamorar-se da Sua sagrada Humanidade, tendo-O sempre consigo, falando com Ele, pedindo-lhe auxílio em suas necessidades, queixando-se dos seus sofrimentos, alegrando-se com Ele em seus contentamentos e nunca esquecendo-se Dele por nenhum motivo, e sem procurar orações prontas, preferindo palavras que exprimam seus desejos e necessidades.

É excelente maneira de progredir, e com rapidez. E adianto que quem trabalhar para ter consigo essa preciosa companhia, aproveitando muito dela e adquirindo um verdadeiro amor por esse Senhor a quem tanto devemos, terá grande benefício.

3. Para isso, não façamos caso de não ter devoção sensível— como eu disse —3, mas agradeçamos ao Senhor, que nos permite estar desejosos de con tentá-Lo, embora as nossas obras sejam fracas. Esse modo de trazer Cristo conosco é útil em todos os estados, sendo um meio seguríssimo para tirar proveito do primeiro e breve chegar ao segundo grau de oração, bem como, nos últimos graus, para ficarmos livres dos perigos que o demônio pode pôr.

4. Pois isso é o que podemos fazer. Quem quiser passar daqui e levantar o espírito a sentir gostos, que não lhe são dados, perde, a meu ver, tudo. Os gostos são sobrenaturais e, perdido o entendimento, a alma fica desamparada e com muita aridez. E como esse edifício tem a sua fundação na humildade, quanto mais próximos de Deus estivermos, tanto maior deverá ser essa virtude, pois, se assim não for, tudo perderemos. E parece algum tipo de soberba querermos ir além disso, visto que Deus já faz em demasia, pelo que somos, ao permitir que nos aproximemos dele.

Não se entenda com isso que não é bom elevar o pensamento a coisas superiores do céu e de Deus, às grandezas que lá há e à sabedoria divina; porque, embora eu nunca o tenha conseguido (porque não tinha capacidade — como disse —4 e me achava tão ruim que, mesmo para pensar em coisas da terra, precisava que Deus me fizesse a graça de entender esta verdade, por não ser isso pouco atrevimento, para não falar em pensar em coisas do céu), outras pessoas tirarão proveito disso, especialmente se forem instruídas, pois a instrução é, a meu ver, um grande tesouro para esse exercício, se for acompanhada da humildade. Ultimamente, tenho percebido que alguns estudiosos,5 que há pouco começaram, tiveram um grande proveito; isso me faz desejar ansiosamente que muitos deles sejam espirituais, como adiante direi.

5. Quando digo “não se elevem sem que Deus os eleve”, uso linguagem espiritual; quem tiver alguma experiência vai me entender, pois, se não o entender, não sei dizer com outras palavras. Na teologia mística, de que comecei a falar,6 o intelecto deixa de agir porque Deus o suspende, como depois explicarei se souber e se Ele me conceder para isso o seu favor. Tentar ou presumir suspendê-lo por nós mesmos, deixar de agir com ele, é o que considero inconveniente, porque assim ficaremos bobos e frios, e não conseguiremos nem uma coisa nem outra. Quando o Senhor o suspende e o faz parar, Ele mesmo lhe dá com que se ocupar e se impressionar, de maneira tal que, no espaço de um credo, podemos compreender, sem raciocinar, mais do que, em muitos anos, com os nossos próprios esforços terrenos. É um disparate querermos conter as faculdades da alma e pensar em aquietá-las.

E repito, ainda que não se entenda: isso não é de grande humildade. Embora não haja culpa, haverá danos, pois será trabalho perdido, e a alma vai ficar um tanto desgostosa, como se estivesse prestes a dar um salto e se sentisse segura por trás, parecendo empregar a força sem conseguir o seu intento. Quem quiser comprová-lo verá o pouco ganho que vai ter, e, neste, a pequena falta de humildade de que falei.7 Porque numa coisa essa virtude é excelente: o que é feito com o seu apoio nunca deixa desgosto na alma.

Creio que expliquei bem, mas talvez só esteja claro para mim. Que o Senhor abra os olhos dos que isto lerem dando-lhes experiência, que, por pouca que seja, logo os fará entender.

6. Por vários anos li muitas coisas e nada entendi; depois, apesar do que Deus me dava, eu não sabia dizer uma palavra que exprimisse essa situação, o que não me custou poucos sofrimentos. Quando deseja, Sua Majestade ensina tudo num momento, e de uma maneira que me espanta.

Para dizer a verdade, mesmo falando com muitas pessoas espirituais que queriam me explicar o que o Senhor me dava, para que eu o soubesse dizer, é certo que a minha rudeza era tanta que eu nada aproveitava; ou, talvez, o Senhor, que sempre foi o meu mestre (seja por tudo bendito, pois bastante confusão me causa poder dizer isto com verdade), tenha querido que nesse aspecto eu não tivesse de agradecer a ninguém; sem que eu quisesse nem pedisse (que nisso não fui nada curiosa — porque teria sido virtude sê-lo —, sendo-o apenas em outras vaidades), Deus me deu num momento a graça de entender com toda a clareza e de saber exprimi-lo, de tal modo que os meus confessores se espantavam, e eu mais do que eles, porque conhecia mais a minha rudeza. Foi há pouco que recebi essa graça; e o que o Senhor não me ensinou, eu não o procuro, a não ser o que tem que ver com minha consciência.

7. Torno a avisar que é muito importante “não elevar o espírito se o próprio Senhor não o eleva” — o que isso significa logo se entende. Isso é especialmente ruim para mulheres, em quem o demônio poderá causar alguma ilusão; embora eu tenha certeza de que o Senhor não consente que se prejudique quem, com humildade, procura chegar a Ele, fazendo com que, pelo contrário, obtenha mais proveito e lucro daquilo com que o inimigo julgou provocar prejuízo.

Como esse caminho é o mais usado pelos iniciantes, sendo muito importantes os avisos que dei, estendi-me tanto. Há livros em que isso estará escrito melhor, eu confesso, e foi com grande confusão e vergonha que o escrevi, se bem que sem ter tanta quanto deveria ter.

Bendito seja por tudo o Senhor, que deseja e consente que uma pessoa como eu fale de Suas coisas, tão elevadas e sublimes.

Capítulo 13

Prossegue no primeiro estado e dá avisos sobre algumas tentações que o demônio algumas vezes suscita. Faz advertências quanto a isso. — É muito proveitoso.

1. Creio ser necessário falar de algumas tentações, que experimentei, que ocor rem no princípio, bem como alertar para coisas que me parecem importantes.

No princípio, deve-se ter alegria e liberdade, não acreditando, ao contrário do que dizem algumas pessoas, que um pouco de descuido destrói a de voção. É bom temer a si mesmo, não confiando em si, para não se pôr em situações nas quais se ofenda a Deus; isso é deveras necessário até que a virtude assente sólidas raízes na alma. E não há muitos que alcançam tal estado que, em ocasiões favoráveis aos seus apetites naturais, possam se descuidar, visto que, enquanto vivermos, e até por humildade, é bom conhecer a nossa natureza miserável. Mas há muitas ocasiões em que se pode, como eu disse,1 espairecer um pouco para voltar à oração com mais fervor. Em tudo é preciso ter discrição.

2. Devemos ter grande confiança, porque convém muito não reduzir os desejos, confiando em Deus que, se nos esforçarmos, poderemos chegar — pouco a pouco, embora não logo — ao ponto alcançado por tantos santos com o Seu favor; se estes nunca se determinassem a desejá-lo e a passar gradativamente à prática, não teriam atingido tão alto estado. Sua Majestade deseja almas corajosas e é amigo delas, desde que sejam humildes e sempre desconfiem de si mesmas. Nunca vi quem assim age perder-se no caminho, nem uma alma covarde que, sob pretexto de humildade, percorresse em muitos anos o que as outras percorrem em pouco tempo. Causa-me forte impressão a grande importância que tem nesse caminho procurar grandes coisas; mesmo que não tenha forças logo, a alma vence uma enorme distância, como uma ave de asas fracas que cansa e pára.

3. Antigamente, eu me lembrava com freqüência do que São Paulo disse: Em Deus tudo se pode. Eu estava bem convencida de que, por mim, nada podia fazer. Isso muito me valeu, assim como as palavras de Santo Agostinho:Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes. Eu pensava muito que, embora depois tivesse medo, São Pedro nada perdera por se lançar ao mar.2 Essas determinações logo no começo são excelentes. Nesse primeiro grau de oração, é preciso caminhar com lentidão e prudência, seguindo o que um mestre disser. Mas é bom tomar cuidado para que o confessor não ensine a andar como um sapo, nem treine a alma para só caçar lagartixas. É preciso ter sempre a humildade diante dos olhos para entender que essas forças não vêm de nós.

4. É necessário, porém, compreender como deve ser essa humildade. Creio que o demônio muito prejudica, impedindo que as almas que têm ora ção avancem, ao lhes dar um falso conceito de humildade, fazendo parecer soberba ter grandes desejos, querer imitar os santos e aspirar ao martírio. Ele cedo nos diz ou sugere que as ações dos santos devem ser admiradas, e não imitadas por pecadores como nós. Eu também o digo, mas devemos ver com clareza o que tem de ser admirado e o que tem de ser imitado. Naturalmente, não seria razoável que uma pessoa fraca e doente se pusesse a fazer muitos jejuns e penitências, fosse para um deserto — onde não pudesse dormir nem tivesse comida — ou coisas semelhantes. Temos de pensar que, com o favor de Deus, podemos esforçar-nos para atingir um grande desprezo pelo mundo e pelas suas honras, desapegando-nos dos bens terrenos. É tão fraco o nosso coração que achamos que o chão vai faltar se nos descuidarmos um pouco do corpo para dar mais ao espírito. Logo pensamos que a fartura facilita o recolhimento, porque a preocupação perturba a oração. Muito me dói que a nossa confiança em Deus seja tão pouca e que seja tanto o amor--próprio a ponto de nos preocuparmos com essas coisas. Quando o espírito está assim tão fraco, coisas insignificantes nos trazem tanto sofrimento quanto coisas grandes e muito importantes a outras pessoas. E, no íntimo, consideramo-nos pessoas espirituais!

5. Acho que essa maneira de caminhar aparenta-se a querer conciliar corpo e alma, para não se perder o descanso aqui e ir ao céu fruir as delícias de Deus. Isso de fato acontecerá se nos apegarmos à justiça e à virtude. Mas é um passo curto, com o qual jamais chegaremos à liberdade de espírito. É muito correto para pessoas casadas, que devem viver de acordo com a sua vocação. Mas, para outro estado, de forma alguma desejo essa maneira de aproveitar, nem me farão crer que é boa, porque já a experimentei e teria ficado no mesmo ponto se o Senhor, com a Sua bondade, não me tivesse ensinado outro caminho.

6. É verdade que, no tocante aos desejos, os meus sempre foram grandes. Eu, contudo, procurava fazer o que disse:3 ter oração e viver ao bel-prazer. Acredito que, se tivesse quem me ensinasse, eu teria feito esforços para pôr em prática os desejos. Mas, pelos nossos pecados, há tão poucos,4 tão raros, que não têm demasiada discrição nesse caso que penso ser essa, em grande parte, a razão de os principiantes não se elevarem mais depressa à grande perfeição; porque o Senhor nunca falta nem cria impedimentos — nós somos os culpados e miseráveis.

7. Também podemos imitar os santos procurando a solidão, o silêncio e muitas outras virtudes que não matarão os corpos manhosos, que tão organizadamente querem servir para desconcertar a alma. Por outro lado, o demônio ajuda muito a torná-los incapazes quando percebe um pouco de temor. Ele não precisa de muito para nos fazer imaginar que tudo nos tira a saúde e a vida; e até evita que choremos ao infundir em nós o medo da cegueira. Sei que é assim, pois passei por isso; não entendo que melhor visão ou saúde podemos desejar do que a sua perda por semelhante causa.

Sendo tão doente, enquanto não me resolvi a desprezar o corpo e a vida, sempre estive amarrada, sem nenhuma utilidade. E, mesmo hoje, faço bem pouco. Deus quis que eu percebesse o ardil; e quando o inimigo me trazia o receio de perder a saúde, eu lhe respondia: “Pouco importa que eu morra”. Se ele me sugeria descanso, eu dizia: “Não preciso de descanso, e sim de cruz”. E assim por diante. Vi claramente que, em inúmeras circunstâncias, em­bora eu de fato seja bem doente, tudo não passava de tentação do demônio ou lassidão de minha parte. Depois que deixei de me tratar com tantos cuidados e mimos, fiquei muito mais sadia.

Em resumo, desde o início, quando se começa a fazer oração, é fundamental não amesquinhar os pensamentos: acreditem-me, pois falo por ter experiência. Esta relação de minhas faltas pode ao menos servir para que elas sejam evitadas.

8. Outra tentação, muito comum nos que começam a saborear o sossego e a ver o quanto ganham com ele, é o desejo de que todos sejam espirituais. Não é ruim desejá-lo, mas lutar por isso pode não ser bom se não se tiver muita sagacidade e discrição para agir de uma maneira que não dê a impressão de que se pretende ensinar. Quem quiser fazer algum bem nesse aspecto deve fortalecer muito as suas virtudes para não causar tentação nos outros.

Isso aconteceu comigo quando eu procurava que outras pessoas fizessem oração — por isso o entendo. De um lado, elas me viam enaltecer o grande bem que é isso e, de outro, me viam viver sem virtudes, embora eu me exer citasse nelas. Por isso, ficavam perplexas e tentadas, como depois me disseram. Elas estavam cobertas de razão, porque não entendiam como era possível conciliar coisas tão opostas. Por minha causa, não tomavam por mal o que de fato o era, porque tinham boa opinião de mim e me viam agir assim algumas vezes.

9. Nisso consiste a astúcia do demônio, que usa nossas virtudes e boas qualidades para promover o mais que pode o mal que pretende fazer; por menor que este seja, ele lucra bastante quando se vive em comunidade. Ainda mais que o mal que eu fazia era enorme. Com efeito, em muitos anos, só três pessoas5 se beneficiaram do que eu lhes dizia. Mais tarde, quando o Senhor já me tinha dado mais forças na prática da virtude, em dois ou três anos muitas outras progrediram, como adiante direi.6

Há, além disso, outro grande inconveniente, a perda da alma. Sobretudo no princípio, ela só deve se preocupar consigo mesma e pensar que na terra há apenas Deus e ela; isso lhe fará grande bem.

10. Outra tentação é ter pena dos pecados e faltas dos outros. Tudo isso se apresenta sob a aparência de zelo pela virtude. Precisamos saber discernir e ser precavidos. O demônio instiga a querermos remediar de pronto os ma­les, fazendo-nos acreditar que o nosso único objetivo é zelar pela honra de Deus e desejar que Ele não seja ofendido. Isso nos inquieta de uma maneira que impede a oração. O maior prejuízo é estarmos convencidos de que tudo isso é virtude, perfeição e grande zelo pela glória de Deus. Não falo da dor cau sada por pecados públicos — se eles forem costumeiros — de uma Congre gação ou dos males que chegam à Igreja com as heresias, causa da perda de tantas almas. Essa dor é muito saudável e, por isso, não inquieta. A segurança para quem começa a fazer oração está em deixar tudo e todos e só querer saber de si e de contentar a Deus. Isso é muito conveniente, porque, se eu fosse contar os erros que vejo serem cometidos por se confiar na boa intenção!… Procuremos sempre olhar as virtudes e coisas boas que virmos nos outros e encubramos os seus defeitos com os nossos grandes pecados. Este modo de agir — mesmo que, no princípio, não seja perfeito — nos dá uma excelente virtude: considerarmos todos melhores do que nós; fazendo assim, vamos progredindo, com o favor de Deus — que é necessário em tudo e sem o qual os nossos esforços serão inúteis. Supliquemos ao Senhor que nos conceda essa virtude, porque, se fizermos o que está ao nosso alcance, Ele não nos faltará.

11. Quem usa muito o intelecto, tirando de cada coisa muitos conceitos e conclusões, deve dar atenção a este aviso — aos que não podem trabalhar com a mente e raciocinar, como era o meu caso, só tenho uma coisa a dizer: sejam pacientes, até que o Senhor lhes dê com que se ocupar e os ilumine, pois podem tão pouco por si que o seu intelecto mais os estorva que os ajuda. Voltando aos que raciocinam, digo que, embora muito meritória, essa atividade não deve ocupar todo o tempo. Como obtêm prazer na oração, essas pessoas não querem saber de domingos nem de pausas (que consideram tempo perdido). Para mim, essa aparente perda produz muitos lucros. Em vez disso, repito, imaginem que estão diante de Cristo e, sem cansar o intelecto, falem e alegrem-se com o Senhor, sem o trabalho de formular raciocínios. Digam-Lhe as suas necessidades, lembrando-se também dos motivos que Ele teria para não admiti-los à Sua presença. Façam ora uma coisa, ora outra, evitando que a alma se canse de comer sempre o mesmo alimento. E esses alimentos de que falo são muito saborosos e proveitosos; se o paladar se acostuma ao seu gosto, eles trazem grande substância para dar vida à alma e muitos outros ganhos.

12. Quero exprimir-me melhor, porque todas essas coisas de oração são custosas e, se não se tiver mestre, difíceis de entender. Por isso, embora eu queira ser breve — e bastaria tocar no assunto para que quem me mandou es­crever logo entendesse —, minha pouca inteligência não me permite explicar em poucas palavras o que tanto precisa de boa explicação. Como sofri muito, com padeço-me de quem começa só com livros; porque eu me admiro ao ver como se compreende, neles, uma coisa que a experiência revela ser bem diferente.

Voltando ao que eu dizia,7 pensemos num passagem da Paixão — por exemplo, a do Senhor atado à coluna — e, com o intelecto, procuremos avaliar as grandes dores e o sofrimento que Sua Majestade teve ali tão só, e tantas outras coisas que um espírito esforçado pode perceber aí. Se se for instruído, então!… Esse é o modo de oração conveniente para todos, um caminho excelente e muito seguro até que o Senhor os leve a outras coisas sobrenaturais.

13. Digo “todos” porque há muitas almas que, em outras meditações, têm mais proveito do que na da Sagrada Paixão, porque, assim como há muitas moradas no céu,8 há muitos caminhos: algumas pessoas se beneficiam considerando-se no inferno, e outras, no céu; estas se afligem ao pensar no inferno, e outras, na morte. Algumas, se são ternas de coração, se cansam muito em pensar sempre na Paixão, alegrando-se e aproveitando ao considerarem o poder e a grandeza de Deus nas criaturas, bem como o amor que Ele teve por nós, manifesto em todas as coisas. Todos esses modos são admiráveis, desde que não se deixem a Paixão e a vida de Cristo, que é de onde nos veio e vem todo o bem.

14. O iniciante deve prestar atenção para saber o que é melhor para si. O mestre, se experiente, é muito necessário aqui; se não o for, pode errar muito e dirigir uma alma sem entendê-la nem deixar que ela se entenda — porque, como sabe que é grande o mérito de estar sujeita a um mestre, ela não se atreve a sair do que ele manda. Já encontrei almas encurraladas e aflitas devido à falta de experiência do seu mestre — o que me causava pesar —, e uma que nem sabia o que fazer de si; porque, não entendendo o espírito, aflige9 a alma e o corpo, atrapalhando o aproveitamento. Outra pessoa estava há oito anos paralisada pelo mestre, que não a deixava avançar além do seu próprio conhecimento. Como o Senhor já concedera a essa alma a oração de quietude, era muito o seu apuro.

15. Embora o conhecimento próprio nunca deva ser abandonado, nem haja alma, nesse caminho, tão forte que não precise muitas vezes voltar a ser criança e a mamar (nunca nos esqueçamos disso; eu talvez o repita10 outras vezes, por ser muito importante), e embora não haja estado de oração tão elevado que torne desnecessário voltar ao princípio com freqüência — sendo os pecados e o conhecimento próprio o pão com que todos os manjares, por mais delicados, devem ser comidos nesse caminho da oração (pão sem o qual ninguém poderia se sustentar) —, é preciso comer com moderação. Porque, quando se vê rendida e percebe claramente que nada de bom possui, sentindo vergonha diante de Rei tão grandioso, a alma vê o pouco que Lhe paga pelo muito que Lhe deve. Que necessidade temos de gastar o tempo aqui, se é melhor buscar outras coisas que o Senhor nos põe diante dos olhos — e que não tem cabimento deixarmos, já que Sua Majestade sabe melhor que nós o que nos convém comer?

16. Por isso, é muito importante que o mestre seja inteligente — isto é, de bom entendimento e experiente. Se, além disso, tiver instrução, será perfeito. Contudo, não sendo possível achar as três coisas juntas, as duas primeiras são mais relevantes, porque, caso seja necessário, os principiantes podem recorrer aos letrados para alguma consulta. No início, os mestres que não fazem oração, ainda que sejam sábios, são de pouca ajuda; não digo que não se deva ter con tato com letrados, porque um espírito que não comece pela verdade melhor faria em não orar. Além disso, a instrução é muito boa porque ensina aos que pouco sabemos e nos dá luz, para que, chegando às verdades da Sagrada Escritu ra, façamos o que devemos; de devoções tolas, livre-nos Deus.

17. Desejo explicar-me melhor, pois acredito que me perco em muitas coisas. Sempre tive o defeito de não saber dizer as coisas — como falei —11 senão com muitas palavras. Uma monja começa a fazer oração; se for dirigida por um simplório, e a este parecer melhor, ele lhe dará a entender que é pre ferível que ela lhe obedeça a que obedeça ao seu superior — e sem malícia, ima ginando estar certo; porque, se não for religioso, ele vai pensar que assim deve ser. Se for uma mulher casada, ele lhe dirá que é melhor, em vez de cuidar da casa, dedicar-se à oração, mesmo que descontente o marido. Dessa maneira, ela não vai saber organizar o tempo nem as suas ocupações para que tudo siga a verdade. Por lhe faltar luz, ele não a dá a ninguém, embora queira. E, ainda que para isto não pareça necessário ter instrução, sempre tive a opi nião de que todo cristão deve procurar ter relações com quem a tenha, se puder, e quanto mais melhor; e os que seguem o caminho da oração têm mais ne cessidade disso, e tanto maior quanto mais espirituais forem.

18. E ninguém se engane, dizendo que os letrados sem oração não servem para quem a tem. Tenho lidado com muitos, porque de uns anos para cá minha necessidade tem sido maior. E sempre fui amiga deles, pois, mesmo que alguns não tenham experiência, não se opõem ao que é espiritual nem o ignoram, já que, nas Sagradas Escrituras que estudam, sempre acham a verdade do bom espírito. Tenho para mim que a pessoa de oração que se relacio nar com letrados não será enganada pelas ilusões do demônio, se não quiser se enganar, porque, creio eu, os demônios temem muito a instrução humilde e virtuosa, sabendo que serão descobertos e prejudicados.

19. Eu disse isso porque há quem pense que os letrados não servem para pessoas de oração se não seguirem o espírito.12 Já falei que o mestre espiritual é necessário; se, contudo, este não for instruído, há aí um grande inconveniente. Ajuda muito relacionar-se com pessoas instruídas; se forem virtuosas, mesmo que não sejam espirituais, trazem proveito, e Deus fará com que entendam o que precisam ensinar e até as tornará espirituais para que nos ajudem. E não o afirmo sem tê-lo experimentado; aconteceu-me com mais de dois. Errará muito uma alma que, resolvida a submeter-se a um só mestre, não procurar um que seja como eu digo; porque, se lhe faltarem as três coisas,13 a cruz não será leve. Que não desejemos, por vontade própria, submeter-nos a quem não tenha bom entendimento. Eu ao menos nunca pude aceitar isso, nem o considero conveniente. Quem é secular deve louvar a Deus por poder escolher aquele a quem há de sujeitar-se e não deve perder essa liberdade tão virtuosa; deve preferir ficar sem mestre, até encontrá-lo, porque o Senhor lhe dará um, se tudo estiver fundado na humildade e no desejo de acertar. Eu muito O louvo por isso, e as mulheres e os que não temos instrução deveríamos sempre dar-Lhe infinitas graças por haver quem, com tantos esforços, tenha alcançado a verdade que nós, ignorantes, desconhecemos.

20. Espantam-me muitas vezes as pessoas instruídas, religiosas em especial, que conseguiram com trabalho o que eu, sem nenhum, além de perguntar, aproveito. E ainda há quem não queira se valer desse meio! Que Deus não o permita! Eu as vejo viver sujeitas aos trabalhos da religião, que são gran des, com penitências e pouca alimentação, submetidas à obediência — o que por vezes me deixa confusa —, padecendo, além disso, de poucas horas de sono, de muito trabalho, de muitas cruzes. Considero um grande mal que al guém, por sua culpa, deixe passar a oportunidade de aproveitar tanto bem. E talvez alguns dentre nós, livres desses labores, vivendo ao bel-prazer, e re cebendo dessas pessoas o alimento mastigado, como se diz, pensem que, por ter um pouco mais de oração, levam vantagem diante de tantos sofrimentos.14

21. Bendito sejais, Senhor, que tão inábil e sem utilidade me fizestes! Mas louvo-Vos muito, porque despertais tantos que nos despertam. A nossa oração por quem nos dá luz devia ser contínua. Que seríamos sem eles em meio às tempestades tão grandes que ora atingem a Igreja? Se tem havido alguns ruins,15 mais brilharão os bons. Queira o Senhor sustentá-los com a Sua mão e ajudá-los para que nos ajudem, amém.

22. Eu me afastei muito — e de propósito — do que comecei a dizer; mas tudo tem como alvo os iniciantes, para que comecem caminho tão elevado seguindo o rumo verdadeiro. Voltando ao que dizia,16 pensar em Cristo atado à coluna, é bom pensar um pouco e refletir sobre os sofrimentos que Ele teve ali, por que os teve, quem é e com que amor os suportou. Mas ninguém se canse em procurar sempre isso, mas, aquietado o intelecto, fique ali com Ele. Se puder, que se ocupe em ver que Ele o olha, fazendo-Lhe companhia, falando com Ele, pedindo, humilhando-se e deliciando-se com Ele, tendo sempre em mente que não merece estar ali. Se puder fazer isso, mesmo que seja no princípio da oração, terá grande proveito, pois esse modo de oração é muito benéfico, ou ao menos o foi para a minha alma.

Não sei se falo verdades; vossa mercê o julgará. Queira Deus que eu sempre consiga contentá-Lo, amém.

NO MONTE SINAI VI A GLÓRIA DE DEUS




NO MONTE SINAI VI A GLÓRIA DE DEUS

Artigo testemunho da experiência no Monte sagrado, de Fr. Patrício Sciadini, enviado da Província ao Cairo, Egito.

SEMPRE gostei de Moisés, o escolhi como meu protetor e guia na minha vida de carmelita e de sacerdote. O seu estilo, sua vida, suas palavras, suas resistências ao chamado de Deus, as suas desculpas esfarrapadas para dizer “não” ao projeto de Deus que através dele quer libertar o povo, tocam profundamente o coração dos que se aventuram a ler o Êxodo com olhos de fé. Para quem busca a Deus na vida contemplativa Moises se torna ainda mais querido, é o modelo de todos os que têm sede de Deus e o buscam com sinceridade, desafiam o mesmo silêncio e se adentram nos desertos da vida, ou escalam as montanhas, ou mergulham na noite para poder encontrar-se face a face com o mistério.
Jamais teria pensado que um dia subiria a montanha do Sinai e contemplaria a sarça que, segundo a tradição dos monges gregos do mosteiro de Santa Catarina de Alexandria, situados ao pé do monte, continua a mesma, desde então. Uma sarça amada, custodiada com amor e que todos os peregrinos contemplam com amor e oram extasiados. Subir o monte Sinai é uma aventura que nos deixa sem respiro. Hoje em dia se pode fazer uma parte da subida de camelo, mas a última parte deve ser feita a pé. Não há estrada, não há atalho, é rocha pura, dura, difícil, em que as pedras como facas podem furar de uma hora para outra os seus sapatos; onde o cansaço lhe obriga, de vez em quando, a parar e sentar-se para olhar o vale embaixo. Quem tiver vertigem é um perigo. Depois se continua a marcha lenta com o coração batendo forte, a respiração lenta até que se chega lá em cima.
Um caminho que nos tira toda a vontade de falar, de gritar, só o silencio entra a fazer parte da vida de quem tem fé. Mesmo circundado por tanta gente que foi ao cume do monte por finalidade diferente - passeios, curiosidade – quem tem fé não sabe o que dizer a não ser deixar o olhar perder-se no grande vale e nos montes sem uma árvore, sem nada que circunda, do pico do monte Sinai. E sentir que aí Deus um dia longínquo chamou Moises sozinho, fez-lhe deixar o povo-rebanho lá embaixo ao pé do monte e exigiu que ele, sozinho, sem ninguém, subisse até o cimo do monte, porque tinha necessidade de falar-lhe. E Moises obedeceu, subiu. Quanto tempo gastou? Como devia bater o seu coração? O que esperava encontrar no cimo do monte, o que Deus quereria dele?
Imagino que estas perguntas angustiantes deviam se agitar no coração de Moises. E Deus cobriu com seu poder, como diz a bíblia, o cimo da montanha e falou através de relâmpagos, trovões, tempestade, e falou forte, pesado, contra o seu povo de cabeça dura, que não queria mais ser libertado e preferia voltar a comer as cebolas do Egito.
Deus, no seu amor, como diz a bíblia, escreveu “com seu dedo” as dez palavras sobre duas tábuas de pedra e as entregou a Moises para que ele as levasse para o povo e comunicasse a vontade de Deus. Nunca entendi tão bem o amor de Deus que deu os mandamentos como quando cheguei ao cimo do monte Sinai. Vi com olhos novos a glória de Deus, vi os mandamentos como reflexos luminosos da beleza da eternidade e do amor. No silêncio li e reli os mandamentos de Deus e vi em cada palavra o amor de Deus Pai e me senti feliz por ser filho de Deus e por ter tido desde menino aprendido as dez palavras. O que posso dizer é: perdão Senhor, se por muito tempo achei que estas dez palavras tinham sabor mais de opressão que de amor! Foi preciso ferir os pés e chegar no cimo do Sinai para ver que tu és Pai!