quarta-feira, 19 de maio de 2010

Capítulo 11



Diz por que não amamos a Deus com perfeição
desde o início. Mediante uma comparação, afirma a existência de quatro graus de oração. Tratará aqui do primeiro, que considera muito proveitoso para os principiantes e para os que não têm prazer na oração.
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1. Falando agora dos que começam a ser servos do amor (que não me parece outra coisa além de nos decidirmos a seguir por esse caminho de oração Aquele que tanto nos amou), considero uma dignidade tão grande que sinto enorme prazer só de pensar nela; porque o temor servil logo desaparece se passamos por esse primeiro estágio como devemos. Ó Senhor de minha alma e Bem meu! Por que não quisestes que, determinando-se a amar-Vos — fazendo tudo o que pode para deixar o mundo e se dedicar ao amor de Deus —, a alma não gozasse logo a elevação a esse amor perfeito? Não me exprimo bem: tinha de falar e me queixar do fato de nós não a querermos; a cul pa é toda nossa por não gozarmos logo de tamanha dignidade, pois, se che garmos a ter com perfeição esse verdadeiro amor de Deus, também obte remos todos os bens. Somos tão difíceis e demoramos tanto a nos entregar de todo a Deus que, como Sua Majestade não deseja que gozemos coisa tão preciosa sem pagar um grande preço, nunca acabamos de nos dispor.

2. Bem vejo que não há com que se possa comprar na terra tão grande bem; mas, se fizéssemos o que está em nossas mãos, desapegando-nos das coisas dela, dedicando-nos por inteiro ao céu, creio que sem dúvida teríamos esse bem muito depressa, se logo nos entregássemos de todo, como o fizeram alguns santos. Contudo, julgamos dar tudo quando oferecemos a Deus somente a renda e os produtos, ficando com a raiz e a propriedade. Determinamo--nos a ser pobres — o que é bastante nobre —, mas muitas vezes voltamos a preocupar-nos e a labutar para que não nos falte não apenas o necessário como o supérfluo, e para granjear amigos que no-los dêem, e temos maiores preocupações (expondo-nos, por vezes, a perigos) para que nada nos falte do que antes, quando éramos proprietários.

Parece também que abandonamos a honra quando nos fizemos religiosos ou quando começamos a ter vida espiritual e a procurar a perfeição; no en tanto, se um ponto de honra é atacado em nós, esquecemo-nos de que já consagramos a honra a Deus e buscamos recuperá-la e — por assim dizer — ar rancá-la das Suas mãos, depois de tê-Lo feito senhor dela por nossa própria vontade, ao menos aparentemente. Assim ocorre com todas as outras coisas.

3. Estranha maneira de buscar o amor de Deus! E logo o queremos em abundância, como se diz. Não fica bem manter nossas afeições (já que não procuramos realizar nossos desejos nem nos apartamos totalmente deles) ao lado das muitas consolações espirituais que recebemos, nem essas duas coisas me parecem compatíveis. Com isso, como não damos tudo de uma vez, também não recebemos de vez esse tesouro. Queira o Senhor que, gota a gota, Sua Majestade nos dê esse tesouro, mesmo que isso nos custe todos os sofrimentos do mundo.

4. Ele é rico em misericórdia para com aqueles a quem dá graça e ânimo para que se decidam a procurar esse bem com todas as forças; porque Deus não se nega a quem persevera, habilitando pouco a pouco o seu ânimo a alcançar a vitória. Digo ânimo porque são muitas as coisas que o demônio põe diante de quem começa, para impedi-lo de começar de fato esse caminho. Porque este último sabe do prejuízo que tem ao perder não somente essa alma, mas muitas. Se o iniciante se esforça, com o favor de Deus, para chegar ao auge da perfeição, creio que nunca vai sozinho ao céu, levando sempre muita gente consigo; como a bom capitão, dá-lhe Deus quem vá em sua companhia.

São tantos os perigos e as dificuldades que ele põe2 que não é pouco o ânimo necessário para não voltar atrás, além do constante favor de Deus.

5. No princípio está a maior dificuldade dos que estão determinados a bus car esse bem e a realizar esse empreendimento (quanto ao que comecei a falar sobre a teologia mística — acho que é esse o seu nome —, retomarei adiante); porque, no início, são eles que trabalham, embora o Senhor lhes dê o capital. Nos outros graus de oração, só há prazer, embora no começo, no meio e no fim todos carreguem suas cruzes, ainda que diferentes; pelo mesmo caminho que Cristo percorreu devem passar os que O seguem, se não quiserem se perder. Benditos sofrimentos que, ainda nesta vida, são pagos tão excessivamente!

6. Terei de recorrer a alguma comparação, embora, por ser mulher, prefe ris se evitá-las e escrever simplesmente o que me mandam. Mas é tanta a di ficuldade da linguagem espiritual3 para os que, como eu, não têm instrução que terei de buscar algum meio, correndo o risco de nem sempre acertar nes sa comparação; divertirá vossa mercê4 ver tanta ignorância.

Parece-me que li ou ouvi esta comparação — como tenho memória ruim, não sei onde nem por quê; mas, para o meu objetivo aqui, basta-me citá-la.5 Quem principia deve ter especial cuidado, como quem fosse plantar um jardim, para deleite do Senhor, em terra muito improdutiva, com muitas ervas daninhas. Sua Majestade arranca as ervas daninhas e planta as boas. Façamos de conta que isso já aconteceu quando uma alma decide dedicar-se à oração e começa a se exercitar nela. Com a ajuda de Deus, temos de procurar, como bons jardineiros, que essas plantas cresçam, tendo o cuidado de regá-las para que não se percam e venham a dar flores, cujo perfume agradável delicie esse nosso Senhor, para que Ele venha a se deleitar muitas vezes em nosso jardim e a gozar entre essas virtudes.

7. Vejamos agora a maneira de regar, para sabermos o que fazer e o quanto isso nos há de custar; verificar se o lucro é maior do que o esforço e o tempo que o trabalho levará.

Parece-me que é possível regar de quatro maneiras:

— tirando a água de um poço, o que nos parece grande trabalho;

— tirá-la com nora e alcatruzes movidos por um torno; assim o fiz algumas vezes:6 dá menos trabalho que a outra e produz mais água;

— trazê-la de um rio ou arroio; rega-se muito melhor, a terra fica bem mo lhada, não é preciso regar com tanta freqüência e o jardineiro faz menos esforço;

— contar com chuvas freqüentes; neste caso, o Senhor rega, sem nenhum trabalho nosso, sendo esta maneira incomparavelmente melhor do que as outras.

8. Agora, apliquemos à oração essas quatro maneiras de regar, com as quais haveremos de conservar o jardim, que, sem ser irrigado, perecerá. Com esta comparação acredito poder explicar algo dos quatro graus de oração em que o Senhor, pela sua bondade, pôs algumas vezes a minha alma. Queira a Sua bondade que eu o diga de um modo que traga proveito a uma das pessoas que me mandaram escrever,7 porque o Senhor, em quatro meses, a fez avançar mais do que eu consegui em dezessete anos. Essa pessoa se dispôs melhor do que eu e, assim, rega sem trabalho seu vergel com essas quatro águas, embora a última só lhe venha gota a gota; mas, a prosseguir assim, logo estará mergulhada nela, com a ajuda do Senhor, e gostarei que ria se lhe parecer disparatada a minha forma de dizer.

9. Pode-se dizer dos que começam a ter oração que apanham a água do poço, o que é muito trabalhoso, como eu disse,8 porque eles têm de cansar--se para recolher os sentidos, algo que, como não estão acostumados a concentrar-se, requer muito esforço. É preciso que eles vão se habituando a não se incomodar com o que vêem ou ouvem, fazendo-o efetivamente nas horas de oração, ficando em solidão e afastados para pensar em sua vida passada. Na verdade, todos devem fazer isso com freqüência, tanto iniciantes como os que estão avançados, pensando mais ou menos nisso, como depois direi.9 No princípio, os iniciantes ainda sofrem, por julgarem que não se arrependem dos pecados, embora o seu arrependimento seja sincero, pois estão de fato determinados a servir a Deus. Eles devem procurar pensar na vida de Cristo e, nisso, cansa-se a mente.

Até aqui podemos chegar sozinhos, claro que com o favor de Deus, pois, como se sabe, sem Ele, não podemos ter um único bom pensamento. Isso é começar a tirar água do poço, e queira Deus que este não esteja seco. Pelo menos fazemos a nossa parte, indo apanhar água e fazendo o que podemos para regar as flores. E é o bom Deus que, por motivos que Ele conhece — talvez para grande proveito nosso —, quer que o poço esteja seco, devendo nós fazer como o bom jardineiro, que, sem água, mantém as flores e faz crescer as virtudes. Chamo de “água” aqui as lágrimas e, à falta delas, a ternura e o sentimento interior de devoção.

10. E o que fará aqui quem vir que, em muitos dias, só há secura, des gosto, dissabor e tão má vontade para ir tirar a água? Se não se recordasse de que serve e agrada ao Senhor do jardim e se não receasse perder todo o serviço já feito, além do que espera ganhar com o grande trabalho que é lançar mui tas vezes o balde ao poço e tirá-lo sem água, abandonaria tudo? Muitas vezes, nem conseguirá levantar os braços, nem poderá ter um bom pensamento, porque esse trabalho com o intelecto, entenda-se, é tirar água do poço.

Como eu dizia, que fará aqui o jardineiro? Alegrar-se, consolar-se e considerar uma enorme graça trabalhar no jardim de tão grande Imperador. Sabendo que contenta ao Senhor com aquilo, e que a sua intenção não há de ser senão contentar a Ele, louve-O muito, pois o Senhor nele confia, por ver que, sem nada receber, a alma cuida muito do seu trabalho; que o jardineiro O ajude a carregar a cruz e pense que o Senhor nela viveu por toda a vida; que não procure seu reino aqui na terra e nunca abandone a oração. E se de termine, mesmo que essa secura dure a vida inteira, a não deixar que Cristo caia com a cruz, pois virá o momento em que toda a sua recompensa lhe será dada de uma vez. Não tenha medo de que o seu trabalho se perca, pois ele ser ve a bom patrão, que o está olhando. Não se incomode com os maus pen samentos; pense que o demônio também os representava a São Jerônimo no deserto.10

11. Esses trabalhos têm seu valor, eu o sei, pois os fiz durante muitos anos (quando eu tirava uma gota de água desse poço bendito, pensava que Deus me concedia uma graça), sendo necessário, para vencê-los, mais coragem do que para muitos outros trabalhos do mundo. Mas vi com clareza que Deus não deixa de dar grande recompensa, ainda nesta vida; pois é certo que, em uma hora na qual o Senhor me permite rejubilar-me nele, considero pagas todas as angústias por que, para perseverar na oração, passei.

Creio que o Senhor deseja dar, muitas vezes no princípio e outras no final, esses tormentos e muitas outras tentações que aparecem, para testar os que O amam e saber se poderão beber o cálice e ajudá-Lo a levar a cruz, antes de lhes oferecer grandes tesouros. E é para o nosso bem que Sua Ma jestade deseja levar-nos dessa maneira para que compreendamos quão pou co somos; porque as graças que depois vêm têm tamanha dignidade que Ele, antes de dá-las, deseja que, pela experiência, percebamos antes a nossa in significância, a fim de que não aconteça conosco o que sucedeu a Lúcifer.

12. Que fazeis Vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da alma que já sabeis ser Vossa e que se põe em Vosso poder para seguir-Vos por on de fordes, até a morte na cruz, determinada a ajudar-Vos a carregá-la e a não Vos deixar sozinho com ela?

Quem vir em si essa determinação… de modo algum deve temer. Não tem razão para afligir-se quem se dedica às coisas do espírito. Estando já no nível tão alto que é o do desejo de ficar a sós com Deus e de renunciar aos pas­satempos do mundo, a alma fez a maior parte. Louvai por isso Sua Majes ta de e confiai em Sua bondade, pois Ele nunca faltou aos seus amigos. Fechai os olhos da mente para não pensardes: por que Ele dá devoção a alguém em pou cos dias e a nega a mim em tantos anos? Acreditemos que é tudo para o nos so bem maior. Guie Sua Majestade por onde quiser. Já não somos nossos, mas Seus. Ele já nos favorece bastante ao nos dar disposição para cavar no Seu jardim e estar aos pés do seu Senhor, que por certo está conosco. Se Ele deseja que essas plantas e flores cresçam, para uns jardineiros com a água que tiram do poço e, para outros, sem ela, que importância tem isso para mim? Fazei Vós, Senhor, o que quiserdes. Que eu não Vos ofenda e que não se percam as virtudes, se alguma já me destes só por Vossa bondade. Desejo padecer, Senhor, pois Vós padecestes. Faça-se em mim, de todas as maneiras, a Vossa vontade, e não permitais que uma coisa tão valiosa quanto o Vosso amor seja dada a quem só Vos serve em busca de consolações.

13. Deve-se acentuar — e o digo por experiência — que a alma que, nessa trilha da oração mental, começa a caminhar com determinação e con segue de si mesma não fazer muito caso, nem consolar-se ou desconsolar-se muito por faltarem ou não esses gostos e essa ternura, ou por lhos dar o Senhor, já venceu boa parte do caminho; e que não tenha medo de recuar, por mais que tropece, já que começou o edi fício com firmes alicerces. Sim, pois o amor de Deus não está em ter lá grimas nem em ter esses gostos e essa ternura, que em geral desejamos e com os quais nos consolamos, mas em servir com justiça, força de ânimo e hu mildade. Isso me parece mais receber do que dar alguma coisa.

14. Para mulherzinhas como eu, fracas e pouco constantes, creio que con vém, como Deus agora o faz comigo: conduzir-me com regalos, para que eu possa so frer algumas dificuldades que Sua Majestade desejou que eu tivesse. Mas, para servos de Deus, homens de valor, instruídos, inteligentes, desgosta--me ou vi-los se queixarem tanto de que Deus não lhes dá devoção; não digo que não a aceitem, se Deus a der, tendo-a em alta conta, porque, nesse caso, Sua Majestade sabe que isso lhes convém, mas que, quando não a tiverem, que não se aflijam, entendendo que ela não lhes é necessária, já que Sua Majestade não a dá, e sigam seu caminho. Acreditem que é uma imperfeição. Eu o vi e experimentei. Acreditem que é imperfeição e falta de liberdade de espírito; é mostrar fraqueza para qualquer empreendimento.

15. Não falo isso tanto para os que começam (embora eu o acentue tanto porque é muito importante para eles começar com essa liberdade e determinação), mas para outros, pois haverá muitos, e há realmente, que começaram e nunca acabam de acabar; e creio que isso se deve em grande parte ao fato de eles não abraçarem a cruz desde o início, razão por que ficam aflitos, julgando que nada fazem. Não conseguem suportar que o intelecto deixe de atuar, não percebendo que, então, a vontade aumenta e se fortalece.

Temos de pensar que o Senhor não olha coisas que, embora nos pareçam faltas, não o são. Sua Majestade já conhece a nossa miséria e baixeza natural melhor do que nós mesmos, sabendo que essas almas desejam sempre pensar nele e amá-Lo; o que Ele quer é essa determinação, não servindo essa outra aflição senão para inquietar a alma. Quem está incapacitado de obter frutos durante uma hora assim o estará por quatro. Porque muitíssimas vezes (tenho enorme experiência nisso, e sei que é verdade, porque o examinei com cuidado e disso tratei com pessoas espirituais) tudo vem da indisposição corporal; somos tão miseráveis que essa pobre alma está aprisionada aos males do corpo; e as mudanças do tempo e variações dos humores muitas vezes fazem com que, sem culpa, ela não possa fazer o que quer, padecendo de todas as maneiras. Nesses momentos, quanto mais a quisermos forçar, tanto pior e mais duro será o mal; nesse caso, é preciso ter discrição para ver quando se deve fazer o quê, para não atormentar a pobre. Que elas percebam que estão doentes e mudem a hora da oração, o que amiúde durará alguns dias. Suportem como puderem esse desterro, pois é grande a desventura da alma amante de Deus ao ver que passa por essa desolação, sem poder fazer o que quer, por ter um hóspede tão ruim quanto o corpo.

16. Eu disse “ter discrição” porque às vezes o demônio age. Assim, é bom que não se deixe sempre a oração quando se está muito distraído e perturbado no intelecto, nem se atormente sempre a alma, obrigando-a a fazer o que não pode.

Há outras ocupações além de obras de caridade e de leitura, mesmo que por vezes nem isso seja possível. Sirva-se então ao corpo por amor a Deus, para que ele, em muitas outras ocasiões, sirva à alma; dedique-se o tempo a conversas virtuosas ou a passeios pelo campo, segundo o conselho do confessor. Em tudo, vale muito a experiência, que nos dá a entender o que nos convém e nos faz ver que em tudo servimos a Deus. Suave é o seu jugo, e muito vale a pena não arrastar a alma, como se diz, mas levá-la com suavidade11 para seu maior aproveitamento.

17. Assim, repito — e mesmo que não pare de fazê-lo, ainda não o terei enfatizado o bastante — que importa muito que não nos atormentemos nem nos aflijamos com essas securas, com a inquietude e com a distração nos pensamentos. Quem quiser obter liberdade de espírito e não ficar sempre atribulado deve começar por não se espantar com a cruz; se o fizer, verá que o Senhor também ajuda a levá-la, e viverá contente e tirando proveito de tudo. É natural, pois se o poço está seco, nós não podemos enchê-lo de água; é verdade que não podemos nos descuidar, para que, quando houver água, a tiremos — porque, nesse caso, Deus deseja por meio dela multiplicar as virtudes.

domingo, 25 de abril de 2010

Novidade Editorial

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Capítulo 10


Capítulo 10

Começa a declarar as graças que o Senhor lhe concedia na oração. Como podemos nos ajudar a nós mesmos e como é importante entendermos os dons de Deus. Pede ao seu destinatário que doravante o que ela escrever seja secreto, visto que a mandaram falar de uma coisa tão particular quanto são essas graças.

1. Como disse,1 eu tinha começado a sentir às vezes, embora com brevi da de, o que passo a relatar. Vinha-me de súbito, na representação interior de es tar ao lado de Cristo, de que falei,2 tamanho sentimento da presença de Deus que eu de maneira alguma podia duvidar de que o Senhor estivesse dentro de mim ou que eu estivesse toda mergulhada nele. Não se tratava de uma visão; acredito ser o que chamam de teologia mística: a alma fica suspensa de tal modo que parece estar fora de si; a vontade ama, a me mória parece estar quase perdida, o intelecto não discorre, mas, a meu parecer, não se per de; entretanto, repito, também não age, ficando como que espantado com o muito que alcança, porque Deus lhe dá a entender que ele nada com preen de daquilo que Sua Majestade lhe representa.

2. Antes, eu tivera continuamente uma ternura que, em parte, é possível procurar: uma satisfação que não é completamente dos sentidos nem é bem espiritual. Tudo é dado por Deus; mas, ao que parece, para isso podemos con tribuir considerando nossa inferioridade e a ingratidão para com Deus, o muito que Ele fez por nós, sua Paixão, em que sofreu graves dores, Sua vida tão cheia de aflições; deleitando-nos por ver Suas obras, Sua grande za, o amor que tem por nós e muitas outras coisas que quem deseja progredir espiritualmente encontra por toda parte, mesmo que não as viva procurando. Se, ao lado disso, houver algum amor, a alma fica inebriada, o coração fica terno, vêm lágrimas; às vezes, parece que as arrancamos à força e, em ou tras, elas vêm do Senhor, e com tanta energia que não podemos resistir. Ao que parece, Sua Majestade nos recompensa pelo nosso pequeno esforço com um dom imenso que é o consolo sentido pela alma ao ver que chora por tão gran de Senhor; e não me espanto com isso, pois razão há de sobra para sentir consolo, pois ali ela se inebria e se deleita.

3. Considero boa a comparação que agora me ocorreu: os prazeres obtidos da oração devem ser os dos que estão no céu, porque, como não vêem mais do que o Senhor, de acordo com o seu merecimento, quer que vejam, e como reconhecem os poucos méritos que têm, cada um deles se contenta com o lugar em que está, embora haja uma enorme diferença entre a felicidade de cada um no céu, que é muito maior do que a que há entre os gozos espirituais daqui da terra.

E, com efeito, a alma, no início, ao receber essa graça de Deus, quase tem a impressão de que não há mais a desejar, dando-se por bem paga por tudo quanto serviu. E sobram-lhe razões, pois uma lágrima dessas, que, como digo, quase procuramos — embora sem Deus nada se faça —, não me pareça poder ser comprada nem com todos os trabalhos do mundo, pois muito se ganha com elas; e que lucro maior do que ter um testemunho de que contentamos a Deus? Por isso, quem chegar a esse ponto louve muito a Deus, reconhecendo que muito Lhe deve, porque parece que o Senhor já o deseja para a Sua casa e o escolheu para o Seu Reino — se a alma não voltar atrás.

4. Não procure as humildades, de que pretendo falar, de certas pessoas que crêem ser humilde não compreender que o Senhor vai lhes concedendo dons.3 Entendamos, como deve ser, que Deus no-los dá sem nenhum merecimento nosso, e agradeçamos a Sua Majestade; porque, se não reconhecermos que recebemos, não vamos despertar para amar. Uma coisa é certa: quanto mais vemos que estamos ricos, sabendo que somos pobres, tanto maior o nosso aproveitamento e ainda mais verdadeira a humildade. O resto é abater o ânimo por pensar que não se é capaz de obter grandes bens se, começando o Senhor a dá-los, a alma se atemoriza com medo da vaidade. Acreditemos que Aquele que nos dá os bens nos concederá a graça para que, começando o demônio a tentar-nos nesse aspecto, nós o entendamos e nos fortaleçamos para resistir-lhe; isto é, se andarmos com retidão diante de Deus, voltados para contentar apenas a Ele, e não aos homens.

5. É evidente que amamos mais a uma pessoa quando nos lembramos muito das boas obras que faz por nós. Pois, se é ilícito e tão meritório nos lembrarmos sempre de que Deus nos deu a vida, nos criou do nada, nos sustenta, e de todos os outros benefícios que a Sua morte e os Seus sofrimentos nos deram, bem como do fato de que muito antes de nos criar Ele já os sofrera por cada um de nós, por que não seria lícito que eu reconheça, veja e considere muitas vezes que costumava falar em vaidades e que agora, pelo favor de Deus, só tenho vontade de falar Dele? Eis aqui uma jóia que, se reconhecermos que nos foi dada e que a possuímos, nos força a amar, porque o amor é todo o bem da oração fundada na humildade. Pois o que deve ocorrer quando tivermos em nosso poder jóias mais preciosas — que alguns servos de Deus já receberam — como as do menosprezo do mundo e de nós mes mos? É claro que nos consideraremos mais devedores e mais obrigados a servir e a compreender que não tínhamos nada disso e a reconhecer a ge nerosidade do Senhor. Porque, para alma tão pobre, ruim e pouco merecedo ra como a minha, bastava a primeira jóia destas, que ainda seria muito, mas ain da assim o Senhor quis cumular-me de mais riquezas do que eu poderia desejar.

6. Devemos tirar forças para servir mais e procurar não ser ingratos; por que o Senhor nos oferece esses dons com essa condição, pois, se não usar mos bem o tesouro e o elevado estado em que nos põe, Ele voltará a to má -los, e ficaremos ainda mais pobres; e Sua Majestade dará essas jóias a quem as preze e beneficie com elas a si e aos outros.

Como pode aproveitar e gastar com liberalidade quem não sabe que está rico? É impossível — a meu ver devido à nossa natureza — que tenha ânimo para grandes coisas quem não percebe ser favorecido por Deus; porque, dada a nossa inferioridade e inclinação para as coisas da terra, dificilmente nos desapegaremos de fato, com grande aversão, das coisas da terra se não souber mos que partilhamos dos bens celestes. Com esses dons, o Senhor nos dá a força que, pelos nossos pecados, perdemos. Se não tivermos provas do amor de Deus, ao lado de uma fé viva, como poderemos desejar que todos fiquem des contentes e se aborreçam conosco e com todas as grandes virtudes que os perfeitos exibem? Carecemos tanto de estímulo que logo acreditamos no que te mos diante dos olhos; assim, são esses favores que despertam e fortalecem a fé. Pode ser que eu, por ser tão ruim, esteja julgando por mim, podendo haver outros para quem basta a verdade da fé para fazerem obras muito per feitas, enquanto eu, miserável que sou, precisei de todas essas graças.

7. Que eles falem disso; eu falo do que aconteceu comigo, como me ordenaram. Se eu estiver errada, aquele a quem me dirijo4 destruirá esta relação; pois ele saberá entender, mais do que eu, o que está errado; a ele suplico, pelo amor do Senhor, que publique o que eu disse até agora da minha vida ruim e dos meus pecados (concedo-lhe a licença a partir de agora, estendendo-a a todos os meus confessores, sendo um deles aquele a quem me dirijo), e, se quiser, enquanto eu estiver viva, para que o mundo não se engane mais pensando que há em mim algum bem; e por certo, digo sinceramente, pelo que agora sinto, isso me trará grande consolo.

Para o que vou falar, não dou igual licença, nem desejo que, caso o mostrem a alguém, digam quem o escreveu, quem é nem a quem sucedeu; por isso, não direi o meu nome, nem o de ninguém, tentando escrever o melhor que puder para não ser reconhecida, e assim o peço pelo amor de Deus. Bastam pessoas tão instruídas e sérias para aprovar alguma coisa boa se o Senhor me der graça de dizê-la; se houver algo assim, será Dele, e não meu, porque não sou instruída, não tenho boa vida, nem fui educada por mestres nem por ninguém (porque só os que me mandaram escrever sabem que eu o faço, e no presente não está aqui);5 e quase furtando o tempo, e com pesar, porque me impede de fiar e porque, estando em casa pobre,6 há muitas ocupações… Assim, mesmo que o Senhor me tivesse dado mais capacidade e memória, podendo eu me aproveitar, com esta, do que ouvi ou li, o que não é o caso, se alguma coisa de bom eu disser, é o Senhor que o quer para algum bem; o que for ruim terá vindo de mim, e vossa mercê o suprimirá. Em nenhum dos casos há proveito em dizer o meu nome. Enquanto eu estiver viva, está claro que não se deve divulgar o bem; estando morta, isso de nada vai servir, a não ser para que o bem perca a autoridade e o crédito por ser dito por uma pessoa tão ínfima e ruim.

8. E por pensar que vossa mercê e os outros que o virem haverão de fazer o que peço, pelo amor de Deus, escrevo com liberdade; se assim não fosse, eu teria grandes escrúpulos, não para falar dos meus pecados, que nesse aspecto não tenho nenhum. Quanto ao mais, basta-me ser mulher para estar restrita, ainda mais sendo mulher e ruim. Assim, o que ultrapassar a simples narrativa da minha vida, tome-o vossa mercê para si — já que tanto me importunou para que eu indicasse as graças que Deus me faz na oração —, caso esteja em conformidade com as verdades da nossa santa fé católica; se não o estiver, que vossa mercê o queime logo, que a isso me sujeito. E direi o que se passa comigo para que, respeitada a fé, possa vossa mercê tirar disso algum proveito e, caso contrário, para que desenganeis a minha alma, e para que o demônio não ganhe onde eu penso ganhar; pois o Senhor já sabe, como depois direi,7 que sempre procurei buscar quem me dê luz.

9. Por mais clara que eu tente ser falando das coisas de oração, tudo será bem obscuro para quem não tiver experiência. Falarei de alguns impedimentos que no meu entender impedem o progresso nesse caminho, bem como de coisas em que há perigo, daquilo que o Senhor me ensinou por experiência e do que aprendi discutindo com grandes mestres e pessoas que há muito se dedicam às coisas do espírito. Todos estes reconhecem que, nos vinte e sete anos em que me dedico à oração, Sua Majestade me deu a experiência — apesar dos meus tantos tropeços e de eu ter trilhado tão mal esse caminho — que outros conseguiram em trinta e sete ou quarenta e sete anos, sempre na penitência e na virtude.

Bendito sejais por tudo! E, por quem sois, Senhor, servi-vos de mim, pois bem sabeis que não pretendo outra coisa senão que sejais louvado e engrandecido um pouco por haverdes plantado um jardim de flores tão suaves num pântano tão sujo e malcheiroso. Queira Sua Majestade que eu, pela minha culpa, não volte a arrancá-las nem torne a ser o que era. Suplico a vossa mercê que, pelo amor do Senhor, peça-Lhe isso, pois sabeis quem sou com mais clareza do que me permitistes dizer aqui.

terça-feira, 23 de março de 2010

Capítulo 9



Conta de que modo o Senhor começou a despertar a sua alma, dando-lhe luz em tão grandes trevas, e a fortalecer suas virtudes para não ofendê-Lo.

1. A minha alma já estava cansada e, embora quisesse, seus maus costumes não a deixavam descansar. Aconteceu-mede, entrando um dia no oratório, ver uma imagem guardada ali para certa festa a ser celebrada no mosteiro. Era um Cristo com grandes chagas que inspirava tamanha devoção que eu, de vê-Lo, fiquei perturbada, visto que ela representava bem o que Ele passou por nós.1 Foi tão grande o meu sentimento por ter sido tão mal-agradecida àquelas chagas que o meu coração quase se partiu; lancei-me a seus pés, derramando muitas lágrimas e suplicando-lhe que me fortalecesse de uma vez para que eu não O ofendesse.

2. Eu era muito devota da gloriosa Madalena e muitas vezes pensava em sua conversão, em especial quando comungava, certa de que o Senhor estava dentro de mim, pondo-me a Seus pés, por ter a impressão de que as minhas lá grimas não seriam desdenhadas; e eu não sabia o que dizia (pois muito fa zia quem permitia que eu as derramasse, já que eu logo esquecia aquele sen timento), encomendando-me a essa gloriosa Santa para que ela me alcanças se o perdão.

3. Mas esta última vez, com a imagem de que falei, parece-me ter sido mais proveitosa, porque eu já desconfiava muito de mim mesma e depositava toda a minha confiança em Deus. Creio que eu disse que não me levantaria dali enquanto a minha súplica não fosse atendida. Tenho certeza de que isso me beneficiou, porque a partir de então fui melhorando muito.

4. Eu rezava assim: como não podia raciocinar com o intelecto, esforçava-me por representar Cristo dentro de mim, e sentia-me melhor — ao que pa rece — nas passagens onde o via mais sozinho. Eu acreditava que, estando só e aflito, Ele haveria de me acolher, sendo eu pessoa necessitada. Eram mui tas as minhas simplicidades desse tipo.

Eu me sentia muito bem, em especial na oração do Horto, onde Lhe fazia companhia; ficava pensando no suor e na aflição que ele sofrera, desejando, caso fosse possível, enxugar-Lhe o suor tão doloroso, mas lembro-me de que nunca ousei fazê-lo, pois vinham à lembrança os meus graves pecados; eu fi cava ali, com Ele, enquanto os meus pensamentos deixavam, porque eram muitos os que me atormentavam. Por longos anos, quase todas as noites, antes de dormir, ao me encomendar a Deus para dormir, eu sempre pen sava um pouco nessa passagem da oração do Horto, mesmo antes de ser monja, porque me disseram que com isso se obtinham muitos perdões; e tenho para mim que a minha alma muito ganhou com isso, porque comecei a orar sem saber que o fazia, tendo esse costume ficado tão constante que nunca o aban donei, assim como nunca deixei de me persignar para dormir.

5. Voltando ao que dizia do tormento que os pensamentos me tra ziam: proceder sem o discurso do entendimento requer que a alma esteja muito con centrada ou perdida, perdida em distrações. Aproveitando, é grande o ga nho da alma, por ser progresso no amor. Mas, para chegar a isso, fazem--se grandes esforços, a não ser que o Senhor se digne conduzir a alma, num breve espaço de tempo, à oração de quietude, o que acontece com algumas pessoas que conheço. Para quem segue esse caminho, é útil um livro que leve ao rápido recolhimento. Eu também me beneficiava de ver campos, águas, flores; encontrava nessas coisas a lembrança do Criador, isto é, elas me despertavam e me recolhiam, servindo-me de livros, ao mesmo tempo que me lembrava da minha ingratidão e dos meus pecados. Era tão grosseiro o meu intelecto que jamais pude imaginar coisas do céu ou coisas elevadas, até que o Senhor as representasse de outra maneira para mim.

6. Eu era tão pouco hábil na representação de imagens mentais que, se não visse com os meus próprios olhos, pouco uso fazia da imaginação, ao contrá rio de certas pessoas que conseguem servir-se dela quando se recolhem. Eu só podia pensar em Cristo como homem, mas nunca pude representá--Lo no meu interior, por mais que lesse sobre a Sua beleza e por mais que con templasse as Suas imagens; eu agia como uma pessoa cega ou no escuro, e que, falando com outra, sabe que está com ela porque tem certeza da sua pre sença (digo, percebe e crê que ela está ali, mas não a vê); assim ficava eu quando pensava em Nosso Senhor. E por isso eu gostava tanto de imagens. In felizes os que por sua culpa perdem esse bem! Bem parece que não amam o Senhor, porque, se o amassem, gostariam de ver o Seu retrato, como no mun do há prazer em contemplar o retrato daqueles a quem se quer bem.

7. Deram-me nessa época as Confissões de Santo Agostinho.2 Parece que o Senhor o ordenou, porque nunca as procurei nem as tinha visto. Sou muito afei çoada a Santo Agostinho, porque o mosteiro onde fui secular era de sua Ordem,3 e também por ele ter sido pecador. Nos santos que o foram e, de pois de sê-lo, foram atraídos outra vez pelo Senhor eu encontrava muito con solo, parecendo-me que neles encontraria ajuda e que, como os havia per­doado, o Senhor também poderia me perdoar. Só uma coisa me desconso lava, como eu disse:4 o Senhor só os chamou uma vez, e eles não voltaram a cair; quanto a mim, já eram tantos os chamados que isto me afligia. Mas, considerando o amor que Ele tinha por mim, eu me reanimava, pois da Sua misericórdia jamais duvidei, enquanto de mim duvidava com freqüência.

8. Valha-me Deus! Como me espanta a teimosia da minha alma, apesar de tanta ajuda de Deus! Traz-me medo ver minha grande fraqueza e os vín culos que me impediam de me entregar por inteiro a Deus.

Começando a ler as Confissões, tive a impressão de me ver ali. Passei a encomendar-me muito a esse glorioso Santo. Quando cheguei à sua conversão e li que ele ouvira uma voz no jardim,5 senti ser o Senhor quem me fa lava, tamanha foi a dor do meu coração. Passei muito tempo chorando, com grande aflição e sofrimento. Como sofre uma alma, valha-me Deus, por perder a liberdade de ser senhora de si mesma, e que tormentos padece! Hoje me admiro por ter podido viver com tanta aflição. Glória a Deus, que me deu vida para eu sair de uma morte tão mortal.

9. A minha alma ganhou grandes forças da Divina Majestade, que deve ter ouvido minhas súplicas e ter-se condoído por tantas lágrimas. Aumentou em mim a vontade de ficar mais tempo com Ele; passei a fugir das ocasiões de pecado porque, livre delas, logo voltava a amar Sua Majestade. Eu bem sabia que O amava, mas não compreendia, como iria entender, o que é amá--Lo verdadeiramente.

Creio que eu nem bem me dispunha a querer servi-Lo e Sua Majestade já recomeçava a me deliciar. Eu via que aquilo que os outros procuram adquirir com muito esforço, o Senhor instava comigo para que eu o recebesse, visto que, nos últimos anos, já me concedia gostos e regalos.6 Jamais me atrevi a suplicar que me desse isso ou ternura de devoção; eu lhe pedia apenas que me desse graças para que não O ofendesse e que perdoasse os meus grandes pecados. Vendo-os tão grandes, nunca me atrevi conscientemente a desejar regalos ou gostos. Para mim, a Sua piedade já fazia demais permitindo-me permanecer diante de Si e trazendo-me à Sua presença, pois eu via bem que, se Ele não me procurasse tanto, eu sozinha nunca o faria.

Lembro-me apenas de uma ocasião em que Lhe pedi consolações, por estar muito necessitada; porém, vendo que o fazia, fiquei tão confusa que a dor de me ver com tão pouca humildade me deu o que eu me atrevera a pedir. Eu sabia que não era errado pedi-las, mas achava que quem as merecia eram os que estavam bem dispostos, e que tinham procurado a verdadeira devoção com todas as suas forças, sendo esta não ofender a Deus e estar pronto e determinado para todo bem. Eu pensava que as minhas lágrimas eram coisinhas de mulher, ineficazes, pois eu não conseguia com elas o que desejava. No entanto, acho que me valeram; porque, especialmente depois dessas duas vezes7 de tão grande arrependimento e de tanta dor no coração, passei a me dedicar mais à oração e a me afastar das coisas que me pudessem trazer a perdição, embora não o fizesse de todo, contando com a ajuda de Deus para delas me separar. Como Sua Majestade só esperava alguma correspondência de minha parte, as graças espirituais foram aumentando da maneira como vou contar. Trata-se de algo incomum, porque o Senhor as costuma dar aos que têm maior pureza de consciência.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

capitulo 8

Fala do grande bem que obteve do fato de não se afastar por inteiro da oração para não perder a alma e do grande auxílio que isso é para se recuperar o que se perdeu.

Defende essa prática por parte de todos. Diz que são grandes os ganhos dela decorrentes e que, mesmo que a deixem, é muito bom fruir por algum tempo de tão grande bem.

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1. Houve uma causa para que eu insistisse tanto em relatar essa época da minha vida. Sei bem que não agrada a ninguém ver coisa tão ruim, e por cer to eu gostaria que os que lessem isto me detestassem ao ver uma alma tão teimosa e ingrata para com quem tantas graças lhe tem dado. Gostaria de ter permissão para falar das muitas vezes que, nessa época, falhei diante de Deus, por não1 me ter apoiado na forte coluna da oração.

2. Singrei esse mar tempestuoso durante quase vinte anos, caindo e levan tan do — levantando-me mal, pois voltava a cair. Era tão pouca a minha per feição que quase não me importava muito com os pecados veniais, e, em bora temendo os mortais, nem por isso me afastava dos perigos. Trata-se de uma das vidas mais penosas que, a meu ver, se pode imaginar: eu não me rejubilava em Deus nem me alegrava no mundo. Nos contentamentos mundanos, era atormentada pela lembrança do que devia a Deus; quando estava com Ele, era perturbada pelos contentamentos do mundo. É tão dura essa batalha que nem sei como suportaria um mês, quanto mais tantos anos.

Porém, vejo claramente a grande misericórdia do Senhor ao me dar ânimo para orar enquanto eu tratava com o mundo. Digo ânimo, porque não creio que haja na terra algo que exija mais coragem do que trair o rei, sabendo que ele o sabe, sem conseguir sair de sua presença. Naturalmente, todos estão sempre diante de Deus; mas, para quem trata da oração, isso ocorre em outro plano; enquanto estes percebem que o Senhor os olha, os outros conseguem às vezes passar muitos dias sem nenhuma lembrança de que Deus os vê.

3. É verdade que, nesses anos, houve muitos meses e, talvez, anos em que eu não ofendi ao Senhor, dedicando-me à oração e me esforçando para não desagradá-lo. Digo-o para não faltar à verdade. Pouco me lembro dessas boas épocas, que devem ter sido raras, já que as outras foram muito mais numerosas. Poucos dias passei sem ter longos períodos de oração, a não ser que estivesse muito mal de saúde ou bastante ocupada; quando estava doente, relacionava-me melhor com Deus, procurando levar as pessoas próximas a assim ficarem, suplicando ao Senhor que as ajudasse e falando dele freqüentemente.

Desse modo, afora o ano de que falo, em vinte e oito anos de oração, passei mais de dezoito nessa luta entre lidar com Deus e lidar com o mundo.2 Nos outros, de que ainda vou falar, mudou a razão da contenda, mas a guerra ainda é dura. Contudo, estando, a meu ver, a serviço de Deus e com conhecimento da vaidade que é o mundo, tudo foi suave, como adiante direi.

4. Eu me estendi tanto, como já disse,3 para que se vejam a misericórdia de Deus e a minha ingratidão, bem como para que se compreenda o grande be nefício que Deus dá à alma dispondo-a a ter oração com vontade, mesmo que a sua dis posição não seja a necessária. Com perseverança, tenho certeza de que o Senhor conduzirá a alma a um porto de salvação, como — pelo que vejo agora — fez comigo, apesar dos pecados, tentações e mil quedas que o de mônio ocasiona. Queira Sua Majestade que eu não volte a me perder.

5. O bem que quem pratica a oração — refiro-me à oração mental — obtém já foi tratado por muitos santos e homens bons. Glória a Deus por isso! Se assim não fosse, embora pouco humilde, eu não sou tão soberba que me atre vesse a falar disso.

Do que tenho experiência posso falar: quem começou a ter ora ção não deve deixá-la, por mais pecados que cometa. Com ela, terá como se recuperar e, sem ela, terá muito mais dificuldades. E que o demônio nunca tente ninguém como tentou a mim, levando-me a abandonar a oração por hu mildade; creiam-me que as palavras do Senhor não hão de faltar se nos arre pendermos de verdade e tivermos o firme propósito de não mais ofendê-Lo; nesse caso, Ele nos recebe com a mesma amizade, concedendo-nos as mes mas graças de antes e, às vezes, se o arrependimento fizer jus a isso, muitas mais.

Por isso, peço aos que ainda não começaram que, por amor a Deus, não se privem de tanto bem. Não há o que temer, mas o que desejar. Porque, mes mo que não vá adiante nem se esforce pela perfeição, a ponto de merecer os gostos e regalos que Deus dá aos perfeitos, ao menos irá conhecendo o ca minho que leva ao céu. Se perseverar, tudo espero da misericórdia de Deus, pois ninguém fez amizade com Ele sem dele obter grande recompensa.4 Para mim, a oração mental não é senão tratar de amizade — estando muitas vezes tratando a sós — com quem sabemos que nos ama. E se ainda não O amais (porque, para que o amor seja verdadeiro e duradoura a amizade, deve haver compatibilidade; o Senhor exige, como se sabe, que não se cometam faltas, que se seja perfeito; nós, no entanto, somos viciosos, sensuais e ingratos), não podeis por vós mesmos chegar a amá-Lo, porque não é de vossa condição; mas, levando-se em conta o muito que Ele vos ama e o quanto vale ter a Sua amizade, passai pelo sofrimento de estar muito na presença de quem é tão diferente de vós.

6. Ó infinita bondade do meu Deus, que me parece que Vos vejo e me vejo dessa maneira! Ó delícia dos anjos, que, ao ver isso, todo o meu ser gostaria de desfazer-se em Vosso amor! Como é certo que sofreis com quem sofre por ter-Vos junto a si. Que bom amigo sois, Senhor meu! Como vais brindando a alma, e sofrendo, à espera de que ela alcance Vossa condição, suportando a sua, até que ela o consiga! Considerais, Senhor meu, os instantes em que ela o quer e, por um vislumbre de arrependimento de sua parte, esqueceis que ela Vos tem ofendido!

Vi isso com clareza em mim mesma, e não entendo, Criador meu, por que o mundo inteiro não procura travar convosco essa amizade particular. Os maus, que não têm a Vossa condição, deviam fazê-lo para que nos fizésseis bons. Isso acontecerá se eles permitirem que estejais com eles ao menos duas horas por dia, mesmo que não estejam convosco, mas às voltas com mil cuidados e pensamentos do mundo, como eu fazia. Devido ao esforço que fazem por querer estar em tão boa companhia, sabeis que, no princípio, e até depois, não podem fazer mais; Vós, como recompensa, impedis os ataques dos demônios, reduzindo a força destes a cada dia, ao mesmo tempo que for taleceis a alma. Jamais matais os que confiam em Vós e que Vos querem por amigo — Vida de todas as vidas! Vós lhes sustentais a vida do corpo, dan do-lhes mais saúde, vivificando a alma.

7. Não entendo o que temem os que temem começar a ter oração mental, nem sei de onde vem esse medo. Bem sabe o demônio criá-lo para provocar o verdadeiro mal, levando-me, pelo terror, a não pensar em que ofendi a Deus nem no muito que Lhe devo; assim agindo, ele não deixa que pensem no inferno, na glória e nos grandes sofrimentos e dores que Deus passou por mim.

Nessas coisas consistiu toda a minha oração enquanto eu corria esses perigos, sendo esses os meus pensamentos quando eu podia. E muitas vezes, durante alguns anos, eu me preocupava mais em desejar que passasse o tempo para mim determinado de estar ali e em escutar quando batia o relógio, do que em outras coisas boas. Com freqüência, acolhia com maior vontade alguma penitência grave do que o recolhimento em oração.

E é certo que a força que o demônio fazia — ou o meu mau costume — era tão incomparável, e tamanha a tristeza que eu sentia ao entrar no oratório, que eu precisava empregar todo o meu ânimo (que, dizem, não é pouco, tendo Deus me feito mais corajosa do que a maioria das mulheres, embora eu a tenha usado mal) para me obrigar, contando por fim com a ajuda do Senhor.

E, depois de me ter obrigado assim, eu ficava com maior quietude e alegria do que algumas vezes em que tinha desejo de rezar.

8. Porque, se o Senhor suportou por tanto tempo alguém tão ruim quanto eu, sendo claro que foi por isso que se curaram todos os meus males, que pessoa, por pior que seja, poderá temer? Porque, por mais que o seja, não o será por tantos anos depois de ter recebido tantas graças do Senhor. Quem poderá duvidar disso se o Senhor tanto me suportou, apenas porque eu desejava e procurava algum lugar e tempo para que Ele estivesse comigo, e isso muitas vezes sem vontade, graças à grande força que eu empregava contra mim ou que o próprio Senhor usava em mim? Se para os que não O servem, mas O ofendem, a oração faz tão bem e é tão necessária, quem poderia objetar que não há maior dano para os que servem a Deus e O querem servir do que deixar de fazê-la? Com certeza não posso entender que as pessoas passem com mais dores pelos sofrimentos da vida ao fecharem para Deus a porta através da qual Ele lhes daria a verdadeira felicidade. Na verdade, tenho pena delas, pois servem a Deus prejudicando a si mesmas, enquanto os que se dedicam à oração recebem a ajuda do Senhor, que, por menos que eles se esforcem, lhes dá contentamento para que suportem os sofrimentos.

9. Como tratarei adiante das alegrias dadas pelo Senhor aos que perseveram na oração, nada falarei aqui. Digo apenas que a oração foi a porta que me levou às grandes graças que recebi; se a fecharmos, não sei como Ele as poderá conceder; porque, ainda que queira entrar para deliciar-se com uma alma e cumulá-la de contentamento, Deus não terá por onde, pois a quer sozinha, pura e com vontade de recebê-Lo. Se lhe impusermos obstáculos e nada fizermos para retirá-los, como Ele poderá vir até nós? E ainda queremos que Deus nos conceda grandes favores!

10. Para que todos vejam a misericórdia de Deus e o grande benefício que tive por não ter abandonado a oração e a lição ou leitura, falarei, pois importa muito que se entenda isso, de como o demônio ataca uma alma para conquistá-la, e do artifício e benevolência com que o Senhor busca levá-la para Si. Digo-o para que se acautelem dos perigos que não evitei. Peço sobretudo, por amor de Nosso Senhor e pela grande afeição com que Ele procura fazer-nos voltar para Si, que se evitem as ocasiões de pecado; porque, uma vez nelas, em nada podemos confiar numa guerra onde tantos inimigos nos combatem e onde são tão fracas as nossas defesas.

11. Eu gostaria de saber descrever a escravidão da minha alma naquela época, porque bem entendia que estava cativa, mas não percebia em que con sistia o cativeiro, nem podia crer de todo que aquilo que os confessores não consideravam tão grave fosse tão ruim como eu o sentia em minha alma. Um deles, a quem consultei a respeito de uma reserva minha, disse-me que, mesmo que eu chegasse a um alto grau de contemplação, as relações e conversas de que eu me ressentia não me fariam mal.

Isso aconteceu nos últimos tempos, quando eu, com o favor de Deus, me afastara mais dos grandes perigos, apesar de não evitar por inteiro as ocasiões. Como me viam com bons desejos e ocupada com a oração, pensavam que eu fazia muito; minha alma, contudo, sabia que eu não fazia o que Aquele a quem eu tanto devia merecia. Lamento agora o quanto a minha alma sofreu, e a pouca ajuda que recebeu, a não ser de Deus, bem como a liberdade que lhe era dada para os passatempos e alegrias por aqueles que os consideravam lícitos.

12. Não era pequeno o meu tormento nos sermões, de que gostava muito. Quando eu via alguém pregar com espírito e discorrer bem, adquiria por essa pes soa uma afeição particular, sem que eu a procurasse e sem saber de onde me vi nha. Quase nunca o sermão me parecia tão ruim que eu não o ouvisse com von tade, embora os presentes dissessem que [o pregador] não pregava bem. Se fosse bom, causava-me um deleite particular. Eu quase nunca me cansava de falar de Deus ou de ouvir sobre Ele depois que comecei a ter oração. De um lado, con se guia grande consolo nos sermões, mas, de outro, me atormentava, porque eles me faziam ver que em muitas coisas eu não era como devia ser. Eu suplicava ao Senhor que me ajudasse; mas, pelo que vejo agora, eu não depositava total con­fiança em Sua Majestade nem perdia de todo a que punha em mim. Eu pro curava soluções, fazia esforços; mas ainda não compreendia que isso de nada serve se, mesmo não confiando por inteiro em mim, eu não pusesse a confiança em Deus.

Eu desejava viver, pois bem entendia que não vivia, combatendo, em vez disso, uma sombra da morte, sem que ninguém me desse vida e sem poder consegui-la eu mesma; e quem podia dá-la a mim tinha razão para não socorrer--me, pois tantas vezes me chamara a Si e outras tantas fora abandonado.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Capítulo 7




Conta como foi perdendo as graças que o Senhor lhe fizera e a vida ruim que começou a ter.
Fala dos males decorrentes de os mosteiros de monjas não serem muito fechados.
1. E assim comecei, de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade, de ocasião em ocasião, a envolver-me tanto em tão grandes ocasiões e a estragar a alma em grandes vaidades que tinha vergonha — em tão particular amizade como é tratar de oração — de me aproximar de Deus. Contribuiu para isso o fato de que, como os pecados aumentaram, o gosto e a alegria da prática da virtude começaram a escassear.1 Eu via muito claramente, Senhor meu, que isso me faltava por eu faltar a Vós.
Esse foi o mais terrível engano que o demônio me podia fazer sob a capa de humildade: por me ver tão perdida, passei a temer a oração. E eu tinha a impressão de que era melhor andar como os muitos.2 Porque, em ser ruim, eu era das piores, rezando apenas as orações a que estava obrigada, e vocalmente, pois não era justo fazer oração mental e relacionar-se tanto com Deus quem merecia estar na companhia dos demônios e enganava os outros, visto que, no exterior, mantinha as aparências. A casa onde eu estava não tem culpa, porque eu, com a minha malícia, fazia com que me tivessem em alta conta. Mas eu não o fazia em sã consciência, fingindo cristandade; porque, em termos de vanglória e hipocrisia — glória a Deus! —, não me lembro de O ter um dia ofen dido, pelo que posso julgar. Ao primeiro sinal, era tanto o meu pesar que o demônio era derrotado, e eu lucrava; nesse aspecto, poucas tentações tenho tido. Se por acaso Deus tivesse permitido que eu fosse tentada nisso com a mes ma intensidade com que o tenho sido em outras coisas, eu também teria caído; mas Sua Majestade até agora me tem protegido disso. Seja para sempre bendito! Na realidade, desgostava-me muito que gostassem de mim, porque eu sabia o que havia em segredo em mim.
2. Não me julgavam tão ruim porque, apesar de eu ser jovem e de estar fre qüentemente exposta a tantas oportunidades de pecado, as pessoas viam que eu inúmeras vezes me afastava, buscando a solidão para rezar e ler, falar muito de Deus, fazer pintar a sua imagem em vários lugares e conservar o ora tório, colocando nele coisas que produzissem devoção. Eu não falava mal dos outros, havendo ainda em mim outros hábitos aparentemente virtuosos. E eu, iludida, sabia aproveitar as coisas que o mundo em geral estima. Assim, da vam tanta liberdade a mim quanto às mais antigas, e até mais. Eu era obje to de grande confiança. De fato, cometer certas ousadias ou fazer coisas sem licença, como falar por alguma fresta, por cima dos muros ou à noite, num mosteiro, não eram do meu feitio. Nunca o fiz, porque o Senhor me segurava com a mão. Creio — porque com atenção e ponderação eu observava muitas coisas — que eu não queria correr o risco de, pela minha ruindade, pôr em perigo a honra de tantas boas religiosas. Como se fossem dignas outras coisas que eu fazia! Na verdade, ainda que fosse muito, o mal não era tão consciente, como o seria se eu fizesse essas coisas.
3. A meu ver, causou-me grande prejuízo não estar num mosteiro enclau su rado. Porque a liberdade que as que eram boas podiam ter sem culpa (por que não lhes era exigido mais, já que não prometiam clausura)3 a mim, que sou ruim, por certo teria levado ao inferno se eu não tivesse sido libertada desse risco por tantos meios, remédios e dons particulares do Senhor. Por isso, considero muito perigosos mosteiros de mulheres com liberdade. Eles se tornam portas abertas para que as que quiserem ser ruins tomem o caminho do inferno, em vez de remédio para as suas fraquezas.
Isso não se aplica ao meu.4 Nele, há muitas que servem ao Senhor com sinceridade e bastante perfeição, não podendo Sua Majestade, por ser bom, deixar de favorecê-las; além disso, não é dos mais abertos e, nele, respeita--se toda a observância. Falo de outros, que conheço e vi.
4. Muito me entristece que o Senhor precise fazer apelos particulares — e não uma, mas repetidas vezes — para que as monjas se salvem, dada a permissão para cortesias e entretenimentos mundanos e o tão mau entendimento daquilo a que estão obrigadas. Queira Deus que elas não tenham por virtude o que é pecado, como tantas vezes fiz. Compreender essas verdades é tão difícil que, para consegui-lo, é necessário que o Senhor ponha nisso realmente a Sua mão.
Se quisessem seguir o meu conselho, os pais que põem as filhas em mosteiros onde elas, em vez de encontrar recursos para seguir o caminho da salvação, correm maiores riscos do que no mundo fariam melhor, para a própria honra das filhas, se as casassem, mesmo em condições humildes, ou as mantivessem em casa. Isso é preferível a tê-las nesses mosteiros, a não ser que elas tenham ótimas inclinações. Mesmo assim, que Deus as ajude a conservá-las. Na casa dos pais, o mau comportamento só se mantém oculto por pouco tempo; nesses mosteiros, pelo contrário, mantém-se até que o Senhor tudo revele. Os danos atingem não apenas a culpada, mas a todas. Às vezes, as pobrezinhas não têm culpa, porque seguem o que vêem; é uma lástima verificar que, com freqüência, afastando-se do mundo e acreditando que vão servir ao Senhor e preservar-se dos perigos, elas se encontram em dez mundos juntos, sem saber como se valer nem remediar; a mocidade, a sensualidade e o demônio as convidam e inclinam a seguir coisas que são do próprio mundo; elas vêem ali o que é considerado bom, por assim dizer. Acho que elas são em parte como os desventurados hereges, que querem cegar a si mesmos e ensinar que é bom aquilo que seguem, e assim o crêem, embora não acreditem de fato, porque têm dentro de si quem lhes diga que é mau.
5. Ó enorme mal, enorme mal dos religiosos — refiro-me tanto às mu lhe res como aos homens —, que vivem onde não se guarda a religião, num mos teiro onde existem dois caminhos, igualmente trilhados: o da virtude e da religião, e o da falta de religião. Não faço justiça, eles não são igualmente trilhados; devido aos nossos pecados, o mais seguido, e mais favorecido, é o mais imperfeito. O da verdadeira religião é tão pouco percorrido que quem desejar de fato vivê-lo em tudo, seguindo sua vocação, deve temer mais os de sua própria casa do que toda a corte demoníaca. Essas pessoas devem ter mais cautela e reserva ao falarem da amizade que desejam ter com Deus do que de outras amizades e vontades introduzidas nos mosteiros pelo demônio. Não vejo de fato razão para estranharmos os tantos males que há na Igreja se os que de veriam ser modelo de virtude exibem uma imagem tão apagada que não lembra o primor que os santos do passado, com o seu espírito, dei xa ram nas ordens religiosas. Que a divina Majestade remedie tanto mal, como vê que é preciso, amém.
6. Porque, tendo começado a participar dessas coisas, visto não me parecer — por ser costume — que disso viessem para a minha alma o prejuízo e a distração — o que só mais tarde constatei —, tive a impressão de que essas visitas, tão generalizadas em muitos mosteiros, não fariam maior mal a mim que às outras, cuja bondade eu conhecia. Eu não via que elas tinham muito mais virtudes e que, onde para elas talvez não houvesse perigo, para mim havia. Não duvido de que, mesmo limitadas à perda de tempo, essas coisas envolvem perigo. Estando com uma pessoa que há pouco conhecera, percebi que o Senhor queria dar-me a entender que aquelas amizades não eram convenientes, alertando-me e me esclarecendo sobre a minha grande ce gueira: de fato, eis que vi Cristo representado diante de mim, com muito ri gor, mostrando-me o quanto aquilo lhe pesava.5 Vi-o, com os olhos da alma, com mais clareza do que o poderia ver com os olhos do corpo. A sua imagem tornou-se tão indelével que até hoje, mais de vinte e seis anos depois, ainda tenho a sensação de vê-lo. Tomada de um profundo temor e de grande perturbação, não quis mais receber a pessoa com a qual me encontrava então.
7. Muitos prejuízos me causou não saber ser possível ver sem usar os olhos do corpo; e o demônio me ajudou para que eu assim pensasse, fazendo--me entender que isso era impossível, que seria imaginação, artes diabólicas e coisas semelhantes. No fundo, porém, mantive a impressão de que se tratava de obra de Deus; mas, como aquela lembrança não me agradasse, procurei me dissuadir, sem ousar contar aquilo a pessoa alguma. Insistiam muito comigo, garantindo-me que receber aquela visita não me prejudicava e que, em lugar de perder a boa fama, eu, fazendo-o, a aumentaria. Por isso, voltei atrás. A partir de então, em outras oportunidades e com outras pessoas, permaneci vários anos nesse divertimento pestilento. No entanto, eu não o considerava, visto participar dele, como mau, embora visse claramente que não era bom. Mas nenhuma pessoa me trouxe tanta dissipação quanto essa, dada a afeição que eu nutria por ela.
8. Certa vez, entretida em sua companhia, vimos — e outras pessoas que estavam ali também o viram — uma espécie de sapo grande dirigir-se para nós, caminhando com uma rapidez que não é própria dessas criaturas.6 Não tenho como explicar o aparecimento, em pleno dia, de semelhante criatura naquele lugar, pois aquilo nunca ocorrera. E o que isso me causou por certo envolvia mistério, jamais tendo saído da minha lembrança. Ó Deus, quão grandioso sois! Com que solicitude e piedade me avisáveis de todas as maneiras, e que pouco proveito tirei!
9. Havia ali uma monja, minha parente, antiga e grande serva de Deus, muito religiosa. Ela também me alertava algumas vezes; eu, porém, não acreditava nela e ainda ficava desgostosa, pensando que ela se escandalizava sem motivo.
Disse isso para que se entenda a minha maldade, e a grande bondade de Deus, e para que se veja o quanto mereci o inferno por tamanha ingratidão. E também para que, se em algum momento Deus ordenar, e for obedecido, que se leia isto, as monjas possam tirar proveito de minhas experiências. Peço a todas que, por amor a Nosso Senhor, fujam dessas recreações. Possa Sua Majestade, através de mim, resgatar as tantas pessoas que enganei sem desejar, dizendo-lhes que isso não era ruim, e promovendo tão grande perigo com a cegueira que tinha. Certo é que, devido ao mau exemplo, como eu disse,7 causei bastante mal, sem pensar que o fazia.
10. Estando doente naqueles primeiros dias, antes que pudesse valer-me a mim mesma, eu tinha grande desejo de fazer o bem aos outros — tentação muito comum aos iniciantes, que comigo teve bons resultados. Era tanto o meu amor pelo meu pai que resolvi transmitir-lhe o tesouro que acreditava ter encontrado na oração, que eu considerava o maior desta vida. Fazendo rodeios, da maneira possível, também tentei levá-lo a ter aquele bem que tanta alegria me dava. Com esse propósito, dei-lhe livros. Ele, muito virtuoso, como já falei,8 se dedicou tanto a esse exercício que em cinco ou seis anos fizera muitos progressos; com isso, vinha-me um grande consolo, e eu muito louvava o Senhor. Provações de grande monta o atingiram de todos os lados, tendo ele sofrido todas em perfeita concordância com a vontade de Deus. Ele me visitava muitas vezes, consolando-se ao falar sobre coisas de Deus.
11. Mais tarde, quando eu andava tão destruída e sem ter oração, não tolerei dei xá-lo pensar que eu era a mesma de antes; porque passei mais de um ano sem ter oração, acreditando ser com isso mais humilde. Essa, como depois di rei,9 foi a maior tentação que tive porque, por meio dela, eu acabaria de me perder. Enquanto ora va, mesmo ofendendo a Deus algumas vezes, eu conseguia, com o Seu au xílio, recolher-me e apartar-me da ocasião. Como o bendito ho mem se apegava a esses assuntos, eu sofria por vê-lo tão enganado ao pen sar que eu tratava com Deus como costumava e lhe disse que já não orava, mas não lhe contei a causa. Atribuí-o às minhas enfermidades, porque, embo ra curada daquela doença tão grave, sempre tive e tenho ainda outros grandes ma les. É verdade que há algum tempo tenho melhorado, pois as dores não são tão intensas; no entanto, elas não deixam de me afligir de várias maneiras.
Em especial, tive durante vinte anos vômitos pela manhã, o que me impedia de alimentar-me até o meio-dia e, por vezes, até mais tarde. Agora que freqüento mais vezes a comunhão, é à noite, antes de me deitar, com muito mais sofrimento, que tenho de provocá-los com penas ou outras coisas, porque, se não o faço, é muito grande o meu mal-estar; e vejo que quase nunca estou sem muitas dores, às vezes bem graves, especialmente no coração, se bem que esse mal, antes contínuo, agora é bem raro. Há oito anos curei-me da paralisia aguda e das freqüentes febres. Incomodo-me tão pouco com todos esses males que é comum eu ter alegria, porque tenho a impressão de com isso servir ao Senhor de alguma maneira.
12. E o meu pai acreditou ser essa a causa, porque, como ele não dizia mentira, considerou, conforme o que eu tratava com ele, que também eu não a diria. Acrescentei, tentando convencê-lo mais, que já era muito esforço rezar o ofício no coro (embora eu visse que não havia desculpa para isso). Por outro lado, isso não era suficiente para deixar de fazer uma coisa que não exige força corporal, mas só amor e costume. Quando queremos, o Senhor dá sempre oportunidade. Sempre, repito, visto que, se em certas circunstâncias ou em caso de doença, não se consegue ter muito tempo de solidão, há outras ocasiões em que a saúde o permite. Na doença e em situações difíceis, a alma que ama tem como verdadeira oração fazer a dádiva dos seus sofrimentos, lembrar-se daquele por quem os padece, conformar-se com as suas dores, havendo muitas outras coisas possíveis. Trata-se do exercício do amor; pois não somos obrigados a orar quando temos momentos de solidão, porque, mesmo à falta destes, sempre se pode orar. Com um pouquinho de boa vontade, obtêm-se muitos lucros nos momentos em que o Senhor nos tira o tempo da oração com sofrimentos. E assim era comigo quando a minha consciência era boa.
13. Mas ele, com a sua opinião de mim e o amor que me tinha, em tudo acreditou, e de mim teve pena. Mas o seu espírito tinha se elevado tanto que eram rápidas as suas visitas. Logo depois de me ver, partia, dizendo que permanecer era tempo perdido. Como eu desperdiçava tempo com outras vaidades, nem me dava conta disso.
Também tentei fazer com que outras pessoas tivessem oração. Mesmo acossada por essas vaidades, eu percebia que elas gostavam de rezar e lhes dizia como meditar, e lhes dava livros, o que lhes trazia proveito. Porque esse desejo de que outros servissem a Deus, eu o tinha, como já disse,10 desde que comecei a fazer oração. Eu julgava justo que, como não servia ao Senhor de acordo com a minha consciência, a iluminação que Sua Majestade me dera não se perdesse, levando outros a servi-lo por mim. Narro-o para que se veja a minha grande cegueira ao me deixar perder e procurar ao mesmo tempo salvar os outros.
14. Nessa época meu pai foi acometido da doença que o matou, e que durou alguns dias. Fui cuidar dele, estando mais enferma da alma do que ele do corpo, presa de muitas vaidades, embora não de forma que — pelo que eu sabia — estivesse em pecado mortal nesse tempo perdido de que falo, pois, entendendo-o eu, de nenhuma maneira o estaria.
Enfrentei grandes trabalhos durante a sua doença. Creio tê-lo compensado pelo que ele passara com as minhas. Apesar de estar muito mal, eu me esforçava, pois, faltando-me ele, faltar-me-iam todo o bem e todo o consolo que ele me trazia.11 Fingindo nada sentir, mostrei-me forte, sem deixá-lo perceber a minha pena, tendo ficado ao seu lado até que expirasse; no entanto, tive a impressão, ao ver que a sua vida acabava, de que me arrancavam a alma, tanto era o amor que lhe tinha.
15. A sua morte e a sua vontade de morrer foram dignas de louvores ao Senhor. Ele nos aconselhou, depois de ter recebido a Santa Unção, encarregando-nos de encomendá-lo a Deus, de pedir misericórdia para ele; disse-nos que sempre O servíssemos, que nos lembrássemos de que tudo desta vida se acaba. Falava-nos, em lágrimas, do grande pesar de não ter servido ao Senhor como deveria; meu pai desejava ter sido um frade que seguisse a mais estreita observância.
Tenho certeza de que, quinze dias antes, o Senhor o fizera ver que não havia de viver; porque, antes disso, embora estivesse mal, não pensava nisso; a partir de então, embora melhorasse e fosse consolado pelos médicos, pouco caso fazia disso e só se importava em preparar a alma.
16. O que mais o afligia era uma permanente dor, muito forte, nas costas; esta se tornava às vezes tão aguda que o atormentava. Eu lhe disse que, por ser ele tão devoto do Senhor carregando a cruz, pensasse que Sua Majestade desejava, com essa dor, levá-lo a sentir algo do que sofrera com aquela dor. Foi tal a sua consolação que, pelo que sei, ele nunca mais gemeu.
Ele passou três dias quase sem sentidos. No dia da morte, o Senhor lhe devolveu a consciência de um modo tão perfeito que nos causou admiração. Assim se manteve até que, no meio do Credo, que ele mesmo dizia, expirou. Parecia um anjo — e estou convencida de que realmente o fosse, por ter alma tão boa, bem como disposição.
Não sei por que contei isso, a não ser para culpar mais a minha vida ruim depois de ter visto aquela morte e de ter entendido aquela vida. Eu deveria ter melhorado, pelo menos para ser um pouco parecida com o meu pai. Seu confessor, um dominicano12 muito erudito, falou que não duvidava de que meu pai tivesse ido direto para o céu. Como o confessava há alguns anos, esse dominicano louvava a sua pureza de consciência.13
17. Esse padre dominicano, virtuoso e temente a Deus, muito me ajudou. Confessei-me com ele, e ele se encarregou de zelar pela minha alma e de alertar-me para a perdição a que eu me entregara. Ele me fazia comungar de quinze em quinze dias. E, pouco a pouco, no contato com ele, falei-lhe de minha oração. Ele me disse que não a abandonasse, que ela só me podia trazer proveito. Comecei a voltar a ela, embora sem evitar as ocasiões de pecado, e nunca mais a deixei.
A minha vida era trabalhosa ao extremo, porque, na oração, eu via melhor as minhas faltas. De um lado, Deus me chamava; do outro, eu seguia o mun do. Davam-me grande alegria todas as coisas de Deus, mas eu me via li gada às do mundo. Tenho a impressão de que desejava conciliar esses dois co ntrários, tão inimigos um do outro: a vida espiritual e os gostos, alegrias e divertimentos dos sentidos. Na oração, eu passava por grandes trabalhos, por que o espírito não era senhor, mas escravo; por isso, eu não podia me recolher dentro de mim (que era o meu modo de proceder na oração) sem levar comigo mil vaidades.
Passei assim muitos anos, a ponto de agora me espantar com o fato de uma criatura poder sofrer tanto tempo sem deixar um ou outro desses contrá rios. Bem sei que deixar a oração já não estava em minhas mãos, porque Aquele que me queria para me conceder maiores graças me sustentava com as Suas.
18. Oh! Valha-me Deus! Se eu pudesse dizer as ocasiões de que Sua Majestade me livrou nesses anos, e de como eu tornava a me envolver nelas, para não falar do risco, de que Ele me afastou, de perder todo o crédito. E eu, nas minhas obras, revelava quem era, enquanto o Senhor, encobrindo o mal, fazia surgir alguma pequena virtude, se é que eu a tinha, tornando-a gran de aos olhos de todos, de modo que estes sempre me tinham em alta conta! Porque, apesar de algumas vezes as minhas vaidades se evidenciarem, todos viam outras coisas que pareciam boas e por isso não acreditavam naquelas.
O Conhecedor de todas as coisas já via então que isso era necessário para que eu tivesse algum crédito mais tarde, quando me dedicasse a Seu serviço. Sua soberana grandeza não via os grandes pecados, mas sim os desejos que eu muitas vezes tinha de servi-Lo e o pesar por não ter em mim forças para levá-lo a efeito.
19. Ó Senhor da minha alma! Como poderei enaltecer as graças que me concedestes nesses anos? E o fato de, na época em que eu mais Vos ofendia, Vós logo fazerdes com que eu me arrependesse para fruir dos Vossos favores e consolações? Na verdade, escolhíeis, Rei meu, o castigo mais delicado e mais penoso que podia existir, pois bem sabíeis o que mais dores me causaria. Castigáveis as minhas faltas com enorme ternura.
E não acredito dizer desatinos, embora pudesse estar desatinada, ao recordar a minha ingratidão e maldade.
Para mim, era muito mais penoso receber mercês, tendo cometido graves faltas, do que receber castigos. Uma única graça por certo me abalava, confun dia e fatigava mais do que as minhas muitas enfermidades, ao lado de outras provações. Estas últimas, como eu bem o via, eram merecidas, expiando de alguma maneira um pouco dos meus grandes pecados (embora tudo fosse pouco, porquanto eles eram muitos). Mas ser recebida com ternura outra vez, tendo sido tão ingrata nas anteriores, era um tormento ine narrável para mim e, acredito, para todos os que têm algum conhecimento ou amor de Deus, algo que, sendo virtuosos, podemos perceber aqui. Vinham -me lágrimas e aborrecimentos por eu ver o que sentia, percebendo-me prestes a cair outra vez, embora a minha determinação e o meu desejo fossem fi rmes naquela hora.
20. Grande mal é estar a alma só entre tantos perigos. Tenho a im pressão de que, se tivesse com quem falar disso tudo, eu teria tido ajuda para não fraquejar outra vez, ao menos por vergonha, já que, com relação a Deus, já não a tinha.
Por isso, eu aconselharia aos que têm oração que, especialmente no prin cípio, procurem ter amizade e relações com pessoas que se ocupem da mesma coisa. Isso é importantíssimo, pois, além da ajuda mútua nas orações, muito há a lucrar aí! E não sei por que (já que, para conversas e prazeres hu manos, mesmo que não sejam muito bons, procuramos amigos com quem folgar e melhor aproveitar esses prazeres vãos) não se há de permitir à alma que começa a amar e a servir a Deus com sinceridade que compartilhe da companhia de pessoas que têm oração, confiando-lhes suas alegrias e tris te zas, visto serem os seus sentimentos os mesmos. De fato, quem realmente deseja obter a amizade do Senhor não deve temer a vanglória, para que, ao primeiro sinal de fraqueza, possa escapar com mérito. Creio que, tendo esse objetivo, obterá maior proveito para si e para os seus ouvintes, adquirirá mais experiência e, ainda sem entender como, ensinará a seus amigos.
21. Quem se vangloriar por conversar sobre isso também terá vanglória em ouvir a missa com devoção quando estiver sendo observado, bem como em praticar outras coisas que, a não ser que deixe de ser cristã, a pessoa tem de fazer sem temer a vanglória.
Porque isso tem tamanha importância para almas que não estão fortalecidas na virtude — que têm tantos inimigos e amigos a incitá-las ao mal — que não sei como insistir mais. Acho que o demônio usa um ardil que muito lhe serve: ele leva os bons a ocultar o fato de buscarem realmente amar e contentar a Deus; e tem incitado a que se descubram outras amizades pouco honestas, tão em uso, quase se gloriando delas e chegando a apregoar as ofensas que, assim agindo, cometem contra Deus.
22. Não sei se falo despropósitos. Se o faço, que Vossa Mercê os revele; e, se não o faço, suplico-vos que me ajudeis na minha ignorância, acrescentando aqui outros elementos. Porque as coisas do serviço de Deus já andam tão fracas que é necessário, aos que O servem, apoiarem-se mutuamente para irem em frente, tal é a fama de bondade dos divertimentos e vaidades mundanos — para os quais poucos olhos estão atentos.14 Contudo, se uma única al ma começa a cuidar de Deus, são tantos os murmúrios que ela é obrigada a procurar defesa e companhia até ficar forte e não ter medo de padecer. Se não o fizer, ver-se-á em grandes apuros.

Creio ser esse o motivo de muitos santos irem viver nos desertos; é pró prio do humilde não confiar em si mesmo, mas acreditar que o Senhor lhe da rá auxílio em atenção àqueles com quem conversa, pois a caridade aumenta ao ser transmitida, havendo mil benefícios a ser obtidos, de que eu não falaria se não tivesse grande experiência da enorme importância disso.
Reconheço ser mais fraca e ruim que todos os nascidos, mas acredito que quem se humilha, embora sendo forte, nunca perde, razão por que precisa dar crédito a quem tem mais experiência. Quanto a mim, digo ape nas que, se o Senhor não me tivesse revelado essa verdade e me dado con dições de ter contatos freqüentes com pessoas que têm oração, eu teria ter minado, caindo e levantando, no centro do inferno. Para a queda, tinha a aju da de muitos; para levantar-me, no entanto, estava tão sozinha que até hoje me espanta não ter caído de vez. Louvo a misericórdia de Deus, pois só Ele me dava a mão.
Bendito seja para sempre e sempre. Amém.